domingo, 26 de abril de 2009

O elogio da acção directa

Deve ser coisa do espírito de Abril, do cepticismo em que milito, ou do cúmulo de semelhantes entidades. Mas por uma qualquer razão que pode ser tudo menos estranha apetece-me escrevinhar qualquer coisa sobre o estado a que isto chegou. Admito que o tema é rebarbativo, quase deprimente. De modos que solicito a indulgência e estoicismo de vosselências, cujos, estou certo, não me serão negados.
Então, é assim. Já toda a gente percebeu que vivemos numa democracia consolidada apenas nos seus aspectos formais. Elegemos periodicamente umas centenas de representantes que abusam do mandato que têm. Andamos com a vida envolvida num embrulho de palavras de um dialecto, o politiquês, que temos dificuldade em compreender. Os eleitos sacam-nos o voto com miríficas promessas, depois utilizam-no como muito bem querem e entendem. A política produz novas e luzentes fortunas, em obediência a uma singular e muito exclusiva interpretação do papel distributivo do estado. Os partidos atiram-se às eleições com o único e patriótico propósito (autonómico, no nosso caso) de acederem ao dinheiro do erário. E se alguém se atreve ao protesto, é certo e sabido que tem pela frente uma desagradável lista de rótulos que, por pudor, me dispenso de reproduzir. Não obstante, e em abstracto, a política é uma actividade nobre. Os partidos são instituições basilares das democracias. E as eleições são, em simultâneo, um exercício individual de cidadania e um momento de afirmação da nossa vontade colectiva.
O quadro geral descrito tem cores mais carregadas na Madeira. Na concepção de quem manda, somos um povo ao serviço das causas do chefe. Se ele tira o chapéu, é conveniente que façamos o mesmo. Se o cavalheiro berra, jura que o faz em nosso nome. Se nos envergonha é porque em nosso interesse se imola. Se persegue quem não o atura é porque se tem como zelador dos bons costumes que não desiste de nos continuar a impor. Em suma, o cavalheiro é a única pessoa importante da terra. Que manda em tudo, menos no desemprego que sobe. Que tudo governa, menos a economia que se engasga. Que tem receitas para tudo, menos para nos dar uma vida política normal e decente. E que se eterniza no poder porque dispõe como quer dos milhões do nosso orçamento.
É claro que não ponho em causa a legitimidade democrática do senhor supremo da ilha. Ele vai a votos. O povo ao seu serviço dá-lhe a graça do poder. E como a vida democrática da terra se cristalizou nas periódicas vezes em que vamos às urnas, tudo parece (e está) de acordo com os preceitos da democracia representativa.
Ora, é precisamente aqui que quero chegar. No plano formal, e no estreito ponto de vista do funcionamento dos mecanismos de representação política, a nossa democracia funciona. Porém, no plano substantivo deixa muito a desejar. E isso, a meu ver, remete-nos tanto para a perversão de quem manda como para a necessidade de reforçarmos a dimensão participativa que a democracia supõe.
Acho, com efeito, que temos um défice de participação. Por alheamento. Por falta de hábitos. Mas também por força da atitude governamental de sistemática diabolização de todas as formas de intervenção cívica que possam escapar ao controlo do poder. É por isso que não fazemos os referendos que devíamos fazer. É também por isso que o chefe supremo da ilha vai aos arames cada vez que se fala em acções populares. E é igualmente por isso que praticamente não há movimentos de cidadãos actuando politicamente fora do quadro partidário. Por impossibilidade legal? Bem pelo contrário. A nossa lei fundamental acolhe e estimula o direito de participação directa dos cidadãos na direcção dos assuntos políticos do país. E a generalidade de quem estuda estas matérias considera que a utilização dos mecanismos que legalmente estruturam a democracia participativa não só moraliza a administração como ajuda a formar a consciência colectiva dos povos. É por isso que não há acções populares em ditaduras. E há-de ser também por isso que os poderes que se presumem absolutos diabolizam e perseguem todas as formas de intervenção dos cidadãos, para além das que formalizam a democracia representativa. O mais que consentem é um voto ritualizado de quatro em quatro anos. E assim preservam a importância que lhes incha o umbigo e afaga o ego.
Bernardino da Purificação

9 comentários:

Vico D´Aubignac disse...

BRUDER versus BERNARDINO DA PURIFICAÇÃO

Confesso que só há bem pouco tempo tropecei no primeiro dos entes acima mencionados. Não lamento, todavia, o tempo em que anteriormente me era desconhecido.
O sr. BRUDER escreve coisas perversas e tolas sobre o sr. Purificação. E tudo aponta que o sr. BRUDER ande permanentemente de cabeça perdida, guerreiro e tonto, sem bom senso e dignidade, no encalço do ilustre Bernardino.
O sr. BRUDER ladra de raiva tentado ser feroz, ameaça, vitupera e acusa, de boca arreganhada, o pobre homem de ser de esquerda! E depois? Acaso lhe ameaça os despojos por onde certamente esgravata? Por acaso disputa consigo algum pódio reluzente?
Sr. BRUDER, sossegue(!), tome fôlego e dê descanso às maçãs do rosto, que se lhe devem fatigar com tantos esgares de ódio dirigidos ao nosso lapidado Purificação – homem que julgo simples mas douto, que encontrou no exercício de “bloggar” um imenso e poderoso instrumento de escape à pressão imensa que lhe deve nascer dentro do peito! Sim, porque pela escrita se revela o homem, e quem escreve como o sr. Bernardino, com uma permanente ironia fina e um mordaz desencanto, deve ter uma forte pressão interna que precisa de libertar. Deixe que ele a deixe sair! Não o angustie ainda mais, procure antes refrear-se a si próprio, limpe a espuma ao canto da boca, pare o brado e pare de guinchar. Fique quieto!
Ainda que o sr. Bernardino da Purificação não me tenha designado seu defensor – não precisa! – senti necessidade de vir à arena por esta causa. A dos injustiçados.
VIVA O SR. BERNARDINO DA PURIFICAÇÃO!!!
Ahhh e já agora, sr. BRUNER, torne disponível o seu perfil no Blogger, para que possamos todos, em romaria, visitar o local lúgubre e furunculoso de onde certamente amanha a escrita.

Vico D´Aubignac disse...

Como se escreve em mau português:
"Deixe que ele a deixe sair!".
Substitua por favor por:
"Deixe que ele a liberte!".

Foi só um pequeno apontamento para poder ir dormir descansado, que não feri em demasia a lingua de Camões....

Jorge Figueira disse...

O nosso anfitrião - Bernardino - habituou-nos mal. Dá-nos retratos perfeitos da triste realidade em que transformaram o nosso quotidiano. O texto presente é exemplo disso.
Diz-se que cada Povo tem o governo que merece. Não é certamente o denominado Povo Superior que demonstra o contrário. Profundo conhecedor da matriz psicológica dos "subditos", o nosso monarca absolutista em exercício, enche o ego dos eleitores ao chamar-lhes Povo Superior. Os resultados estão à vista. Ganhará eleições a fazer lembrar o Sr. António Maria da Silva na 1ª Rep.
Populações interessadas na "coisa pública", obviamente que não convém é subversivo e causa mal estar. Os rios de dinheiro gasto com deputados, presidentes, conselheiros,gestores e todos os outros serventuários do poder sâo para quê?
Às massas ignaras pede-se apenas que votem, melhor, façam a cruzinha de 4 em 4 anos. Votar implica pensar e aqui apenas se pretende um acto mecânico de fazer dois riscos dado que, os eleitos ou nomeados, tanto faz, pensarão pelos eleitores.

Fernando Vouga disse...

Para Vico D'Aubignac

Concordo consigo. Mas é de todo necessário evitar que o ente de que fala deixe de aparecer. Primeiro, porque nos dá a consolação de sabermos que o laranjal, chamemos-lhe assim, continua atento. Já não é mau!
Depois, é bom notar que e dita criatura não rebate as ideias aqui expostas. O seu silêncio até legitima tudo o que aqui se diz. Ela limita-se a morder na canela do autor. Para ela, Bernardino da Purificação não passa de um reles bufo, de um traidor, de alguém que tem acesso aos bastidires do partido e que, sabendo das maroscas todas, está a tramar o arranjinho... Daí toda a sua ferocidade.

Anônimo disse...

BERNARDINO DA PURIFICAÇÃO escreve bem, é jurista e muitas vezes tem razão.
Vico D'Aubignac já é algo intriguista, talvez invejoso, com menos qualidade.

mas seriam muito úteis no ps-m, se tivessem generosidade e coragem.

Vilhão Burro disse...

Sr. Anónimo

Pois eu acho que tanto um como outro(Bernardino e Vico)
deveriam disfarçar-se de oportunistas,e,filiarem-se no PSD(Partido Sem Democratas)onde a decência e os princípios primam pela ausência.
Desconfio é que, por lá, se aguentassem muito tempo...
Faziam-lhe a folha num instante.

Anônimo disse...

Desta feita discordo do nosso anfitrião, dado que não aceito que este regime politico, possa minimamente formalizar uma miragem de democracia.

Porque temos eleições, pretensamente livres, não significa que tenhamos um regime formalmente democratico.

Senão vejamos;

As pessoas votam livremente ? Claro que não,aliás nunca o fizeram.

As pessoas têm o livre de direito de intervenção pública, através da livre expressão do seu pensamento ?
Claro que não, bast passar os olhos por esse miseravel pasquim de nome de JM.

As pessoas têm livre acesso às instancias governativas em que delegaram o seu voto, de forma a exigir a prestação de contas pelo mandato que lhes outorgaram.
Claro que não, basta ver a incrivel vergonha das viagensinhas do nosso déspota, as quais sem o menor pingo de respeito e vergonha, classifica-as de "secretas"

Secretas porquê ?

Porque se faz acompanhar de outras pessoas, para fins e práticas não compreendidas no seu programa eleitoral ?

Ao que consta, pelo menos o Presidente Clinton, pagava do seu bolso os famosos charutos vaginalmente ensaiados na Casa Branca.

O grave problema que actualmente nos atinge, é que nesta triste terra, já há muito que perdemos a esperança, mas o nosso despota e seus sabujos sequazes, muit antes, perderam o respeito e a vergonha.

E como diria o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, onde está o pobre Zé ? Isto para não perguntar onde para o Ministério Publico e a Policia de Costumes ?

Anônimo disse...

Em causa está um artigo de 5 de Abril sobre declarações da jornalista sobre o Caso Freeport. O antetítulo da peça era «Namorada defende Sócrates».

Mas não foi só o jornalista do CM a ser alvo de uma queixa. Outros jornalistas de outras publicações foram também acusados e a Comissão da Carteira já abriu um «procedimento disciplinar», afirmando que o comportamento dos jornalistas pode ter violado um artigo do Estatuto do Jornalista que defende «preservar, salvo razões de incontestável interesse público, a reserva na intimidade, bem como respeitar a privacidade de acordo com a natureza do caso e a condição das pessoas».

SOL

O Inconformado disse...

A Propósito de Acção Directa deixo-vos os seguintes textos em português:

Objecções Comuns à Acção Directa (Cartaz A4, com possibilidade de versão para imprimir)

Acção Directa

Violência como Ferramenta de Luta Política (com o vídeo de Kenny Arkana - La Rage com legendas em inglês)

Pela Revolução Anónima


E os seguintes vídeos:

ELF (Earth Liberation Front)

Dead Prez - Hell Yeah (pimp the system)

Dead Prez - Hip Hop

Um abraço