quinta-feira, 30 de abril de 2009

Obrigado, senhor presidente

Tenho andado a cismar com a descoberta do Tribunal de Contas sobre as viagens do dr. Jardim. Sabem. Pesa-me na alma a ideia de que o nosso venerando líder possa andar confrontado com uma ameaça terrorista. Ao ponto de me sentir quase culpado. Nós aqui no bem-bom do conforto dos nossos lares, enquanto ele se obriga a passar a vida em aeroportos, quartos de hotel, automóveis com motorista e reuniões importantes de conclusões secretas. Tenhamos vergonha. Ninguém tem o direito de pedir a um governante o seu sacrifício pessoal. E nenhum de nós merece que alguém em nosso nome se imole na fogueira do desconforto, no ardume da solidão, no negrume que esconde o perigo.
Chamem-me tremendista. Mas em parte nenhuma do mundo um presidente mantém em segredo, depois de fazê-las, as viagens que faz. É verdade que o dr. Jardim não é um presidente qualquer. Ele é, digamos, um presidente-viajante. Que se ausenta semana-sim-semana-não. Que estoicamente se obriga a procurar o sustento da terra que ama nas lonjuras esconsas dos corredores da Europa. Que dá literalmente o corpo ao manifesto em benefício da região que representa. Os outros, os presidentes não-viajantes, podem dar-se ao luxo da imprudência. Refiro-me aos obamas deste mundo, aos sarkozys que por aí andam, aos browns e às merkels que também nos mandam, bem como a outros demais líderes de estirpe semelhante. Esses, como sabemos, permitem-se divulgar com quem e onde estiveram. E vão até ao ponto, imprudentes e vaidosos que são, de nos revelarem os resultados concretos das escassas viagens que fazem. Como se não tivessem, também eles, o direito ao segredo. Como se as ameaças que certamente também enfrentam pudessem ser negligenciadas. Ou como se andassem todos a reboque de um impulso imprudente e louco de prestação de contas. Deviam olhar para o nosso dr. Jardim, é o que é. E assim ficariam a saber como deve actuar um presidente no mundo de ameaças várias em que os governantes, desgraçadamente para eles, têm de movimentar-se.
É claro que eu próprio gostava de saber o que faz o dr. Jardim nas constantes viagens que em nosso benefício efectua. Compreendo, no entanto, que sua excelência nada nos diga. Segredos são segredos. E se o homem decidiu não mexer nem remexer nos nossos sentimentos de culpa é porque sabe que nos sentiríamos esmagados pela monumentalidade das coisas a que se vem sujeitando em nosso nome e para nosso proveito. Respeitemos, pois, a opção de sua excelência. E, sobretudo, sintamo-nos gratos. É este o apelo sentido que daqui me atrevo a lançar. A jornais e jornalistas agora histéricos depois de anos cúmplices de descaso e silêncio. E a partidos e políticos da oposição que, pelos vistos, adiaram até agora a indignação a que sempre tiveram direito. E olhem que quem vos fala (este vosso humilde criado) é alguém arrependido. Vai fazer a 1 de Junho precisamente um ano que, com manifesta insensatez, deixei aqui no Terreiro as seguintes palavras:
"...todos temos o democrático direito de saber o que é que o presidente do governo anda afinal a fazer nas suas andanças quinzenais. Não em virtude de qualquer curiosidade mais ou menos voyeurista. Mas porque ao nosso democrático direito de saber que passos dão em nosso nome aqueles que nos governam, corresponde o dever igualmente democrático desses governantes nos prestarem contas. Seja por sua vontade expressa, seja por intervenção e iniciativa dos media. De maneira que, não havendo explicações, teremos de concluir que sua excelência andará certamente a passear, posto que nada de relevante tem para nos dizer depois das suas cada vez mais frequentes saídas. A menos que prefira que pensemos que se está positivamente nas tintas para nós."
Sinto-me envergonhado, podem crer. Mas, que querem?! Há um ano não tinha percebido que os segredos presidenciais eram segredos de segurança. E lamento que tenha sido necessária a intervenção do Tribunal de Contas para finalmente conseguir enxergá-lo (não há pior cego...). É com este sentido de arrependimento que escrevo estas linhas. Mesmo sabendo que o desconforto do nosso venerando líder é mitigado pelo aconchego solidário de um assistente permanente que ninguém, todavia, tem a dita de conhecer. Para ele também a minha gratidão.
Bernardino da Purificação

domingo, 26 de abril de 2009

O elogio da acção directa

Deve ser coisa do espírito de Abril, do cepticismo em que milito, ou do cúmulo de semelhantes entidades. Mas por uma qualquer razão que pode ser tudo menos estranha apetece-me escrevinhar qualquer coisa sobre o estado a que isto chegou. Admito que o tema é rebarbativo, quase deprimente. De modos que solicito a indulgência e estoicismo de vosselências, cujos, estou certo, não me serão negados.
Então, é assim. Já toda a gente percebeu que vivemos numa democracia consolidada apenas nos seus aspectos formais. Elegemos periodicamente umas centenas de representantes que abusam do mandato que têm. Andamos com a vida envolvida num embrulho de palavras de um dialecto, o politiquês, que temos dificuldade em compreender. Os eleitos sacam-nos o voto com miríficas promessas, depois utilizam-no como muito bem querem e entendem. A política produz novas e luzentes fortunas, em obediência a uma singular e muito exclusiva interpretação do papel distributivo do estado. Os partidos atiram-se às eleições com o único e patriótico propósito (autonómico, no nosso caso) de acederem ao dinheiro do erário. E se alguém se atreve ao protesto, é certo e sabido que tem pela frente uma desagradável lista de rótulos que, por pudor, me dispenso de reproduzir. Não obstante, e em abstracto, a política é uma actividade nobre. Os partidos são instituições basilares das democracias. E as eleições são, em simultâneo, um exercício individual de cidadania e um momento de afirmação da nossa vontade colectiva.
O quadro geral descrito tem cores mais carregadas na Madeira. Na concepção de quem manda, somos um povo ao serviço das causas do chefe. Se ele tira o chapéu, é conveniente que façamos o mesmo. Se o cavalheiro berra, jura que o faz em nosso nome. Se nos envergonha é porque em nosso interesse se imola. Se persegue quem não o atura é porque se tem como zelador dos bons costumes que não desiste de nos continuar a impor. Em suma, o cavalheiro é a única pessoa importante da terra. Que manda em tudo, menos no desemprego que sobe. Que tudo governa, menos a economia que se engasga. Que tem receitas para tudo, menos para nos dar uma vida política normal e decente. E que se eterniza no poder porque dispõe como quer dos milhões do nosso orçamento.
É claro que não ponho em causa a legitimidade democrática do senhor supremo da ilha. Ele vai a votos. O povo ao seu serviço dá-lhe a graça do poder. E como a vida democrática da terra se cristalizou nas periódicas vezes em que vamos às urnas, tudo parece (e está) de acordo com os preceitos da democracia representativa.
Ora, é precisamente aqui que quero chegar. No plano formal, e no estreito ponto de vista do funcionamento dos mecanismos de representação política, a nossa democracia funciona. Porém, no plano substantivo deixa muito a desejar. E isso, a meu ver, remete-nos tanto para a perversão de quem manda como para a necessidade de reforçarmos a dimensão participativa que a democracia supõe.
Acho, com efeito, que temos um défice de participação. Por alheamento. Por falta de hábitos. Mas também por força da atitude governamental de sistemática diabolização de todas as formas de intervenção cívica que possam escapar ao controlo do poder. É por isso que não fazemos os referendos que devíamos fazer. É também por isso que o chefe supremo da ilha vai aos arames cada vez que se fala em acções populares. E é igualmente por isso que praticamente não há movimentos de cidadãos actuando politicamente fora do quadro partidário. Por impossibilidade legal? Bem pelo contrário. A nossa lei fundamental acolhe e estimula o direito de participação directa dos cidadãos na direcção dos assuntos políticos do país. E a generalidade de quem estuda estas matérias considera que a utilização dos mecanismos que legalmente estruturam a democracia participativa não só moraliza a administração como ajuda a formar a consciência colectiva dos povos. É por isso que não há acções populares em ditaduras. E há-de ser também por isso que os poderes que se presumem absolutos diabolizam e perseguem todas as formas de intervenção dos cidadãos, para além das que formalizam a democracia representativa. O mais que consentem é um voto ritualizado de quatro em quatro anos. E assim preservam a importância que lhes incha o umbigo e afaga o ego.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A queda para o fora de jogo

É um fastio ter de falar do PS-Madeira. Porém, o equilíbrio exige que o faça. A agenda mediática também. E o patético desfile de uns quantos arrivistas tolos é suficientemente luzidio para atrair atenções. Mas o tédio, meus senhores, é mais que muito. Sabem. Aquilo não é um partido. É antes um grupo de aventureiros. Não é uma formação política. É sim um bando de umbigos à solta.
O líder, já se viu, é a personificação da indigência política. Nada diz que se retenha. E tem um sentido de oportunidade que até dá arrepios. A última vez que o vi perorar perante as câmaras de televisão, o cavalheiro falava de eleições. Como vão disputar-se três nos próximos seis meses, dei por mim, quase incrédulo, a segredar aos meus botões: querem ver que o homem acertou finalmente na agenda?!
Um esclarecimento antes de prosseguir com o relato. As minhas dúvidas sobre o sentido das prioridades do dr. Gouveia não resultam de qualquer má vontade da minha parte. Assentam nos factos. O indivíduo é useiro e vezeiro em trocar debates parlamentares de orçamentos, contas e programas de governo por querelas paroquiais na assembleia municipal onde também se senta. Lidera o maior partido da oposição, mas já confessou a ambição de ser um dia presidente da câmara de São Vicente. Queima bandeiras da flama quando escassíssimas pessoas na faixa dos trinta ou quarenta anos sabem sequer o que isso é. E dispara para dentro do partido, ao arrepio do calendário eleitoral, e com todo estrondo que pode, apesar do adversário estar obviamente lá fora.
Fim de esclarecimento. Adiante com o relato.
Recapitulo, pois. Estaria o cavalheiro finalmente a compasso com a agenda? Os meus botões quedaram-se mudos. Até porque a resposta à minha exclamada interrogação foi dada de imediato pelo próprio dr. Gouveia. As eleições que interessam ao PS não são as próximas. São, isso sim, as que vão disputar-se em 2011. Nessa altura, gaguejou, o PS há-de estar em condições de retirar o poder ao PSD.
A sentença, como imaginam, nem merece comentários. Estou convencido, aliás, de que o dito dr. Gouveia falou das eleições de 2011 como poderia ter falado das de 2015 ou de 2019 (isto, claro, se sua eternidade, o dr. Jardim, não voltar a fazer a maldade de nos baralhar as contas dos anos eleitorais). O que ele verdadeiramente queria era despachar a bola para a frente. Só que o fez com tanta força que ela foi parar à bancada, levando atrás de si a bota, o pé e o dr. Gouveia himself, em mergulho vistoso em direcção ao estatelanço do fora de jogo.
Sabem. Politicamente falando, o fora de jogo é o crónico destino do dr. Gouveia. Tanto pelos seus incontáveis méritos. Como pelas ajudas que ocasionalmente recebe do lumpen que o aconselha. A recente entrevista de um tal Agostinho Soares é um hino ao disparate. O modo amigo e fraterno como publicamente se trucidam uns aos outros faz corar o próprio dr. Jardim. A total ausência de um discurso com um mínimo de sentido remete o PS-M para o domínio do exemplo de como não se deve fazer política. E a impressionante incapacidade que o partido revela em travar esta alegre e tola caminhada em direcção ao abismo é um verdadeiro case study. Mas, enfim. Como cada um sabe de si, eles certamente saberão o que é que pretendem da vida...
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O grande mestre do nosso xadrez

Até pode ser que o dr. Jardim esteja inocente. Mas conhecendo a sua propensão para a mania da traição florentina, ele há-de compreender que a gente desconfie. Adivinharam. Falo de Sérgio Marques e do processo que levou ao fim da sua comissão de serviço no parlamento europeu. Para insistir na ideia de que terá havido no caso a aplicação de uma rasteira das antigas. Ou para admitir com esforço que, a não ser assim, isto é capaz de ter sido coisa do demo ou dos astros.
Recuperemos alguns factos. Não há muito tempo, Jardim levou a leilão o lugar que Sérgio Marques ainda ocupa. O facto ocorreu na solenidade sombria de uma reunião do politburo do partido. E, segundo rezam as crónicas, quase toda a gente foi apanhada de surpresa. Não admira. Semanas antes, tanto o partido como a opinião pública tinham como adquirida uma nova candidatura do deputado Marques.
As mais benignas interpretações conspirativas feitas na altura convergiram num único sentido: Jardim tinha a intenção de substituir Sérgio Marques para poder jogar com o seu nome no tabuleiro das autárquicas. O verdadeiro alvo da manobra seria, como é evidente, o demasiado independente Miguel Albuquerque. E o beneficiário exclusivo da dita seria o fantástico tandem formado pelo inefável dr. Cunha e pela sua notável chefe de gabinete.
Manda a verdade que se diga que em certos círculos se aventaram outras hipóteses. Em homenagem ao maquiavelismo pindérico do dr. Jardim, houve quem admitisse a possibilidade de estarmos perante um cenário ainda mais retorcido. O seguinte. O nosso crónico líder anda com o delfim Cunha pelos cabelos. A irracionalidade divisionista do dito ameaça pôr o partido em estado de sítio. E como o PSD nunca esteve tão à beira de se escaqueirar por dentro como depois da ascensão do inenarrável Cunha às alturas do mando, o peão Sérgio Marques poderia ser o nome certo para, de uma assentada, pôr em sentido o presidente do Funchal e o vice-presidente da Madeira.
Sabem. A incrível facilidade com que o dr. Jardim sabe jogar com os apetites alheios é já quase mítica. De maneira que não excluo nenhuma das hipóteses precedentes. Mas dada a forma como as coisas evoluíram, parece claro que o dr. Jardim se esqueceu de um pequeno pormenor. Não abriu o jogo com Sérgio Marques. E o resultado está à vista. Este não foi em cantigas. Resolveu ficar de fora do saco de pulgas em que o PSD se transformou. E lá se perdeu mais um putativo delfim às ordens submissas do chefe. Para alegria de Cunha. Para contentamento de Albuquerque. Para regozijo desse petit richelieu que aparece em todas e dá pelo nome de Guilherme Silva. Porém, para furioso embaraço de quem, já por vício, vai mexendo e remexendo os cordelinhos. Faz-se assim a política da terra. Com esta elegância. Com esta categoria. E o grande líder lá vai saltitando de jogada em jogada.
Bernardino da Purificação

domingo, 19 de abril de 2009

Totalitarismo à moda do vice

O vice do chefe da ilha anda agastado com o valor excessivo dos impostos municipais. E como não é pessoa de calar o que sente, fez o favor de, em seu e em nosso nome, puxar as orelhas às câmaras, que é como quem diz aos presidentes das ditas. Estou-lhe grato. Gostei de saber que há por aí um vice preocupado com as contas que pagamos ao estado.
É verdade que apreciaria bastante mais que o dito cujo se abespinhasse, mesmo que fosse só em nosso nome, com os impostos que dele dependem e nos abocanham os rendimentos. Porém, compreendo que não lhe apeteça fazê-lo. É sempre mais fácil apontar o dedo aos outros.
Acontece, no entanto, que as leis democráticas que nos organizam a vida conferem ao poder local uma autonomia plena. Os responsáveis autárquicos subordinam-se apenas à vontade soberana de quem os elege. Não têm outra tutela que não seja a que decorre do império da lei. E têm o seu quadro de competências legalmente protegido da interferência de qualquer outro ente político. Para o dr. Cunha, no entanto, isso não passa de uma bizarria qualquer. Ele é vice-presidente do governo, logo pode botar sentença sobre tudo e mais alguma coisa. Mesmo ao arrepio do dever de contenção que os políticos a sério habitualmente respeitam.
Certo. Para além de político, o dr. Cunha é também cidadão. E foi nessa qualidade, há-de dizer sua excelência, que se permitiu dizer umas quantas verdades aos albuquerques e baetas instalados nas câmaras.
Pois. Compreendo o argumento. O Cunha-cidadão está contra a política municipal do partido do Cunha do governo. De modos que, sendo pessoas distintas, podem dizer o que querem, que ninguém há-de acusá-los do que quer que seja. Nem de safadeza. Nem de deslealdade. Nem de hipocrisia.
É claro que a gente percebe a verdadeira natureza das nobres preocupações do dr. Cunha. Como estamos em ano de autárquicas, é preciso suprir a falta de uma oposição a sério. Até porque senão os albuquerques ainda voltam a disparar nos votos, coisa obviamente terrível para o futuro político do nosso vice dr. Cunha, bem como para os interesses patrimoniais do cidadão que também é.
Mas o que verdadeiramente me preocupou nos três miseráveis pontinhos que hoje li do vice do chefe foi o argumento que utilizou. Diz ele que as câmaras devem reduzir as tabelas de impostos, dado que têm contratos-programa celebrados com o governo - no fundo, uma forma mais ou menos retorcida de sugerir que quem paga manda. Ora, não percebo por que razão deixou o argumento a meio. Se tivesse agitado um pouco mais as meninges levaria certamente mais longe a profundidade do raciocínio. Propondo a fixação administrativa (pelo governo, já se vê) das tabelas municipais de impostos e taxas. E acabando com essa fantasia que dá pelo nome de poder local autónomo. Uma dúzia de delegados do partido do governo bastariam para resolver a coisa. Em nome da democracia e dos interesses do dr. Cunha.
Bernardino da Purificação

Totalitarismo à moda da casa

O degredo político aguarda a chegada do dr. Sérgio Marques. A decisão está tomada. E o processo já está em marcha. Depois do incenso, da exaltação e das loas, o purgatório há-de ser a etapa seguinte. Em nome, claro está, dos superiores interesses do partido, do futuro da Região, das conveniências de quem manda.
Acreditem. Isto não é leninismo. É apenas jardinismo no seu estado mais puro: todos ao serviço do partido; todo o partido ao serviço do chefe. Sem lugar para o luxo da dignidade pessoal. E sem margem para a mania do pensamento autónomo. É fácil de perceber. O sistema sobrepõe-se ao indivíduo como as engrenagens transcendem as peças. O todo é a única finalidade. As pessoas não passam de comparsas menores de valor coisificado e instrumental. E a encimar tão prodigiosa construção, existe apenas a excelsa e caprichosa vontade da única pessoa com direitos de personalidade - o nosso querido líder! Ora digam lá se a coisa não está bem concebida...
O dr. Jardim não sabe. Mas a sua força é simultaneamente a sua fraqueza. Ela só vale enquanto à sua volta só houver cunhas perversos e sonsos. À medida que se for descobrindo que o purgatório é suportável e que a dignidade vale mais do que o elogio de consumo instantâneo, há-de começar a perceber-se que o chefe não passa (ele também) de uma peça (apenas mais uma) da cada vez mais insuportável engrenagem que nos governa. Dispensável como todas as outras. Descartável como as demais. Os sistemas totalitários são assim: depois de implantados, sobrepõem-se até aos seus próprios criadores. E até o dr. Jardim há vir a percebê-lo um dia.
Não custa admitir, dito isto, que o dr. Jardim só faz o que lhe dá na gana porque o partido, virgílios e sérgios incluídos, lhe permite que ele faça apenas o que lhe dá na gana. Todos lhe dão carta branca. E nunca ninguém se atreveu a balizar a discricionaridade da sua vontade. Pois o resultado aí está. Desta vez sob a forma de caso Sérgio Marques. Da próxima envolvendo outro nome qualquer, num processo que há-de depender, como é bom de ver, da intriga palaciana que nesse momento vingar.
Concordo com o que diz hoje o dr. Cunha nos três pontinhos que no Diário escrevinha: a política regional anda estranha. E nada como quem sabe do que fala para nos lembrar que a política madeirense é um terreno pouco sadio de jogadas subterrâneas e intriga permanente, onde impera a ausência de escrúpulos e o apetite desenfreado dos que se sentam à direita do chefe. Sérgio Marques vai senti-lo agora. Só espero é que tenha a arte de trocar as voltas aos que pretendam fazer dele um caso exemplar de punição da dignidade atrevida. Sabem. Resistir é também um bom exemplo. Sobretudo para os que possam não ter ainda descoberto que há muito mais vida para além da cada vez menos recomendável política oficial do nosso totalitarismo doméstico.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Queridos inimigos

O DN anda em guerra com o dr. Jardim. Como a qualidade dos entes se mede em grande medida pela estatura dos inimigos que têm, é de presumir que estão bem um para o outro. O dr. Jardim adora, como se sabe, o papel de vítima putativa dos azedumes ocasionais de alguma comunicação social. E o DN anda, pelos vistos, com umas súbitas maldades entaladas na garganta. Resultado: nem as amêndoas pascais adoçaram a relação de tão queridos e inseparáveis inimigos; e nem a leve circunstância de o dr. Jardim ter sido durante anos o melhor director de marketing do "independente" cá do burgo teve o condão de suavizar o, salvo seja, morticínio que todos os dias se anuncia.
Uma vez que o terreno escorrega, e porque o seguro morreu de velho, deixem-me esclarecer desde já o que penso do leitmotiv alegado de tão belicosa refrega. Entendo, sem margem para dúvidas, que a EDN tem razão. É injusto que o poder político distorça, ainda por cima em seu exclusivo benefício, as regras da concorrência. É imoral que um governo se permita interferir no mercado publicitário ao sabor da discricionaridade das suas conveniências. É perverso o poder que asfixia sem pestanejar tanto a imprensa que tutela como aquela que não controla. A social-democracia não é isso. O papel regulador do estado também não. A função supletiva do sector público muito menos.
Acho muito bem, portanto, que a EDN reaja. Emitindo os comunicados que considere oportunos. Denunciando a violência de que está a ser vítima. E levando o caso a todas as instâncias que lhe parecerem capazes de acabar com o desmando.
Há, todavia, uma perplexidade que me aflige. As razões da EDN são velhas de vários anos. A intervenção do governo no JM é um processo que vem de longe. E a utilização perversa da publicidade como meio de pressão política é uma prática com mais de duas décadas. Não obstante, nunca o protesto da administração do DN foi tão audível, tão radical, tão veemente. Como se só agora tivesse despertado para o problema. Ou como se as velhas fórmulas (inocente eufemismo das negociatas promíscuas de certas traficâncias político-jornalísticas) com que sempre lidou com ele tivessem de repente perdido a eficácia.
Reconheça-se. O caso dá que pensar. E eu, acreditem, gostava que um dia me explicassem o que é que, afinal, mudou assim tanto na relação tantas vezes cúmplice, e quase sempre lucrativa para ambos, entre a EDN e o dr. Jardim. Não é por nada. Mas tenho o péssimo costume de gostar de perceber as coisas.
Como não gosto das meias-tintas, permito-me ainda uma nota final. Compreendo, como disse, a justeza das razões da administração da EDN. Verifico, no entanto, que a expressão do seu protesto vem contaminando a orientação editorial do Diário. E assim há-de ser até à celebração de mais um armistício (outro eufemismo). Não me sinto, nem mesmo ao de leve, incomodado com o facto. Suspeito, no entanto, que o dr. Jardim agradece a gentileza. Uma imprensa hostil às vezes dá jeito. Quanto mais não seja para justificar atitudes e branquear o faz-de-conta da democracia que temos.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Instabilidade com pré-aviso

Curioso. Três dias depois, e nada. Nem uma palavra. Nem um comentário. Nem um rumor. Jardim assobia para o lado. A Rua dos Netos limita-se a observar. Os comentadores oficiosos nem deram pelo assunto. As araras da Quinta Vigia esganiçam silvos despreocupados. E, barricado na cidadela do seu gabinete, o dr. Albuquerque espreita e espera. Entretanto, cá fora, a malta comenta. É o pobre do dr. Jardim que deixou de ter mão mão no partido. É o presidente da Câmara que sem os votos das autárquicas fenece politicamente. E é o folhetim da sucessão que vai erraticamente marchando ao sabor dos impulsos dos candidatos irrequietos.
Seja lá o que for, a verdade é que o dr. Jardim foi encostado à parede. Com um simples título de jornal, Albuquerque trocou-lhe as voltas. E a gestão política do processo de preparação das autárquicas deixou de ser exclusiva do crónico dono da estratégia laranja.
Tenho como certo que Jardim não tem outro remédio senão engolir a afronta. A menos, claro, que lhe surja o milagre de uma ajuda externa. Não vejo, porém, que os ganhos da manobra política de Albuquerque possam ir além da sua já quase inevitável candidatura. É verdade que ao permitir-se torpedear a estratégia eleitoral do líder do partido a que pertence, o actual presidente da Câmara do Funchal conseguiu pôr em evidência a relativa autonomia dos seus objectivos políticos. O problema do episódio é que se calhar acrescentou mais uma mossa ao relacionamento politicamente distante que se sabe existir entre ele e o chefe da agremiação a que ambos pertencem.
Não nos iludamos. O dr. Jardim é muito capaz de fingir entusiasmo quando um dia destes vier a público oficializar a recandidatura de Miguel Albuquerque. Mas como não é político de ficar a remoer desaforos em casa, é certo e sabido que depois vamos ter festa. Como aconteceu no tempo de Virgílio Pereira. E como há-de acontecer sempre que alguém tiver o atrevimento de colocar uma agenda pessoal, por mais legítima que seja, à frente da estratégia do presidente do partido.
A sorte de Albuquerque, de Jardim e do PSD é que a oposição é curta. Porque neste quadro de circunstâncias não há mais-valia política no facto de a Câmara do Funchal e o governo da Região virem a ter novamente a mesma cor partidária. Bem pelo contrário. O cenário mais provável é que o relacionamento entre os dois executivos venha a ser difícil e pontualmente crispado. Tanto pelo que atrás ficou dito, como pelo facto de ser público e notório que Jardim não quer Albuquerque nas contas da sucessão. Ora, como a corda se rompe sempre pelo lado mais fraco, está-se mesmo a ver a festarola em que andaremos daqui a alguns meses.
Se ao menos houvesse uma oposição a sério...
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A casa em desordem

1. Albuquerque fartou-se do tabu à moda de Jardim e passou ao ataque. Ainda ninguém lhe disse que sim ou que não, mas ele já sabe que é candidato a um novo e último mandato da CMF. Não tem assento no órgão do partido com poder deliberativo sobre a matéria, mas já decidiu que vai a votos com a equipa que actualmente o acompanha. Quanto ao dr. Jardim, ele que vá dar uma voltinha, mais a sua estratégia de gestão do silêncio e do tempo, que ele, Albuquerque, tem mais que fazer do que ficar eternamente dependente de caprichos ou planos alheios.
Decididamente, as coisas no PSD já não são o que sempre foram. A vontade soberana do chefe já teve melhores dias. E agora das duas uma: ou o dr. Jardim engole a afronta, procurando integrar o voluntarismo de Albuquerque na estratégia do partido, ou abre uma brecha na pretensa unidade do dito. Juro que não é por maldade. Mas dá-me um certo gozo imaginar o dr. Jardim furioso e à rasca, sem saber se deve dar um murro na mesa, ou se deve fazer de conta que o assunto não é com ele. Sabem. As lideranças eternas têm às vezes percalços assim. Instalam-se no tempo, e acabam por esquecer que tudo na política tem um prazo de validade. Até a eternidade.
2. Consta que os sócios do Marítimo autorizaram a direcção a prosseguir os trabalhos com vista à transformação do estádio regional dos Barreiros em arena futebolística verde-rubra. Achei graça à notícia. Meia dúzia de cavalheiros resolveram decidir sozinhos um assunto que os ultrapassa. Como se a Madeira e o Marítimo se confundissem. Ou como se a assembleia-geral de um clube tivesse direitos de representação de todos os madeirenses.
Insisto nesta ideia. Para mal dos nossos pecados, somos todos sócios à força e contribuintes líquidos obrigados de uma sociedade anónima desportiva. Não obstante, as decisões que nos dizem respeito são-nos literalmente subtraídas por um órgão em que não participamos. Como sou leigo em leis e parco em ideias, já me perguntei se uma providência cautelar ou uma acção popular poderiam contribuir para pôr esta gente na ordem. Mas como a ignorância nada me responde, atrevo-me a pedir a algum dos meus solícitos leitores a graça de uma resposta.
Compreendam. Por um lado, maça-me profundamente que o senhor Pereira-presidente-do-Marítimo, em quem nunca votaria para coisa nenhuma, entenda que tem o direito de usar e abusar dos meus direitos de cidadania. E aborrece-me solenemente, por outro, que se pretenda confinar à assembleia-geral de um clube de bola, por mais respeitável que seja, uma decisão potencialmente lesiva dos interesses paisagísticos, ambientais e urbanísticos da capital da Região.
Pode ser que esteja a ver mal o problema. Mas acho que chegou a altura de explicar a esta malta que até na Madeira há muito mais vida para além dos interesses da bola e dos caprichos de quem manda.
Bernardino da Purificação

domingo, 29 de março de 2009

O novo evangelho segundo Jardim

Salve, dr. Jardim. Vosselência acaba de inscrever o seu ilustre nome no restrito rol de políticos com pretensões moralizadoras. Há trinta e não sei quantos anos que lhe andavam a sentir a falta. Dizendo, imagine-se o peso da injuria, que se tresmalhara em definitivo. E jurando, vejam só a injustiça dos homens, que são políticos da sua estirpe que dão mau nome à política. Eu sempre soube que não era assim. Algo me dizia que, na hora da verdade, o guardião da virtude que habita em si se libertaria das grilhetas que o aprisionaram durante mais de três décadas. É com um misto de alegria e orgulho que verifico que não me enganei.
Para quem não sabe, aqui fica a grata novidade: o dr. Jardim acaba de defender que políticos suspeitos de corrupção deveriam ser pura e simplesmente postos a andar. Mesmo que não tenham sido acusados de nada por quem de direito. Ou que nunca venham a ser formalmente acusados de coisa nenhuma. Bem haja, pois, dr. Jardim. O moralismo pátrio está-lhe grato. E a seriedade acaba de contrair uma dívida que não há-de pagar tão cedo. A política, estou certo, não voltará jamais a ser como dantes.
Presumo que sabem do que falo. A voz justiceira do novo campeão da ética governativa acaba de pedir a cabeça do engenheiro Sócrates. Numa democracia a sério, sentenciou o nóvel paladino dos bons costumes - honni soit... -, primeiro-ministro suspeito é primeiro-ministro despedido. E como as democracias a sério devem ser o farol das que não passam de um reles faz-de-conta, está-se mesmo ver onde vai desaguar esta nova e inesperada tese ético-política do nosso dr. Jardim: ao justicialismo da praça pública; ao veredicto sem contraditório da vox populi; à mimosa inversão do ónus da prova. Essa dispensável coisa esdrúxula que dá pelo nome de sistema formal de justiça deixa de contar para o que quer que seja. E as provas a ter em conta passarão a ser os justiceiros decibéis que o berreiro popular em cada momento produza.
Gosto da ideia, dr. Jardim. Ainda bem que alguém teve a coragem de verbalizar tão expedita tese. É verdade que vosselência não a enunciou em toda a espessa essência que tem. Mas não foi preciso. O simples facto de ter pedido a cabeça do primeiro-ministro a pretexto do caso freeport diz tudo sobre a sua adesão ao tele-evangelismo político nacional. E, como estou seguro de que a sua nova teoria não há-de aplicar-se em exclusivo ao caso concreto do engenheiro Sócrates, percebi com júbilo que, não tarda nada, vamos ficar todos a conhecer as contas e os financiadores da Fundação Social-Democrata; não tive dúvidas de que nunca mais assistiremos ao espectáculo indecoroso das suas manifestações públicas de solidariedade política a presidentes de câmara formalmente acusados de actos ilícitos; tive a certeza de que vosselência vai mandar investigar e punir os súbitos enriquecimentos que toda a gente conhece; fiquei certo de que as derrapagens de milhões em praticamente todas as obras públicas vão, enfim, ter consequências; foi-me dado entender que passarão a ser punidos com o olho da rua, em processo sumário de qualquer denúncia pública, todos os titulares de cargos políticos que omitam deliberadamente dados sobre a evolução do seu património quando preenchem as declarações que o Tribunal Constitucional exige; ganhei a convicção de que as "negociatas" em tempos denunciadas hão-de ter, todas, o desfecho devido; e sorri perante a visualização do cabisbaixo desfile de deputados-empresários em direcção à porta da rua.
Vosselência, dr. Jardim, devolveu-nos a esperança. Era mesmo do que andávamos a precisar. De maneira que nem vou cometer a deselegância de lhe falar da quinta do Brasil que um dia se disse que o meu ilustre amigo possuía. Até porque sei que o processo que instaurou a quem teve a ousadia da acusação foi mais tarde benevolamente retirado. Olhe, isso são águas passadas. Tal como as coisas obscuras do porto do Funchal. Tal como os negócios sinistros da Empresa de Electricidade da Madeira. Tal como aquela "estória" das actas do seu governo que, ao que se ouve dizer, ficam assinadas e abertas durante o largo período de um ano.
Compreenda-se. Ninguém há-de querer saber de miudezas perante a conversão de vosselência à bondade objectiva da justiça popular. Até porque, como é sabido, o céu regozija-se mais com a conversão de um pecador do que com as esperadas boa acções dos justos. Ora, se é assim no céu...!
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 26 de março de 2009

A mundividência de quem manda

Consta que se encontra na Madeira uma delegação político-empresarial das ilhas Canárias. E está-se mesmo a ver que os jornais de amanhã vão dedicar ao facto o relevo que ele merece. As fotografias da praxe hão-de registar para a posteridade o nosso empreendedor vice tratando de assuntos sérios com o seu homólogo da vizinhança que nos fica a sul. Em lugar de destaque estará com certeza também o ex-keeper Grisaleña que, mercê dos serviços prestados ao Marítimo, goza de uma espécie de dupla indentidade insular. E, para compor a solenidade laboriosa do quadro, lá teremos fatalmente o brilho dos jovens acólitos do voluntarioso dr. Cunha.
Não há, podem crer, nenhum segredo ou mistério por detrás deste aparente exercício de adivinhação ou prognose. Um curto exercício de memória revela-nos que o ritual se repete sempre que dá jeito transmitir a ideia de que o dr. nosso vice trabalha afincadamente na definição de um quadro de cooperação entre a Madeira e Canárias. Ora, como as circunstâncias se puseram novamente a jeito do dr. Cunha, lá vamos tê-lo a apontar novamente a bússola do futuro para um sul qualquer que, pelos vistos, há-de fazer escala em Las Palmas. É natural. Se calhar, não conhece muito mais mundo do que esse.
É claro que me rendo à proactividade diligente do magno gestor da nossa economia. A Madeira necessita, de facto, de multiplicar os contactos com o exterior, nomeadamente com as áreas que lhe são contíguas. E só tem a ganhar com o reforço da cooperação institucional e económica com parceiros feridos de problemas semelhantes aos nossos. Devo observar, no entanto, que a África também nos é próxima. E ninguém levará a mal que acentue o enorme potencial que se esconde por detrás de certos processos regionais e sub-regionais africanos de integração económica. De modos que me incomoda pensar que a preguiça apressada do dr. Cunha pode levá-lo a sentir-se aliviado da responsabilidade de encontrar soluções externas para os males endémicos da nossa atravancada economia por via de uns encontros mais ou menos festivos e cheios de lugares-comuns com os sulistas nuestros hermanos.
Dirão os crentes - os genuínos, os convertidos e os de conveniência - que não é justo ser preso por ter cão e encarcerado por não ter. Têm razão. Juro que hei-de fazer penitência pública quando um dia verificar que esta aproximação natural a Canárias é capaz de render mais do que palavras, champanhe e croquetes. Mas compreendam. O cadastro do dr. Cunha neste domínio específico da procura de saídas para a economia da RAM até dá arrepios. Basta lembrar que, por manifesto descaso, a Madeira e as suas associações empresariais têm andado sistematicamente arredadas dos encontros que o governo português promove com as delegações ministeriais e empresariais que a seu convite nos visitam. Impõe-se recordar igualmente que temos uma Casa da Madeira em Lisboa (uma embaixada, imagine-se!) que nem uma simples informação nos faz chegar sobre o tráfego mensal de empresários à procura de parcerias, e de governos de países com dinheiro necessitados de tecnologia, capacidade empreendedora e competências várias. Do mesmo modo que, à cautela, convém recordar também a caríssima festarola de reservadíssimo consumo interno que o dr. Cunha promoveu há uns anos atrás a pretexto de uma iniciativa europeia pensada para a promoção externa das regiões da UE.
Enfim, cada um sabe de si, do mundo que conhece e das prioridades que tem. Mas como as acções do passado constituem uma boa grelha de antevisão do futuro, receio bem que venhamos um dia a descobrir que temos andado prisioneiros de uns ilustres cavalheiros para quem o mundo das oportunidades económicas se resume ao local onde passam as férias.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 23 de março de 2009

O embuste da santa aliança

É evidente que a culpa só pode ser minha. Cada um é como é. E eu, pobre de mim, nasci pobre de compreensão. De uma forma sumária, o meu problema formula-se assim: não percebi, não percebo, e tenho a certeza de que nunca hei-de perceber, qual a utilidade da visita institucional do inefável dr. Gama às latitudes africanas desta belíssima parcela pátria. Não é embirração minha, acreditem. É mesmo incapacidade. Por mais voltas que dê, não consigo enxergar qualquer efeito prático dos devaneios turístico-políticos do senhor presidente do parlamento nacional. Independentemente do empenho que parece estar a pôr neste indizível papel de kissinger luso de uso doméstico. Ou dos pungentes apelos que o dr. Jardim finge que faz com as reservas mentais conhecidas. E a razão é devastadoramente simples: sua excelência, até me dói a alma dizê-lo, não manda rigorosamente nada.
Não tenho a mais pequena intenção de apoucar tão subida figura do Estado português. Porém, convenhamos. O presidente do parlamento tem uma reduzidíssima capacidade de influenciar o curso da vida política nacional. Dirige os trabalhos de um parlamento comandado pela vontade de dois ou três directórios partidários. E substitui ocasionalmente o presidente da República se as ausências deste fizerem mergulhar o país na depressão da orfandade. Ora, como é bom de ver, e pedindo desculpa pela talvez excessiva simplificação, o facto confere a sua excelência a condição, salvo seja, ou de um mestre de cerimónias ou de um suplente escassamente utilizado. O que parecendo muito é, reconheçamo-lo, praticamente nada.
Não nos iludamos, pois. O dr. Gama só é a segunda figura da hierarquia do estado para efeitos de protocolo. Para quase nada mais. Tem influência porque frequenta os bastidores. Mas, em bom rigor, a sua vontade vale pouco mais do que coisa nenhuma.
Já que vou embalado, atrevo-me a ir um pouco mais longe. A influência do dr. Jaime Gama no curso da política portuguesa é muito mais tributária da sua conhecida condição de figura referencial de uma das sensibilidades do partido do poder do que do lugar que ocupa no protocolo de Estado. Aí, de facto, ele move-se bem e tem peso. O que me faz pensar que a sua visita à Madeira tenha sido ditada por egoístas razões partidárias e não por altruístas preocupações de Estado.
Explico. É vital para o dr. Gama não permitir que o poeta Alegre polarize todas as franjas de descontentamento que se sabe que existem no seio do PS relativamente ao líder Sócrates. E, na falta de melhor terreno de demarcação, encontrou no tapete vermelho que o dr. Jardim lhe estendeu o espaço que precisava para afirmar a autonomia do seu posicionamento estratégico.
Ou seja, estou perfeitamente convicto de que o dr. Gama veio à Madeira muito mais preocupado com Sócrates, e com a preservação do seu espaço no interior do partido, do que com essa novela de faca e alguidar que tem por sujeito o azedume crónico das relações entre os governos da Madeira e do país. Ele sabe muito bem que rigorosamente nada pode decidir nesse domínio. E tão bem ou melhor do que ele, sabe-o igualmente o dr. Jardim. Porém, ao líder madeirense deu jeito exaltar a putativa capacidade de intervenção do dr. Gama. Porque, fazendo-o, aumentou o valor do seu mais recente troféu de caça. Ao mesmo tempo que deu rédea solta à ideia de que a culpa das más relações com o continente reside em exclusivo na intransigência do primeiro-ministro.
Temos, pois, em marcha uma curiosa aliança entre dois ilustres e despudorados cavalheiros que não sentem qualquer problema em servir-se dos cargos institucionais que ocupam para juntarem mais um tijolo às estratégias político-pessoais que desenharam. A menos, claro, que o dr. Gama tenha aceite sacrificar por momentos a sua imagem de estadista em nome da meritória tarefa de tentar negociar com o dr. Jardim o lugar de recuo que ele tanto procura mas que um Sócrates azedo nunca lhe dará. Mas isso são coisas para verificarmos mais tarde. Para já, o que se retira do embuste de uma visita institucional que nunca valeu o que dela se tem dito é que o dr. Gama, consciente e deliberadamente, tirou mais uma vez o tapete aos seus correlegionários locais. Mas, pelos vistos, a alta política desenvolve-se assim.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 19 de março de 2009

Sai um pacote para a mesa do canto

Deixem-me ver se percebi. Afinal, e ao contrário do que pensávamos, temos crise. Apesar do trabalho de casa do dr. Cunha. E a despeito da excelência da governação que temos. Uma crise, imagine-se! Confesso que ainda estou mal refeito do choque.
Podem crer que se não fosse o dr. Jardim a anunciar tão devastadora novidade eu não lhe daria o mínimo crédito. Como se sabe, o homem não mente. E se veio a terreiro desmentir o seu vice é porque a coisa é séria. Arrepiemo-nos, pois. E confiemos mais uma vez na sorte.
É verdade que o dr. Jardim procurou tranquilizar-nos com o anúncio solene de um pacote de medidas. Quarenta e uma, mais precisamente. Creio, todavia, que a ênfase posta no número torpedeou-lhe os intentos. Ninguém pode ficar tranquilo quando são necessárias tantas medidas para combater uma crise.
Tenho para mim que o dr. Jardim foi levado ao engano pelos seus colaboradores próximos. O dr. Cunha, prudente, zarpou para o Porto Santo. Uma vez que nega a crise, é evidente que nunca se daria ao desfrute de aconselhar um número jeitoso ao chefe. De modos que deixou essa tarefa aos outros. Os mais tímidos alvitraram a modéstia da meia dúzia. Os mais ousados sentenciaram que um pacote de verdade há-de ter no mínimo duas ou três dezenas de bem esgalhadas medidas. O Machadinho, solícito, sacou do exagero e pespegou com o quarenta em cima do tampo da mesa. E o reflexivo dr. Brazão alertou os presentes para a seca redondeza de tal número. Não o disse, mas há-de ter pensado em qualquer coisa do tipo "ali-Jardim-babá e as suas quarenta medidas".
Enfim, a qualidade dos contributos fez entrar em cena o próprio dr. Jardim. Quarenta mais um, decretou então sua excelência. Porque é um número bonito. Porque assenta bem à gravidade da situação. E, ademais, porque tem o mérito de rimar com a situação da Madeira e com os trinta e um que já levo desta vida. E assim nasceu o pacote com que o dr. Jardim nos quis devolver a esperança.
Consta que a discussão sobre o número terá sido muito mais dura do que a selecção das medidas. É natural. Umas pázadas de programas em curso para usufruto dos privilegiados do costume seria suficiente para estruturar a coisa. Depois, compor-se-ia o ramalhete com a possibilidade de os interessados somarem mais dívida à dívida que têm. Mas para não haver dúvidas quanto à modernidade da coisa, foi dado um retoque final com duas arengas que ficam sempre bem. Uma respeitante à modernização das empresas. E outra apontada para a necessidade de conter o desemprego.
Não desvalorizo as intenções presidenciais. Questiono, porém, a seriedade de um suposto plano de contingência cheio de medidas requentadas. Por uma razão óbvia e simples. Se, ao contrário do que supôs o senhor vice, elas não nos defenderam da crise, como poderão agora combatê-la?
O episódio teve, no entanto, o mérito da revelação. Trouxe à evidência que o modelo económico mantido não tem almofadas para situações de emergência. Revelou que não sobraram recursos do obreirismo louco que fizeram abater sobre nós. Demonstrou que em trinta e um anos a nossa economia só tem navegado à vista. Mostrou-nos a todos, em suma, que o actual paradigma está morto, porém, ainda não devidamente enterrado. E é pena. Porque o sector público não pode continuar a absorver a quase totalidade dos nossos escassos recursos (ainda por cima em obras que apenas acrescentam despesa à despesa). Porque há problemas de competitividade da economia que não se resolvem com o embuste dos pacotes de conjuntura. Porque há um mundo lá fora carregado de oportunidades a que por qualquer motivo recusamos aceder. E porque, sem prejuízo do seu carácter evolutivo, há uma autonomia política que tem de passar da fase da conquista para a fase do exercício responsável.
É preciso, em suma, mudar de vida. Que a crise nos faça, ao menos, perceber a urgência dessa inevitabilidade. Sem desmerecer, claro está, o carácter profundamente didáctico do pacotinho do dr. Jardim.
Bernardino da Purificação

quarta-feira, 18 de março de 2009

O trabalhinho do dr. Gama

Os maldosos vão ter de engolir a desconfiança. Pensavam, se calhar, que o dr. Jaime Gama viria este ano ao Chão da Lagoa. Enganaram-se. Redondamente. Ele vem, sim senhor, mas agorinha já que mais tarde era capaz de dar um bocado nas vistas. Que diabo. O dr. Gama tem um pingo (aposto que é mesmo só um) de vergonha na cara. Se viesse ao Chão da Lagoa cairia certamente o Carmo e a Trindade. Vindo agora desarma os maldizentes. Ora digam lá se isto não é mesmo coisa de gente esperta.
O dr. Jardim disse há dias que do continente só era bem vindo quem viesse trabalhar. Como já sabia da visita do sócio número um do seu cada vez mais restrito clube de fãs, tenho como certo que o dr. Gama vem preparado para dar o corpinho (salvo seja) ao manifesto. Compreenda-se. O dr. Jardim está cada vez mais exigente. De tal modo que onde antes se resolviam as angústias do inquilino das ditas com meia dúzia de elogios, agora é necessária uma visita, uma mão cheia de recepções, as primeiras páginas que forem necessárias, umas quantas entrevistas de exaltação das virtudes democráticas do regime e do seu chefe, tudo isso, como é evidente, devidamente condimentado com o tempero da desvergonha. Entretanto, lá no continente, o eng. Sócrates há-de corar de arrependimento e porventura de inveja. Ele que aprenda. Não é para todos ser recebido na Madeira como o dr. Gama vai seguramente ser.
Enternece-me, devo dizer, o enlevo das relações simpáticas entre os órgãos de soberania e os órgãos de governo próprio da Região. Desde que devidamente salvaguardada a esfera de competências de cada um. E na óbvia condição de serem democraticamente respeitadas as diferenças de pontos de vista que possam separar conjunturalmente os dois lados. Note-se. A tensão autonómica não pode ser tida como um drama da pátria. Pelo contrário. Se devida e responsavelmente enquadrada, estou certo de que ela pode, ao invés, constituir um importante impulso criador do desenho do nosso futuro colectivo. Há, todavia, um porém que nenhum político a sério tem o direito de esquecer. As boas relações têm de assentar numa base sólida de respeito e reciprocidade. A não ser assim, a desconfiança instala-se, o diálogo vai-se, e, como tradicionalmente acontece em momentos de azedume, quem se lixa é sempre o mexilhão, se vosselências me permitem a crustácea maresia da expressão plebeia.
Não quero lembrar coisas do passado. O que lá vai, lá vai, e não se fala mais nisso. Mas juro que ainda não percebi como, e por que artes, é que o dr. Jardim conseguiu subir tanto na tabela taxonómica do dr. Gama. Arrancou do fundo mais fundo que imaginar se possa. Mas agora já se senta onde se sentam os eleitos.
Para os mais esquecidos recordo que na mente preclara do dr. Gama já não há uma sombra sequer do bokassa de tempos idos ou do défice democrático de má memória. Onde antes havia um ditador há agora um ilustríssimo democrata. E o patriota imenso que o dr. Jardim obviamente agora é nada tem a ver com o famigerado separatista de outros tempos. As coisas mudaram, em suma. Mudou evidentemente o dr. Gama. E mudou, pelos vistos, também o dr. Jardim. A maçada é que ninguém percebeu em que ponto da política lusa se produziu o clique que deu origem a tão acentuada mudança. Bora lá perguntar ao dr. Gama quando e como foi? Ao dr. Jardim não vale a pena que ainda é capaz de nos fazer um manguito, mandar bardamerda ou levar a tribunal. Mas já que o dr. Gama é um senhor polido e paciente, e uma vez que preside ao órgão de soberania que o seu inesperado ídolo, em vistosas cuecas, mandou um dia àquela parte, há-de fazer-nos certamente o favor do esclarecimento conveniente. Mas note-se. Não me refiro ao esclarecimento que pessoalmente lhe convenha. Refiro-me ao outro. Àquele que a seriedade não dispensa.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 16 de março de 2009

Tudo como dantes

Gente amiga e obviamente crédula assegura-me que foi praga. Uma semana inteirinha impedido de escrever, explicaram, só pode ser coisa ou do mau olhado ou das artes clandestinas de vão de escada. A menos que me tenha vacilado a vontade, o que não foi (ainda) manifestamente o caso. Coisa impressionante. A vida da gente nas mãos electrónicas de sistemas high tech. Mas há, não obstante, quem prefira a irracionalidade das explicações do oculto.
Diga-se, no entanto, que nada se perdeu. A prosa que agrada a uns quantos é a mesma que uma imensidão de outros detesta. E, para além disso, a vida política madeirense anda cada vez mais parecida com uma telenovela brasileira - os episódios acontecem todos os dias, mas ninguém perde rigorosamente nada quando se salta uma semana.
É verdade que circularam por aí notícias sobre as (más) contas do PSD. Ao que parece, há uma relação não documentada de transferência de verbas entre o partido institucional da Madeira e a Fundação Social Democrata. So what? O fenómeno é novo? Alguém vai investigá-lo? Podem as autoridades judiciárias da Região pegar a sério no fio que a entidade fiscalizadora das contas dos partidos conseguiu agora inconsequentemente levantar? Sinceramente não creio. As prioridades são outras. E, a bem dizer, ninguém está para grandes maçadas.
É verdade também que o grupo parlamentar do PSD resolveu puxar o tapete a dois dos seus deputados. Um dia qualquer de um futuro que não se antevê próximo, vão ambos prestar contas à Justiça por actos praticados nas actividades que antecederam as actuais funções parlamentares que desempenham. Mas isto, convenhamos, nem merece ser notícia. Numa democracia normal não se perderia tempo a discutir o assunto. As contas que um deputado deve aos costumes por actos não relacionados com a vida parlamentar são exactamente iguais às de outro cidadão qualquer. Nem mais, nem menos. E não há regime de imunidades sério que as possa diferenciar.
Concedo, no entanto, que o episódio pode ter ingredientes suculentos. Com promessas interessantes no que diz respeito aos seus desenvolvimentos futuros. Mas com sugestões, também elas curiosas, sobre as putativas razões que lhe terão estado na origem. Como a malta da política adora matar o ócio consumindo as meninges em teorias da conspiração, há já quem jure, sabe-se lá com que intenções, que a singular acontecência deve ser tida à conta do alegre fratricídio em que andam esgadanhados alguns dos suspeitos do costume. Será?
Quanto ao mais, meus amigos e prezados inimigos, isto não ata nem desata. A crise resvala na couraça erguida pelo trabalho de casa do nosso dr. Cunha. O dr. Jardim continua a fazer mistério sobre os candidatos às autárquicas na esperança de que ao dr. Albuquerque se lhe estale o verniz. O líder transitório do PS anda por aí a fazer não se sabe bem o quê. O dr. Vieira prossegue a nobre e casamenteira cruzada que consiste em amancebar as volumetrias do dinheiro com os interesses dos munícipes. E o Marítimo continua a levar-nos o dinheirito nesta época de verbas curtas, salários em atraso e concorrência desleal. Ora, perante a incandescência parda de tão previsível quadro bordado e pintado em tons de pastel não é a ausência de uma semana que faz perder o fio à meada. Maçadora, isso sim, é por vezes a dependência do high tech. Ou das artes ocultas em esconsos vãos de escada, vá lá a gente saber...
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 9 de março de 2009

A humildade confessada

Afinal, nem tudo está perdido. Li o texto de ontem do dr. Cunha e reconciliei-me com a política. A sua franqueza tocou-me. O exercício de humildade que fez sensibilizou-me.
Podem achar surpreendente. Mas acreditem que é verdade. Sem pruridos tolos nem subterfúgios escusados, o senhor nosso vice fez questão de informar-nos que, em regra, a ascensão ao poder tem tudo a ver com o acaso e nenhuma relação com o mérito. Mais. Ciente da incredulidade com que as suas palavras seriam acolhidas, ilustrou a tese com exemplos. De Barroso a Santana. De Guterres a Sócrates. De Balsemão a Cavaco.
Saibam os cépticos que o seu exercício de modéstia foi ainda mais longe. Ao ponto, imagine-se da injustiça auto-infligida. O facto de não ter cedido à tentação de incluir o seu nome na lista que elaborou é algo que só o credibiliza e lhe atesta a honra. Não significa, estou certo disso, que exclua a política regional e o seu caso particular da bondade da tese. O que aconteceu, aposto, é que a modéstia há-de ter falado mais alto - emparceirar ao lado de tanto peso-pesado é coisa que seguramente não passa pela humilde cabeça do dr. Cunha. Nem mesmo a título de acidente do acaso.
Se bem percebi a intencionalidade da prosa, o nosso improvável vice terá pretendido com ela visar alguém em particular. Compreende-se. O dr. Cunha pode não passar de um governante acidental. Mas dá para perceber que não é homem de atirar palavras ao vento assim como quem atira milhões ao mar. Resiste, é verdade, à cruel tentação de identificar o seu alvo. Porém, o político frontal que sabemos que é não podia ser mais directo - aponta clara e inequivocamente para um atrevidote qualquer que anda para aí a dar-se ao desmazelo de perder tempo e cabelo planeando estratégias de tomada do poder. Bravo, dr. Cunha. Ficaria mal comigo mesmo se não lhe relevasse a coragem, o tacto e o sentido de oportunidade. A coragem porque vosselência não treme quando a consciência o interpela a desmascarar certas jogadas. O tacto porque, como toda a gente percebe pela farta e leonina cabeleira que laboriosamente penteia, vosselência tem a prudência de se limitar a perder tempo. E o sentido de oportunidade porque de facto chegou a altura de se denunciar e fazer abortar o descaramento incompetente de certo tipo de manobras.
Tome cuidado, porém, dr. Cunha. Não leve excessivamente à letra a tese que desenvolve. E atenção ao princípio de Peter. Acredite que uma carreira bem sucedida exige muito mais do que a simples garupa da sorte. Sobretudo em política. Pode crer que as pessoas que votam um dia percebem o logro em que caíram. Mas isto, é claro, só vale para quem vai a votos. Não para quem galhardamente escolhe a sombra protectora de um guarda-chuva aberto ao acaso.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 6 de março de 2009

O planeamento sem plano

Tropecei hoje ao pequeno-almoço num pensamento complexo. E pasmei. Tanto pelo facto de dar por mim enredado em pensamentos. Como pela natureza intrínseca dos ditos. A nossa mente, acreditem, é um instrumento surpreendente. E eu, deslumbrado, não posso deixar de exaltá-lo.
Note-se. Não foi propriamente este o produto matinal da insólita excitação dos meus fatigados neurónios. Nada disso. O conteúdo do intróito não é mais do que um efeito colateral desse meu irreprimível estado de pasmo perante a verificação de como duas pequenas notícias aparentemente desligadas conseguem explicar-nos que o método preferido de quem nos governa é governar quase sempre com ausência de um método. Percebe-se a ideia. Só a irracionalidade é capaz de suprir o uso da razão.
Passemos então aos factos. Em virtude de uma notável conjugação astral, a que é com certeza alheia tanto a vice-presidência como o nosso sagaz vice, a edição de sexta do DN trouxe-nos à memória duas das expressões mais notáveis do nosso tenaz planeamento sem plano. Em notícia de página inteira, voltamos a ter contacto com a marina do Lugar de Baixo. Mais adiante, mas em forma de notícia curta, lá voltámos a ter novas desses equipamentos notáveis que a modéstia de quem manda singelamente apelida de parques empresariais.
Quanto à marina, e a avaliar pelo que se lê, as perspectivas não podem ser mais promissoras. A zona balnear adjacente é capaz de voltar a abrir quando chegar a estação dos banhos. A escarpa lateral que a encima vai a caminho da consolidação. E a malha de aço que rezamos que a segure está a dias de enfrentar o teste pesado dos pedregulhos que ocasionalmente dela despencam. Sinceramente gostei do que li. Nada como as boas notícias para nos fazer esquecer o negrume das más. E nada como a antevisão fabricada de um futuro aparentemente radioso para nos levar a encerrar no saco dos esquecidos o desperdício dos milhões atirados ao lixo.
Não sendo tão imediatamente promissora, a notícia sobre os parques do nosso vice-presidencial contentamento não deixa de acenar também para o brilho dos dias que estão para vir. É certo que nada nos diz sobre a erva que cresce ou sobre as cabrinhas que pastam. Mas, ao anunciar-nos uma linha de ajuda directa à edificação de armazéns, leva-nos ao vislumbre de um futuro laborioso de parques pejados de empresas a mexer. Gosto da sugestão. Já chega de parques empresariais deserto de empresas.
A maçada, num caso e noutro, é que não consigo travar as perguntas que me acodem. Custa-me perceber, por exemplo, que urgência ditou a construção frenética de parques sem o prévio envolvimento das associações empresariais. Do mesmo modo que me faz espécie que se tenha desatado a expropriar terrenos, a edificar infra-estruturas e a fazer inaugurações sem que ao menos uma alma caridosa se tivesse lembrado da necessidade simultânea e óbvia de se desenhar um programa de ajudas atractivo para as empresas. Pelo vistos, só meia dúzia de anos depois de concluídas as obras de construção, e nalguns casos já de manutenção, é que alguém percebeu que é preciso muito mais do que o simples toque de caixa da vontade de um voluntarista qualquer para que um empresário aceite alterar drasticamente as rotinas e a vida da sua empresa.
Mas o que me custa mesmo aceitar é que se tenha construído uma marina e um complexo balnear numa zona duplamente crítica sem a prudência de um estudo prévio. De dinâmica costeira nem se falou. E, conforme reconheceu um especialista da UMa, da instabilidade da falésia também não. Porém, gastou-se dinheiro. Uma verdadeira fortuna. Em obras e em obras de reparação das obras. Tudo isto porque um indivíduo qualquer se apanhou com o poder de gerir como lhe dá jeito o dinheiro dos contribuintes. E porque ninguém lhe ensinou que nada de durável se constrói no meio natural sem o estudo prévio das circunstâncias envolventes. Mas não há problemas. A gente depois paga.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 3 de março de 2009

Enriquecimento sem causa

Na falta de melhor tema, apetece-me falar hoje desse curiosíssimo fenómeno que dá pelo quase misterioso nome de enriquecimento sem causa. Não sei quem foi o autor de tão inspirada designação. Mas como as palavras valem sobretudo por aquilo que dizem, cheguei a considerar a hipótese de estarmos perante um místico devoto das coisas que se explicam a si próprias. Julgar que alguém pode adormecer pobre e acordar rico sem precisar de explicar o feito equivale a acreditar, pia e militantemente, na força prodigiosa dos milagres. E presumir que um efeito pode dispensar a carambola de uma causa só pode remeter-nos para um estado de gnose que, convenhamos, não é deste mundo. A menos que no lugar de uma crença tenhamos somente a ironia suave de um gozão. Ou que em vez de um exercício de elevação gnóstica tenhamos simplesmente as palavras económicas de um legislador poupado.
Como é evidente, inclino-me mais para esta última hipótese. Não por duvidar da força imponderável da intervenção do acaso. Nem por recusar a eventualidade de a roda da fortuna poder ser movida também pelo intangível. Apesar do racionalismo céptico que me instruiu, não tenho nesse domínio grandes dores ou preconceitos de natureza filosófica. Porém, por mais que me esforce, tenho de confessar a imensa dificuldade em elevar-me acima do terreno prosaico das causas. Sobretudo quando o assunto é dinheiro.
Não tenho qualquer problema com a riqueza dos ricos. Ela não me perturba nem um bocadinho, a despeito de ter lido o que devia ter lido sobre a chamada acumulação primitiva do capital. Sou, é claro, sensível à desigualdade e hipersensível à ganância. Incomoda-me a primeira. Desprezo a segunda. Não creio, no entanto, na bondade ideológica ou na legitimidade política do igualitarismo aplicado a martelo. Nem tenho pachorra para o peditório desgraçado dessa espécie de doença social que olha o sucesso material dos mais empreendedores ou afortunados com permanente hostilidade e sistemática desconfiança. Confesso, porém, que tenho um problema com a riqueza repentina gerada pela obra do poder e pela graça de quem manda. Faz-me urticaria. Tira-me do sério.
Sei que não se deve acusar sem provas. Mas há indícios que interpelam. Do mesmo modo que há sinais exteriores que nenhum sistema sério de Justiça deveria poder ignorar. De modos que, mesmo não querendo agitar suspeitas, recuso fazer de conta que não sei que há no poder quem tenha chegado à política muito antes da carreira profissional que nunca teve ou da fortuna que agora aparentemente tem. Admito, mas só em tese geral, que a singularidade do facto pode não andar de mãos dadas com a palavra desonestidade. Convenhamos, no entanto, que uma situação assim, mais do que escancarar as portas à dúvida e abrir caminho à suspeição, dá de mão beijada ao abuso o caldo que o pode fazer crescer.
Já vejo os vigilantes do costume arregimentados para a arenga da praxe. Se não há provas não há culpas. Se não há culpas não pode haver culpados. Depois, como a esperteza saloia lhes dá vontade de rir, hão-de brindar, divertidos, à falácia do axioma. Mas como estas coisas são sérias, vou retaliar com uma sugestão. Concedamos à classe política a possibilidade de justificar a qualquer momento a proveniência dos seus rendimentos. Crie-se para tanto uma entidade fiscalizadora na dependência directa do Tribunal Constitucional. E proceda-se como faz o fisco aos contribuintes. Bastava isso. Todos os nomes para dentro de um sistema informático. Um computador sem partido nem alma a sortear os felizes contemplados. E as sanções devidas a quem fosse culpado de enriquecimento literalmente sem causa. Tenho para mim que um tal dispositivo resolveria muita coisa. E a nossa relação com a política ficaria com certeza mais sã.
Bernardino da Purificação

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Uma queda a pedido do chefe

O dr. Miguel Mendonça resolveu descer à terra. Discretamente. Sem pré-aviso. De uma forma tocantemente inesperada. Se calhar, digo eu, não resistiu à saudade das suas raízes telúricas. Ou então, hipótese igualmente aceitável e sem dúvida legítima, cedeu por momentos à agonia das vertigens que lhe desafiam o equilíbrio. Não é caso para menos. Isto de passar a vida em majestáticas alturas há-de entontecer, presunção minha, até as naturezas mais fortes e blindadas.
Em abono da franqueza, devo confessar que outras explicações mais cínicas me chegaram a interpelar a mente. Não foi culpa minha, sossega-me a consciência. Mas como o pensamento é um mistério que não se controla, dei comigo a contas com um braçado de razões, nem todas simpáticas, potencialmente explicativas deste inesperado regresso do dr. Mendonça lá dos ares que frequenta.
Não vou, obviamente, aqui revelá-las todas. Assusto-me facilmente com o lado mais negro das ideias que me chegam. E, a bem dizer, ainda me sinto mal refeito do enjoo que muitas das explicações putativamente alternativas me provocaram. Não resisto, ainda assim, a partilhar convosco que me ocorreu - veja-se bem por onde andou, revel, a vaguear-me o pensamento - que o dr. Mendonça entendeu, pura e simplesmente, juntar-se, também ele, à estratégia de ocupação do espaço opinativo mediático, decidida um dia destes pelo espírito sagaz do nosso sempiterno dr. Jardim.
Faz sentido. Por culpa exclusivamente própria, Jardim é nesta altura um general rodeado de soldados rasos. Os escassos oficiais militantes andam a tratar da vida. E poucos são aqueles que trazem aos ombros divisas ou galões de mérito merecido. Valha a verdade que a solidão do líder convive tranquilamente com a penúria da situação. Só precisa da companhia atenta do silêncio. E como o zumbido das vozes intermédias é quase sempre uma penosa maçada para o providencialismo populista, ao dr. Jardim basta-lhe o ruído do assentimento ou do aplauso. O problema é que às vezes há eleições. E como estas assentam em dispositivos comunicacionais mais ou menos complexos, é preciso pôr gente a falar. Quanto mais não seja para encher espaço.
É claro que, tratando-se do dr. Miguel Mendonça, a gente espera sempre que, para além de falar, ele seja capaz de dizer qualquer coisa. Mesmo quando escreve à civil, como é o caso do artiguelho que hoje publicou no espaço de opinião do DN. Ou que a finalidade da escrita se limite à urgência de encher papel, ou se fique pela necessidade de disfarçar o militante alheamento partidário que a generalidade da fidalguia laranja já nem se dá à maçada de esconder.
Não quero parecer cruel. Mas aquilo é uma decepção e uma oportunidade perdida. Pior. É uma página inteira de coisa nenhuma. Não há uma ideia, um pensamento, uma reflexão. Muito pior. Nem há sequer a mais leve tentativa de nos dar as explicações que nos deve. Nada nos diz sobre o seu recente encontro com o primeiro-ministro. Passa ao lado do ambiente de controvérsia e descrédito em que vive envolto o parlamento. Não dedica uma única palavra à Autonomia. Nem é capaz de situar a Madeira no quadro da crise que assola o país, a Europa, o mundo.
Ou seja, o dr. Miguel Mendonça desceu literalmente à terra. É presidente do parlamento, mas armou-se em cabo eleitoral de trazer por casa. Escreve em média uma vez por ano, mas nada de relevante nos trouxe. E em vez de se manter à altura do estatuto que tem, optou por aterrar no terreno pequenino das coisas óbvias, no chão rasteiro do recado interno e da crítica insinuada, no espaço da pequena intriga doméstica e de todas as tricas afins, no campo estreitinho onde só cabe o discurso politiqueiro. Mas, enfim, lá conseguiu escrever um textinho. No fim de contas, foi apenas isso que o chefe lhe pediu.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O carnaval perpétuo

Um sambódromo! Li no oficialmente oficioso que o governo estuda a construção, em zona plana da cidade, de um espaço com capacidade para albergar os dois ou três cortejos alegóricos que abnegadamente produzimos por ano. É mesmo disso que estamos a precisar. Depois, é claro, da construção do novo estádio do Marítimo, de mais meia dúzia de marinas, de dúzia e meia de novos parques empresariais, de uma dezena de centros cívicos, esses notáveis instrumentos socializadores substitutos das tascas e dos adros da igreja do tempo dos nossos avós, e de mais umas quantas promenades apalmeiradas para reganharmos para sempre o mar (ai como é glamoroso e quente este mix engenhoso e próspero que nos dá, a um tempo, a elegância afrancesada de um passadiço e o tropicalismo vegetal de umas quantas fileiras de plantas exóticas e respectivos comensais...!).
A notícia, admito, é omissa quanto a estas últimas prioridades. Elas são, digamos, um acrescento meu. Juro, porém, que o dito cujo está em linha com o frenético e vagamente delirante obrismo que tomou conta de nós. Um sambódromo, Santo Deus! Como é que só agora alguém teve a inspiração de pensar em semelhante isso?
Convém dizer, porque a verdade o reclama, que a notícia em apreço contém ainda uma outra omissão sintomática. Não revela que papel está destinado à Câmara do Funchal na edificação desse por certo magnífico monumento pensado em prol da nossa alegria futura. Santa paciência, mas é compreensível: uma cidade que foi incapaz de fazer da comemoração dos seus quinhentos anos um momento de afirmação nacional e internacional da importância estratégica e simbólica do seu passado não é parceiro que se recomende no presente; e uma cidade que reduz a necessidade de se afirmar e projectar para o exterior a umas quantas festarolas de cariz doméstico, cujo registo já se evaporou entretanto da memória dos poucos que nelas participaram, nem merece ser consultada. Trate mas é de arranjar o terreno, e pronto. O resto há-de ficar, como é óbvio, por conta de uma qualquer sociedade (dita) de desenvolvimento. Desde as artes da concepção ao esmero da construção.
Confesso que, assim de repente, não consigo visualizar a imagem de um sambódromo encaixado na cidade. Sou curto de vistas, é o que é. Ou então, hipótese a ter em conta, estou a ser vítima do conhecimento que tenho da volumetria maravilhosa e da estética de encantos mil do original situado no Rio de Janeiro dos nossos sonhos de férias. Estão a ver aquele enorme e cinzento paredão, algures na Choupana, a acenar todos os dias a quem está cá em baixo no Funchal? É uma coisa daquele tipo. A diferença é que, em vez de um, os enormes paredões são dois, convergindo ambos em bancadas e escadinhas em direcção a uma larga alameda onde desfilam os foliões. Coisa pouca, como se vê. E, sobretudo, pequena.
Costuma dizer-se que a vida são dois dias e o Carnaval são três. Pois bem, meus senhores, a Madeira, pelos vistos, está à beira de inaugurar um novo e certamente sugestivo aforismo de pendor carnavalesco. Se calhar, atenta a criatividade notável dos nossos denodados governantes, qualquer coisa do género: como no entrudo vale tudo, façamo-lo acontecer sempre que a gente quiser.
Um sambódromo. Mas que ideia brilhante. Pela novidade. Pela originalidade. Pelo alcance. De facto, nada como um Carnaval perpétuo para nos esquecermos de que o desemprego já afecta entre nós mais de dez mil famílias. Ora digam lá se não vale a pena o investimento...
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O território da consciência

Ainda bem que o dr. Ricardo Vieira fez o favor de nos tranquilizar. Estou-lhe grato. Duplamente grato. Por nos ter revelado que o episódio do Savoy lhe correu tão bem que até já admite prolongar o cansaço militante com que reparte a vida pela política e pelos negócios. E por nos ter garantido, a pretexto do mesmo edificante episódio, que o político Ricardo está cem por cento de acordo com a solução proposta à Câmara pelo advogado Vieira. Acreditem. É de políticos assim que a democracia precisa. São mais baratos. Geralmente mais eficazes. E, mal comparado, põem-nos em linha com a moda do dois-em-um que tantos problemas resolveu no mundo competitivo dos detergentes e champôs.
Não gosto de partilhar fraquezas íntimas. Mas podem crer que me sinto sempre emocionado quando a vida me revela, para lá de qualquer contestação ou controvérsia, que há, afinal, gente capaz de doar o seu escasso e desinteressado tempo à causa pública. Bem haja, pois, dr. Ricardo Vieira. Que o cansaço lhe seja leve. E que a forma despojada como interpreta as missões que abraça lhe dêem um dia a recompensa que merece.
Ironias à parte, diga-se em abono da verdade que o dr. Vieira não inaugurou propriamente nada de novo. Muitos outros, para além dele, andam desde há muito com um pé bem apoiado no lado da decisão e com o outro bem enfiado no estribo do interesse sobre o qual se decide. A novidade, no seu caso, é que pertence a um partido com queda para a retórica moralizadora da vida pública. Para já não falar, como é evidente, dessa pequeníssima insignificância que consiste no facto de integrar o órgão executivo de uma Câmara Municipal.
Dir-me-á, já sei, que não manda nem tem qualquer pelouro atribuído. Acrescentará, permito-me adivinhá-lo, que foi eleito por um partido da oposição. E arrematará, como é costume, com esse pequeno embuste que é dizer que nunca vota quando a consciência lhe diz que pode haver conflito de interesses. Compreenda. Uma vez que falamos de alguém que ocupa um lugar no órgão executivo de uma Câmara, nenhum desses argumentos pode ser levado a sério. Por uma razão tão simples quanto cristalina, para lá, naturalmente, de todas as outras que decorrem da lei. Nenhum eleito leva a sua consciência a votos. Esse é um território íntimo a que ninguém acede numa campanha eleitoral. O que quer dizer que nenhum eleitor vota com a alegre intenção de se fazer refém da consciência de quem elege. Pensar o contrário é ter da democracia a perversa ideia de que o voto não passa de um cheque em branco que pode ser usado ao gosto de circunstâncias ou de interesses de ocasião. Ora, acredite-se ou não, eu preferia pensar que o dr. Ricardo Vieira não interpretava dessa forma o exercício da política. O problema é que ele não ajuda.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O que faz falta é elucidar a malta

João Carlos Gouveia esperneia e estrebucha. Louve-se-lhe o alento. Outro, no seu lugar e com capacidade diferente de ler o futuro, já teria provavelmente batido com a porta. Mas não. Gouveia, o intrépido, não parece ser dado ao acomodamento da desistência ou da espera. Com ele o amanhã há-de vir sempre depois. Com ele o que está para vir há-de ser tratado quando um dia chegar. De modos que, se calhar em obediência ao fraternal princípio de que a gestão política da vida interna do PS costuma ser balizada pelos azedumes do passado os pelas armadilhas do presente, o líder em que praticamente ninguém acredita resolveu aplicar já o seu golpe. Engendrou uma depuração à antiga. Resistiu à maçada de explicar à opinião pública as razões ou a utilidade da coisa. E a curiosa convulsão que lhe fica a marcar o consulado vai passando nos media com a leveza das coisas mais ou menos irrelevantes. Veja-se bem ao ponto a que chegou este incrível PS. A demissão de um secretário-geral tem o impacto dos acontecimentos corriqueiros. E desautorização política de um líder parlamentar não merece muito mais do que a atenção que se usa dar às trivialidades. Notável!
Vamos lá a ver se consigo enquadrar a acontecência. Tenho por certo que não há um único cidadão desta terra que não saiba que João Carlos Gouveia é um líder com prazo de validade à beira da prescrição. Ninguém lhe credita mais do que um estatuto de capataz provisório. E ele próprio pareceu, a dada altura, andar contentinho da vida com o brilho da situação. Foi assim que se interpretou o anuncio da sua candidatura à Câmara Municipal de São Vicente. Foi por isso que ninguém ligou grande coisa à forma como passou ao lado de todos os debates parlamentares importantes. É por isso que se olha com naturalidade e acentuada indiferença para a extrema afabilidade com que a direcção nacional do PS cordialmente o destrata.
Não sei se é verdade o que se diz. Mas, como a generalidade das pessoas sabe, a ideia de que todos os líderes do PS não passam, salvo seja, de carne para canhão até à chegada de Bernardo Trindade já fez o seu caminho. A mais do que improvável ascensão de Carlos Gouveia à liderança é tida como herdeira legítima dessa espécie de fatalidade socialista. E a sua já adivinhável queda é também nela que provavelmente se filia. De modos que parece claro, apesar de tão sedutora tese não ter passado ainda pela necessária prova dos factos, que os líderes socialistas só estão autorizados ao expediente geral. Têm o poder de decretar demissões, mas só quando é grande a vulnerabilidade dos demitidos. E julgam-se no direito de decidir promoções, coisa que fazem se a resistência for escassa ou preferencialmente nula. Quanto ao mais, limitam-se a olhar, sem estados de alma escusados, para a inércia que segura as rédeas do partido. Sem o aborrecimento do planeamento estratégico. E sem o enfado da produção de ideias.
Só que agora a coisa parece diferente. Carlos Gouveia decapitou a máquina do partido. Fê-lo, ainda por cima a uma curta dúzia de semanas de um ciclo eleitoral que se antevê complicado. E, pasmemo-nos, ninguém consegue descortinar uma reacção digna desse nome. Como se fosse um líder com poder efectivo. Ou como se estivesse, mercê de um qualquer prodigioso milagre, a interpretar simplesmente a vontade colectiva do partido e dos seus eventuais eleitores.
Seja lá o que for, até por isso o episódio tem o estatuto de caso. Mesmo que traduza um mais ou menos ingénuo encher de peito de um líder de passagem. Ou que possa ser verdadeira a tese que por aí já circula dando conta da putativa existência de uma tramóia imobiliária tão ao gosto de uma certa escola política da RAM. Mas o que anda a faltar mesmo é aquela coisa aborrecida dos porquês. Que tal a graça de uma explicação? Podem crer que a malta agradecia.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A verdade oculta do anonimato

O senhor presidente do Governo brinda-nos hoje com o favor do seu pensamento sobre um tema cuja importância toca a transcendência. Sua excelência deu-se à maçada de dissertar sobre a candente questão das cartas anónimas. E, para não variar, resolveu emprestar à profundidade das suas reflexões o ar solene dos artigos doutrinários. O veículo escolhido para a divulgação de mais esta pérola do seu legado filosófico-político foi o jornal que mantém cativo da sua soberaníssima vontade. Não se atribua, no entanto, qualquer importância ao facto. O mais certo é que não passe de uma insignificância fortuita de cariz, digamos, circunstancial.
Como sua excelência não explica, não sou capaz de adivinhar nem a dimensão do fenómeno nem o teor do expediente. Mas há coisas que se percebem. A acutilância da escrita impressiona. A oportunidade do tema dá que pensar. O desassombro do verbo é uma seta apontada à nossa consciência colectiva. Aquilo, podem crer, não é um artigo. É um grito. Um estridente sinal de alerta. Que traduz o negrume dos enfados em que se remói a paciência do nosso quinzenal presidente. E nos revela o elevado critério das suas actuais prioridades.
O dr. Jardim entende que as cartas anónimas não passam de um miserável exercício de delação. Nem mais, nem menos. Importa-lhe nada que as cartas possam contar a verdade e nada mais do que a verdade. E interessa-lhe coisa nenhuma que possam ser graves os factos que relatam. Mas não senhor. O anonimato das ditas é que o tira verdadeiramente do sério. Como se fosse assim uma espécie de atestado de maldade inquinando o seu conteúdo pelos séculos adiante.
Não vale a pena, como é evidente, perder muito tempo com a hipocrisia patente das inesperadas sentenças de sua excelência. O que agora tão violentamente condena é precisamente o mesmo que um dia solicitou que fizéssemos. E aquilo que o cavalheiro tem agora como sintoma claro de uma espécie de doença social perigosa e larvar é rigorosamente o mesmo que, não há muito tempo, defendeu como sendo um mais que recomendável exercício de cidadania. Nada a fazer. O dr. Jardim é assim mesmo. As suas conveniências são firmes. Só os princípios são flutuantes.
Nem vale a pena, de igual modo, gastarmos demasiado tempo em conjecturas sobre as eventuais motivações da prosa doutrinária do nosso eterno, embora intermitente, presidente. É avisado, no entanto, que ninguém descarte a hipótese de, no fim de contas, sua excelência estar a lembrar-nos, urbi et orbi, da serventia das cartas anónimas. Compreendam. O homem não só é tortuosamente maquiavélico, como precisa urgentemente de tomar contacto com a realidade. Estamos em vésperas de muitas eleições. Há candidatos ainda por escolher. E esta coisa de passar a vida em excursões quinzenais alguma mossa há-de deixar na qualidade da informação que lhe chega.
Não obstante tudo isso, prefiro levar a sério desta vez as súbitas dores do nosso companheiro de quase todas as horas de quase todos os dias dos últimos trinta e tal anos. Para expressar o entendimento de que o recurso ao anonimato diz muito mais sobre a natureza do regime do que sobre o carácter de quem o adopta. Uma terra que discute mais as intenções putativas de quem escreve do que a substância do que é escrito legitima a utilização da identidade escondida. A perversa punição social de quem reivindica o cívico direito de dizer que o rei vai nu dá força necessariamente ao caminho da clandestinidade. Donde, senhor presidente, o anonimato que um dia incentivou e agora condena não é, como diz, uma coisa de bufos. É, isso sim, um instrumento de defesa. Pior. É uma perversa e triste consequência do regime de que é chefe. E eu sei que tudo isso já lhe foi dito na cara.
Bernardino da Purificação

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A consequência da recaída

O dr. Ricardo Vieira é com certeza uma pessoa estimável. Tem um passado de afirmação de convicções. Construiu um percurso político fundado na afirmação de valores. E quando entendeu já ter dado o bastante ao peditório exigente da política regional, arrumou os papéis e foi tratar da vida. Nada a dizer. É refrescante saber que nem todos estão condenados à política como meio de subsistência.
Um certo dia, porém, o dr. Vieira teve uma recaída. Pensou provavelmente que o seu ofício de advogado era compatível com as exigências da política. E como todos os partidos, à excepção do PSD, têm problemas de recrutamento de quadros, acabou por ceder ao apelo do regresso. Resultado: a política regional recuperou o grato privilégio de voltar a contar com a valia do seu prestimoso contributo; e o dr. Vieira aproveitou para casar, da forma mais mitigada que julgou possível, a vida profissional que tem com a inclinação política que nunca deixou de ter. Nada a apontar. A não ser talvez, e hão-de perdoar-me o sentimentalismo da nota, a emoção que não calo diante do quadro de uma vocação recuperada.
Enquanto político, o dr. Ricardo Vieira é actualmente vereador na Câmara Municipal do Funchal. Participa nas reuniões do órgão executivo camarário. Tem, como toda a vereação, uma palavra a dizer sobre licenciamentos e demais expediente da vida da cidade. Dispõe, por isso mesmo, de informação privilegiada. E se é verdade que a maioria da Câmara passa bem sem a graça do seu voto, o facto é que ele anda por lá, ouve e faz-se ouvir, acede aos documentos, e tem portas abertas para tudo quanto seja corredor ou gabinete. Nada a objectar. Seria insuportável saber que um eleito se sentia inibido de exercer em liberdade o mandato outorgado pela democracia e pelos munícipes.
Para além de pessoa estimável e político recaído, o dr. Vieira é também advogado. Tem um nome dos mais sonantes da praça. É, ou foi, examinador de estagiários e escrutinador eleito da conduta ética dos colegas. É sócio de um escritório conhecido, ecléctico, e com ligações íntimas ao poder político regional. E, por consequência, defende clientes e representa interesses. Nada a opor. É da natureza das coisas que os advogados façam seus os interesses dos seus clientes.
Ou seja, desde que decompostas e individualmente consideradas, nenhuma das versões do dr. Vieira parece ser merecedora do mais pequeno reparo. Pelo menos, para quem se limite a ver a superfície da sua imagem pública. O político recaído merece consideração. O representante de interesses é credor de respeito. O único problema que por vezes se nota é a confusão que nasce da mancebia em que vivem o defensor esperado do interesse dos munícipes e o advogado que defende, e faz seus, interesses particulares.
Pensa o dr. Vieira que a nódoa se apaga se se abstiver de votar nos casos em que a lucrativa esquizofrenia das opções que toma o coloca nos dois lados do processo decisório. Engana-se, como é evidente. Ele foi eleito para tomar posição e não para se abster. E o facto de haver um laivo de decoro (ou será de hipocrisia?) a conduzi-lo à abstenção só serve para atestar a grosseira incompatibilidade em que reiterada e gritantemente incorre.
E o líder do PP não tem nada a dizer?
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A especulação e o cheque em branco

Provavelmente, nunca saberemos o que é que o presidente da Assembleia Legislativa foi dizer ontem ao primeiro-ministro. E, do mesmo modo, é pouco provável que um dia venhamos a saber o que é que Miguel Mendonça ouviu de José Sócrates. O facto de o encontro ter decorrido a sós há-de desaconselhar com certeza as fugas de informação. E mesmo que os circunstantes inesperados deste improvável tête-a-tête político venham a partilhar com os seus próximos o teor da conversa havida, é pouco expectável a deselegância da inconfidência pública. A menos que a falta de decoro faça o número do costume. Ou que uma certa forma de estar na política consiga sobrepor-se às regras da decência. O facto, ainda assim, merece ser tratado em sede de comentário político. Apresenta um valor facial susceptível de interpretações políticas diversas. E apesar de amanhã poder ser já uma coisa do passado, reclama hoje uma atenção que não lhe deve ser negada.
Do quase nada que se sabe, avulta desde logo uma primeira observação: o encontro foi pedido pelo presidente do Parlamento dos madeirenses. O que quer dizer que assumiu uma dimensão política e simbólica muito particular no contexto das relações institucionais existentes entre os órgãos de soberania e os órgãos de governo próprio da Região - foram os madeirenses, e não o representante do poder político da RAM, que pediram a graça do encontro com o primeiro-ministro do país; foi a voz da vontade soberana dos eleitores da Madeira que quis ser ouvida em S. Bento, e não simplesmente a da maioria que nos governa. Muito interessante, sem dúvida alguma. O problema é que a dita vontade soberana madeirense não soube, não sabe, nem nunca há-de saber por vias limpas o que é que o dr. Mendonça resolveu ir dizer, alegadamente em seu nome, ao primeiro-ministro de Portugal.
A democracia representativa é assim mesmo, dirão os formalistas e anuirão acriticamente os ingénuos. Peço desculpa, mas não me parece que seja. Não está escrito em lado nenhum que a representação deva dispensar a apresentação de contas. Nem me parece aceitável que, em nome da democracia, alguém se atribua o direito de apropriar-se da vontade popular com a ligeireza de quem usa um cheque em branco. Sob pena de, no caso em apreço, podermos cair na tentação de pensar que, ao contrário do que é subliminarmente sugerido, Miguel Mendonça se limitou a ir a S. Bento cumprir uma agenda estritamente partidária, porém, à boleia das funções supra-partidárias que desempenha.
Não sou adepto da inconfidência. Esse é o expediente dos cínicos e dos bufos. Mas tenho o direito de pensar, a título de direito de cidadania, que me é devida uma explicação, ao menos em forma de comunicado conjunto ou nota de imprensa (impressiona-me que o dr. Mendonça não se sinta obrigado a informar os seus pares do parlamento). Mas como a regra do silêncio impera, ninguém levará a mal que, especulando um pouco, admita um de dois cenários: ou Jardim está realmente à rasca e já não consegue gerir o beco sem saída para onde atirou as relações do seu governo com o governo da República; ou Mendonça pediu a audiência a Sócrates na esperança secreta, mas entretanto frustrada, de que este o mandasse redondamente à fava. Como estamos em vésperas de eleições, e tendo em conta o absurdo e malcriado cadastro das relações (não) existentes entre o dr. Jardim e o senhor Pinto de Sousa, nenhuma das hipóteses se afigura propriamente inverosímil. Muito pelo contrário. A maçada é que nenhuma consegue ser melhor do que a outra.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A certeza efémera da incerteza

Com a precisão cirúrgica de quem já tem a estratégia pronta, lá seguiu o recado para o veículo do costume.
O recado. Ao contrário do que chegou a pensar-se, a cadeira que o PSD tem mais ou menos cativa no Parlamento Europeu pode servir de lugar de recuo para a resolução de uma disputa que já embaraça. Refiro-me, é claro, ao alegre e insano fratricídio em que andam envolvidos os senhores doutores Cunha e Silva e Miguel Albuquerque.
O veículo. Apesar das fitas ostensivamente públicas, o DN é a via privilegiada de divulgação das inconfidências anónimas feitas pelo dr. Jardim. Sempre que é preciso agitar as águas, o patrão da Quinta Vigia acciona os canais que tem abertos com o velho centenário dito independente. A vida da imprensa é dura. E há acordos, formais ou informais, a que ninguém consegue resistir.
Traduzindo tudo isto por miúdos, temos então que Sérgio Marques poderá estar de regresso à base. Ou para se reformar da política. Ou para uma tranquila travessia no deserto. Ou para baralhar as contas da sucessão. Correlativamente, temos também que Miguel Albuquerque pode começar a despedir-se da sua equilibrista condição de candidato preferido do povo mas execrado por Jardim, e que João Cunha e Silva pode começar a pensar fazer o mesmo relativamente à sua excelentíssima condição de candidato preferido por Jardim mas execrado pelo povo. Acreditem. A política pode revelar-se um tormento para quem aceita depender exclusivamente dela. Basta que a falta de tacto e de tino opere a transformação de um delfim de olhos esbugalhados para as delícias do futuro num abcesso que é preciso extirpar.
O que acontece, em suma, é que Jardim está na fase da agitação e dos recados. Emitindo mensagens propositadamente equívocas com o fito de abalar as certezas que uns tolos ensimesmados tinham por totalmente adquiridas. Voltando a chamar a si a condução da vida interna do seu partido, depois do ócio prolongado que preguiçosamente se atribuiu. E dizendo, no fundo, a todos os indiscutíveis que isto, afinal, não vai sem uma boa (ou má) discussão. Uma maçada, insisto. Pelo menos, para aqueles que só sabem perder-se na contemplação do poder improvável que o destino lhes colocou nas mãos.
Temos assim que a única certeza que actualmente se pode ter é que chegou o tempo do fim das certezas. Nada mau. Mesmo que daqui a semanas ou meses venhamos a verificar que tudo vai continuar mais ou menos na mesma, considero refrescante que o dr. Jardim tenha resolvido brindar-nos com esta aparência de novidade. Obrigado, pois, dr. Jardim. Numa terra em que a política só se move à superfície, é um verdadeiro luxo experimentar o direito de imaginar uma mudança. Quanto mais não seja pela nota de precariedade que, espero-o ardentemente, pode operar o milagre de fazer descer à terra o umbigo prepotente e insuflado de alguns dos nossos mandantes.
Mas a par do agradecimento genuíno e sincero que acabo de formular-lhe, não resisto, dr. Jardim, à expressão de uma modesta e desinteressada opinião. Vosselência não precisa de candidatar um peso-pesado como o dr. Sérgio Marques à Câmara do Funchal. Fazê-lo seria demonstrar medo da concorrência. Mas pior. Se porventura o fizer (coisa em que não acredito), nunca conseguirá demonstrar que os votos do Albuquerque são todos, afinal, integralmente seus (como vê, sou sensível às suas agruras d'alma), como Vexa mui justamente reivindica. Olhe. Porque é que não pensa, ao invés, exportar para Bruxelas esse magnífico expoente do nosso produto regional bruto que é o senhor seu vice. As vantagens seriam pelo menos duas. Por um lado, o dito cavalheiro poderia completar a formação humana e política que manifestamente ainda lhe falta. Por outro, vosselência sempre teria um rosto amigo com quem partilhar a fria solidão das suas excursões quinzenais europeias.
Como é evidente, admito e humildemente aceito que possa não estar para aí virado. Se for esse o caso, deixo-lhe, com amizade, ainda mais uma dica tão desinteressada quanto construtiva. E porque não pôr o Sérgio, mais o Cunha, mais o Albuquerque e mais o Tranquada e o Pita todos no governo? Veria que a selecção natural resolveria o problema da sucessão de vosselência. A menos que esse seja ainda um assunto que não lhe tira o sono. Se assim for, já cá não está quem falou. De qualquer modo, não precisa de agradecer.
Bernardino da Purificação

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O elogio do indício

Indício. A palavra, convenhamos, tem uma sonoridade interessante, sedutora. E o facto de poder rimar com vício dá-lhe um paladar tentador, quase doce. Ora experimentem lá dizê-la como quem procura um sabor. Se o fizerem, notarão com certeza que ela tem a textura suave de um sussurro. Porque é ciciada. Porque é sibilante. Uma tentação, em suma. Tanto para quem a diz, como para quem a ouve. O que há-de explicar, presumo, a enorme popularidade que lhe deram os media nas últimas duas ou três semanas. Tivemos indícios ao ritmo de meia dúzia por dia. Nos telejornais. Nos órgãos da imprensa. Nas conversas de rua.
Acredito que o fenómeno há-de ser um dia estudado. A forma empolgada, porém absolutamente inconsequente, com que o país se agita e comove com a diária revelação de indícios só pode ser um caso de estudo. Não sei é se vamos gostar das conclusões. Porque isto de substituir os factos pelas suas indiciárias e eventuais possibilidades tem muito que se lhe diga. E porque isto de passarmos a vida a trabalhar sobre hipóteses há-de levar-nos um dia a qualquer lado. Ainda assim, gosto. Nada como um indício promissor e suculento para trazer animada a malta. Do que não gosto é desta espécie de separatismo cívico que nos afasta do festim. Como se em matéria de indícios o rectângulo tivesse mais direitos do que nós.
O licenciamento do Freeport é um caso suspeito. Grande coisa! Por cá, sabemos que a Câmara do Funchal tem andado envolvida em negociatas várias, no dizer sabedor do senhor vice-presidente do governo. Do mesmo modo que ouvimos falar há anos dos andares recuados e dos quinhentos, dos edifícios de volumetria excessiva e cércea ilegal, dos sinais exteriores de fortunas nunca explicadas, das chorudas avenças concedidas a amigos a pretexto de coisa nenhuma, das obras que mal passam no critério da utilidade, mas que passam sempre por cima dos orçamentos iniciais, dos terrenos que se traficam debaixo da mesa por empresas que aparecem e desaparecem levando consigo as provas e os rastos, das quintas que se compram por somas avultadas depois de passarem pelas mãos asseadas de meia dúzia de notáveis do regime, dos dinheiritos, enfim, que andam por aí em notas de banco ao arrepio das regras mais elementares da transparência.
Não obstante tal quadro, poucos se indignam e, pelos vistos, quase ninguém se comove. Como se isso por cá fosse coisa banal. Como se por cá nos tivéssemos habituado a conviver sem dramas com os nossos freeports, com os nossos savoys, com as nossas quintas escuna. Ainda assim, consigo retirar do facto algum conforto. Nem tudo está perdido. Nós também temos os nossos indícios. A única pequena diferença em relação ao rectângulo reside no escabeche em que os cozinhamos. Nós por cá somos mais dados à paciência do lume brando. Se calhar, por causa do regime que nos autonomizou os hábitos e regionalizou os costumes.
Bernardino da Purificação
Post scriptum
Ainda à volta dos indícios. Naquela coisa indigente que faz publicar na revista do DN, o inefável dr. Cunha informou-nos que Dickens foi um dos autores que leu na infância. Não o invejo. Ou foi mais que precoce. Ou é um super-sobredotado. Ou teve uma infância demasiado prolongada. Ou tem uma relação complicada com a verdade e pouco séria com o passado. Ou está com problemas, igualmente precoces, de memória. Ou é, pura e simplesmente, um caso desavergonhado de iliteracia envergonhada. Mais. Na sua listinha de autores pretensamente lidos, tem o atrevimento de pôr no mesmo saco, comparando-os, Crichton e Fleming, Dan Brown e Le Carré. Que se tenha esquecido de Chandler e de Stout já não é coisa pouca. Mas misturar o que não pode ser misturado só pode ser indício de: a) o cavalheiro não sabe o que diz; b) lê títulos mas não lê livros; c) a literatura, para ele, tem serventia idêntica à dos parques empresariais às moscas; d) não tem um pingo de vergonha na cara; e) todas as hipóteses precedentes são verdadeiras e acumulam-se na pessoa do indivíduo em questão. Como é óbvio, a lista dos indícios não acaba aqui. Pode crer o dr. João que até o Dan Brown é capaz de acrescentar-lhe mais alguns.