quarta-feira, 18 de março de 2009

O trabalhinho do dr. Gama

Os maldosos vão ter de engolir a desconfiança. Pensavam, se calhar, que o dr. Jaime Gama viria este ano ao Chão da Lagoa. Enganaram-se. Redondamente. Ele vem, sim senhor, mas agorinha já que mais tarde era capaz de dar um bocado nas vistas. Que diabo. O dr. Gama tem um pingo (aposto que é mesmo só um) de vergonha na cara. Se viesse ao Chão da Lagoa cairia certamente o Carmo e a Trindade. Vindo agora desarma os maldizentes. Ora digam lá se isto não é mesmo coisa de gente esperta.
O dr. Jardim disse há dias que do continente só era bem vindo quem viesse trabalhar. Como já sabia da visita do sócio número um do seu cada vez mais restrito clube de fãs, tenho como certo que o dr. Gama vem preparado para dar o corpinho (salvo seja) ao manifesto. Compreenda-se. O dr. Jardim está cada vez mais exigente. De tal modo que onde antes se resolviam as angústias do inquilino das ditas com meia dúzia de elogios, agora é necessária uma visita, uma mão cheia de recepções, as primeiras páginas que forem necessárias, umas quantas entrevistas de exaltação das virtudes democráticas do regime e do seu chefe, tudo isso, como é evidente, devidamente condimentado com o tempero da desvergonha. Entretanto, lá no continente, o eng. Sócrates há-de corar de arrependimento e porventura de inveja. Ele que aprenda. Não é para todos ser recebido na Madeira como o dr. Gama vai seguramente ser.
Enternece-me, devo dizer, o enlevo das relações simpáticas entre os órgãos de soberania e os órgãos de governo próprio da Região. Desde que devidamente salvaguardada a esfera de competências de cada um. E na óbvia condição de serem democraticamente respeitadas as diferenças de pontos de vista que possam separar conjunturalmente os dois lados. Note-se. A tensão autonómica não pode ser tida como um drama da pátria. Pelo contrário. Se devida e responsavelmente enquadrada, estou certo de que ela pode, ao invés, constituir um importante impulso criador do desenho do nosso futuro colectivo. Há, todavia, um porém que nenhum político a sério tem o direito de esquecer. As boas relações têm de assentar numa base sólida de respeito e reciprocidade. A não ser assim, a desconfiança instala-se, o diálogo vai-se, e, como tradicionalmente acontece em momentos de azedume, quem se lixa é sempre o mexilhão, se vosselências me permitem a crustácea maresia da expressão plebeia.
Não quero lembrar coisas do passado. O que lá vai, lá vai, e não se fala mais nisso. Mas juro que ainda não percebi como, e por que artes, é que o dr. Jardim conseguiu subir tanto na tabela taxonómica do dr. Gama. Arrancou do fundo mais fundo que imaginar se possa. Mas agora já se senta onde se sentam os eleitos.
Para os mais esquecidos recordo que na mente preclara do dr. Gama já não há uma sombra sequer do bokassa de tempos idos ou do défice democrático de má memória. Onde antes havia um ditador há agora um ilustríssimo democrata. E o patriota imenso que o dr. Jardim obviamente agora é nada tem a ver com o famigerado separatista de outros tempos. As coisas mudaram, em suma. Mudou evidentemente o dr. Gama. E mudou, pelos vistos, também o dr. Jardim. A maçada é que ninguém percebeu em que ponto da política lusa se produziu o clique que deu origem a tão acentuada mudança. Bora lá perguntar ao dr. Gama quando e como foi? Ao dr. Jardim não vale a pena que ainda é capaz de nos fazer um manguito, mandar bardamerda ou levar a tribunal. Mas já que o dr. Gama é um senhor polido e paciente, e uma vez que preside ao órgão de soberania que o seu inesperado ídolo, em vistosas cuecas, mandou um dia àquela parte, há-de fazer-nos certamente o favor do esclarecimento conveniente. Mas note-se. Não me refiro ao esclarecimento que pessoalmente lhe convenha. Refiro-me ao outro. Àquele que a seriedade não dispensa.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 16 de março de 2009

Tudo como dantes

Gente amiga e obviamente crédula assegura-me que foi praga. Uma semana inteirinha impedido de escrever, explicaram, só pode ser coisa ou do mau olhado ou das artes clandestinas de vão de escada. A menos que me tenha vacilado a vontade, o que não foi (ainda) manifestamente o caso. Coisa impressionante. A vida da gente nas mãos electrónicas de sistemas high tech. Mas há, não obstante, quem prefira a irracionalidade das explicações do oculto.
Diga-se, no entanto, que nada se perdeu. A prosa que agrada a uns quantos é a mesma que uma imensidão de outros detesta. E, para além disso, a vida política madeirense anda cada vez mais parecida com uma telenovela brasileira - os episódios acontecem todos os dias, mas ninguém perde rigorosamente nada quando se salta uma semana.
É verdade que circularam por aí notícias sobre as (más) contas do PSD. Ao que parece, há uma relação não documentada de transferência de verbas entre o partido institucional da Madeira e a Fundação Social Democrata. So what? O fenómeno é novo? Alguém vai investigá-lo? Podem as autoridades judiciárias da Região pegar a sério no fio que a entidade fiscalizadora das contas dos partidos conseguiu agora inconsequentemente levantar? Sinceramente não creio. As prioridades são outras. E, a bem dizer, ninguém está para grandes maçadas.
É verdade também que o grupo parlamentar do PSD resolveu puxar o tapete a dois dos seus deputados. Um dia qualquer de um futuro que não se antevê próximo, vão ambos prestar contas à Justiça por actos praticados nas actividades que antecederam as actuais funções parlamentares que desempenham. Mas isto, convenhamos, nem merece ser notícia. Numa democracia normal não se perderia tempo a discutir o assunto. As contas que um deputado deve aos costumes por actos não relacionados com a vida parlamentar são exactamente iguais às de outro cidadão qualquer. Nem mais, nem menos. E não há regime de imunidades sério que as possa diferenciar.
Concedo, no entanto, que o episódio pode ter ingredientes suculentos. Com promessas interessantes no que diz respeito aos seus desenvolvimentos futuros. Mas com sugestões, também elas curiosas, sobre as putativas razões que lhe terão estado na origem. Como a malta da política adora matar o ócio consumindo as meninges em teorias da conspiração, há já quem jure, sabe-se lá com que intenções, que a singular acontecência deve ser tida à conta do alegre fratricídio em que andam esgadanhados alguns dos suspeitos do costume. Será?
Quanto ao mais, meus amigos e prezados inimigos, isto não ata nem desata. A crise resvala na couraça erguida pelo trabalho de casa do nosso dr. Cunha. O dr. Jardim continua a fazer mistério sobre os candidatos às autárquicas na esperança de que ao dr. Albuquerque se lhe estale o verniz. O líder transitório do PS anda por aí a fazer não se sabe bem o quê. O dr. Vieira prossegue a nobre e casamenteira cruzada que consiste em amancebar as volumetrias do dinheiro com os interesses dos munícipes. E o Marítimo continua a levar-nos o dinheirito nesta época de verbas curtas, salários em atraso e concorrência desleal. Ora, perante a incandescência parda de tão previsível quadro bordado e pintado em tons de pastel não é a ausência de uma semana que faz perder o fio à meada. Maçadora, isso sim, é por vezes a dependência do high tech. Ou das artes ocultas em esconsos vãos de escada, vá lá a gente saber...
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 9 de março de 2009

A humildade confessada

Afinal, nem tudo está perdido. Li o texto de ontem do dr. Cunha e reconciliei-me com a política. A sua franqueza tocou-me. O exercício de humildade que fez sensibilizou-me.
Podem achar surpreendente. Mas acreditem que é verdade. Sem pruridos tolos nem subterfúgios escusados, o senhor nosso vice fez questão de informar-nos que, em regra, a ascensão ao poder tem tudo a ver com o acaso e nenhuma relação com o mérito. Mais. Ciente da incredulidade com que as suas palavras seriam acolhidas, ilustrou a tese com exemplos. De Barroso a Santana. De Guterres a Sócrates. De Balsemão a Cavaco.
Saibam os cépticos que o seu exercício de modéstia foi ainda mais longe. Ao ponto, imagine-se da injustiça auto-infligida. O facto de não ter cedido à tentação de incluir o seu nome na lista que elaborou é algo que só o credibiliza e lhe atesta a honra. Não significa, estou certo disso, que exclua a política regional e o seu caso particular da bondade da tese. O que aconteceu, aposto, é que a modéstia há-de ter falado mais alto - emparceirar ao lado de tanto peso-pesado é coisa que seguramente não passa pela humilde cabeça do dr. Cunha. Nem mesmo a título de acidente do acaso.
Se bem percebi a intencionalidade da prosa, o nosso improvável vice terá pretendido com ela visar alguém em particular. Compreende-se. O dr. Cunha pode não passar de um governante acidental. Mas dá para perceber que não é homem de atirar palavras ao vento assim como quem atira milhões ao mar. Resiste, é verdade, à cruel tentação de identificar o seu alvo. Porém, o político frontal que sabemos que é não podia ser mais directo - aponta clara e inequivocamente para um atrevidote qualquer que anda para aí a dar-se ao desmazelo de perder tempo e cabelo planeando estratégias de tomada do poder. Bravo, dr. Cunha. Ficaria mal comigo mesmo se não lhe relevasse a coragem, o tacto e o sentido de oportunidade. A coragem porque vosselência não treme quando a consciência o interpela a desmascarar certas jogadas. O tacto porque, como toda a gente percebe pela farta e leonina cabeleira que laboriosamente penteia, vosselência tem a prudência de se limitar a perder tempo. E o sentido de oportunidade porque de facto chegou a altura de se denunciar e fazer abortar o descaramento incompetente de certo tipo de manobras.
Tome cuidado, porém, dr. Cunha. Não leve excessivamente à letra a tese que desenvolve. E atenção ao princípio de Peter. Acredite que uma carreira bem sucedida exige muito mais do que a simples garupa da sorte. Sobretudo em política. Pode crer que as pessoas que votam um dia percebem o logro em que caíram. Mas isto, é claro, só vale para quem vai a votos. Não para quem galhardamente escolhe a sombra protectora de um guarda-chuva aberto ao acaso.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 6 de março de 2009

O planeamento sem plano

Tropecei hoje ao pequeno-almoço num pensamento complexo. E pasmei. Tanto pelo facto de dar por mim enredado em pensamentos. Como pela natureza intrínseca dos ditos. A nossa mente, acreditem, é um instrumento surpreendente. E eu, deslumbrado, não posso deixar de exaltá-lo.
Note-se. Não foi propriamente este o produto matinal da insólita excitação dos meus fatigados neurónios. Nada disso. O conteúdo do intróito não é mais do que um efeito colateral desse meu irreprimível estado de pasmo perante a verificação de como duas pequenas notícias aparentemente desligadas conseguem explicar-nos que o método preferido de quem nos governa é governar quase sempre com ausência de um método. Percebe-se a ideia. Só a irracionalidade é capaz de suprir o uso da razão.
Passemos então aos factos. Em virtude de uma notável conjugação astral, a que é com certeza alheia tanto a vice-presidência como o nosso sagaz vice, a edição de sexta do DN trouxe-nos à memória duas das expressões mais notáveis do nosso tenaz planeamento sem plano. Em notícia de página inteira, voltamos a ter contacto com a marina do Lugar de Baixo. Mais adiante, mas em forma de notícia curta, lá voltámos a ter novas desses equipamentos notáveis que a modéstia de quem manda singelamente apelida de parques empresariais.
Quanto à marina, e a avaliar pelo que se lê, as perspectivas não podem ser mais promissoras. A zona balnear adjacente é capaz de voltar a abrir quando chegar a estação dos banhos. A escarpa lateral que a encima vai a caminho da consolidação. E a malha de aço que rezamos que a segure está a dias de enfrentar o teste pesado dos pedregulhos que ocasionalmente dela despencam. Sinceramente gostei do que li. Nada como as boas notícias para nos fazer esquecer o negrume das más. E nada como a antevisão fabricada de um futuro aparentemente radioso para nos levar a encerrar no saco dos esquecidos o desperdício dos milhões atirados ao lixo.
Não sendo tão imediatamente promissora, a notícia sobre os parques do nosso vice-presidencial contentamento não deixa de acenar também para o brilho dos dias que estão para vir. É certo que nada nos diz sobre a erva que cresce ou sobre as cabrinhas que pastam. Mas, ao anunciar-nos uma linha de ajuda directa à edificação de armazéns, leva-nos ao vislumbre de um futuro laborioso de parques pejados de empresas a mexer. Gosto da sugestão. Já chega de parques empresariais deserto de empresas.
A maçada, num caso e noutro, é que não consigo travar as perguntas que me acodem. Custa-me perceber, por exemplo, que urgência ditou a construção frenética de parques sem o prévio envolvimento das associações empresariais. Do mesmo modo que me faz espécie que se tenha desatado a expropriar terrenos, a edificar infra-estruturas e a fazer inaugurações sem que ao menos uma alma caridosa se tivesse lembrado da necessidade simultânea e óbvia de se desenhar um programa de ajudas atractivo para as empresas. Pelo vistos, só meia dúzia de anos depois de concluídas as obras de construção, e nalguns casos já de manutenção, é que alguém percebeu que é preciso muito mais do que o simples toque de caixa da vontade de um voluntarista qualquer para que um empresário aceite alterar drasticamente as rotinas e a vida da sua empresa.
Mas o que me custa mesmo aceitar é que se tenha construído uma marina e um complexo balnear numa zona duplamente crítica sem a prudência de um estudo prévio. De dinâmica costeira nem se falou. E, conforme reconheceu um especialista da UMa, da instabilidade da falésia também não. Porém, gastou-se dinheiro. Uma verdadeira fortuna. Em obras e em obras de reparação das obras. Tudo isto porque um indivíduo qualquer se apanhou com o poder de gerir como lhe dá jeito o dinheiro dos contribuintes. E porque ninguém lhe ensinou que nada de durável se constrói no meio natural sem o estudo prévio das circunstâncias envolventes. Mas não há problemas. A gente depois paga.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 3 de março de 2009

Enriquecimento sem causa

Na falta de melhor tema, apetece-me falar hoje desse curiosíssimo fenómeno que dá pelo quase misterioso nome de enriquecimento sem causa. Não sei quem foi o autor de tão inspirada designação. Mas como as palavras valem sobretudo por aquilo que dizem, cheguei a considerar a hipótese de estarmos perante um místico devoto das coisas que se explicam a si próprias. Julgar que alguém pode adormecer pobre e acordar rico sem precisar de explicar o feito equivale a acreditar, pia e militantemente, na força prodigiosa dos milagres. E presumir que um efeito pode dispensar a carambola de uma causa só pode remeter-nos para um estado de gnose que, convenhamos, não é deste mundo. A menos que no lugar de uma crença tenhamos somente a ironia suave de um gozão. Ou que em vez de um exercício de elevação gnóstica tenhamos simplesmente as palavras económicas de um legislador poupado.
Como é evidente, inclino-me mais para esta última hipótese. Não por duvidar da força imponderável da intervenção do acaso. Nem por recusar a eventualidade de a roda da fortuna poder ser movida também pelo intangível. Apesar do racionalismo céptico que me instruiu, não tenho nesse domínio grandes dores ou preconceitos de natureza filosófica. Porém, por mais que me esforce, tenho de confessar a imensa dificuldade em elevar-me acima do terreno prosaico das causas. Sobretudo quando o assunto é dinheiro.
Não tenho qualquer problema com a riqueza dos ricos. Ela não me perturba nem um bocadinho, a despeito de ter lido o que devia ter lido sobre a chamada acumulação primitiva do capital. Sou, é claro, sensível à desigualdade e hipersensível à ganância. Incomoda-me a primeira. Desprezo a segunda. Não creio, no entanto, na bondade ideológica ou na legitimidade política do igualitarismo aplicado a martelo. Nem tenho pachorra para o peditório desgraçado dessa espécie de doença social que olha o sucesso material dos mais empreendedores ou afortunados com permanente hostilidade e sistemática desconfiança. Confesso, porém, que tenho um problema com a riqueza repentina gerada pela obra do poder e pela graça de quem manda. Faz-me urticaria. Tira-me do sério.
Sei que não se deve acusar sem provas. Mas há indícios que interpelam. Do mesmo modo que há sinais exteriores que nenhum sistema sério de Justiça deveria poder ignorar. De modos que, mesmo não querendo agitar suspeitas, recuso fazer de conta que não sei que há no poder quem tenha chegado à política muito antes da carreira profissional que nunca teve ou da fortuna que agora aparentemente tem. Admito, mas só em tese geral, que a singularidade do facto pode não andar de mãos dadas com a palavra desonestidade. Convenhamos, no entanto, que uma situação assim, mais do que escancarar as portas à dúvida e abrir caminho à suspeição, dá de mão beijada ao abuso o caldo que o pode fazer crescer.
Já vejo os vigilantes do costume arregimentados para a arenga da praxe. Se não há provas não há culpas. Se não há culpas não pode haver culpados. Depois, como a esperteza saloia lhes dá vontade de rir, hão-de brindar, divertidos, à falácia do axioma. Mas como estas coisas são sérias, vou retaliar com uma sugestão. Concedamos à classe política a possibilidade de justificar a qualquer momento a proveniência dos seus rendimentos. Crie-se para tanto uma entidade fiscalizadora na dependência directa do Tribunal Constitucional. E proceda-se como faz o fisco aos contribuintes. Bastava isso. Todos os nomes para dentro de um sistema informático. Um computador sem partido nem alma a sortear os felizes contemplados. E as sanções devidas a quem fosse culpado de enriquecimento literalmente sem causa. Tenho para mim que um tal dispositivo resolveria muita coisa. E a nossa relação com a política ficaria com certeza mais sã.
Bernardino da Purificação

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Uma queda a pedido do chefe

O dr. Miguel Mendonça resolveu descer à terra. Discretamente. Sem pré-aviso. De uma forma tocantemente inesperada. Se calhar, digo eu, não resistiu à saudade das suas raízes telúricas. Ou então, hipótese igualmente aceitável e sem dúvida legítima, cedeu por momentos à agonia das vertigens que lhe desafiam o equilíbrio. Não é caso para menos. Isto de passar a vida em majestáticas alturas há-de entontecer, presunção minha, até as naturezas mais fortes e blindadas.
Em abono da franqueza, devo confessar que outras explicações mais cínicas me chegaram a interpelar a mente. Não foi culpa minha, sossega-me a consciência. Mas como o pensamento é um mistério que não se controla, dei comigo a contas com um braçado de razões, nem todas simpáticas, potencialmente explicativas deste inesperado regresso do dr. Mendonça lá dos ares que frequenta.
Não vou, obviamente, aqui revelá-las todas. Assusto-me facilmente com o lado mais negro das ideias que me chegam. E, a bem dizer, ainda me sinto mal refeito do enjoo que muitas das explicações putativamente alternativas me provocaram. Não resisto, ainda assim, a partilhar convosco que me ocorreu - veja-se bem por onde andou, revel, a vaguear-me o pensamento - que o dr. Mendonça entendeu, pura e simplesmente, juntar-se, também ele, à estratégia de ocupação do espaço opinativo mediático, decidida um dia destes pelo espírito sagaz do nosso sempiterno dr. Jardim.
Faz sentido. Por culpa exclusivamente própria, Jardim é nesta altura um general rodeado de soldados rasos. Os escassos oficiais militantes andam a tratar da vida. E poucos são aqueles que trazem aos ombros divisas ou galões de mérito merecido. Valha a verdade que a solidão do líder convive tranquilamente com a penúria da situação. Só precisa da companhia atenta do silêncio. E como o zumbido das vozes intermédias é quase sempre uma penosa maçada para o providencialismo populista, ao dr. Jardim basta-lhe o ruído do assentimento ou do aplauso. O problema é que às vezes há eleições. E como estas assentam em dispositivos comunicacionais mais ou menos complexos, é preciso pôr gente a falar. Quanto mais não seja para encher espaço.
É claro que, tratando-se do dr. Miguel Mendonça, a gente espera sempre que, para além de falar, ele seja capaz de dizer qualquer coisa. Mesmo quando escreve à civil, como é o caso do artiguelho que hoje publicou no espaço de opinião do DN. Ou que a finalidade da escrita se limite à urgência de encher papel, ou se fique pela necessidade de disfarçar o militante alheamento partidário que a generalidade da fidalguia laranja já nem se dá à maçada de esconder.
Não quero parecer cruel. Mas aquilo é uma decepção e uma oportunidade perdida. Pior. É uma página inteira de coisa nenhuma. Não há uma ideia, um pensamento, uma reflexão. Muito pior. Nem há sequer a mais leve tentativa de nos dar as explicações que nos deve. Nada nos diz sobre o seu recente encontro com o primeiro-ministro. Passa ao lado do ambiente de controvérsia e descrédito em que vive envolto o parlamento. Não dedica uma única palavra à Autonomia. Nem é capaz de situar a Madeira no quadro da crise que assola o país, a Europa, o mundo.
Ou seja, o dr. Miguel Mendonça desceu literalmente à terra. É presidente do parlamento, mas armou-se em cabo eleitoral de trazer por casa. Escreve em média uma vez por ano, mas nada de relevante nos trouxe. E em vez de se manter à altura do estatuto que tem, optou por aterrar no terreno pequenino das coisas óbvias, no chão rasteiro do recado interno e da crítica insinuada, no espaço da pequena intriga doméstica e de todas as tricas afins, no campo estreitinho onde só cabe o discurso politiqueiro. Mas, enfim, lá conseguiu escrever um textinho. No fim de contas, foi apenas isso que o chefe lhe pediu.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O carnaval perpétuo

Um sambódromo! Li no oficialmente oficioso que o governo estuda a construção, em zona plana da cidade, de um espaço com capacidade para albergar os dois ou três cortejos alegóricos que abnegadamente produzimos por ano. É mesmo disso que estamos a precisar. Depois, é claro, da construção do novo estádio do Marítimo, de mais meia dúzia de marinas, de dúzia e meia de novos parques empresariais, de uma dezena de centros cívicos, esses notáveis instrumentos socializadores substitutos das tascas e dos adros da igreja do tempo dos nossos avós, e de mais umas quantas promenades apalmeiradas para reganharmos para sempre o mar (ai como é glamoroso e quente este mix engenhoso e próspero que nos dá, a um tempo, a elegância afrancesada de um passadiço e o tropicalismo vegetal de umas quantas fileiras de plantas exóticas e respectivos comensais...!).
A notícia, admito, é omissa quanto a estas últimas prioridades. Elas são, digamos, um acrescento meu. Juro, porém, que o dito cujo está em linha com o frenético e vagamente delirante obrismo que tomou conta de nós. Um sambódromo, Santo Deus! Como é que só agora alguém teve a inspiração de pensar em semelhante isso?
Convém dizer, porque a verdade o reclama, que a notícia em apreço contém ainda uma outra omissão sintomática. Não revela que papel está destinado à Câmara do Funchal na edificação desse por certo magnífico monumento pensado em prol da nossa alegria futura. Santa paciência, mas é compreensível: uma cidade que foi incapaz de fazer da comemoração dos seus quinhentos anos um momento de afirmação nacional e internacional da importância estratégica e simbólica do seu passado não é parceiro que se recomende no presente; e uma cidade que reduz a necessidade de se afirmar e projectar para o exterior a umas quantas festarolas de cariz doméstico, cujo registo já se evaporou entretanto da memória dos poucos que nelas participaram, nem merece ser consultada. Trate mas é de arranjar o terreno, e pronto. O resto há-de ficar, como é óbvio, por conta de uma qualquer sociedade (dita) de desenvolvimento. Desde as artes da concepção ao esmero da construção.
Confesso que, assim de repente, não consigo visualizar a imagem de um sambódromo encaixado na cidade. Sou curto de vistas, é o que é. Ou então, hipótese a ter em conta, estou a ser vítima do conhecimento que tenho da volumetria maravilhosa e da estética de encantos mil do original situado no Rio de Janeiro dos nossos sonhos de férias. Estão a ver aquele enorme e cinzento paredão, algures na Choupana, a acenar todos os dias a quem está cá em baixo no Funchal? É uma coisa daquele tipo. A diferença é que, em vez de um, os enormes paredões são dois, convergindo ambos em bancadas e escadinhas em direcção a uma larga alameda onde desfilam os foliões. Coisa pouca, como se vê. E, sobretudo, pequena.
Costuma dizer-se que a vida são dois dias e o Carnaval são três. Pois bem, meus senhores, a Madeira, pelos vistos, está à beira de inaugurar um novo e certamente sugestivo aforismo de pendor carnavalesco. Se calhar, atenta a criatividade notável dos nossos denodados governantes, qualquer coisa do género: como no entrudo vale tudo, façamo-lo acontecer sempre que a gente quiser.
Um sambódromo. Mas que ideia brilhante. Pela novidade. Pela originalidade. Pelo alcance. De facto, nada como um Carnaval perpétuo para nos esquecermos de que o desemprego já afecta entre nós mais de dez mil famílias. Ora digam lá se não vale a pena o investimento...
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O território da consciência

Ainda bem que o dr. Ricardo Vieira fez o favor de nos tranquilizar. Estou-lhe grato. Duplamente grato. Por nos ter revelado que o episódio do Savoy lhe correu tão bem que até já admite prolongar o cansaço militante com que reparte a vida pela política e pelos negócios. E por nos ter garantido, a pretexto do mesmo edificante episódio, que o político Ricardo está cem por cento de acordo com a solução proposta à Câmara pelo advogado Vieira. Acreditem. É de políticos assim que a democracia precisa. São mais baratos. Geralmente mais eficazes. E, mal comparado, põem-nos em linha com a moda do dois-em-um que tantos problemas resolveu no mundo competitivo dos detergentes e champôs.
Não gosto de partilhar fraquezas íntimas. Mas podem crer que me sinto sempre emocionado quando a vida me revela, para lá de qualquer contestação ou controvérsia, que há, afinal, gente capaz de doar o seu escasso e desinteressado tempo à causa pública. Bem haja, pois, dr. Ricardo Vieira. Que o cansaço lhe seja leve. E que a forma despojada como interpreta as missões que abraça lhe dêem um dia a recompensa que merece.
Ironias à parte, diga-se em abono da verdade que o dr. Vieira não inaugurou propriamente nada de novo. Muitos outros, para além dele, andam desde há muito com um pé bem apoiado no lado da decisão e com o outro bem enfiado no estribo do interesse sobre o qual se decide. A novidade, no seu caso, é que pertence a um partido com queda para a retórica moralizadora da vida pública. Para já não falar, como é evidente, dessa pequeníssima insignificância que consiste no facto de integrar o órgão executivo de uma Câmara Municipal.
Dir-me-á, já sei, que não manda nem tem qualquer pelouro atribuído. Acrescentará, permito-me adivinhá-lo, que foi eleito por um partido da oposição. E arrematará, como é costume, com esse pequeno embuste que é dizer que nunca vota quando a consciência lhe diz que pode haver conflito de interesses. Compreenda. Uma vez que falamos de alguém que ocupa um lugar no órgão executivo de uma Câmara, nenhum desses argumentos pode ser levado a sério. Por uma razão tão simples quanto cristalina, para lá, naturalmente, de todas as outras que decorrem da lei. Nenhum eleito leva a sua consciência a votos. Esse é um território íntimo a que ninguém acede numa campanha eleitoral. O que quer dizer que nenhum eleitor vota com a alegre intenção de se fazer refém da consciência de quem elege. Pensar o contrário é ter da democracia a perversa ideia de que o voto não passa de um cheque em branco que pode ser usado ao gosto de circunstâncias ou de interesses de ocasião. Ora, acredite-se ou não, eu preferia pensar que o dr. Ricardo Vieira não interpretava dessa forma o exercício da política. O problema é que ele não ajuda.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O que faz falta é elucidar a malta

João Carlos Gouveia esperneia e estrebucha. Louve-se-lhe o alento. Outro, no seu lugar e com capacidade diferente de ler o futuro, já teria provavelmente batido com a porta. Mas não. Gouveia, o intrépido, não parece ser dado ao acomodamento da desistência ou da espera. Com ele o amanhã há-de vir sempre depois. Com ele o que está para vir há-de ser tratado quando um dia chegar. De modos que, se calhar em obediência ao fraternal princípio de que a gestão política da vida interna do PS costuma ser balizada pelos azedumes do passado os pelas armadilhas do presente, o líder em que praticamente ninguém acredita resolveu aplicar já o seu golpe. Engendrou uma depuração à antiga. Resistiu à maçada de explicar à opinião pública as razões ou a utilidade da coisa. E a curiosa convulsão que lhe fica a marcar o consulado vai passando nos media com a leveza das coisas mais ou menos irrelevantes. Veja-se bem ao ponto a que chegou este incrível PS. A demissão de um secretário-geral tem o impacto dos acontecimentos corriqueiros. E desautorização política de um líder parlamentar não merece muito mais do que a atenção que se usa dar às trivialidades. Notável!
Vamos lá a ver se consigo enquadrar a acontecência. Tenho por certo que não há um único cidadão desta terra que não saiba que João Carlos Gouveia é um líder com prazo de validade à beira da prescrição. Ninguém lhe credita mais do que um estatuto de capataz provisório. E ele próprio pareceu, a dada altura, andar contentinho da vida com o brilho da situação. Foi assim que se interpretou o anuncio da sua candidatura à Câmara Municipal de São Vicente. Foi por isso que ninguém ligou grande coisa à forma como passou ao lado de todos os debates parlamentares importantes. É por isso que se olha com naturalidade e acentuada indiferença para a extrema afabilidade com que a direcção nacional do PS cordialmente o destrata.
Não sei se é verdade o que se diz. Mas, como a generalidade das pessoas sabe, a ideia de que todos os líderes do PS não passam, salvo seja, de carne para canhão até à chegada de Bernardo Trindade já fez o seu caminho. A mais do que improvável ascensão de Carlos Gouveia à liderança é tida como herdeira legítima dessa espécie de fatalidade socialista. E a sua já adivinhável queda é também nela que provavelmente se filia. De modos que parece claro, apesar de tão sedutora tese não ter passado ainda pela necessária prova dos factos, que os líderes socialistas só estão autorizados ao expediente geral. Têm o poder de decretar demissões, mas só quando é grande a vulnerabilidade dos demitidos. E julgam-se no direito de decidir promoções, coisa que fazem se a resistência for escassa ou preferencialmente nula. Quanto ao mais, limitam-se a olhar, sem estados de alma escusados, para a inércia que segura as rédeas do partido. Sem o aborrecimento do planeamento estratégico. E sem o enfado da produção de ideias.
Só que agora a coisa parece diferente. Carlos Gouveia decapitou a máquina do partido. Fê-lo, ainda por cima a uma curta dúzia de semanas de um ciclo eleitoral que se antevê complicado. E, pasmemo-nos, ninguém consegue descortinar uma reacção digna desse nome. Como se fosse um líder com poder efectivo. Ou como se estivesse, mercê de um qualquer prodigioso milagre, a interpretar simplesmente a vontade colectiva do partido e dos seus eventuais eleitores.
Seja lá o que for, até por isso o episódio tem o estatuto de caso. Mesmo que traduza um mais ou menos ingénuo encher de peito de um líder de passagem. Ou que possa ser verdadeira a tese que por aí já circula dando conta da putativa existência de uma tramóia imobiliária tão ao gosto de uma certa escola política da RAM. Mas o que anda a faltar mesmo é aquela coisa aborrecida dos porquês. Que tal a graça de uma explicação? Podem crer que a malta agradecia.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A verdade oculta do anonimato

O senhor presidente do Governo brinda-nos hoje com o favor do seu pensamento sobre um tema cuja importância toca a transcendência. Sua excelência deu-se à maçada de dissertar sobre a candente questão das cartas anónimas. E, para não variar, resolveu emprestar à profundidade das suas reflexões o ar solene dos artigos doutrinários. O veículo escolhido para a divulgação de mais esta pérola do seu legado filosófico-político foi o jornal que mantém cativo da sua soberaníssima vontade. Não se atribua, no entanto, qualquer importância ao facto. O mais certo é que não passe de uma insignificância fortuita de cariz, digamos, circunstancial.
Como sua excelência não explica, não sou capaz de adivinhar nem a dimensão do fenómeno nem o teor do expediente. Mas há coisas que se percebem. A acutilância da escrita impressiona. A oportunidade do tema dá que pensar. O desassombro do verbo é uma seta apontada à nossa consciência colectiva. Aquilo, podem crer, não é um artigo. É um grito. Um estridente sinal de alerta. Que traduz o negrume dos enfados em que se remói a paciência do nosso quinzenal presidente. E nos revela o elevado critério das suas actuais prioridades.
O dr. Jardim entende que as cartas anónimas não passam de um miserável exercício de delação. Nem mais, nem menos. Importa-lhe nada que as cartas possam contar a verdade e nada mais do que a verdade. E interessa-lhe coisa nenhuma que possam ser graves os factos que relatam. Mas não senhor. O anonimato das ditas é que o tira verdadeiramente do sério. Como se fosse assim uma espécie de atestado de maldade inquinando o seu conteúdo pelos séculos adiante.
Não vale a pena, como é evidente, perder muito tempo com a hipocrisia patente das inesperadas sentenças de sua excelência. O que agora tão violentamente condena é precisamente o mesmo que um dia solicitou que fizéssemos. E aquilo que o cavalheiro tem agora como sintoma claro de uma espécie de doença social perigosa e larvar é rigorosamente o mesmo que, não há muito tempo, defendeu como sendo um mais que recomendável exercício de cidadania. Nada a fazer. O dr. Jardim é assim mesmo. As suas conveniências são firmes. Só os princípios são flutuantes.
Nem vale a pena, de igual modo, gastarmos demasiado tempo em conjecturas sobre as eventuais motivações da prosa doutrinária do nosso eterno, embora intermitente, presidente. É avisado, no entanto, que ninguém descarte a hipótese de, no fim de contas, sua excelência estar a lembrar-nos, urbi et orbi, da serventia das cartas anónimas. Compreendam. O homem não só é tortuosamente maquiavélico, como precisa urgentemente de tomar contacto com a realidade. Estamos em vésperas de muitas eleições. Há candidatos ainda por escolher. E esta coisa de passar a vida em excursões quinzenais alguma mossa há-de deixar na qualidade da informação que lhe chega.
Não obstante tudo isso, prefiro levar a sério desta vez as súbitas dores do nosso companheiro de quase todas as horas de quase todos os dias dos últimos trinta e tal anos. Para expressar o entendimento de que o recurso ao anonimato diz muito mais sobre a natureza do regime do que sobre o carácter de quem o adopta. Uma terra que discute mais as intenções putativas de quem escreve do que a substância do que é escrito legitima a utilização da identidade escondida. A perversa punição social de quem reivindica o cívico direito de dizer que o rei vai nu dá força necessariamente ao caminho da clandestinidade. Donde, senhor presidente, o anonimato que um dia incentivou e agora condena não é, como diz, uma coisa de bufos. É, isso sim, um instrumento de defesa. Pior. É uma perversa e triste consequência do regime de que é chefe. E eu sei que tudo isso já lhe foi dito na cara.
Bernardino da Purificação

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A consequência da recaída

O dr. Ricardo Vieira é com certeza uma pessoa estimável. Tem um passado de afirmação de convicções. Construiu um percurso político fundado na afirmação de valores. E quando entendeu já ter dado o bastante ao peditório exigente da política regional, arrumou os papéis e foi tratar da vida. Nada a dizer. É refrescante saber que nem todos estão condenados à política como meio de subsistência.
Um certo dia, porém, o dr. Vieira teve uma recaída. Pensou provavelmente que o seu ofício de advogado era compatível com as exigências da política. E como todos os partidos, à excepção do PSD, têm problemas de recrutamento de quadros, acabou por ceder ao apelo do regresso. Resultado: a política regional recuperou o grato privilégio de voltar a contar com a valia do seu prestimoso contributo; e o dr. Vieira aproveitou para casar, da forma mais mitigada que julgou possível, a vida profissional que tem com a inclinação política que nunca deixou de ter. Nada a apontar. A não ser talvez, e hão-de perdoar-me o sentimentalismo da nota, a emoção que não calo diante do quadro de uma vocação recuperada.
Enquanto político, o dr. Ricardo Vieira é actualmente vereador na Câmara Municipal do Funchal. Participa nas reuniões do órgão executivo camarário. Tem, como toda a vereação, uma palavra a dizer sobre licenciamentos e demais expediente da vida da cidade. Dispõe, por isso mesmo, de informação privilegiada. E se é verdade que a maioria da Câmara passa bem sem a graça do seu voto, o facto é que ele anda por lá, ouve e faz-se ouvir, acede aos documentos, e tem portas abertas para tudo quanto seja corredor ou gabinete. Nada a objectar. Seria insuportável saber que um eleito se sentia inibido de exercer em liberdade o mandato outorgado pela democracia e pelos munícipes.
Para além de pessoa estimável e político recaído, o dr. Vieira é também advogado. Tem um nome dos mais sonantes da praça. É, ou foi, examinador de estagiários e escrutinador eleito da conduta ética dos colegas. É sócio de um escritório conhecido, ecléctico, e com ligações íntimas ao poder político regional. E, por consequência, defende clientes e representa interesses. Nada a opor. É da natureza das coisas que os advogados façam seus os interesses dos seus clientes.
Ou seja, desde que decompostas e individualmente consideradas, nenhuma das versões do dr. Vieira parece ser merecedora do mais pequeno reparo. Pelo menos, para quem se limite a ver a superfície da sua imagem pública. O político recaído merece consideração. O representante de interesses é credor de respeito. O único problema que por vezes se nota é a confusão que nasce da mancebia em que vivem o defensor esperado do interesse dos munícipes e o advogado que defende, e faz seus, interesses particulares.
Pensa o dr. Vieira que a nódoa se apaga se se abstiver de votar nos casos em que a lucrativa esquizofrenia das opções que toma o coloca nos dois lados do processo decisório. Engana-se, como é evidente. Ele foi eleito para tomar posição e não para se abster. E o facto de haver um laivo de decoro (ou será de hipocrisia?) a conduzi-lo à abstenção só serve para atestar a grosseira incompatibilidade em que reiterada e gritantemente incorre.
E o líder do PP não tem nada a dizer?
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A especulação e o cheque em branco

Provavelmente, nunca saberemos o que é que o presidente da Assembleia Legislativa foi dizer ontem ao primeiro-ministro. E, do mesmo modo, é pouco provável que um dia venhamos a saber o que é que Miguel Mendonça ouviu de José Sócrates. O facto de o encontro ter decorrido a sós há-de desaconselhar com certeza as fugas de informação. E mesmo que os circunstantes inesperados deste improvável tête-a-tête político venham a partilhar com os seus próximos o teor da conversa havida, é pouco expectável a deselegância da inconfidência pública. A menos que a falta de decoro faça o número do costume. Ou que uma certa forma de estar na política consiga sobrepor-se às regras da decência. O facto, ainda assim, merece ser tratado em sede de comentário político. Apresenta um valor facial susceptível de interpretações políticas diversas. E apesar de amanhã poder ser já uma coisa do passado, reclama hoje uma atenção que não lhe deve ser negada.
Do quase nada que se sabe, avulta desde logo uma primeira observação: o encontro foi pedido pelo presidente do Parlamento dos madeirenses. O que quer dizer que assumiu uma dimensão política e simbólica muito particular no contexto das relações institucionais existentes entre os órgãos de soberania e os órgãos de governo próprio da Região - foram os madeirenses, e não o representante do poder político da RAM, que pediram a graça do encontro com o primeiro-ministro do país; foi a voz da vontade soberana dos eleitores da Madeira que quis ser ouvida em S. Bento, e não simplesmente a da maioria que nos governa. Muito interessante, sem dúvida alguma. O problema é que a dita vontade soberana madeirense não soube, não sabe, nem nunca há-de saber por vias limpas o que é que o dr. Mendonça resolveu ir dizer, alegadamente em seu nome, ao primeiro-ministro de Portugal.
A democracia representativa é assim mesmo, dirão os formalistas e anuirão acriticamente os ingénuos. Peço desculpa, mas não me parece que seja. Não está escrito em lado nenhum que a representação deva dispensar a apresentação de contas. Nem me parece aceitável que, em nome da democracia, alguém se atribua o direito de apropriar-se da vontade popular com a ligeireza de quem usa um cheque em branco. Sob pena de, no caso em apreço, podermos cair na tentação de pensar que, ao contrário do que é subliminarmente sugerido, Miguel Mendonça se limitou a ir a S. Bento cumprir uma agenda estritamente partidária, porém, à boleia das funções supra-partidárias que desempenha.
Não sou adepto da inconfidência. Esse é o expediente dos cínicos e dos bufos. Mas tenho o direito de pensar, a título de direito de cidadania, que me é devida uma explicação, ao menos em forma de comunicado conjunto ou nota de imprensa (impressiona-me que o dr. Mendonça não se sinta obrigado a informar os seus pares do parlamento). Mas como a regra do silêncio impera, ninguém levará a mal que, especulando um pouco, admita um de dois cenários: ou Jardim está realmente à rasca e já não consegue gerir o beco sem saída para onde atirou as relações do seu governo com o governo da República; ou Mendonça pediu a audiência a Sócrates na esperança secreta, mas entretanto frustrada, de que este o mandasse redondamente à fava. Como estamos em vésperas de eleições, e tendo em conta o absurdo e malcriado cadastro das relações (não) existentes entre o dr. Jardim e o senhor Pinto de Sousa, nenhuma das hipóteses se afigura propriamente inverosímil. Muito pelo contrário. A maçada é que nenhuma consegue ser melhor do que a outra.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A certeza efémera da incerteza

Com a precisão cirúrgica de quem já tem a estratégia pronta, lá seguiu o recado para o veículo do costume.
O recado. Ao contrário do que chegou a pensar-se, a cadeira que o PSD tem mais ou menos cativa no Parlamento Europeu pode servir de lugar de recuo para a resolução de uma disputa que já embaraça. Refiro-me, é claro, ao alegre e insano fratricídio em que andam envolvidos os senhores doutores Cunha e Silva e Miguel Albuquerque.
O veículo. Apesar das fitas ostensivamente públicas, o DN é a via privilegiada de divulgação das inconfidências anónimas feitas pelo dr. Jardim. Sempre que é preciso agitar as águas, o patrão da Quinta Vigia acciona os canais que tem abertos com o velho centenário dito independente. A vida da imprensa é dura. E há acordos, formais ou informais, a que ninguém consegue resistir.
Traduzindo tudo isto por miúdos, temos então que Sérgio Marques poderá estar de regresso à base. Ou para se reformar da política. Ou para uma tranquila travessia no deserto. Ou para baralhar as contas da sucessão. Correlativamente, temos também que Miguel Albuquerque pode começar a despedir-se da sua equilibrista condição de candidato preferido do povo mas execrado por Jardim, e que João Cunha e Silva pode começar a pensar fazer o mesmo relativamente à sua excelentíssima condição de candidato preferido por Jardim mas execrado pelo povo. Acreditem. A política pode revelar-se um tormento para quem aceita depender exclusivamente dela. Basta que a falta de tacto e de tino opere a transformação de um delfim de olhos esbugalhados para as delícias do futuro num abcesso que é preciso extirpar.
O que acontece, em suma, é que Jardim está na fase da agitação e dos recados. Emitindo mensagens propositadamente equívocas com o fito de abalar as certezas que uns tolos ensimesmados tinham por totalmente adquiridas. Voltando a chamar a si a condução da vida interna do seu partido, depois do ócio prolongado que preguiçosamente se atribuiu. E dizendo, no fundo, a todos os indiscutíveis que isto, afinal, não vai sem uma boa (ou má) discussão. Uma maçada, insisto. Pelo menos, para aqueles que só sabem perder-se na contemplação do poder improvável que o destino lhes colocou nas mãos.
Temos assim que a única certeza que actualmente se pode ter é que chegou o tempo do fim das certezas. Nada mau. Mesmo que daqui a semanas ou meses venhamos a verificar que tudo vai continuar mais ou menos na mesma, considero refrescante que o dr. Jardim tenha resolvido brindar-nos com esta aparência de novidade. Obrigado, pois, dr. Jardim. Numa terra em que a política só se move à superfície, é um verdadeiro luxo experimentar o direito de imaginar uma mudança. Quanto mais não seja pela nota de precariedade que, espero-o ardentemente, pode operar o milagre de fazer descer à terra o umbigo prepotente e insuflado de alguns dos nossos mandantes.
Mas a par do agradecimento genuíno e sincero que acabo de formular-lhe, não resisto, dr. Jardim, à expressão de uma modesta e desinteressada opinião. Vosselência não precisa de candidatar um peso-pesado como o dr. Sérgio Marques à Câmara do Funchal. Fazê-lo seria demonstrar medo da concorrência. Mas pior. Se porventura o fizer (coisa em que não acredito), nunca conseguirá demonstrar que os votos do Albuquerque são todos, afinal, integralmente seus (como vê, sou sensível às suas agruras d'alma), como Vexa mui justamente reivindica. Olhe. Porque é que não pensa, ao invés, exportar para Bruxelas esse magnífico expoente do nosso produto regional bruto que é o senhor seu vice. As vantagens seriam pelo menos duas. Por um lado, o dito cavalheiro poderia completar a formação humana e política que manifestamente ainda lhe falta. Por outro, vosselência sempre teria um rosto amigo com quem partilhar a fria solidão das suas excursões quinzenais europeias.
Como é evidente, admito e humildemente aceito que possa não estar para aí virado. Se for esse o caso, deixo-lhe, com amizade, ainda mais uma dica tão desinteressada quanto construtiva. E porque não pôr o Sérgio, mais o Cunha, mais o Albuquerque e mais o Tranquada e o Pita todos no governo? Veria que a selecção natural resolveria o problema da sucessão de vosselência. A menos que esse seja ainda um assunto que não lhe tira o sono. Se assim for, já cá não está quem falou. De qualquer modo, não precisa de agradecer.
Bernardino da Purificação

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O elogio do indício

Indício. A palavra, convenhamos, tem uma sonoridade interessante, sedutora. E o facto de poder rimar com vício dá-lhe um paladar tentador, quase doce. Ora experimentem lá dizê-la como quem procura um sabor. Se o fizerem, notarão com certeza que ela tem a textura suave de um sussurro. Porque é ciciada. Porque é sibilante. Uma tentação, em suma. Tanto para quem a diz, como para quem a ouve. O que há-de explicar, presumo, a enorme popularidade que lhe deram os media nas últimas duas ou três semanas. Tivemos indícios ao ritmo de meia dúzia por dia. Nos telejornais. Nos órgãos da imprensa. Nas conversas de rua.
Acredito que o fenómeno há-de ser um dia estudado. A forma empolgada, porém absolutamente inconsequente, com que o país se agita e comove com a diária revelação de indícios só pode ser um caso de estudo. Não sei é se vamos gostar das conclusões. Porque isto de substituir os factos pelas suas indiciárias e eventuais possibilidades tem muito que se lhe diga. E porque isto de passarmos a vida a trabalhar sobre hipóteses há-de levar-nos um dia a qualquer lado. Ainda assim, gosto. Nada como um indício promissor e suculento para trazer animada a malta. Do que não gosto é desta espécie de separatismo cívico que nos afasta do festim. Como se em matéria de indícios o rectângulo tivesse mais direitos do que nós.
O licenciamento do Freeport é um caso suspeito. Grande coisa! Por cá, sabemos que a Câmara do Funchal tem andado envolvida em negociatas várias, no dizer sabedor do senhor vice-presidente do governo. Do mesmo modo que ouvimos falar há anos dos andares recuados e dos quinhentos, dos edifícios de volumetria excessiva e cércea ilegal, dos sinais exteriores de fortunas nunca explicadas, das chorudas avenças concedidas a amigos a pretexto de coisa nenhuma, das obras que mal passam no critério da utilidade, mas que passam sempre por cima dos orçamentos iniciais, dos terrenos que se traficam debaixo da mesa por empresas que aparecem e desaparecem levando consigo as provas e os rastos, das quintas que se compram por somas avultadas depois de passarem pelas mãos asseadas de meia dúzia de notáveis do regime, dos dinheiritos, enfim, que andam por aí em notas de banco ao arrepio das regras mais elementares da transparência.
Não obstante tal quadro, poucos se indignam e, pelos vistos, quase ninguém se comove. Como se isso por cá fosse coisa banal. Como se por cá nos tivéssemos habituado a conviver sem dramas com os nossos freeports, com os nossos savoys, com as nossas quintas escuna. Ainda assim, consigo retirar do facto algum conforto. Nem tudo está perdido. Nós também temos os nossos indícios. A única pequena diferença em relação ao rectângulo reside no escabeche em que os cozinhamos. Nós por cá somos mais dados à paciência do lume brando. Se calhar, por causa do regime que nos autonomizou os hábitos e regionalizou os costumes.
Bernardino da Purificação
Post scriptum
Ainda à volta dos indícios. Naquela coisa indigente que faz publicar na revista do DN, o inefável dr. Cunha informou-nos que Dickens foi um dos autores que leu na infância. Não o invejo. Ou foi mais que precoce. Ou é um super-sobredotado. Ou teve uma infância demasiado prolongada. Ou tem uma relação complicada com a verdade e pouco séria com o passado. Ou está com problemas, igualmente precoces, de memória. Ou é, pura e simplesmente, um caso desavergonhado de iliteracia envergonhada. Mais. Na sua listinha de autores pretensamente lidos, tem o atrevimento de pôr no mesmo saco, comparando-os, Crichton e Fleming, Dan Brown e Le Carré. Que se tenha esquecido de Chandler e de Stout já não é coisa pouca. Mas misturar o que não pode ser misturado só pode ser indício de: a) o cavalheiro não sabe o que diz; b) lê títulos mas não lê livros; c) a literatura, para ele, tem serventia idêntica à dos parques empresariais às moscas; d) não tem um pingo de vergonha na cara; e) todas as hipóteses precedentes são verdadeiras e acumulam-se na pessoa do indivíduo em questão. Como é óbvio, a lista dos indícios não acaba aqui. Pode crer o dr. João que até o Dan Brown é capaz de acrescentar-lhe mais alguns.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O conservadorismo e a retórica

A avaliar pelas notícias que circulam, o PSD vai decretar hoje o fim do seu cúmplice namoro com sua excelência o senhor representante da República para a Madeira. Nada mais oportuno. Com as eleições ao alcance da vista, é preciso reacender a eterna querela autonómica. E como o dito representante aceita oferecer-se como bandeira, qual cordeiro pascal à espera de degola, lá teremos esta noite a comissão política laranja a declarar o fim das núpcias.
Jardim não costuma brincar em serviço. Para ele, os entendimentos pessoais têm sempre uma dimensão estritamente política. Ao contrário de todos os mortais, o dr. Jardim não consegue ter afectos genuínos ou relações pessoais normais. A crueza da vida só lhe deixa ter conveniências. O que quer dizer que o embevecido invólucro pessoal de salamaleques saltitando da Quinta Vigia para São Lourenço, e do Palácio para a Quinta, está em vias de ser mandado às urtigas pelas ingratas exigências da política pura e dura. Porém, acreditem. Em boa verdade, a alma sensível do dr. Jardim sofre com o facto. Mas a política, meus senhores, quantas exigências faz, quantas cambalhotas exige, quanta acrimónia encenada ou fingida reclama...!
É claro que ao escolher cirurgicamente os períodos pré-eleitorais para os pretensos amuos com o senhor representante, o dr. Jardim corre riscos. Desde logo, o de confundir as pessoas. Tão depressa anda de enlevado e cavalheiro namoro com o ministro cooperante, como logo a seguir desata a fazer juras de eterna ruptura com o representante convenientemente tresmalhado. Tão depressa o apresenta como amigo da terra, como, não tarda nada, há-de começar a apontá-lo como símbolo perverso do poder colonial que teima em estrangular-nos.
Mas, o pior nem é isso. O risco maior que o dr. Jardim corre nesta montanha russa de estados de alma relativamente ao palácio de São Lourenço é de outra ordem e remete-nos para o total esgotamento do seu discurso autonómico. A verdade é que esse discurso tem vindo a perder fôlego. Não por falta de convicção, concedo. Mas por manifesta falta de ideias e de causas. Tendo chegado ao pindérico ponto em que tudo se resume a umas enfáticas diatribes contra o primeiro-ministro e, a partir de logo à noite, a um apontar de dedo ao representante que, no fim de contas, sempre protegeu e lhe deu jeito. Ora é aqui que reside o risco. Um dia, toda a gente há-de perceber que a Autonomia que nos trouxe o desenvolvimento merecido já não passa, para o dr. Jardim, de uma mal preparada e por vezes malcriada retórica de mera conveniência eleitoral.
Continuo a acreditar, com muitas outras pessoas, que é possível reinventar permanentemente a Autonomia. Não apenas na sua dimensão puramente institucional, mas na prática governativa de todos os dias. Tanto na ordem regional interna, como no domínio das nossas relações com outras realidades geográficas, políticas e económicas mais ou menos contíguas. Acredito, em suma, que, em matéria autonómica, está sempre tudo por fazer. O problema é que o conservadorismo do dr. Jardim e da corte notável dos seus próximos entende que a coisa se resume à luta pela manutenção do seu cada vez mais inchado poder. Aproveitando as posições entretanto conquistadas. E beneficiando da deserção das alternativas credíveis. E um dia o futuro há-de passar-nos a factura.
Bernardino da Purificação

sábado, 31 de janeiro de 2009

Teoria da conspiração

Já toda a gente percebeu que a campanha eleitoral está em marcha. Nos meios habituais de comunicação de massas. A partir de directórios vários irmanando políticos e representantes de actividades diversas e, convenhamos, nem sempre correlativas. E percorrendo metodicamente os passos de laboriosas estratégias desenhadas em obediência ao princípio de que em política vale tudo. Gosto. Creio que, no fundo, gostamos todos. Não há nada como o cheiro a sangue para nos fazer regressar à natureza essencial de predadores engenhosos.
O ciclo eleitoral começa, como se sabe, dentro de aproximadamente quatro meses. E apesar da relativa incerteza que habitualmente envolve os escrutínios democráticos, há coisas que a sensibilidade geral tem já por adquiridas. José Sócrates perderá se o caso Freeport lhe arrasar por completo a reputação. Manuela Ferreira Leite ganhará se o dito caso a empurrar para uma posição que nada fez até agora por justificar.
Ou seja, mais arrepio, menos arrepio, a verdade é esta: no Portugal democrático em que todos temos a dita de viver, as decisões políticas que realmente interessam deslocaram-se para o sinuoso tabuleiro da Justiça. Pelo que devíamos ser gratos e capazes de dar um grande viva à democracia dos polícias, dos procuradores e dos juízes. Que à conta de interesses sem nome nem rosto por cá vai assentando arraiais. E que tem como armas jornais e televisões de cada vez mais desconhecido registo de propriedade e de interesses.
Devo confessar que olho para esta refrega político-judiciária com muito mais curiosidade do que paixão. Entendo que todas as suspeitas devem ser investigadas. Não tenho dúvidas de que se há crimes há culpados. E tenho como elementar princípio de justiça que não pode haver culpa sem castigo. Há, no entanto, coisas que me maçam. Esta mimosa originalidade que consiste em levar as disputas eleitorais para os esconsos corredores da Justiça é uma delas. Este método assassino de fazer pingar notícias a conta-gotas sobre matérias abrangidas pelo segredo de justiça faz-me urticaria. Esta sinistra recorrência com que certos media se presumem juízes de julgamentos populares tira-me do sério. Esta bovina resignação que nos leva a aceitar que uma investigação judicial possa ser contaminada por impulsos de motivações obscuras revolve-me as vísceras. E esta insuportável suspeita de que a escolha dos nossos representantes políticos está muito mais à mercê de centros de poder escondidos e não sufragados do que do voto consciente e livre dos cidadãos faz-me pensar que a democracia que temos se vai tristemente aproximando da badalhoquice das conversas da treta.
Ainda assim, bora lá despachar as investigações. Esta e todas as outras que repousam algures nas gavetas dos nossos novos, ilegítimos e inesperados decisores políticos. As de lá e as de cá. A menos que a Madeira seja a única parcela do país em que o poder político legítimo submete as togas ao seu ilegítimo controlo.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A excelência, a mezinha e o chá

Deixem-me ver se compreendi bem. O serviço de Urgência do Hospital do Funchal passou a ter filas de espera que dão a volta ao edifício e a culpa é de um sistema informático qualquer para o qual ninguém estava preparado? Convenhamos que a justificação é patusca. Tem um suplemento de lata porventura excessivo para o desconfiado gosto dos cépticos. Possui, no entanto, traços daquela ingénua criatividade que, de tão simples (ou será antes simplória?) e pueril quase nos faz chegar às lágrimas.
Nunca tinha pensado que um sistema informático fosse capaz, por si só, de entupir um serviço de urgências hospitalares. E nunca me tinha passado pela cabeça que um doente tomado de aflições urgentes pudesse ficar à espera um par de horas, ou mais, para ser visto por um médico, por causa de um safado de um computador e de um complicado programa que lhe puseram lá dentro.
Admirável. A justificação e este surpreendente mundo novo. Tanto a cara calçada que nem pestaneja quando, com um ar situado algures entre o tecnologicamente deslumbrado e o anedoticamente presumido (ou será simplesmente tolo?), nos explica o que não pode ter explicação. Como a desumana ligeireza com que interpõem uma tecnologia qualquer mal testada e pior instalada entre doentes aflitos e a intervenção pronta dos médicos de um serviço de urgências.
Já agora, deixem-me ver se percebo outra coisa. Um serviço que tem muitas vezes nas mãos a vida ou a morte das pessoas interrompe a actividade à hora de almoço? Isto acontece? Isto é mesmo verdade? E não há consequências? E ninguém é capaz de acabar com semelhante rebaldaria? E permite-se que o mesmo cavalheiro deslumbrado com a tecnologia de ponta dos meios tenha a lata de vir dizer-nos que a culpa da coisa reside na falta de... (como é que eu posso escrever isto sem rir?) uma cantina para médicos? Ó da guardaaaaaa! Socoooorro! Então ninguém vê que esta gente ensandeceu de vez? Ninguém percebe que há limites que não podem ser ultrapassados?
Não sei, mas gostava de saber, o que pensam desta inqualificável indigência o dr. Jardim e todos os artífices do caríssimo e excelente serviço de Saúde que temos, para além, é claro, daquelas apalermadas sentenças ditas à boca pequena a partir da Quinta Vigia. Se fossem pessoas normais, deveriam estar com certeza incomodados. O pior é que são governantes. Responsáveis por serviços obviamente excelentes. Donos arvorados de uma terra evidentemente excelente, tal a excelência de quem a controla. Avalizadores da competência, também ela inquestionavelmente excelente, dos excelentes quadros dirigentes que nomeiam. E, como parece ser igualmente óbvio, muito mais sensíveis à excelência do computador e da cantina do que à maçadora lamuria de um doente aflito que lhes possa lixar as estatísticas e tramar a reputação.
Está visto que, por este andar, e com tanto desenvolvimento tecnológico e estrutural a reforçar-nos a excelência, ainda acabaremos por ter de voltar aos tempos gloriosos da mezinha e do chá. À conta, já se vê, da indiscutível excelência dos mandantes que temos e dos não menos excelentes acólitos que eles têm.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A privatização da conduta pública

Ponto prévio. Considero que a Madeira tem o dever (não apenas o direito) de desenvolver uma política autónoma, estruturada e séria de ligação à diáspora. A força homogeneizadora da globalização recomenda-a. A necessidade de integração das nossas comunidades nos espaços sócio-culturais em que vivem não a dispensa. O pragmatismo prosaico da economia aconselha-a. E os afectos conferem-lhe o imperativo estatuto de uma obrigação. A questão de saber se essa política deve, ou não, ser pensada e desenvolvida em articulação com a que é definida a nível nacional não é neste momento para aqui chamada. Por uma razão simples. É muito mais de método do que de substância. Logo, há-de ter, se for caso disso, um tratamento secundário no contexto das reflexões que possam ser feitas sobre a natureza dos laços que temos o dever de manter com as restantes parcelas constitutivas da nossa identidade e do nosso modo de ser.
Consideração acessória. Qualquer política voltada para a manutenção e aprofundamento dos laços da Madeira com as comunidades disseminadas pelo estrangeiro há-de contemplar, em qualquer circunstância, e entre vários outros aspectos, a concretização de um programa de contactos. Envolvendo, com certeza, representantes do poder político regional. Aproveitando, sempre que possível, a rede de canais (tanto a formal como a informal) de que o país dispõe. E estimulando, obviamente porque sim, a criação mais ou menos institucionalizada de espaços de encontro, partilha e diálogo.
Conclusão lógica. Anda bem um governo que envia os seus membros às comunidades. Andará melhor se for capaz de integrar as deslocações que decide num programa estruturado e com um mínimo de oportunidade e sentido. Andará bastante melhor se a ligação às comunidades não se resumir à concretização mais ou menos excursionista desse programa de viagens.
Está claro que o pretexto da prosa é a aventura australiana do dr. Garcês. Que, por qualquer razão que desconheço, foi preparada mais ou menos à socapa. E que, por razões que apenas a má consciência poderá eventualmente explicar, só ganhou alguma visibilidade por via do estranho secretismo com que um membro do governo desajeitado ou aselha entendeu dever embrulhá-la.
Eu gostava de poder acreditar que o dr. Garcês foi à Austrália no cumprimento de uma agenda política assumida e transparente. E dar-me-ia algum conforto saber que não passava pela cabeça de ninguém ocultar do escrutíneo público os contornos e resultados dessa política. Não custa reconhecer, porém, que o comportamento do dr. Garcês torna difícil a concretização desses meus pios desejos. Porque se esteve nas tintas para o democrático dever de prestar contas. Porque conferiu a uma viagem de orçamento, motivações e objectivos públicos o sigilo a que só têm direito as viagens privadas. E porque ao fazer tudo isso desvalorizou o contacto com uma comunidade que certamente dispensa visitas feitas às escondidas.
Eu sei que os indulgentes dirão que há um excesso de severidade na expressão destes reparos. E em abono da sua complacência hão-de lembrar que o dr. Garcês nada mais faz do que imitar o comportamento do seu chefe. Não deu explicações porque entende não ter satisfações para dar. E nada nos disse sobre a sua viagem à Austrália exactamente como o dr. Jardim nada nos diz sobre as suas idas quinzenais sabe-se lá aonde. Está certo. O dr. Garcês não é o culpado. A culpa, de facto, é de um governo que não tem políticas claras sobre coisa nenhuma (daí a necessidade de esconder o que faz). O culpado é um governo casuísta, de condutas opacas e destituído de estratégia, que se limita a navegar à vista. A culpa é, em suma, desta impune mania com que o governo estatiza tudo menos a conduta dos governantes. Nesse domínio, como já se viu, tudo é do foro privado. Mesmo quando é público o dinheiro gasto. Mesmo que a democracia não dispense a prestação de contas e a apresentação de resultados.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O catecismo da Madeira Nova

Não sei se por má consciência, se em obediência a um insondável impulso de outra ordem, a generalidade dos políticos passa a vida a intoxicar a opinião pública com a ideia de que as suas opções têm uma espécie de aval superior. Todos dizem que agem em nome do povo. Mas como o dito povo nem sempre (em alguns casos quase nunca) se dá conta da bondade intrínseca das mezinhas que lhe dão, os políticos procuram alindá-las com a unção da autoridade. Atribuindo-lhes uma inspiração divina, nos casos de patologia política evidente. Emprestando-lhes a bênção furtada de um pensador notável, quando é razoavelmente laica a perversão democrática.
Como na Madeira, e apesar de tudo, a patologia é moderada, os governantes que temos prestam culto a Keynes. Não há marina do Lugar de Baixo que lhe tenha passado ao lado. Não há heliporto sem helis que não tenha beneficiado da sua divina inspiração. Não há Penedo do Sono às moscas e em quase ruína que não lhe tenha obedecido à cartilha. Não há parques empresariais sem empresas que não lhe tenham pedido o aval. Não há, enfim, iniciativa privada que não tenha de ceder o passo à voracidade do sector público que não leve, para cúmulo, com a sebenta do John Maynard em cima.
Estou em crer que o dito Keynes se há-de contorcer na tumba em desassossegos lancinantes sempre que o seu nome é evocado em vão. E tenho a firme convicção de que nunca lhe passou pela cabeça, em vida, que o labor do seu pensamento viesse um dia a ser alvo de tantos e tão flagrantes abusos. Mas isto, claro, sou eu a pensar. Como sei tanto de economia como os senhores drs. Cunha e Jardim parecem perceber de governação, faz-me impressão que se chame keynesianismo à irresponsabilidade política pura e simples. E como de teoria económica nem o nome percebo, não consigo deixar de pensar quão notável é a erudição atrevida de certa gente que por aí anda a consumir-nos os recursos, a testar-nos a paciência e arruinar-nos o futuro.
É certamente tolice minha. Mas aposto que o supracitado John Maynard nunca defendeu que o Estado devesse asfixiar a economia em nome do lançamento ou relançamento da dita. Do mesmo modo que me atrevo a afirmar a leiga e por certo tola convicção de que o sobredito Keynes jamais defendeu que o Estado devesse chamar a si a quase totalidade dos meios financeiros disponíveis. Mas isto, insisto, só podem ser coisas minhas. Se o dr. Jardim se afirma keynesiano, quem sou eu para dizer que ele anda enganado no catecismo. E se o dr. Cunha assegura que a sua pulsão obrista delirante e louca se encontra abençoada por um vulto notável do pensamento económico, quem sou eu para dizer o contrário. Permito-me, ainda assim, lembrar-lhes que o plano de investimentos públicos com que a economia norte-americana saiu da crise de 29 (esse, sim, inspirado em Keynes) só foi eficaz porque o dinamismo gerado ficou praticamente todo dentro de portas. Ao nível do emprego. Ao nível do consumo e da revitalização do mercado interno. Ao nível do estímulo ao sector produtivo. Rigorosamente nada parecido com o que acontece cá. Porque nos limitamos a consumir o que vem de fora. E porque praticamente pouco mais produzimos do que dívida pública e meia dúzia de turbo-milionários. Só que, pelos vistos, em nome de Keynes. Abençoado catecismo!
Bernardino da Purificação

domingo, 18 de janeiro de 2009

O vazio estratégico e o tango

Com a resignação patibular dos tristes, o PS continua a pôr-se a jeito de uma abada copiosa nas eleições que temos pela frente. Não sei se é karma ou padecência genética. Não sei se é fado ou pura aselhice. Mas que a coisa se percebe à distância, santa paciência, lá isso percebe-se.
Uma vez que não lhe frequento os corredores, ignoro se os ditos têm consciência do facto. E como só vejo o quase nada que há para ver, é-me impossível perceber se a rotina da derrota terá já ganho, ou não, estatuto de modo de vida. Dá, no entanto, para perceber que a direcção regional socialista não consegue travar o passo à estratégia plebiscitaria anti-Sócrates meticulosamente lançada por Jardim. E isso, a meu ver, parece remeter-nos para um paradoxo essencial que o PS-Madeira não há maneira de conseguir resolver. O seguinte.
Creio que toda a gente já reparou que PS é um caso estranho. Se não de incapacidade política, pelo menos de falta de sorte. Se não de confusão estratégica, pelo menos de atenção escassa, quase nula, ao terreno onde grande parte da acção política se desenrola - o espaço comunicacional.
Considerando apenas o valor facial do que os seus dirigentes dizem, não custa racionalmente dar-lhes razão. O problema é que, desgraçadamente para eles, as pessoas pura e simplesmente não os ouvem. Ou porque se estão nas tintas para o que dizem, em consequência de um eventual descompasso entre a mensagem veiculada e as preocupações mais imediatas dos cidadãos. Ou porque, no fundo, ninguém aposta um chavo nos eventuais créditos políticos que possam ter. Perceba-se. A política é muitas vezes um jogo perverso de regras próprias em que conta mais a personalidade de quem diz do que a acuidade ou o mérito do que possa ser dito. E enquanto isso não for devida e humildemente interiorizado pelos responsáveis socialistas, o PS-M arrisca-se a continuar a vegetar no espaço limitado em que se consome. Independentemente da qualidade objectiva de alguns dos seus rostos mais visíveis. E sem beliscar o esforço dedicado e sério que todos afinal possam andar a fazer.
É claro que percebo que o ambiente político regional tende a alienar a qualidade da participação política activa. E sou até capaz de compreender que o PS-M tem de pagar um preço qualquer por ser muitas vezes obrigado a andar politicamente entalado na dialéctica de confronto que opõe o poder central ao poder político regional (ou vice-versa, a ordem é obviamente arbitrária, já que é sempre necessário um par para que possa haver um tango). Acho, porém, que o cúmulo destas duas circunstâncias está longe de explicar tudo. Pelo que regresso ao paradoxo essencial que, em meu entender, continua a toldar as vistas dos dirigentes regionais socialistas.
Ora, acontece que o PS continua sem saber se, nesta fase, deve ser um partido de protesto ou se deve apresentar-se como um potencial partido de poder. Pior. No mais das vezes, deixa-se cair numa espécie de quadratura do círculo em que pretende ser as duas coisas ao mesmo tempo. Sem perceber que o protesto puro e simples é capaz de dar espectáculo mas não leva ninguém à governação. E sem ter em conta que o estatuto de partido de poder exige bastante mais do que uma simples e bem intencionada proclamação.
Veja-se o que aconteceu nos últimos anos. Com o objectivo de endurecer o seu modo de fazer oposição, o PS armou-se na primeira linha com uns respeitáveis cavalheiros de perfil, digamos, mais veemente e combativo (adoro os eufemismos...). O problema é que logo a seguir entrou em cena o PND. E o resultado foi o que se viu. De um pé para a mão, os socialistas viram-se de súbito numa espécie de vazio estratégico. Sem gente qualificada (descontando as duas ou três honrosas excepções que se conhecem) para merecerem ser vistos como alternativa de poder. Mas igualmente sem pessoas interessadas em acompanhar o teatro dos "novos democratas".
Isto é, o PS quase deixou de existir. Pelo menos, no habitat natural da política que é o espaço público da comunicação. Porque tem pela frente o poder político regional com a sua gigantesca máquina de intimidação e propaganda. E porque tem à ilharga o PND com quem não consegue rivalizar na produção de sound bytes. Encontra-se mediaticamente encurralado, em suma. Foi a isso que levou a estranha mania de não ser nem carne nem peixe. De maneira que arrisca-se a voltar a bater no fundo antes de conseguir ensaiar nova tentativa para se erguer. Mesmo havendo motivos de sobra para uma punição exemplar ao PSD.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A entrevista que não foi

A coisa merece, como certamente compreenderão, algumas notas prévias.
Em primeiro lugar, aquilo não foi uma entrevista. Assumiu antes a forma de um pindérico monólogo ocasionalmente entrecortado por alguns sons vagamente perceptíveis vindos do outro lado da mesa. Em segundo lugar, não teve entrevistador. O que era para ser não passou de um hóspede confuso e agradecido perante um anfitrião histriónico e sem maneiras. Em terceiro lugar, não teve novidades. Limitou-se a ser mais do mesmo, ou seja, um chorrilho repetido que nada de verdadeiramente importante trouxe às notícias ou ao debate político nacional. Em conformidade, e esta é a quarta deste conjunto de notas prévias, os espectadores que ficaram militantemente à espera do espaço de informação anunciado acabaram por ver-se perversamente defraudados - um número de comédia sentada remete-nos muito mais para a área do entretenimento do que para o nobre sector das actualidades. Donde estou em crer que aquilo não passou de uma bem urdida manobra de contra-programação apontada às novelas dos restantes canais, com o envolvimento presencial e passivo de um peso-pesado do jornalismo televisivo, e a colaboração exuberante, prestável e activa de uma das vedetas mais firmes e vendáveis da política cénica à portuguesa. Apesar disso, prometo que não me vou queixar à ERC. Mas juro que me passou pela cabeça colocar a questão à DECO.
Em suma, aquilo foi uma tristezinha. Na forma, como já se viu. Mas muito em particular na substância. Porque Mário Crespo não foi o entrevistador preparado que se espera sempre que seja. E porque o político Jardim não conseguiu resistir ao peso insuportável da sua egolatria.
Palavra que estava à espera de outra coisa. Uma hora de entrevista em horário nobre não é coisa que um político responsável se permita desperdiçar. No entanto, foi isso que Jardim fez. Em vez de adoptar um registo sereno, ainda que firme, o presidente do governo voltou a fazer gala da sua conhecida falta de chá. E ao invés de ensaiar um discurso devidamente sustentado dirigido ao país, o líder madeirense não conseguiu manter sossegado o político autárquico estranhamente apaixonado pelos seus cada vez mais escassos méritos.
Sabe-se que o dr. Jardim não admite conselhos. Não ouve ninguém. E pensa sozinho. Não admira. Ele sabe quem escolheu para trabalhar junto dele. De maneira que prepara as entrevistas tal como vive o dia-a-dia no escritório. Será sempre o único a falar. Há-de debitar, a propósito ou a despropósito, a mensagem que quer transmitir. Não responderá a perguntas porque os jornalistas não mandam nele (quem pensam esses intrometidos que são?). E porque no seu democrático mundo só existem ele e o povo, dará um tom rasteiro ao discurso para olear a comunicação entre ambos.
Como vai acontecendo cada vez mais, o homem engana-se. Como nem perde tempo a pensar nas figuras que faz, não consegue perceber que é preciso mais do que duas ou três desconsiderações ao primeiro-ministro e à classe política nacional para conseguir ser credível e dar-se ao respeito. E como já anda descolado da realidade é incapaz de entender que já não há pachorra para os ódios de estimação que nutre pelos chamados interesses instalados, pelos grupos, grupinhos e grupelhos que alegadamente conspiram contra si, pela classe política em geral, e pela de Lisboa em particular, cujo único objectivo é, segundo diz, tramar-lhe a carreira, e pela comunicação social do sistema que vigia e mantém à distância as ovelhas negras ronhosas. Perceba isso, dr. Jardim. Há cada vez menos pachorra. E a culpa é exclusivamente sua.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A Autonomia a pataco

Disseram-me um dia que a gente só sabe onde chega depois de lá chegar. Acreditei na sentença, como é evidente, que a sabedoria popular nunca se engana e raramente tem dúvidas. E, em consequência, passei a adoptá-la como regra de prudência para as contingências da vida.
Por uma qualquer razão que ignoro, nunca me ocorreu aplicá-la à política. Se calhar, por nunca lá ter andado. Ainda assim, não desconheço que há poucas coisas na vida mais dadas ao sobe e desce. O que hoje é uma coisa, amanhã pode muito bem ser outra. Quem hoje está lá em cima, amanhã vem parar cá abaixo. A verdade de hoje é muitas vezes a mentira de amanhã. E nem as linhas de permanência que entre nós a estruturam deveriam ter-me feito esquecer que a volatilidade é uma das características mais importantes do tempo curto da política.
Que arrevesada reflexão, dirão os meus improváveis leitores. Sejam os que passam por aqui porque sim. Sejam os que por cá andam com segundas intenções. Sejam os vigilantes das ideias alheias potencialmente perigosas.
Passo então à explicação que é devida.
Acontece que pela leitura do DN percebi que o PSD abriu uma nova frente de combate ao primeiro-ministro. Como não podia deixar de ser, o pretexto desta vez é a crise. E do que a direcção política social-democrata se queixa é do facto de Sócrates não ter incluído a Madeira no plano anti-crise que recentemente anunciou.
Devo confessar que num primeiro momento achei justíssima a reclamação laranja. Sendo a Madeira uma parcela portuguesa, de facto parece mal que um plano qualquer da República lhe possa passar ao lado. Pagamos impostos como pagam os restantes portugueses. Não há lei que nos possa diminuir os direitos. E o governo que nos representa lá fora é o mesmo que representa o resto do país. Vai daí dei por mim a considerar que Lisboa desta vez foi longe de mais. Só que depois lembrei-me que somos uma região dotada de instituições políticas de auto-governo. Que dizem irresponsavelmente que não há crise que nos atinja. Que asseguram a quem as ouve que temos um desemprego residual. Que vão ao ponto de recomendar ao país as fórmulas de política económica que por cá se praticam, como se fossemos um país diferente ou um caso à parte. E que têm até o direito de bloquear iniciativas sobre matérias que nos dizem respeito caso não sejam previamente consultadas.
Aqui chegado, a minha primeira convicção vacilou. Porque dei por mim a pensar que seria considerado um insuportável atrevimento que um primeiro-ministro qualquer nos incluísse à nossa revelia num qualquer dos seus planos. Porque me lembrei que o anti-centralismo militante que faz de conta que nos governa não admite que venha alguém de fora dizer-nos o que é que precisamos. Porque não consegui deixar de pensar que a cultura política oficial vigente por cá nos diz que uma coisa é a Madeira e outra é o rectângulo. E porque, nesta sequência de ideias, não me consegui lembrar de uma única iniciativa do governo regional no sentido da nossa inclusão, previamente negociada, no tal famigerado plano anti-crise.
Isto desculpa totalmente a omissão do primeiro-ministro e do seu governo? Sinceramente, não creio. Mas absolve de algum modo o poder político regional? A resposta só pode ser um rotundo e sonoro não. Quanto mais não seja, porque é o poder que nos está mais próximo. E porque lhe incumbe, em primeira instância, a missão de nos representar.
O episódio teve, no entanto, alguns méritos. Demonstrou que nas alturas de maior aperto até os autonomistas mais empedernidos parecem dispostos a atirar às malvas a autonomia de que se julgam donos - agora até acham que o estado central deveria lembrar-se de nós à revelia dos nossos órgãos de governo próprio. E revelou como um poder autonómico esgotado, sem soluções, quezilento, falho de ideias, e que desistiu de nos representar, é capaz de atirar a autonomia que devia defender para o colo do centralismo, apenas com o miserável propósito de se desculpabilizar ou tentar salvar a pele. E aqui termino voltando ao ponto de partida. A verdade é que nunca imaginei que os políticos que fizeram da autonomia o sustento político e material das suas carreiras pudessem chegar ao ponto de um dia pedir que se deixe de fazer caso dela. Uma verdadeira tristeza! São precisos novos autonomistas, é o que é. Porque, como se vê, estes já chegaram onde nunca se pensou que algum dia pudessem chegar.
Bernardino da Purificação

sábado, 10 de janeiro de 2009

O regresso da fábula dos porcos

Apesar de alguém andar fraternalmente a pedir o troco devido, vou continuar a optar pela via da contenção. Compreendam. Recuso chafurdar nas pocilgas que dão guarida aos arteiros desta vida. E consigo encontrar alguma gratificação no facto notório de alguém andar acometido de repentinos sobressaltos. Pelos vistos, nada como um bom susto para fazer saltar dos improváveis pedestais que ocupam uns quantos cavalheiros atormentados. Bem vindos, pois, ao terreiro da luta. Sintam-se em casa. Desfrutem. E votos sinceros de que haja por aí aprovisionamento suficiente de sais de frutos.
Não ignoro que os espíritos não-beligerantes são quase sempre incompreendidos. Considero-me assim suficientemente advertido para o facto dessa treta da não-beligerância poder ser confundida com a tibieza pura e simples. Como imaginam, não vou discutir o assunto. Não só porque a dúvida faz parte do jogo. Mas sobretudo porque sei que entre o medo e a ousadia há uma linha muito mais ténue do que podem supor os ditadorzecos de aldeia, e respectiva corte de vigilantes, que possam cirandar por aí. Mesmo considerando o arsenal de intimidação que têm ao seu dispor. E mesmo sabendo que eles não sabem, tão ofuscados andam com o unto oleoso do seu brilho, que a força bruta às vezes também se combate com recurso à força bruta.
Pretendeu alguém convencer-me que o modestíssimo autor deste blogue terá sido subtilmente ameaçado um dia destes. Palavra que o ingénuo que ele é teve e tem dificuldade em admiti-lo. Em primeiro lugar, porque não conseguiu enxergar qualquer ameaça. Em segundo, porque é incapaz de creditar qualquer laivo de subtileza ao trogloditismo militante e relapso que usa assentar por cá a porcina chafurdice dos seus arraiais. Não estranhem. A subtileza é descendente directa da inteligência. Ora, acontece que a fauna anafada que por aí anda desistiu há muito de dar corda ao intelecto. Basta-lhe, pobre dela, a arteirice. Ainda assim, registo a advertência. Nesta espécie de acta que encerro e assino. Bem ao contrário das que jazem delituosamente assinadas e abertas o tempo que exigem as jogatanas do costume.
Bernardino da Purificação

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O mistério dos ares da terra

Aselhice, meus senhores. Pura e simples. Mesmo que a trama tenha sido bem urdida. E mesmo que só se tenha dito a verdade e nada mais do que a verdade.
Foi assim. Alguém, certamente animado dos mais nobres propósitos, resolveu introduzir no debate interno social-democrata a relevantíssima questão das relações pessoais entre Cunha e Silva e Miguel Albuquerque. A aparência das coisas terá deixado a ideia de que tão pertinente iniciativa visou simplesmente desdramatizar um problema maçador. Compreende-se. Quando um balão enche de mais, pica-se e resolve-se o problema. Só que em política é preciso desconfiar. Se não dos propósitos do que se diz, pelo menos dos efeitos prováveis daquilo que for dito. Sob pena de uma simples palavrinha atirada singelamente ao vento poder transformar-se numa curva perigosa onde pode derrapar um destino (ou até dois, vá lá a gente saber...).
Vejamos. Estamos todos fartos de saber que Miguel Albuquerque e Cunha e Silva não se enxergam nem pintados. O tema não é novo. Os afloramentos mais azedos da acrimónia pessoal que os traz desavindos estão bem presentes na memória de todos. E, a bem dizer, ninguém ignora o que é que está por detrás da querida inimizade que ambos nutrem afectuosamente um pelo outro. De facto, por uma qualquer razão que só o espírito do tempo e os ares da ilha podem explicar, suas excelências entendem que têm condições para um dia presidirem ao governo da Região. E o resultado é aquele que se conhece: em virtude desse estranho milagre que nem a razão nem o senso são capazes de alcançar, os cavalheiros consideram que a sucessão de Jardim é assunto exclusivamente seu. Que têm o direito de tratar como muito bem quiserem e entenderem. E que, sabemo-lo já, resolveram tratar pela simpática via da aniquilação pública recíproca. Uns aprendizes de feiticeiro, é o que são. Com mais olhos que barriga. E com muito mais atrevimento do que tino.
Entre vários outros, os dois cometeram um erro estratégico elementar. Não perceberam que no maximalismo das guerras de eliminação não há lugar para empates. Ou ganha-se tudo, ou perde-se tudo. É tão simples quanto isso. De modos que se os dois continuam a andar por aí alegres da vida é porque estão ambos derrotados sem o terem ainda percebido. O que não deixa de nos dizer alguma coisa sobre a agudeza de vistas dos dois cavalheiros em questão.
Mas, há mais. A somar ao erro estratégico, os dois simpáticos beligerantes têm-se fartado de cometer uma boa meia dúzia de erros tácticos. Disparam a torto e a direito sem cuidarem de saber se acertam ou não no alvo. E permitem-se até, como mais uma vez aconteceu, dar pública nota do azedume que lhes vem do fígado e alimenta o espírito. Resultado: as coisas chegaram a um tal ponto que Albuquerque e Cunha e Silva não passam já de apelidos de facção ou de sinónimos de divisão.
Jardim está assim nas suas sete quintas. Pode manipular as coisas à vontade. Dá força a um. Finge que, no fim de contas, até é capaz de apoiar o outro. E o mais certo é que vá preparando na sombra a bissectriz de uma terceira via qualquer. E nem Cunha e Silva nem Albuquerque perceberam que quanto mais assumirem em público o conflito que travam, seja por iniciativa própria, seja por tramóia alheia, mais ajudam a desenhar uma alternativa unificadora do partido que obviamente os exclui. Que tansos que eles são!
Bernardino da Purificação

domingo, 4 de janeiro de 2009

Carta aberta a quem de direito

Vá lá, dr. Jardim. Atreva-se. Mostre a ousadia que tem. Afronte o situacionismo nacional que tanto tem denunciado. Decida-se. Mergulhe de cabeça na política a sério. Não quer fazê-lo? Compreendo. A maçonaria não deixa. A comunicação social também não. O eixo Lisboa-Cascais muito menos. E o bloco central dos interesses anda mesmo à espera de lhe dar uma boa coça. Sendo assim, faça-nos um favor. Acabe com as rábulas. Deixe-se de ameaçar muito e fazer muito pouco. E, já agora, perceba de uma vez por todas que o seu lugar é aqui. Nesta política pequenina onde só há lugar para quem manda. Nesta refrega de campanário mais ou menos acomodada ao polimento lustroso dos seus modos, à sereníssima expressão da sua vontade, à suavidade aveludada do seu estilo.
Note. Quem, como vosselência, tem a seu crédito a proeza de criar dependentes como quem faz o milagre da multiplicação dos servos não pode pura e simplesmente virar as costas e zarpar para outras paragens. Não só é preciso cuidar dos órfãos, como parece pouco cristão puxar o tapete aos comensais que, a seu convite, se sentam consigo à mesa do nosso orçamento. Pode ser que lhe doa. E acredito até que isso lhe possa trazer imensa infelicidade. Mas acredite, meu caro dr. Jardim: a política madeirense é um cálice que vai ter de tragar até à última gota. Porque o futebol profissional precisa de si. Porque a política de transportes marítimos não o dispensa. Porque as vias litorais e expresso, e as demais correlativas ou congéneres criaturas, exigem o aval da sua presença. Porque as sociedades de desenvolvimento não aguentam o amparo único do notável estadista que chamou para seu vice. Porque há mais meia dúzia de centros cívicos por fazer. Uma mancha de laurissilva por destruir. Um pedaço de frente-mar por descaracterizar. Uma ilha para continuar a esburacar.
Santa paciência, dr. Jardim. Conforme-se ou não com a tristeza da perspectiva, vossa mercê não tem outra saída. O seu lugar é junto dos seus. De maneira que lhe peço encarecidamente: deixe-se de fitas. Trabalhe. Comece a preocupar-se mais com as competências que tem e menos com as que diz que ainda lhe faltam. Dê atenção à crescente pobreza que já nem consegue esconder-se. Analise como deve os trágicos números da escola que nos envergonha e hipoteca o futuro. Repare que as desigualdades aumentam apesar das carradas de euros que nos caem em cima. Olhe com atenção para as dificuldades do nosso tecido empresarial. Observe o desemprego que sobe. As falências que aumentam. O turismo que soluça. Em suma, comece a governar com os meios que tem. Demonstre de forma positiva e em actos que é vantajoso para todos aprofundar e alargar a autonomia que temos. E deixe-se de subterfúgios. E acabe com as rábulas. E ponha termo aos números de mau circo em que incorre cada vez que deixa cair a sugestão de que é desta que vai atirar-se à política nacional.
Ou então, dr. Jardim, decida-se de uma vez e vá. Mande às urtigas os dependentes dos milhões da bola. Marimbe-se para os que têm feito consigo a Madeira Nova de realizações notáveis, obras discutíveis e exclusões evitáveis. E, ao menos uma vez na vida, tenha a coragem de assumir riscos. Como sou tão modesto a pedir como indigente a pensar, só lhe peço que resista à tentação de participar activamente na escolha do seu sucessor. Não é por nada. Mas suspeito que a paródia seria assim bastante maior.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

As tentações natalícias

Palavra que já tinha saudades. Não sabia que esta forma de convívio tecnologicamente mediado pudesse ser tão gratificante. Quase um vício. O interregno dos dias que passaram fez-me perceber que isto é, afinal, muito mais pessoal do que algum dia fui capaz de supor. Apesar da impessoalidade do meio utilizado. E a despeito de, no final de contas, tudo se resumir a meia dúzia de observações e um número idêntico de ideias postas a circular.
Um vício bom, em suma. Que retomo com gosto. Que já me andava a fazer falta.
Devo dizer, aliás, que me senti várias vezes tentado a interromper a trégua natalícia que me impus. Devem ter reparado, com certeza. Gostemos ou não, ele há sempre gente que nem no Natal consegue dar descanso à nossa paciência. Como o ex-senhor ministro da República. Como o cavalheiro que faz de conta que governa com o título lustroso de vice, de muita pompa e escassa ou nula substância. Ou como o eterno dr. Jardim que nunca perde uma oportunidade de alardear a visão cínica que tem da política.
Foi assim. O senhor conselheiro Diniz teve o atrevimento de dar uma ilegítima reprimenda pública a um legítimo representante do povo desta Região. O inenarrável vice fez o favor de sacar do inesgotável bornal do disparate mais uma das suas pérolas quinzenais. E o nosso senhor presidente entendeu dever criticar Cavaco Silva por este ter cometido o trágico erro de levar muito a sério e demasiado longe uma (imagine-se!) singela questão de princípio.
Comecemos então pelo princípio. O senhor representante nomeado não gostou que o líder do PP tivesse levantado a voz para exigir um veto ao famigerado jackpot com que a maioria parlamentar agraciou os partidos políticos madeirenses. Um desaforo, terá pensado sua excelência. Um deputadozeco, ainda por cima eleito, ainda por cima de um partido minoritário, a fazer política à custa da sua excelsa função e da sua soberaníssima vontade? Que impertinência! Leva uma rabecada e pronto, que assim pode ser que se emende. Valeu na circunstância que o líder do PP lhe respondeu à letra. Mas não deixa de ser inquietante verificar a pesporrência com que um servidor público (eufemismo de "funcionário") de legitimidade nomeada acha que pode tratar um político eleito. Para já não falar da desproporcionada parcialidade com que sua excelência se encolhe perante as diatribes da maioria e se empertiga cada vez que ousam falar as várias minorias. A culpa, claro, também é delas. Tanto defenderam a necessidade de um ministro ou de um representante da República que acabou por lhes sair na rifa um mal disfarçado compincha do poder político regional. Aguentem-no, pois. Mas, já agora, aprendam e reflictam. Esta figura esquisita, que não é carne nem peixe, com ar de tutor e vocação de mestre-escola, não tem razão de ser. É político, mas não é político. E tão conveniente hibridismo confere-lhe uma prerrogativa que nenhum outro político tem: é praticamente inamovível. Coisa notável, não acham?
Fale-se agora do dr. Cunha. Eu às vezes fico sem saber se o homem goza connosco ou se está mesmo convencido das barbaridades que diz. Vejam como lhe dou o benefício da dúvida. Ora acontece que alguém lhe terá dito que há uma relação qualquer entre o crescimento económico e o consumo de energia. Pois bem, o vice não quis saber de mais nada. Chamou o dr. Rebelo, que era para ser secretário das Finanças mas que preferiu dirigir a EEM que o dr. Cunha faz questão de dizer que tutela. Pediu-lhe os mapas do consumo. Constatou que os gráficos subiam. E, num êxtase, descobriu que a economia da Madeira cresce de tal modo que qualquer dia nem cabe na exiguidade da ilha. Acudam-nos, por favor. Isto já começa a roçar ou a indigência ou a insanidade. E não há uma alma caridosa que pergunte a esta gente quem são os principais consumidores de energia da terra. Da mesma forma que ninguém se dá à maçada de perguntar à EEM do dr. Rebelo, e que o dr. Cunha orgulhosamente tutela, o número dos consumidores em dívida, a identidade dos caloteiros públicos, e o cálculo estimado dos desperdícios. Mas isso, é claro, há-de ser coisa que se calhar não interessa...
E a finalizar, o dr. Jardim. Poucas linhas. As suficientes para lembrar apenas o comentário feito pelo homem de convicções e princípios que é o nosso presidente à forma como Cavaco Silva lidou com o problema das evidentes inconstitucionalidades do Estatuto dos Açores. O presidente da República deu demasiada importância à questão, sentenciou o dr. Jardim. E por aí se ficou, como se para si fosse errado dar importância às questões de princípio. Cada um está na política como pode. Ora, pelos vistos, o dr. Jardim só pode assim. Para ele não há princípios. Só há oportunidades. Obrigado pelo esclarecimento, senhor presidente. E, já agora, veja lá se é capaz de fazer qualquer coisa para que possamos ter todos um bom ano novo.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Parêntesis de votos pios

Há de facto qualquer coisa no ar. Não sei se é das renas e trenós do Natal que ficcionamos (jingle bells, jingle all the way). Ignoro se será do tim-tam-tum das minhas cada vez mais velhas memórias. Nem sei se é coisa do odor balsâmico a azevinho, se do vermelho-único das manhãs-de-páscoa, ou se do brilho lustroso do alegra-campo. Do bolo de mel não há-de ser que o dito corre por aí demasiado industrializado para o genuíno gosto dos nostálgicos. E do ambiente dos shoppings também não porque, segundo se diz, a crise passeia-se para cá e para lá num tropel de cobiça contida ou necessidade adiada à espera da estação dos saldos. No entanto, queira-se ou não, há por aí qualquer coisa que nos distrai das maçadas quase diárias perpetradas pelos permanentes maçadores do costume.
Ignoremos, pois, por uma semana o dr. Cunha que nos dá cabo do orçamento sem se preocupar um bocadinho que seja com a ameaça real da crise. Deixemos de lado por uns dias as evasões mensais do dr. Jardim e as suas diatribes anti-Sócrates só para se desresponsabilizar e dizer que está vivo. Façamos de conta que o dr. Jardim Ramos resolveu finalmente ficar quieto depois da louça que desajeitadamente partiu no Hospital. E finjamos que não percebemos nem que o dr. Gouveia decidiu não existir, nem que o dr. Aguiar continua a achar que isto não merece mais do que uns quantos números de circo, nem que o líder do PP deixou de perceber se, por causa da estratégia nacional, deve piscar o olho ao PS ou ao PSD.
Aceitemos, em suma, deixar dentro de um parêntesis de votos pios a nossa consciência crítica. Ao menos por uns dias. Com a promessa, claro, de voltarmos ao terreiro logo que passem as festas. Entretanto, que possamos ter todos um feliz Natal. Mesmo os que não o mereçam. Até já.
Bernardino da Purificação