Provavelmente, nunca saberemos o que é que o presidente da Assembleia Legislativa foi dizer ontem ao primeiro-ministro. E, do mesmo modo, é pouco provável que um dia venhamos a saber o que é que Miguel Mendonça ouviu de José Sócrates. O facto de o encontro ter decorrido a sós há-de desaconselhar com certeza as fugas de informação. E mesmo que os circunstantes inesperados deste improvável tête-a-tête político venham a partilhar com os seus próximos o teor da conversa havida, é pouco expectável a deselegância da inconfidência pública. A menos que a falta de decoro faça o número do costume. Ou que uma certa forma de estar na política consiga sobrepor-se às regras da decência. O facto, ainda assim, merece ser tratado em sede de comentário político. Apresenta um valor facial susceptível de interpretações políticas diversas. E apesar de amanhã poder ser já uma coisa do passado, reclama hoje uma atenção que não lhe deve ser negada.
Do quase nada que se sabe, avulta desde logo uma primeira observação: o encontro foi pedido pelo presidente do Parlamento dos madeirenses. O que quer dizer que assumiu uma dimensão política e simbólica muito particular no contexto das relações institucionais existentes entre os órgãos de soberania e os órgãos de governo próprio da Região - foram os madeirenses, e não o representante do poder político da RAM, que pediram a graça do encontro com o primeiro-ministro do país; foi a voz da vontade soberana dos eleitores da Madeira que quis ser ouvida em S. Bento, e não simplesmente a da maioria que nos governa. Muito interessante, sem dúvida alguma. O problema é que a dita vontade soberana madeirense não soube, não sabe, nem nunca há-de saber por vias limpas o que é que o dr. Mendonça resolveu ir dizer, alegadamente em seu nome, ao primeiro-ministro de Portugal.
A democracia representativa é assim mesmo, dirão os formalistas e anuirão acriticamente os ingénuos. Peço desculpa, mas não me parece que seja. Não está escrito em lado nenhum que a representação deva dispensar a apresentação de contas. Nem me parece aceitável que, em nome da democracia, alguém se atribua o direito de apropriar-se da vontade popular com a ligeireza de quem usa um cheque em branco. Sob pena de, no caso em apreço, podermos cair na tentação de pensar que, ao contrário do que é subliminarmente sugerido, Miguel Mendonça se limitou a ir a S. Bento cumprir uma agenda estritamente partidária, porém, à boleia das funções supra-partidárias que desempenha.
Não sou adepto da inconfidência. Esse é o expediente dos cínicos e dos bufos. Mas tenho o direito de pensar, a título de direito de cidadania, que me é devida uma explicação, ao menos em forma de comunicado conjunto ou nota de imprensa (impressiona-me que o dr. Mendonça não se sinta obrigado a informar os seus pares do parlamento). Mas como a regra do silêncio impera, ninguém levará a mal que, especulando um pouco, admita um de dois cenários: ou Jardim está realmente à rasca e já não consegue gerir o beco sem saída para onde atirou as relações do seu governo com o governo da República; ou Mendonça pediu a audiência a Sócrates na esperança secreta, mas entretanto frustrada, de que este o mandasse redondamente à fava. Como estamos em vésperas de eleições, e tendo em conta o absurdo e malcriado cadastro das relações (não) existentes entre o dr. Jardim e o senhor Pinto de Sousa, nenhuma das hipóteses se afigura propriamente inverosímil. Muito pelo contrário. A maçada é que nenhuma consegue ser melhor do que a outra.
Bernardino da Purificação
