Com a precisão cirúrgica de quem já tem a estratégia pronta, lá seguiu o recado para o veículo do costume.
O recado. Ao contrário do que chegou a pensar-se, a cadeira que o PSD tem mais ou menos cativa no Parlamento Europeu pode servir de lugar de recuo para a resolução de uma disputa que já embaraça. Refiro-me, é claro, ao alegre e insano fratricídio em que andam envolvidos os senhores doutores Cunha e Silva e Miguel Albuquerque.
O veículo. Apesar das fitas ostensivamente públicas, o DN é a via privilegiada de divulgação das inconfidências anónimas feitas pelo dr. Jardim. Sempre que é preciso agitar as águas, o patrão da Quinta Vigia acciona os canais que tem abertos com o velho centenário dito independente. A vida da imprensa é dura. E há acordos, formais ou informais, a que ninguém consegue resistir.
Traduzindo tudo isto por miúdos, temos então que Sérgio Marques poderá estar de regresso à base. Ou para se reformar da política. Ou para uma tranquila travessia no deserto. Ou para baralhar as contas da sucessão. Correlativamente, temos também que Miguel Albuquerque pode começar a despedir-se da sua equilibrista condição de candidato preferido do povo mas execrado por Jardim, e que João Cunha e Silva pode começar a pensar fazer o mesmo relativamente à sua excelentíssima condição de candidato preferido por Jardim mas execrado pelo povo. Acreditem. A política pode revelar-se um tormento para quem aceita depender exclusivamente dela. Basta que a falta de tacto e de tino opere a transformação de um delfim de olhos esbugalhados para as delícias do futuro num abcesso que é preciso extirpar.
O que acontece, em suma, é que Jardim está na fase da agitação e dos recados. Emitindo mensagens propositadamente equívocas com o fito de abalar as certezas que uns tolos ensimesmados tinham por totalmente adquiridas. Voltando a chamar a si a condução da vida interna do seu partido, depois do ócio prolongado que preguiçosamente se atribuiu. E dizendo, no fundo, a todos os indiscutíveis que isto, afinal, não vai sem uma boa (ou má) discussão. Uma maçada, insisto. Pelo menos, para aqueles que só sabem perder-se na contemplação do poder improvável que o destino lhes colocou nas mãos.
Temos assim que a única certeza que actualmente se pode ter é que chegou o tempo do fim das certezas. Nada mau. Mesmo que daqui a semanas ou meses venhamos a verificar que tudo vai continuar mais ou menos na mesma, considero refrescante que o dr. Jardim tenha resolvido brindar-nos com esta aparência de novidade. Obrigado, pois, dr. Jardim. Numa terra em que a política só se move à superfície, é um verdadeiro luxo experimentar o direito de imaginar uma mudança. Quanto mais não seja pela nota de precariedade que, espero-o ardentemente, pode operar o milagre de fazer descer à terra o umbigo prepotente e insuflado de alguns dos nossos mandantes.
Mas a par do agradecimento genuíno e sincero que acabo de formular-lhe, não resisto, dr. Jardim, à expressão de uma modesta e desinteressada opinião. Vosselência não precisa de candidatar um peso-pesado como o dr. Sérgio Marques à Câmara do Funchal. Fazê-lo seria demonstrar medo da concorrência. Mas pior. Se porventura o fizer (coisa em que não acredito), nunca conseguirá demonstrar que os votos do Albuquerque são todos, afinal, integralmente seus (como vê, sou sensível às suas agruras d'alma), como Vexa mui justamente reivindica. Olhe. Porque é que não pensa, ao invés, exportar para Bruxelas esse magnífico expoente do nosso produto regional bruto que é o senhor seu vice. As vantagens seriam pelo menos duas. Por um lado, o dito cavalheiro poderia completar a formação humana e política que manifestamente ainda lhe falta. Por outro, vosselência sempre teria um rosto amigo com quem partilhar a fria solidão das suas excursões quinzenais europeias.
Como é evidente, admito e humildemente aceito que possa não estar para aí virado. Se for esse o caso, deixo-lhe, com amizade, ainda mais uma dica tão desinteressada quanto construtiva. E porque não pôr o Sérgio, mais o Cunha, mais o Albuquerque e mais o Tranquada e o Pita todos no governo? Veria que a selecção natural resolveria o problema da sucessão de vosselência. A menos que esse seja ainda um assunto que não lhe tira o sono. Se assim for, já cá não está quem falou. De qualquer modo, não precisa de agradecer.
Bernardino da Purificação
