domingo, 18 de janeiro de 2009

O vazio estratégico e o tango

Com a resignação patibular dos tristes, o PS continua a pôr-se a jeito de uma abada copiosa nas eleições que temos pela frente. Não sei se é karma ou padecência genética. Não sei se é fado ou pura aselhice. Mas que a coisa se percebe à distância, santa paciência, lá isso percebe-se.
Uma vez que não lhe frequento os corredores, ignoro se os ditos têm consciência do facto. E como só vejo o quase nada que há para ver, é-me impossível perceber se a rotina da derrota terá já ganho, ou não, estatuto de modo de vida. Dá, no entanto, para perceber que a direcção regional socialista não consegue travar o passo à estratégia plebiscitaria anti-Sócrates meticulosamente lançada por Jardim. E isso, a meu ver, parece remeter-nos para um paradoxo essencial que o PS-Madeira não há maneira de conseguir resolver. O seguinte.
Creio que toda a gente já reparou que PS é um caso estranho. Se não de incapacidade política, pelo menos de falta de sorte. Se não de confusão estratégica, pelo menos de atenção escassa, quase nula, ao terreno onde grande parte da acção política se desenrola - o espaço comunicacional.
Considerando apenas o valor facial do que os seus dirigentes dizem, não custa racionalmente dar-lhes razão. O problema é que, desgraçadamente para eles, as pessoas pura e simplesmente não os ouvem. Ou porque se estão nas tintas para o que dizem, em consequência de um eventual descompasso entre a mensagem veiculada e as preocupações mais imediatas dos cidadãos. Ou porque, no fundo, ninguém aposta um chavo nos eventuais créditos políticos que possam ter. Perceba-se. A política é muitas vezes um jogo perverso de regras próprias em que conta mais a personalidade de quem diz do que a acuidade ou o mérito do que possa ser dito. E enquanto isso não for devida e humildemente interiorizado pelos responsáveis socialistas, o PS-M arrisca-se a continuar a vegetar no espaço limitado em que se consome. Independentemente da qualidade objectiva de alguns dos seus rostos mais visíveis. E sem beliscar o esforço dedicado e sério que todos afinal possam andar a fazer.
É claro que percebo que o ambiente político regional tende a alienar a qualidade da participação política activa. E sou até capaz de compreender que o PS-M tem de pagar um preço qualquer por ser muitas vezes obrigado a andar politicamente entalado na dialéctica de confronto que opõe o poder central ao poder político regional (ou vice-versa, a ordem é obviamente arbitrária, já que é sempre necessário um par para que possa haver um tango). Acho, porém, que o cúmulo destas duas circunstâncias está longe de explicar tudo. Pelo que regresso ao paradoxo essencial que, em meu entender, continua a toldar as vistas dos dirigentes regionais socialistas.
Ora, acontece que o PS continua sem saber se, nesta fase, deve ser um partido de protesto ou se deve apresentar-se como um potencial partido de poder. Pior. No mais das vezes, deixa-se cair numa espécie de quadratura do círculo em que pretende ser as duas coisas ao mesmo tempo. Sem perceber que o protesto puro e simples é capaz de dar espectáculo mas não leva ninguém à governação. E sem ter em conta que o estatuto de partido de poder exige bastante mais do que uma simples e bem intencionada proclamação.
Veja-se o que aconteceu nos últimos anos. Com o objectivo de endurecer o seu modo de fazer oposição, o PS armou-se na primeira linha com uns respeitáveis cavalheiros de perfil, digamos, mais veemente e combativo (adoro os eufemismos...). O problema é que logo a seguir entrou em cena o PND. E o resultado foi o que se viu. De um pé para a mão, os socialistas viram-se de súbito numa espécie de vazio estratégico. Sem gente qualificada (descontando as duas ou três honrosas excepções que se conhecem) para merecerem ser vistos como alternativa de poder. Mas igualmente sem pessoas interessadas em acompanhar o teatro dos "novos democratas".
Isto é, o PS quase deixou de existir. Pelo menos, no habitat natural da política que é o espaço público da comunicação. Porque tem pela frente o poder político regional com a sua gigantesca máquina de intimidação e propaganda. E porque tem à ilharga o PND com quem não consegue rivalizar na produção de sound bytes. Encontra-se mediaticamente encurralado, em suma. Foi a isso que levou a estranha mania de não ser nem carne nem peixe. De maneira que arrisca-se a voltar a bater no fundo antes de conseguir ensaiar nova tentativa para se erguer. Mesmo havendo motivos de sobra para uma punição exemplar ao PSD.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A entrevista que não foi

A coisa merece, como certamente compreenderão, algumas notas prévias.
Em primeiro lugar, aquilo não foi uma entrevista. Assumiu antes a forma de um pindérico monólogo ocasionalmente entrecortado por alguns sons vagamente perceptíveis vindos do outro lado da mesa. Em segundo lugar, não teve entrevistador. O que era para ser não passou de um hóspede confuso e agradecido perante um anfitrião histriónico e sem maneiras. Em terceiro lugar, não teve novidades. Limitou-se a ser mais do mesmo, ou seja, um chorrilho repetido que nada de verdadeiramente importante trouxe às notícias ou ao debate político nacional. Em conformidade, e esta é a quarta deste conjunto de notas prévias, os espectadores que ficaram militantemente à espera do espaço de informação anunciado acabaram por ver-se perversamente defraudados - um número de comédia sentada remete-nos muito mais para a área do entretenimento do que para o nobre sector das actualidades. Donde estou em crer que aquilo não passou de uma bem urdida manobra de contra-programação apontada às novelas dos restantes canais, com o envolvimento presencial e passivo de um peso-pesado do jornalismo televisivo, e a colaboração exuberante, prestável e activa de uma das vedetas mais firmes e vendáveis da política cénica à portuguesa. Apesar disso, prometo que não me vou queixar à ERC. Mas juro que me passou pela cabeça colocar a questão à DECO.
Em suma, aquilo foi uma tristezinha. Na forma, como já se viu. Mas muito em particular na substância. Porque Mário Crespo não foi o entrevistador preparado que se espera sempre que seja. E porque o político Jardim não conseguiu resistir ao peso insuportável da sua egolatria.
Palavra que estava à espera de outra coisa. Uma hora de entrevista em horário nobre não é coisa que um político responsável se permita desperdiçar. No entanto, foi isso que Jardim fez. Em vez de adoptar um registo sereno, ainda que firme, o presidente do governo voltou a fazer gala da sua conhecida falta de chá. E ao invés de ensaiar um discurso devidamente sustentado dirigido ao país, o líder madeirense não conseguiu manter sossegado o político autárquico estranhamente apaixonado pelos seus cada vez mais escassos méritos.
Sabe-se que o dr. Jardim não admite conselhos. Não ouve ninguém. E pensa sozinho. Não admira. Ele sabe quem escolheu para trabalhar junto dele. De maneira que prepara as entrevistas tal como vive o dia-a-dia no escritório. Será sempre o único a falar. Há-de debitar, a propósito ou a despropósito, a mensagem que quer transmitir. Não responderá a perguntas porque os jornalistas não mandam nele (quem pensam esses intrometidos que são?). E porque no seu democrático mundo só existem ele e o povo, dará um tom rasteiro ao discurso para olear a comunicação entre ambos.
Como vai acontecendo cada vez mais, o homem engana-se. Como nem perde tempo a pensar nas figuras que faz, não consegue perceber que é preciso mais do que duas ou três desconsiderações ao primeiro-ministro e à classe política nacional para conseguir ser credível e dar-se ao respeito. E como já anda descolado da realidade é incapaz de entender que já não há pachorra para os ódios de estimação que nutre pelos chamados interesses instalados, pelos grupos, grupinhos e grupelhos que alegadamente conspiram contra si, pela classe política em geral, e pela de Lisboa em particular, cujo único objectivo é, segundo diz, tramar-lhe a carreira, e pela comunicação social do sistema que vigia e mantém à distância as ovelhas negras ronhosas. Perceba isso, dr. Jardim. Há cada vez menos pachorra. E a culpa é exclusivamente sua.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A Autonomia a pataco

Disseram-me um dia que a gente só sabe onde chega depois de lá chegar. Acreditei na sentença, como é evidente, que a sabedoria popular nunca se engana e raramente tem dúvidas. E, em consequência, passei a adoptá-la como regra de prudência para as contingências da vida.
Por uma qualquer razão que ignoro, nunca me ocorreu aplicá-la à política. Se calhar, por nunca lá ter andado. Ainda assim, não desconheço que há poucas coisas na vida mais dadas ao sobe e desce. O que hoje é uma coisa, amanhã pode muito bem ser outra. Quem hoje está lá em cima, amanhã vem parar cá abaixo. A verdade de hoje é muitas vezes a mentira de amanhã. E nem as linhas de permanência que entre nós a estruturam deveriam ter-me feito esquecer que a volatilidade é uma das características mais importantes do tempo curto da política.
Que arrevesada reflexão, dirão os meus improváveis leitores. Sejam os que passam por aqui porque sim. Sejam os que por cá andam com segundas intenções. Sejam os vigilantes das ideias alheias potencialmente perigosas.
Passo então à explicação que é devida.
Acontece que pela leitura do DN percebi que o PSD abriu uma nova frente de combate ao primeiro-ministro. Como não podia deixar de ser, o pretexto desta vez é a crise. E do que a direcção política social-democrata se queixa é do facto de Sócrates não ter incluído a Madeira no plano anti-crise que recentemente anunciou.
Devo confessar que num primeiro momento achei justíssima a reclamação laranja. Sendo a Madeira uma parcela portuguesa, de facto parece mal que um plano qualquer da República lhe possa passar ao lado. Pagamos impostos como pagam os restantes portugueses. Não há lei que nos possa diminuir os direitos. E o governo que nos representa lá fora é o mesmo que representa o resto do país. Vai daí dei por mim a considerar que Lisboa desta vez foi longe de mais. Só que depois lembrei-me que somos uma região dotada de instituições políticas de auto-governo. Que dizem irresponsavelmente que não há crise que nos atinja. Que asseguram a quem as ouve que temos um desemprego residual. Que vão ao ponto de recomendar ao país as fórmulas de política económica que por cá se praticam, como se fossemos um país diferente ou um caso à parte. E que têm até o direito de bloquear iniciativas sobre matérias que nos dizem respeito caso não sejam previamente consultadas.
Aqui chegado, a minha primeira convicção vacilou. Porque dei por mim a pensar que seria considerado um insuportável atrevimento que um primeiro-ministro qualquer nos incluísse à nossa revelia num qualquer dos seus planos. Porque me lembrei que o anti-centralismo militante que faz de conta que nos governa não admite que venha alguém de fora dizer-nos o que é que precisamos. Porque não consegui deixar de pensar que a cultura política oficial vigente por cá nos diz que uma coisa é a Madeira e outra é o rectângulo. E porque, nesta sequência de ideias, não me consegui lembrar de uma única iniciativa do governo regional no sentido da nossa inclusão, previamente negociada, no tal famigerado plano anti-crise.
Isto desculpa totalmente a omissão do primeiro-ministro e do seu governo? Sinceramente, não creio. Mas absolve de algum modo o poder político regional? A resposta só pode ser um rotundo e sonoro não. Quanto mais não seja, porque é o poder que nos está mais próximo. E porque lhe incumbe, em primeira instância, a missão de nos representar.
O episódio teve, no entanto, alguns méritos. Demonstrou que nas alturas de maior aperto até os autonomistas mais empedernidos parecem dispostos a atirar às malvas a autonomia de que se julgam donos - agora até acham que o estado central deveria lembrar-se de nós à revelia dos nossos órgãos de governo próprio. E revelou como um poder autonómico esgotado, sem soluções, quezilento, falho de ideias, e que desistiu de nos representar, é capaz de atirar a autonomia que devia defender para o colo do centralismo, apenas com o miserável propósito de se desculpabilizar ou tentar salvar a pele. E aqui termino voltando ao ponto de partida. A verdade é que nunca imaginei que os políticos que fizeram da autonomia o sustento político e material das suas carreiras pudessem chegar ao ponto de um dia pedir que se deixe de fazer caso dela. Uma verdadeira tristeza! São precisos novos autonomistas, é o que é. Porque, como se vê, estes já chegaram onde nunca se pensou que algum dia pudessem chegar.
Bernardino da Purificação

sábado, 10 de janeiro de 2009

O regresso da fábula dos porcos

Apesar de alguém andar fraternalmente a pedir o troco devido, vou continuar a optar pela via da contenção. Compreendam. Recuso chafurdar nas pocilgas que dão guarida aos arteiros desta vida. E consigo encontrar alguma gratificação no facto notório de alguém andar acometido de repentinos sobressaltos. Pelos vistos, nada como um bom susto para fazer saltar dos improváveis pedestais que ocupam uns quantos cavalheiros atormentados. Bem vindos, pois, ao terreiro da luta. Sintam-se em casa. Desfrutem. E votos sinceros de que haja por aí aprovisionamento suficiente de sais de frutos.
Não ignoro que os espíritos não-beligerantes são quase sempre incompreendidos. Considero-me assim suficientemente advertido para o facto dessa treta da não-beligerância poder ser confundida com a tibieza pura e simples. Como imaginam, não vou discutir o assunto. Não só porque a dúvida faz parte do jogo. Mas sobretudo porque sei que entre o medo e a ousadia há uma linha muito mais ténue do que podem supor os ditadorzecos de aldeia, e respectiva corte de vigilantes, que possam cirandar por aí. Mesmo considerando o arsenal de intimidação que têm ao seu dispor. E mesmo sabendo que eles não sabem, tão ofuscados andam com o unto oleoso do seu brilho, que a força bruta às vezes também se combate com recurso à força bruta.
Pretendeu alguém convencer-me que o modestíssimo autor deste blogue terá sido subtilmente ameaçado um dia destes. Palavra que o ingénuo que ele é teve e tem dificuldade em admiti-lo. Em primeiro lugar, porque não conseguiu enxergar qualquer ameaça. Em segundo, porque é incapaz de creditar qualquer laivo de subtileza ao trogloditismo militante e relapso que usa assentar por cá a porcina chafurdice dos seus arraiais. Não estranhem. A subtileza é descendente directa da inteligência. Ora, acontece que a fauna anafada que por aí anda desistiu há muito de dar corda ao intelecto. Basta-lhe, pobre dela, a arteirice. Ainda assim, registo a advertência. Nesta espécie de acta que encerro e assino. Bem ao contrário das que jazem delituosamente assinadas e abertas o tempo que exigem as jogatanas do costume.
Bernardino da Purificação

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O mistério dos ares da terra

Aselhice, meus senhores. Pura e simples. Mesmo que a trama tenha sido bem urdida. E mesmo que só se tenha dito a verdade e nada mais do que a verdade.
Foi assim. Alguém, certamente animado dos mais nobres propósitos, resolveu introduzir no debate interno social-democrata a relevantíssima questão das relações pessoais entre Cunha e Silva e Miguel Albuquerque. A aparência das coisas terá deixado a ideia de que tão pertinente iniciativa visou simplesmente desdramatizar um problema maçador. Compreende-se. Quando um balão enche de mais, pica-se e resolve-se o problema. Só que em política é preciso desconfiar. Se não dos propósitos do que se diz, pelo menos dos efeitos prováveis daquilo que for dito. Sob pena de uma simples palavrinha atirada singelamente ao vento poder transformar-se numa curva perigosa onde pode derrapar um destino (ou até dois, vá lá a gente saber...).
Vejamos. Estamos todos fartos de saber que Miguel Albuquerque e Cunha e Silva não se enxergam nem pintados. O tema não é novo. Os afloramentos mais azedos da acrimónia pessoal que os traz desavindos estão bem presentes na memória de todos. E, a bem dizer, ninguém ignora o que é que está por detrás da querida inimizade que ambos nutrem afectuosamente um pelo outro. De facto, por uma qualquer razão que só o espírito do tempo e os ares da ilha podem explicar, suas excelências entendem que têm condições para um dia presidirem ao governo da Região. E o resultado é aquele que se conhece: em virtude desse estranho milagre que nem a razão nem o senso são capazes de alcançar, os cavalheiros consideram que a sucessão de Jardim é assunto exclusivamente seu. Que têm o direito de tratar como muito bem quiserem e entenderem. E que, sabemo-lo já, resolveram tratar pela simpática via da aniquilação pública recíproca. Uns aprendizes de feiticeiro, é o que são. Com mais olhos que barriga. E com muito mais atrevimento do que tino.
Entre vários outros, os dois cometeram um erro estratégico elementar. Não perceberam que no maximalismo das guerras de eliminação não há lugar para empates. Ou ganha-se tudo, ou perde-se tudo. É tão simples quanto isso. De modos que se os dois continuam a andar por aí alegres da vida é porque estão ambos derrotados sem o terem ainda percebido. O que não deixa de nos dizer alguma coisa sobre a agudeza de vistas dos dois cavalheiros em questão.
Mas, há mais. A somar ao erro estratégico, os dois simpáticos beligerantes têm-se fartado de cometer uma boa meia dúzia de erros tácticos. Disparam a torto e a direito sem cuidarem de saber se acertam ou não no alvo. E permitem-se até, como mais uma vez aconteceu, dar pública nota do azedume que lhes vem do fígado e alimenta o espírito. Resultado: as coisas chegaram a um tal ponto que Albuquerque e Cunha e Silva não passam já de apelidos de facção ou de sinónimos de divisão.
Jardim está assim nas suas sete quintas. Pode manipular as coisas à vontade. Dá força a um. Finge que, no fim de contas, até é capaz de apoiar o outro. E o mais certo é que vá preparando na sombra a bissectriz de uma terceira via qualquer. E nem Cunha e Silva nem Albuquerque perceberam que quanto mais assumirem em público o conflito que travam, seja por iniciativa própria, seja por tramóia alheia, mais ajudam a desenhar uma alternativa unificadora do partido que obviamente os exclui. Que tansos que eles são!
Bernardino da Purificação

domingo, 4 de janeiro de 2009

Carta aberta a quem de direito

Vá lá, dr. Jardim. Atreva-se. Mostre a ousadia que tem. Afronte o situacionismo nacional que tanto tem denunciado. Decida-se. Mergulhe de cabeça na política a sério. Não quer fazê-lo? Compreendo. A maçonaria não deixa. A comunicação social também não. O eixo Lisboa-Cascais muito menos. E o bloco central dos interesses anda mesmo à espera de lhe dar uma boa coça. Sendo assim, faça-nos um favor. Acabe com as rábulas. Deixe-se de ameaçar muito e fazer muito pouco. E, já agora, perceba de uma vez por todas que o seu lugar é aqui. Nesta política pequenina onde só há lugar para quem manda. Nesta refrega de campanário mais ou menos acomodada ao polimento lustroso dos seus modos, à sereníssima expressão da sua vontade, à suavidade aveludada do seu estilo.
Note. Quem, como vosselência, tem a seu crédito a proeza de criar dependentes como quem faz o milagre da multiplicação dos servos não pode pura e simplesmente virar as costas e zarpar para outras paragens. Não só é preciso cuidar dos órfãos, como parece pouco cristão puxar o tapete aos comensais que, a seu convite, se sentam consigo à mesa do nosso orçamento. Pode ser que lhe doa. E acredito até que isso lhe possa trazer imensa infelicidade. Mas acredite, meu caro dr. Jardim: a política madeirense é um cálice que vai ter de tragar até à última gota. Porque o futebol profissional precisa de si. Porque a política de transportes marítimos não o dispensa. Porque as vias litorais e expresso, e as demais correlativas ou congéneres criaturas, exigem o aval da sua presença. Porque as sociedades de desenvolvimento não aguentam o amparo único do notável estadista que chamou para seu vice. Porque há mais meia dúzia de centros cívicos por fazer. Uma mancha de laurissilva por destruir. Um pedaço de frente-mar por descaracterizar. Uma ilha para continuar a esburacar.
Santa paciência, dr. Jardim. Conforme-se ou não com a tristeza da perspectiva, vossa mercê não tem outra saída. O seu lugar é junto dos seus. De maneira que lhe peço encarecidamente: deixe-se de fitas. Trabalhe. Comece a preocupar-se mais com as competências que tem e menos com as que diz que ainda lhe faltam. Dê atenção à crescente pobreza que já nem consegue esconder-se. Analise como deve os trágicos números da escola que nos envergonha e hipoteca o futuro. Repare que as desigualdades aumentam apesar das carradas de euros que nos caem em cima. Olhe com atenção para as dificuldades do nosso tecido empresarial. Observe o desemprego que sobe. As falências que aumentam. O turismo que soluça. Em suma, comece a governar com os meios que tem. Demonstre de forma positiva e em actos que é vantajoso para todos aprofundar e alargar a autonomia que temos. E deixe-se de subterfúgios. E acabe com as rábulas. E ponha termo aos números de mau circo em que incorre cada vez que deixa cair a sugestão de que é desta que vai atirar-se à política nacional.
Ou então, dr. Jardim, decida-se de uma vez e vá. Mande às urtigas os dependentes dos milhões da bola. Marimbe-se para os que têm feito consigo a Madeira Nova de realizações notáveis, obras discutíveis e exclusões evitáveis. E, ao menos uma vez na vida, tenha a coragem de assumir riscos. Como sou tão modesto a pedir como indigente a pensar, só lhe peço que resista à tentação de participar activamente na escolha do seu sucessor. Não é por nada. Mas suspeito que a paródia seria assim bastante maior.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

As tentações natalícias

Palavra que já tinha saudades. Não sabia que esta forma de convívio tecnologicamente mediado pudesse ser tão gratificante. Quase um vício. O interregno dos dias que passaram fez-me perceber que isto é, afinal, muito mais pessoal do que algum dia fui capaz de supor. Apesar da impessoalidade do meio utilizado. E a despeito de, no final de contas, tudo se resumir a meia dúzia de observações e um número idêntico de ideias postas a circular.
Um vício bom, em suma. Que retomo com gosto. Que já me andava a fazer falta.
Devo dizer, aliás, que me senti várias vezes tentado a interromper a trégua natalícia que me impus. Devem ter reparado, com certeza. Gostemos ou não, ele há sempre gente que nem no Natal consegue dar descanso à nossa paciência. Como o ex-senhor ministro da República. Como o cavalheiro que faz de conta que governa com o título lustroso de vice, de muita pompa e escassa ou nula substância. Ou como o eterno dr. Jardim que nunca perde uma oportunidade de alardear a visão cínica que tem da política.
Foi assim. O senhor conselheiro Diniz teve o atrevimento de dar uma ilegítima reprimenda pública a um legítimo representante do povo desta Região. O inenarrável vice fez o favor de sacar do inesgotável bornal do disparate mais uma das suas pérolas quinzenais. E o nosso senhor presidente entendeu dever criticar Cavaco Silva por este ter cometido o trágico erro de levar muito a sério e demasiado longe uma (imagine-se!) singela questão de princípio.
Comecemos então pelo princípio. O senhor representante nomeado não gostou que o líder do PP tivesse levantado a voz para exigir um veto ao famigerado jackpot com que a maioria parlamentar agraciou os partidos políticos madeirenses. Um desaforo, terá pensado sua excelência. Um deputadozeco, ainda por cima eleito, ainda por cima de um partido minoritário, a fazer política à custa da sua excelsa função e da sua soberaníssima vontade? Que impertinência! Leva uma rabecada e pronto, que assim pode ser que se emende. Valeu na circunstância que o líder do PP lhe respondeu à letra. Mas não deixa de ser inquietante verificar a pesporrência com que um servidor público (eufemismo de "funcionário") de legitimidade nomeada acha que pode tratar um político eleito. Para já não falar da desproporcionada parcialidade com que sua excelência se encolhe perante as diatribes da maioria e se empertiga cada vez que ousam falar as várias minorias. A culpa, claro, também é delas. Tanto defenderam a necessidade de um ministro ou de um representante da República que acabou por lhes sair na rifa um mal disfarçado compincha do poder político regional. Aguentem-no, pois. Mas, já agora, aprendam e reflictam. Esta figura esquisita, que não é carne nem peixe, com ar de tutor e vocação de mestre-escola, não tem razão de ser. É político, mas não é político. E tão conveniente hibridismo confere-lhe uma prerrogativa que nenhum outro político tem: é praticamente inamovível. Coisa notável, não acham?
Fale-se agora do dr. Cunha. Eu às vezes fico sem saber se o homem goza connosco ou se está mesmo convencido das barbaridades que diz. Vejam como lhe dou o benefício da dúvida. Ora acontece que alguém lhe terá dito que há uma relação qualquer entre o crescimento económico e o consumo de energia. Pois bem, o vice não quis saber de mais nada. Chamou o dr. Rebelo, que era para ser secretário das Finanças mas que preferiu dirigir a EEM que o dr. Cunha faz questão de dizer que tutela. Pediu-lhe os mapas do consumo. Constatou que os gráficos subiam. E, num êxtase, descobriu que a economia da Madeira cresce de tal modo que qualquer dia nem cabe na exiguidade da ilha. Acudam-nos, por favor. Isto já começa a roçar ou a indigência ou a insanidade. E não há uma alma caridosa que pergunte a esta gente quem são os principais consumidores de energia da terra. Da mesma forma que ninguém se dá à maçada de perguntar à EEM do dr. Rebelo, e que o dr. Cunha orgulhosamente tutela, o número dos consumidores em dívida, a identidade dos caloteiros públicos, e o cálculo estimado dos desperdícios. Mas isso, é claro, há-de ser coisa que se calhar não interessa...
E a finalizar, o dr. Jardim. Poucas linhas. As suficientes para lembrar apenas o comentário feito pelo homem de convicções e princípios que é o nosso presidente à forma como Cavaco Silva lidou com o problema das evidentes inconstitucionalidades do Estatuto dos Açores. O presidente da República deu demasiada importância à questão, sentenciou o dr. Jardim. E por aí se ficou, como se para si fosse errado dar importância às questões de princípio. Cada um está na política como pode. Ora, pelos vistos, o dr. Jardim só pode assim. Para ele não há princípios. Só há oportunidades. Obrigado pelo esclarecimento, senhor presidente. E, já agora, veja lá se é capaz de fazer qualquer coisa para que possamos ter todos um bom ano novo.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Parêntesis de votos pios

Há de facto qualquer coisa no ar. Não sei se é das renas e trenós do Natal que ficcionamos (jingle bells, jingle all the way). Ignoro se será do tim-tam-tum das minhas cada vez mais velhas memórias. Nem sei se é coisa do odor balsâmico a azevinho, se do vermelho-único das manhãs-de-páscoa, ou se do brilho lustroso do alegra-campo. Do bolo de mel não há-de ser que o dito corre por aí demasiado industrializado para o genuíno gosto dos nostálgicos. E do ambiente dos shoppings também não porque, segundo se diz, a crise passeia-se para cá e para lá num tropel de cobiça contida ou necessidade adiada à espera da estação dos saldos. No entanto, queira-se ou não, há por aí qualquer coisa que nos distrai das maçadas quase diárias perpetradas pelos permanentes maçadores do costume.
Ignoremos, pois, por uma semana o dr. Cunha que nos dá cabo do orçamento sem se preocupar um bocadinho que seja com a ameaça real da crise. Deixemos de lado por uns dias as evasões mensais do dr. Jardim e as suas diatribes anti-Sócrates só para se desresponsabilizar e dizer que está vivo. Façamos de conta que o dr. Jardim Ramos resolveu finalmente ficar quieto depois da louça que desajeitadamente partiu no Hospital. E finjamos que não percebemos nem que o dr. Gouveia decidiu não existir, nem que o dr. Aguiar continua a achar que isto não merece mais do que uns quantos números de circo, nem que o líder do PP deixou de perceber se, por causa da estratégia nacional, deve piscar o olho ao PS ou ao PSD.
Aceitemos, em suma, deixar dentro de um parêntesis de votos pios a nossa consciência crítica. Ao menos por uns dias. Com a promessa, claro, de voltarmos ao terreiro logo que passem as festas. Entretanto, que possamos ter todos um feliz Natal. Mesmo os que não o mereçam. Até já.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A fuga ao tribunal das contas

Por alguma razão que desconheço, os partidos políticos regionais não querem que o Tribunal de Contas lhes escrutine a subvenção parlamentar que recebem do erário. Fazem mal. Revelam que, no fundo, estão-se nas tintas para a sacrossanta transparência de que todos falam mas poucos praticam. E dão pública nota de que não querem tratar da questão do financiamento partidário com o rigor que os cidadãos reclamam e o sistema político exige.
Enquanto elementos estruturantes da democracia, entendem que a única entidade fiscalizadora a que devem estar sujeitos é o Tribunal Constitucional. E enquanto instrumentos necessários à participação dos cidadãos no governo da res publica, consideram que estão acima da maçadora possibilidade de terem as suas contas auditadas por entidade diversa da que lhes fiscaliza e generalidade dos gastos. Acho mal. Mesmo que os partidos não sejam pertença do Estado. E mesmo considerando que a actividade partidária não deve ser colocada em plano idêntico ao do objecto de uma instituição, de um organismo, ou de uma empresa estatal.
Suponho que não erro se disser que os partidos recebem do Estado dois tipos de cheque. O mais generoso é emitido no quadro do financiamento partidário público. Financia a actividade partidária globalmente considerada. E as despesas que permite são fiscalizadas pelo Tribunal Constitucional. Um outro, de montante mais modesto e finalidade específica, assume a forma de apoio público à acção parlamentar. Sai directamente do orçamento da Assembleia Legislativa. E tem sido até agora, e a meu ver bem, controlado pelo Tribunal de Contas. Ora, é esta linha de demarcação que a generalidade das forças políticas madeirenses pretende pura e simplesmente eliminar. Procurando fazer passar a ideia de que os dois cheques são afinal um só. E garantindo a quem os ouve que partido e grupo parlamentar não passam afinal de duas maneiras de dizer a mesma coisa.
Sei nada de leis. Mas tenho para mim que financiar a actividade de um grupo parlamentar é coisa distinta de financiar um partido político. Se o legislador tivesse pretendido tratar como uma só as duas realidades não teria sentido especial dificuldade lexical ou jurídica em fazê-lo. Porém, não foi esse o seu entendimento. Assim como não foi esse o seu objectivo. E isso há-de ter um significado político e jurídico qualquer. É pertinente, aliás, recordar que a própria mesa da Assembleia fez há anos a mesmíssima demarcação semântica e legal das duas realidades. Se não o tivesse feito, não teria descontado ao partido socialista as verbas que passou a atribuir a dois deputados que dele desertaram. E não me passa pela cabeça que a mesa do parlamento possa ter posto um interesse partidário qualquer à frente da sua obrigação de cumprir a lei. Não o fez, certamente. De maneira que me espanta a ligeireza com que praticamente todos pretendem agora fazer de conta que, para efeitos de financiamento, tanto faz dizer grupo parlamentar como partido político. E sou levado a pensar que a única finalidade de tão repentina a abstrusa confusão é apenas driblar o Tribunal de Contas. Ao ponto a que isto chegou!
A demagogia faz-me urticaria. Mas, numa altura de crescentes dificuldades, não posso deixar de sublinhar que é por estas e por outras que temos a crise instalada nos nossos mecanismos de representação política. Ninguém leva a sério os deputados. São geralmente vistos como uma dispendiosa inutilidade. E fazem, eles próprios, o favor de continuamente se desacreditarem. Se tivessem um pingo de respeito por quem os elegeu, não estariam tão entretidos a tentar fugir ao Tribunal de Contas. Estariam a fazer trabalho político relevante e efectivo. E se dessem um mínimo de atenção às crescentes necessidades que por aí andam aceitariam, isso sim, um dispositivo legal qualquer que os obrigasse a devolver aos contribuintes as verbas que a sua notória preguiça todos os anos fizesse sobrar. Talvez pudesse começar por aí, quem sabe, a reconciliação entre os cidadãos e a instituição parlamentar. Mas com gente desta índole isso seria pedir de mais.
Bernardino da Purificação

domingo, 14 de dezembro de 2008

A teoria da irresponsabilidade

Afinal, o dr. Cunha é capaz de aprender. Não com os erros, que o indivíduo em causa não erra. Nem sequer com os livros, que o cavalheiro tem mais que fazer do que maçar-se com eles. Mas sim com as pequenas coisas da vida. Como, por exemplo, a harmonia suave do canto de um passarinho. Como, outro exemplo, o milagre da plantinha que rompe a terra buscando o sol. Ou então, derradeiro exemplo, como a simplicidade tocante e profunda de uma citação servida por uma colectânea à ordem na mesa de cabeceira.
Corrijo. O dr. Cunha não é só capaz de aprender. A bem dizer, e isso nota-se semana-sim-semana-não, a sua capacidade vai um pouco mais longe. Ascende ao patamar da reflexão. E, não se riam, vai até ao ponto do processamento da informação apreendida. Podem crer. Este nosso dr. Cunha é um exemplo. Uma quase inspiração.
Bolas. Como o texto se vai escrevendo a si próprio, constato agora que sou obrigado a corrigir novamente. O dr. Cunha de facto aprende. É mesmo capaz de pôr alguma escassa ordem no caos informativo a que acede. Mas a força do intelecto que demonstra ter não se fica por aqui. Acreditem. Por muito que isso nos possa surpreender, o dito dr. Cunha dá mostras de conseguir realizar o pequeno milagre da produção de ideias. De teorias autênticas. E eu, como é evidente, não posso deixar de assinalá-lo. Porque admiro o sincretismo prolixo que se surpreende em cada texto que assina. E porque tenho um fraco pela forma desinibida e kitsch com que o cavalheiro partilha connosco as mais recentes aquisições da sua tenaz homeopatia cultural.
Admito que estas minhas considerações possam ser acolhidas com incredulidade ou cepticismo. Não pretendo convencer os incrédulos. Mas aos cépticos recomendo a leitura da página que o dr. Cunha tem alugada em regime de time sharing na revista do DN. Podem crer que está lá tudo. Tanto a mais recente descoberta da sua insaciável busca do bálsamo do saber - o dr. Cunha terá descoberto desta vez que houve um Sócrates na Grécia Antiga. Como a novidade da essência simplória do seu pensamento político.
Como acredito que, por este andar, o cavalheiro ainda há-de chegar um dia ao ápeiron dos pré-socráticos, fixo-me por agora na tese magnífica que o seu bestunto produziu. Pois bem, fiquem a saber que o dr. Cunha descobriu o segredo da irresponsabilidade política. Ou seja, o indivíduo foi capaz de encontrar aquilo que tantos outros debalde procuraram. A partir de agora, nos termos da sua prodigiosa descoberta, é politicamente legítimo ocupar o poder sem a maçada de um escrutínio ou julgamento presente. Quem achar que tem o direito de pedir contas ou fazer julgamentos políticos, pois tenha santa paciência e espere de dez a cinquenta anos. Porque é esse, de acordo com a nova "doutrina Cunha", o tempo que demoram a chegar os efeitos das medidas de longo prazo. E porque é injusto, nos termos da mesma nóvel doutrina, pedir contas presentes a bondades ou maldades futuras.
Notável. O dr. Cunha reivindica o direito de ser julgado apenas pelos nossos filhos ou netos. Ele governa agora, é verdade. Mas nós não temos o direito de interpelá-lo pela forma como nos gasta o dinheiro e esgota a paciência. Por uma razão cristalina, simplória, básica e perversa que assim se formula: o dinheiro que o dr. Cunha esbanja no presente é aplicado a pensar no futuro. Logo, só daqui a um ror de anos se lhe devem pedir as devidas e democráticas contas. É assim uma espécie de faça agora e pague depois. O disparate, entenda-se.
Não quero ser tremendista. Porém, reconheça-se: o caso é sério. Está à vista de todos que o dr. Cunha é consabidamente irresponsável. Porém, confesso. Nunca fui capaz de supor que o caos sincrético das coisas que apreende o pudesse levar à elaboração de tão sofisticada teoria. Assim, digam lá se o indivíduo não é mesmo um exemplo e uma verdadeira inspiração...!
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A arte da guerra

Esta gente perdeu completamente a cabeça. Ameaça. Insulta. Grita. Vitupera. Como se não houvesse amanhã. Ou como se a razão tivesse cedido definitivamente o passo à grosseria da intolerância e ao primarismo da irracionalidade. Oxalá me engane. Mas os níveis de agressividade do discurso político atingiram entre nós um ponto de tal modo elevado que isto um dia acaba mal.
É claro que não é novidade para ninguém que há na política madeirense uma assinalável sedução pelo calor desregrado do destempero. Seja devido à latitude que temos. Seja por causa do capacete que nos turva a vista e comprime as meninges. Ainda assim, convenhamos. As coisas têm descambado para um plano em que se torna urgente a profilática procura de um outro tipo de explicações. Sob pena de, um dia destes, nos vermos todos envolvidos num imenso arraial de tapona colectiva sem percebermos muito bem porquê.
O que hoje se viu no parlamento é mau de mais para poder ser aceite ou até mesmo descrito. Só faltou a agressão física. Só terão faltado os tiros. Mas lá tivemos o pior do ambiente de taberna. Lá tivemos a gritaria de quem acha que a política é a arte da guerra.
Eu suspeito que as coisas devem ter corrido mal ao dr. Jardim na sua mais recente excursão a Lisboa. Ouviu certamente das boas. Se não de Silva Pereira, pelo menos de Cavaco Silva. E, o que é pior, deve ter ouvido em silêncio. Como é próprio dos que sabem ser desmesuradamente fortes com os fracos e miseravelmente fracos com os fortes. Deverá ter trazido, em suma, demasiadas coisas entaladas na garganta. E como só é capaz de remir os desaforos em casa, vá de espernear em público, vá de arremeter contra quem não tem nem o tempo nem os meios para lhe responder à medida. Verdadeiramente heróico, senhor presidente. Como se sabe, aliás, que é seu timbre.
Não nos enganemos, porém. O dr. Jardim semeia a irracionalidade, mas fá-lo de forma planeada. Apela aos instintos, é certo. Porém, mede muito bem onde pretende chegar. O insulto, para ele, não passa de um instrumento. Do mesmo modo que a ameaça não passa de um meio. O que ele quis, com o seu execrável discurso de hoje, foi dizer aos berros a Lisboa que aqui quem manda é ele. Deixando, ao mesmo tempo, aos que vivem nesta terra, mais uma eloquente mensagem de que, enquanto por cá andar, a política não há-de passar da coisa insalubre e rasteira que todos televimos sem edição nem bola vermelha ao canto.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A pobre têvê que temos

Esta têvê que temos parece manifestamente um caso perdido. Cumpre mal as suas obrigações de serviço público. Confunde critérios jornalísticos com atribuição de tempos de antena. Faz do cronómetro a boa regra de gestão editorial. E tem no método estatístico o elemento central de muitas das suas decisões.
Aquilo tem dias que nem parece uma televisão. É mais uma repartição difusora de enfados e rotinas. Com telejornais que não passam de serviços de informação oficiosa e institucional travestida de notícia. Com programas de desporto que se limitam a trazer para o espaço televisivo os palpitantes azedumes clubísticos existentes no espaço social. E com programas de informação cujo único propósito só pode ser, pelo que se vê, o de afagar o vaidoso umbigo da corporação dos informadores. Tudo, claro está, devidamente monitorizado pelo relógio criativo dos chefes. E tudo ao encontro do contador de minutos dessa inenarrável coisa chamada ERC.
Sejamos justos, porém. Nem tudo o que nos é servido pela têvê que temos deve ser enfiado no saco enfadonho das irrelevâncias. Por exemplo, os espaços de divulgação cultural até conseguem ser interessantes e razoavelmente bem feitos. De um mesmo e geral modo, os programas de entrevista cumprem quase sempre os serviços mínimos. Mas mau, francamente mau, quase a roçar o péssimo, é praticamente tudo o que resta. Ou por falta de meios. Ou por ausência de ideias. Ou porque é assim que tem de ser.
O mais recente rasgo da criatividade nula desta TQT (têvê que temos) consiste na descoberta e lançamento hertziano de novos opinadores televisivos. O propósito da coisa, dando de barato que é capaz de haver um, há-de ser, creio eu, o de esconder a ausência de produção noticiosa digna desse nome atrás do comentário engravatado de dois cavalheiros razoavelmente conhecidos lá na rua onde moram. E o resultado é o que se conhece. Gramamo-los duas vezes por semana debitando arengas sobre tudo e mais alguma coisa. E ficamos a conhecer algumas irrelevantes opiniões que não pedimos, que não precisamos, e que em boa verdade dispensamos.
Um exemplo. O Hospital que nos trata da saúde dilacera-se em convulsões internas? Pois deixem estar que a gente despacha a coisa com a palavra atenta e sábia dos nossos dois novos tele-opinadores. O facto de saberem tanto de gestão hospitalar e de saúde como quem os tele-ouve não há-de passar, como é evidente, de um mero e insignificante pormenor. E a singela circunstância de nada de novo acrescentarem ao que entretanto a gente foi sabendo só pode ser tida à conta de uma irrelevante acontecência qualquer.
Outro exemplo. A política regional revolve-se em mais um episódio da sua já crónica guerrilha? Deixem estar que a gente já os trama com o julgamento justiceiro mais ou menos inflamado dos nossos dois comentadores opinativos. É verdade que nada dizem de importante. E é certo que fariam muito melhor figura se ficassem calados. Mas como o objectivo da sua tele-participação é fazer de conta e queimar tempo, ninguém há-de dar certamente por isso. Abrenúncio!
Não quero parecer contundente. Porém, devo confessar que sempre que me entram em casa os dois cavalheiros em questão, às cavalitas do telejornal de serviço público, entra com eles um mesmo e recorrente pensamento - o que me diz que a ignorância é na verdade bem atrevida, enfatuada, petulante. Às vezes, imagine-se, até engravatada. Ora, é preciso que alguém explique certas coisas aos funcionários convidantes e aos opinadores convidados.
Aos primeiros deve ser dito que, ao contrário do que supõem, não é comentador quem quer mas sim quem pode. Deve também ser explicado que não há opinião socialmente relevante que possa escapar à condição prévia da credibilidade. E deve ser igualmente enfatizado que não há credibilidade que possa dispensar um pressuposto de autoridade reconhecida. Acredito que possam ficar surpreendidos. Mas, se pensarem um bocadinho no assunto, ainda acabarão por descobrir que nenhuma dessas duas condições está dependente da vontade mais ou menos preguiçosa de um qualquer funcionário arvorado em programador televisivo.
Posto isto, uma palavra final aos opinadores convidados. Do que precede ressalta uma ideia: a de que um comentador de televisão precisa muito mais do que atrevimento e lata. Precisa, por exemplo, de substância. Mas isso, como é evidente, só é válido para uma televisão com vontade de se levar a sério.
Bernardino da Purificação

sábado, 6 de dezembro de 2008

A qualidade da coisa, ou a ausência dela

Suponho que não erro se disser que a qualidade de uma democracia se mede pela forma como funcionam os seus mecanismos de controlo e fiscalização do poder. A explicação é simples. Como a política tem horror ao vazio, o poder tende a ocupar a totalidade do espaço que tiver à mercê. Quando encontra baias firmes, os atropelos são relativamente escassos. Mas se, ao contrário, os limites são frouxos, é certo e sabido que o abuso se instala.
Creio também que não me engano se disser que a qualidade da democracia da Madeira deixa imenso a desejar. Pelas razões atrás expostas (isto é, devido à extrema lassidão, à gritante ineficácia, ou à deplorável inexistência de instrumentos de contenção do poder). Mas ainda por outras de natureza muito mais pessoal do que institucional, que nos remetem para a estrutura democrática (ou para a ausência dela) de quem manda.
Desenganem-se. Não vou aqui recuperar a tese estafada do nosso alegado défice democrático. Nem para subscrevê-la. Nem para lhe apontar os eventuais vícios. O propósito que tenho é bem mais modesto. Pretendo simplesmente ilustrar com três ou quatro exemplos o modo perverso como o poder que temos se presume isento da obrigação de prestar contas.
Começo, então. O dr. Jardim continua a repartir a sua extenuante vida entre o Funchal e Bruxelas. Vai e vem com o tranquilo à vontade dos turistas militantes, ou com a rotineira descontracção dos caixeiros-viajantes. Ninguém lhe pergunta ao que vai. Nem ele nos faz o obséquio de uma explicação. Limita-se a ir e vir. Gastando dinheiro do erário (em viagens, hotel e ajudas de custo). Deixando o governo para que foi eleito sabe-se lá nas mãos de quem. E sem se sentir interpelado a prestar contas a quem paga. Ou seja, vai porque sim. Há-de continuar a ir porque lhe apetece. E, quanto a contas, que se lixem a Madeira e os contribuintes.
O dr. Cunha e Silva mimetiza a roda livre do seu chefe. Saltita de disparate em disparate com a paquidérmica ligeireza de quem não reconhece limites ao poder que lhe puseram nas mãos. E fá-lo, ainda por cima, com a sonsa hipocrisia dos falsos moralistas.
Mal trepado à sua condição de vice, desatou logo a lançar peçonha sobre aqueles que o antecederam. O mínimo que disse de Paulo Fontes, de quem herdou algumas competências, foi que ele tinha um interesse qualquer na compra de um imóvel (ali para os lados do Mercado) para a instalação da Loja do cidadão. Sobre Pereira de Gouveia, que o precedeu na superintendência da economia, o mais brando que sua excelência conseguiu foi fazer constar que a megalomania e um interesse particular qualquer terão estado na origem da ideia de se instalar no Parque das Nações uma representação da Madeira em Lisboa.
É claro que o dr. Cunha sabia que as suas graves acusações nunca seriam devidamente investigadas. Da mesma forma que adivinhava que as decisões que mais tarde viria a tomar, relativamente aos mesmíssimos dossiers, haveriam de passar sem o democrático escrutínio político. E o resultado está à vista de todos. A "sua" Casa da Madeira em Lisboa transitou para o Restelo (zona de embaixadas) e não passa de um espaço votado ao abandono. A "sua" Loja do Cidadão ocupa um espaço nobre da cidade e é um caso de sucesso em termos de procura. Mas, como canibalizou os clientes das repartições, conservatórias, e restantes serviços que alberga (alguns deles situados a duas escassas centenas de metros), e como já vai estando congestionada, em consequência desse e doutros pequeníssimos problemas de planeamento, não tarda nada e ainda assistiremos à necessidade de aquisição de um novo espaço para a abertura de uma nova Loja. A única diferença, claro está, será a ausência (obviamente, porque sim) de qualquer interesse por parte do actual comprador. É que o cavalheiro, acreditem, está aqui só para servir. Como bem o demonstram os Penedos e os parques da sua excelentíssima criação. E como o comprovam as promenades e as marinas que levaram o que tínhamos e até o que não tínhamos.
Ora, uma vez que os instrumentos de fiscalização não existem ou são ineficazes, vamos ter de esperar que o cavalheiro seja um dia removido. Pode ser que nessa altura o seu sucessor se dê também ao trabalho de lhe revelar os erros e denunciar os interesses. Em nome, claro está, desta democracia de intragável qualidade que não há maneira de se regenerar.
Bernardino da Purificação

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Uma dezena de votos secretos

O PSD é dono da consciência dos seus deputados. E estes, imagine-se, convivem bem com a situação. Ou porque são desprovidos de vontade. Ou porque são destituídos de ideias próprias. Ou porque simplesmente aceitaram alienar a sua autonomia individual a troco de um qualquer prato de lentilhas. Como nenhuma das hipóteses é susceptível de merecer um laivo sequer de compreensão ou simpatia, que venha o diabo e escolha a que mais acertada for.
Quem acompanha a política madeirense, percebe que me preparo para comentar a notável saga parlamentar construída à volta da eleição do vice-presidente socialista da mesa da Assembleia. O PS insiste em candidatar Bernardo Martins. O PSD aceita emprestar (coisa notável!) à volta de uma dezena de votos para viabilizar a eleição. Mas como, ao que parece, o deputado do Partido da Terra tem atravessadas coisas de outros tempos, o candidato socialista vem somando chumbo atrás de chumbo, num processo que não prestigia o parlamento, e que, no plano individual, só dignifica, afinal, os que assumem a ousadia das posições claras.
Falemos claro. Estou longe de simpatizar pessoal ou politicamente com o indivíduo em questão. Não obstante, reconheço a João Izidoro o direito de votar como muito bem quer e entende. Nesta como em todas as restantes matérias com dignidade parlamentar. Só acho lamentável que não lhe repugne participar na rábula anunciando antecipadamente o sentido do seu voto secreto.
Continuemos a falar claro. Como o PS não há-de ter deputados de primeira nem deputados de segunda, é evidente que lhe assiste o direito de escolher livremente, sem exclusões ou outras reservas, o nome do seu candidato à mesa do parlamento. Decidiu escolher Martins. Faz questão de insistir em Martins. E resolveu que não candidata mais ninguém a não ser o dito Martins. Nada a objectar. As opções do PS são legítimas. Mesmo tendo optado pelo caminho do confronto. Só não percebo que reivindique para si um direito que certamente não reconheceria aos outros. Quer continuar a candidatar Martins, pois faça o favor de continuar a candidatá-lo. Não pode é esperar que os outros se sintam coagidos e obrigados a aceitar uma escolha exclusivamente sua. Ou será que o PS ponderaria sequer a hipótese de viabilizar algum dia uma subida de Jaime Ramos à mesa do parlamento?
Ainda e sempre com a clareza que se impõe. Martins não é um nome politicamente neutro para o PSD. Bem pelo contrário. Carrega consigo uma carga muito particular de acrimónia, de conflito, de antagonismo. Tanto no plano político como no plano pessoal. E isso é tão evidente que nem vale a pena perder muito tempo a explicá-lo. De maneira que compreendo que o PSD não queira viabilizar a sua eleição. Mas há, no entanto, um aspecto que tenho dificuldade em compreender. Essa coisa de emprestar uma dezena de votos (ainda por cima secretos) só para fazer de conta é algo que anda algures entre o lamentável e o execrável. Porque não passa de uma triste paródia. E porque nem sequer respeita a consciência individual dos deputados que aceitaram passivamente a expropriação do sentido do seu voto. Palavra que ainda gostava de saber como, e com que tipo de argumentos, é que foram recrutados os "voluntários" nomeados pela direcção do grupo parlamentar.
No meio desta vil tristeza tiro o chapéu a Miguel de Sousa. Ao que dizem as notícias foi dar uma volta na altura da votação. Isto é, ficou de consciência intacta. Ao contrário daquela indigente dezena de correlegionários seus, que se prestam, pelos vistos, a todo o tipo de fretes.
Uma nota final para dizer que me enganei num vaticínio alvitrado há semanas atrás. O PS não negociou com o PSD a eleição de Bernardo Martins. Nem isso teve a arte de fazer. Participou na sessão de branqueamento das ilegalidades praticadas pelo PSD sem a mais leve sombra de cálculo político. Isto é, foi o que costuma ser. E ainda quer que o levem a sério...!
Bernardino da Purificação

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A roda dos milhões

E pronto. Como quase sempre o mérito compensa, o mundo da bola lá se rendeu aos feitos desportivo-contabilísticos do "nosso" Cristiano Ronaldo. A distinção, reconheça-se, é mais do que justa. Porque ninguém jogou tão bem como ele na época que passou. Em golos. Em habilidade técnica. Em capacidade atlética. Em espectáculo puro. E também ninguém como ele pôs a girar a roda dos milhões de que se alimenta a não sei quantas vezes milionária indústria futeboleira.
Acontece, de facto, que Ronaldo é hoje uma das marcas mais impressivas e rentáveis do negócio global que é o futebol. Vende como ninguém. Em merchandising. Em páginas de jornais. Em capas de revista. Em gadgets diversos. E o negócio, claro, está-lhe grato.
A bem dizer, este Ronaldo já nem é propriamente "nosso". É deles. Ele já descolou há muito da sua condição original de simples madeirense jogador de futebol. Como os negócios planetários se alimentam de vedetas planetárias, foi dada a Cristiano Ronaldo a condição de ícone que a indústria faz render e a publicidade amplifica. Para glória do desporto-rei. E para enormíssimo proveito da máquina por trás da qual se encontra um exército de personalidades sem rosto, sem afectos, sem emoções. Estes, os afectos e as emoções, ficam por nossa conta, por conta dos espectadores. Que todos os dias discutem, discutimos, a bola que estoura na barra. Que diariamente se perdem, nos perdemos, em horas de conversa sobre o fora-de-jogo que não era, sobre as apitadelas suspeitas da equipa de arbitragem, sobre a entrada arrepiante do facínora do defesa da equipa adversária.
Não quero enfatizar, podem crer, o lado cínico e assumidamente contabilístico que todos sabemos existir no mundo da bola. Não é o momento próprio. Aliás, mesmo que o quisesse, bastava lembrar-me de cada um dos momentos de puro virtuosismo com que Ronaldo nos brindou na época passada para logo decidir arrepiar caminho. Ainda assim, manda a lucidez que me esforce por perceber que até com o merecimento de um prémio se joga muitas vezes no tabuleiro em que jogam os gestores do futebol-business. É raro haver batota na escolha? Acredito piamente que sim. Mas isso não é virtude. É apenas condição de sucesso. Uma actividade que vive de paixões acaba por ficar refém delas.
Não pretendo, de igual modo, entrar na demagogia barata de colocar frente-a-frente o futebol-glamour de que hoje se fala e o seu parente pobre feito de jogadores com ordenados em atraso e construído de coisas obscuras e traficâncias várias. Isso seria, convenhamos, uma nota de mau gosto. Que Ronaldo não merece. E que o nosso orgulho insular certamente reprovaria. Fico-me, pois, pelo registo de um prémio de amplificação planetária que um meu conterrâneo mereceu e ganhou. Sem, no entanto, poder deixar de pensar o que seria deste Ronaldo, ou de um outro qualquer que por aí ande, se tivesse optado por ficar cá na terra. O mais certo é que nunca passasse de uma terceira ou quarta escolha atrás de um daqueles futeboleiros do Brasil que por cá vão desembarcando às carradas para sorte deles e lucro de uns quantos.
Bernardino da Purificação

sábado, 29 de novembro de 2008

O fim do jogo de sombras

Estou cada vez mais convencido de que a latitude das imunidades que entre nós se pratica ameaça matar a democracia.
Não me compreendam mal, por favor. Não sou contra todas as democráticas prerrogativas que devem ter determinados titulares de cargos de políticos. É democraticamente útil que um deputado nunca se sinta constrangido quando, em nosso nome, exerce as suas funções. É perfeitamente entendível que um conselheiro de Estado não deva actuar com a reserva de uma qualquer limitação de cada vez que, nessa qualidade, for chamado a pronunciar-se sobre um problema do país. Não obstante, parece-me claro que o perfil das imunidades deve ter como destinatário e beneficiário único a democracia e não o interesse particular e pessoal de quem por elas possa estar abrangido.
Creio igualmente que as imunidades devem ser reguladas. E posso até compreender que a auto-regulação possa e deva funcionar como uma espécie de crivo primeira instância. Parece-me, no entanto, absolutamente perverso que a regulação do exercício das imunidades possa ficar refém da vontade mais ou menos corporativa dessa primeira instância. Eu sei que, no limite, o Tribunal Constitucional pode ter uma palavra a dizer quanto à forma como é interpretado e aplicado o regime de imunidades. Todavia, todos sabemos que, em termos práticos, o terreno onde se abriga esse regime é assim uma espécie de caixa-forte ciosamente guardada por quem dele beneficia. Julgo, pois, chegada a altura de alguém de bom senso ser capaz de propor medidas que restrinjam as interpretações demasiado extensivas do regime de protecção de alguns titulares de cargos políticos. Do mesmo modo que me parece evidente que é chegada a hora de se introduzir no sistema de verificação das imunidades um mecanismo regulador de natureza externa, que seja capaz de combater os tropismos corporativos que levam a que, no final de contas, todos se protejam uns aos outros. Tudo isto, em suma, para dizer que considero a todos os títulos obsceno que um político qualquer se considere no direito de barricar os eventuais desmandos da sua vida pessoal e profissional atrás de um regime que deveria ter como única finalidade proteger a política.
Como se tem visto, a pertinência do tema é mais do que muita. Porque as notícias que circulam não são tranquilizadoras. E porque a imunidade que a democracia exige parece estimular a formação de um inaceitável ambiente de impunidade para práticas de ética ausente e eventualmente delituosas.
Falemos claro. A opacidade é inimiga da legalidade. É atrás dela que se esconde tanto o grande crime como o pequeno delito. E uma sociedade, qualquer sociedade, só tem a perder quando os seus instrumentos de repressão criminal esbarram em zonas de sombra que certas práticas e costumes tendam a erigir. Ora, não há nada mais demolidor de um regime de imunidades do que a suspeita de que, paredes-meias com o que de positivo e estimável tem, possa também servir para abrigar a falta de transparência.
Como o tema é recorrente na discussão pública portuguesa, devo esclarecer por que razão o trago novamente a terreiro. Pois bem, faço-o por causa do chamado caso BPN. Mas faço-o sobretudo porque me parece inqualificável que um conselheiro de Estado não possa ser investigado e eventualmente constituído arguido apenas porque goza do estatuto especial que a sua função política lhe confere. Do mesmo modo que considero inaceitável que seja com a especificidade desse estatuto que se contenham na Madeira as eventuais ondas de choque que esse caso nos faça chegar. As notícias sobre as eventuais ligações de deputados da maioria a práticas menos regulares ou mesmo ilegais, no âmbito deste caso, merecem um esclarecimento cabal. Até porque já saturam as zonas de sombra que enevoam a nossa vida social.
Bernardino da Purificação

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Madeira über alles

O dr. Jardim anda angustiado com o futuro do partido que lidera. Não sei se é da casa onde tem instalado o trono, ou se, pelo contrário, anda por aí uma sibila qualquer sussurrando desgraças aos ouvidos de sua excelência. Mas isso, reconheça-se, também pouco importa. O facto vale por si. De modos que se o senhor presidente se quer consumir em angústias com o futuro, é lá com ele. Não só tem esse direito, como lhe fica bem dar pública nota das suas apreensões. Até porque, como se sabe, ninguém conhece como ele essa magnífica vaga de herdeiros que, com visível impaciência, aguardam a sua hora.
Registem-se, pois, as agonias presidenciais. Quanto mais não seja, como sinal premonitório das fatalidades que lá à frente nos esperam. E, já agora, juntemos-lhes as nossas. Se não como expressão da nossa solidariedade, ao menos como atestado da nossa gratidão - é enternecedor ver como um presidente de partida se preocupa, não com o futuro dele, mas sim com o nosso futuro.
Antes de prosseguir, uma nota de esclarecimento. O presente escrito reporta-se ao artigo doutrinário que o senhor presidente faz o favor de publicar no número que aí vem do órgão oficial do seu partido. É nele que estão contidas as actuais apreensões de Jardim. É ele que nos dá conta da natureza das suas presidenciais agruras de alma.
Se bem li a prosa, o dr. Jardim receia que o PSD venha a abandonar a sua condição de partido-vanguarda para se transformar num partido de interesses. Coisa séria, como se vê. Tão séria que quase nos faz esquecer que é igualmente reveladora e tardia. Reveladora, porque nos permite perceber que valor tem, para o dr. Jardim, a dialéctica partidária democrática - absolutamente nenhum. Tardia, porque basta olhar para o parlamento e para a maioria dos empresários da Madeira Nova para se perceber que o PSD é já, desde há muito, um partido de interesses com aspirações a, ou travestido de, partido-vanguarda.
O dr. Jardim farta-se de gozar com a nossa ignorância. Como sabe que nós sabemos que ele leu umas coisas, é useiro e vezeiro no recurso a um expediente que ele adivinha ter tanto êxito como habitualmente nenhum escrutínio. Impinge-nos grandes teorias e brilhantes raciocínios sabendo que os assenta em premissas falsas. E há-de divertir-se que nem um perdido cada vez que consuma um tal brilharete.
Vejamos. No texto pretensamente doutrinário a que venho aludindo, o dr. Jardim defende que o partido que lidera deve continuar a ser a vanguarda que tem sido. Único porta-voz das aspirações do Povo. Executante único da soberana vontade do Povo.
A palavra, como se calcula, provocou-lhe algum embaraço. Ele sabe, como nós sabemos, que a subida ao poder das auto-proclamadas vanguardas conduziu sempre à emergência de ditaduras. Mas como o dr. Jardim lida bem com os embaraços, sobretudo os de natureza filosófico-política, despachou o problema com a afirmação de que o poder exercido por um partido-vanguarda é perfeitamente compatível com o normal funcionamento de uma democracia liberal. É verdade que não ilustrou tão magnífica tese com a comparação de um único exemplo. Mas isso deve ter sido para poupar no papel, que a palavra de sua excelência vale mais do que qualquer teoria de ciência política. Ainda assim, atrevo-me a esperar que o excelso líder que temos nos possa um dia esclarecer. Quanto mais não seja, para percebermos que modelo de democracia inspira os gloriosos sonhos de sua excelência.
Admito que isto possa soar a bizantinice. Mas palavra que me incomoda saber que ocupa o poder alguém que parece não ter percebido ainda que as vanguardas encerram em si mesmas um fermento de totalitarismo. Pelos vistos, o dr. Jardim não sabe que em democracia os partidos não passam de instrumentos de acção política de projectos, de ideologias, de correntes de opinião. Que podem estar hoje no poder e amanhã na oposição. Que não esgotam o leque possível nem de sensibilidades nem de formas de participação colectiva. E que, por isso mesmo, nunca poderão representar a totalidade do povo soberano.
Ou seja, com o seu perverso desejo de chefiar uma vanguarda, o dr. Jardim revela estar-se nas tintas para o facto (que um simples olhar para a História comprova) de a confusão forçada entre um partido e um povo ser avessa à divergência e refractária à diferença. Do mesmo modo que evidencia não perceber que a democracia só o é, de facto, se for inclusiva e praticar a tolerância. Mas isso, como é evidente, só acontece a quem pode ou julga ter uma vanguarda por conta.
Bernardino da Purificação

domingo, 23 de novembro de 2008

A incontinência do senhor Representante

Ele há pessoas assim. Calam-se quando as circunstâncias exigiam que falassem. Mas falam pelos cotovelos quando deveriam ficar calados. Uma vez que não sei se a ciência tem nome para isto, peço desculpa por classificar prosaicamente a coisa como um síndrome da incontinência verbal conjugado com uma desordem de descompasso com o bom senso e com o sentido do timing.
O senhor conselheiro Monteiro Diniz é o caso mais recente do cúmulo destas duas padecências. Durante a crise de legalidade que o partido do poder impôs ao parlamento regional, refugiou-se no recato do palácio que habita. Porém, agora que a legalidade formal regressou à casa da nossa representação política, aí está ele num corrupio de declarações e entrevistas. Dizendo disparates que, sorte dele, nenhuma entidade sindica. Exibindo uma parcialidade que as suas obrigações de Estado não deveriam tolerar. E denotando uma leviandade absolutamente incompatível com o luzente currículo que ostenta e, pior do que isso, com a função que desempenha.
A insigne criatura deu neste fim-de-semana uma entrevista ao Sol. Embora sua excelência nada de jeito tenha dito, permito-me recomendar uma leitura às parvoíces que disse. Podem crer que são interessantes. Quanto mais não seja, porque revelam a inutilidade perniciosa das funções que desempenha.
Vejamos então o que disse o senhor representante.
Procurando justificar a ruidosa omissão do Palácio de Belém perante os factos parlamentares recentes, o conselheiro Diniz declarou ipsis verbis: "Não sou eu nem o senhor Presidente da República quem pode resolver estas crises. É o povo madeirense. E o povo madeirense, quando chega às eleições, não tem alternativas e mantém o mesmo partido no poder".
Sem o devido respeito, apetece-me responder a este arremedo justificativo. Para dizer, em primeiro lugar, que ele nada justifica. Para sublinhar, em segundo, que ninguém está à espera de ver o conselheiro Diniz a resolver o que quer que seja, muito menos as crises que possam ocorrer no nosso parlamento. E para explicar ao senhor representante da República que o facto de o povo madeirense votar assim ou assado não dá o direito a ninguém, muito menos ao chefe de Estado, de furtar-se aos deveres de intervenção que as leis admitem e as circunstâncias exigem. Pelo contrário. Num quadro político como aquele que descreveu o conselheiro Diniz, todas as omissões perante o arbítrio da ilegalidade jogam sempre a favor de quem o pratica. Constituem uma prova de indecente parcialidade. E a ausência de censura política beneficia sempre quem prevarica só porque quer e pode. Porém, e pelos vistos, a vida ociosa que o ex-senhor ministro leva no palácio já nem lhe permite enxergar aquilo que a razão parece dar como óbvio e tem como evidência.
Diz depois sua excelência que, no final de contas, a culpa do despautério que ocasionalmente se instala na política regional reside, cito, numa "cultura comportamental que se vem acumulando ao longos dos anos". Ora, só faltava mesmo o recurso à sociologia de trazer por casa! Então o agente político que o senhor representante também é não compreende que o que deve escrutinar-se na política são os comportamentos de indivíduos ou de grupos de indivíduos? Não percebe que é perversamente desresponsabilizador explicar o relapso desvario de alguns enfiando toda a gente no saco da mesma "cultura comportamental"? Não enxerga, em suma, que justificar dessa forma a emergência de uma crise como a que ocorreu recentemente só dá jeito a quem a provocou? Pelos vistos, não. Nem o ex-senhor ministro, nem quem lhe deu autorização para tal profusão de disparates.
Mas a pérola mais interessante da entrevista pode ser encontrada já quase no fim. Diz o conselheiro Diniz que a Madeira não é uma terra sem lei. Tem razão. De facto, não é. Em bom rigor, a Madeira é só uma terra onde às vezes (sempre que lhe apetece) o poder se marimba para a lei. Mas isso, claro, a insigne criatura não foi capaz de dizer. O brilho embaciado do seu raciocínio só o deixou ir a este ponto, e cito de novo: "Criou-se a ideia de que aqui faz-se tudo o que se quer. Não é assim. O presidente do Governo Regional controla muita coisa, mas, na área legislativa, o controlo é feito por mim". Valha-nos o Altíssimo. Mais um bocadinho e o representante enfatuado ainda reconhecia que tem um pacto com o dr. Jardim. Um controla tudo. O outro controla as leis. Todas? Claro que não. Como é sabido, só as que o parlamento democraticamente eleito se dá ao ao trabalho de produzir e aprovar. As outras, isto é, as que são sistematicamente violadas por quem manda, ficam por conta da cultura comportamental vigente. Abençoada República que tal representante tem! E bendita Autonomia que tal cargo consente!
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A elegante reforma do dr. Jardim Ramos

Não sei porquê, mas sinto que tenho um fraquinho especial pelo ímpeto reformista do secretário regional dos Assuntos Sociais. Às vezes, diverte-me. Noutras, confesso que me assusta. Mas, como o homem parece gostar de mexer com as coisas, que se lixe o susto e viva a diversão.
Já deu para perceber que o dr. Jardim Ramos é um político de muitos méritos. Com a simples substituição de um director regional conseguiu a proeza de erradicar a pobreza da nossa querida terra. E, agora, com a remoção pura e simples de duas dúzias de médicos acomodados (de acordo com a terminologia do seu corajoso e perspicaz diagnóstico) prepara-se para elevar os padrões dos serviços hospitalares ao patamar da excelência.
Bem haja, pois, dr. Jardim Ramos. Graças a vosselência, a expressão "ovo de Colombo" ganha uma dimensão inusitadamente nova. E são, podem crer, políticos da estirpe deste intrépido e insigne reformador que me reconciliam com a política e me fazem ter esperança de que há-de haver (é imperioso que haja) um dia de amanhã.
Se bem repararmos, o dr. Jardim Ramos transporta consigo a marca do governo a que pertence. Tal como os outros, tem uma reconhecida capacidade de produzir uma ou duas (admito sem esforço que, por junto, possam ser assim tantas) boas ideias abstractas. E, exactamente como os seus iluminados parceiros, é capaz de montar completos desastres a coberto e na esteira dessas duas magníficas ideias.
É necessário dar exemplos? Ok, pensem nas marinas e nos parques industriais. Já agora, acrescentem-lhe a tola utilização de um PIB empolado. E, de caminho, juntem-lhe também a liberalização mal estudada dos nossos transportes aéreos. Chega? Estou certo que sim.
Retome-se então o entrecho.
De modos que o dr. Jardim Ramos traz consigo esta indelével marca. Age mais depressa do que pensa. Pensa pouco e quer fazer muito. É assim uma espécie de Lucky Luke da organização da nossa Saúde. Chega a ser mais rápido do que o próprio pensamento.
Sua excelência há-de ter lido num livro qualquer que todas as organizações necessitam de injecções ocasionais de sangue novo e ideias novas. Como o hospital é a organização mais apetecível e visível à sua mercê, o dr. Ramos centrou nela o seu experimentalismo mal estudado. E como o seu negócio é a saúde, decretou-lhe a aplicação de um choque terapêutico: altera-se a orgânica; remove-se a gente antiga; rejuvenesce-se a equipa dirigente. E um dia, pensou ele, o povo há-de agradecer.
Pois bem, o resultado está à vista: alterou-se a orgânica à revelia dos médicos; removeu-se a gente antiga, num processo marcado pela deselegância e pelo ressentimento; e rejuvenesceu-se a equipa dirigente, em muitos casos, com gente recém-formada que um dia há-de lamentar ter sido alienada prematuramente da prática médica. E tenho dúvidas de que o povo possa estar grato a um processo que, para já, mais não fez do que levar a instabilidade e o ressaibo pessoal a uma classe e a uma instituição que tem a nossa saúde nas mãos.
Como não sou médico nem conheço o currículo das pessoas envolvidas no choque terapêutico do dr. Ramos, é evidente que não me pronuncio sobre a bondade ou maldade da coisa. Para já, a minha preocupação é outra. Tem mais que ver com aspectos formais do que com questões de substância (a despeito de saber que, nestas coisas, a forma é sempre substantiva). Não compreendo, por exemplo, como é que se pode justificar a mudança agora operada com a necessidade de combater o eventual acomodamento dos médicos que até agora dirigiram os serviços hospitalares. Do mesmo modo, compreendo mal que se ponha na rua gente qualificada pela via indigna de uma notícia de jornal. Finalmente, faz-me impressão que se faça tudo isto sem a prévia elaboração de um relatório de performance.
A primeira das três questões enunciadas leva-me a concluir que o governo do PSD anda há vários anos a pactuar com a inércia do acomodamento instalado nos nossos hospitais. Isto é, o governo é objectivamente responsável por todas as nefastas consequências decorrentes dessa situação de acomodamento. Jardim Ramos dixit.
A segunda das minhas objecções leva-me a pensar que o secretário regional dos Assuntos Sociais pretende obter na praça pública, ou seja, na rua, a cobertura que porventura lhe falta, ou perdeu, no seio da instituição que pretende reformar. Interessante.
A terceira constatação que os factos conhecidos permitem é que se fazem reformas sem estudo prévio, abrem-se novos ciclos sem a avaliação antecipada daquele que se fecha, tira-se uns e põe-se outros assim como quem manipula um brinquedo qualquer. Significativo.
É claro que é tão prematuro vaticinar desgraças como augurar desejáveis êxitos. Mas há uma coisa que é visível para já: o dr. Ramos fez as coisas com um tal tacto que até parece que o hospital se encontra em estado de sítio. As notícias não mentem. E delas o que se percebe é que a nossa saúde se encontra entalada no meio de uma refrega que tem um governo contra médicos, e que, pior do que isso, acaba de pôr médicos contra médicos. Ora, não é assim que se reformam as organizações. E um dia o dr. Ramos há-de percebê-lo.
Bernardino da Purificação

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

As duas faces da mesmíssima moeda

O dr. Jardim reduziu a uma trica de comadres o público desaguisado ocorrido no interior do grupo parlamentar do seu partido. Era de esperar. De um modo geral, o líder do PSD costuma classificar dessa forma todas as tensões que, num dado momento, parecem ameaçar a coesão interna do partido do poder. De um modo particular, o dr. Jardim classifica dessa maneira os conflitos que pode controlar. E, com o cuidado que lhe merecem as situações verdadeiramente especiais, é a isso que reduz todas as pequenas ou grandes querelas que fazem o favor de eclodir por determinação da sua presidencial vontade.
Nada de novo, portanto. Nem quanto aos termos utilizados, manifestamente já mais do que gastos. Nem quanto ao ar patriarcal com que se pretende colocar acima da turbulência plebeia em que por vezes se envolvem os que no partido lhe estão abaixo.
Não nos iludamos, porém. Um simples exercício de memória mostra-nos bem o que acontece à dissensão pública destituída de aval presidencial. E nem será necessário recuar assim tanto para recuperarmos do passado as cobras e lagartos que se disseram de Virgílio Pereira a propósito de uma sua discordância ocasional. Ora, é evidente que o mesmo não vai acontecer a Coito Pita. Não porque tenha um peso político específico superior ao que tinha Virgílio Pereira. Muito menos porque o PSD possa precisar mais dele do que então precisava do ex-presidente da Câmara. Nada disso. Nada vai acontecer a Coito Pita por uma cristalina, simples e nada extraordinária ou especial razão: o súbito e quase improvável opositor de Jaime Ramos é, na actualidade, um dos homens de mão do presidente do partido. A sua voz é, na maioria das vezes, a voz de Jardim. Os seus alvos internos são, praticamente sempre, os alvos dilectos do chefe de todos os pequenos chefes que por aí andam.
Insisto no que escrevi há dias atrás. Só a Jardim interessa ter Jaime Ramos debaixo de fogo. É uma forma de lhe minar as forças. O problema é que o facto de isso ser cada vez mais notório tem o efeito perverso de elevar internamente o estatuto de Ramos. Compreenda-se. Um líder só perde tempo com alguém da sua igualha, mesmo que recorra ao mal disfarçado expediente das interpostas pessoas.
Temos assim os primeiros passos de uma novidade na política madeirense. Pelos vistos, o PSD prepara-se para iniciar um período interessante e novo da sua já longa história. De definição de uma nova estrutura de poder. De redefinição dos seus alinhamentos internos. Porém, ainda é cedo para muitas conjecturas. Porque se é verdade que, nesta espécie de cara ou coroa, parece de mais aviso continuar a apostar na coroa, não deixa de ser igualmente verdadeiro que as moedas lançadas ao ar têm por vezes caprichos inesperados. Para não falar, já se vê, da união umbilical a que o destino e a força das coisas as condenou. Ou será que alguém pensa que Ramos é homem para se deixar descartar ou ir sozinho ao fundo?
Bernardino da Purificação

terça-feira, 18 de novembro de 2008

De uma maneira ou de outra

Gostava de saber se o cidadão Rui Alves, e não o presidente de um clube de futebol, era capaz de prometer duas estaladas a alguém. Gostava também de saber se o cidadão Jardim, e não o chefe daquela coisa que aparenta ser um governo, era capaz de trovejar ameaças frequentes, tal como faz constantemente a sua versão presidencial. Gostava, enfim, de saber se toda essa notável cadeia de comando, que vem por aí abaixo desde a Quinta Vigia até chegar à Junta de Freguesia ou à associação de bombeiros, se dava algum dia ao atrevimento da costumeira bravata de disparar ameaças a torto e a direito, caso não estivesse acoitada na loca do poder.
Não pretendo especular muito sobre a miserável indigência do fenómeno. Mas todos sabemos que, sem as vestes institucionais de que toda esta fauna se apropriou, o mais certo é que andassem de rabinho entre as pernas, desdobrando-se em carentes palmadinhas nas costas de todos os que habitam o seu triste espaço de convívio, rasgando-se em insinuantes sorrisos para aqui e para acolá, num permanente e surdo apelo à consideração alheia.
Uns desgraçados, em suma. Uns cobardes. Que exibem com despudor uma força usurpada ao cargo que ocupam. Que ameaçam com uma ousadia que individualmente não têm.
De uma forma geral, todos nos lembramos deles antes e depois. Antes de serem o que são, não passavam de uns pobres diabos à espera da atenção da fortuna. Depois de serem o que são, voltam à lúgubre condição de pobres diabos. A única diferença é que regressam mais ricos, mais gordos, porventura inchados pela fartura da gamela.
Convém esclarecer, no entanto, que compreender o fenómeno não é, não pode ser, relevar-lhe a culpa ou desculpar-lhe a gravidade. O poder não há-de ser assim tão mau que consiga dar a volta à cabeça dos que por ele possam passar. O problema, parece-me claro, reside muito mais na qualidade pessoal de quem a ele acede do que na perversa capacidade que possa ter de transformar gente vulgar em refinados filhos da mãe (sem qualquer ofensa às senhoras suas progenitoras). Acho muito bem, portanto, que as vítimas que fazem lhes vão dando o troco que merecem. Na Justiça, já se vê, apesar da imensa desproporção de acesso e de meios. Mas sem descurar, como há alturas em que é preciso, outras formas, digamos, mais criativas de oposição e resistência. Até porque a Justiça não chega a todo o lado, sendo que, por vezes, só chega onde lhe convém. Ao passo que a criatividade, por enquanto, ainda não conhece limites.
Como a nossa mente nos surpreende por vezes com associações tramadas, ao pensar nas prepotentes diatribes de Jardim, de Rui Alves, e de todas as outras personalidades, correlativas ou afins, que os acompanham na proa que ocupam, lembro-me sempre de um episódio da bola. (Faz todo o sentido. Afinal, o pretexto da prosa foi, na circunstância, uma coisa da bola.)
Ora, acontece que uma vez foi perguntado ao central Mozer, que defendeu com brio o emblema, as cores e o orgulho do Glorioso, como é que tencionava travar os atacantes adversários. Pois bem, com a simplicidade um bocado safada de quem se rala pouco com estados de alma, o defesa limitou-se a retorquir, sorrindo. É simples. Há-de ser de uma maneira ou de outra. E nem ele sabia que as suas palavras encerravam, afinal, todo um programa de legítima defesa.
Bernardino da Purificação

sábado, 15 de novembro de 2008

Uma sucessão sem sucessor

Se calhar porque sou céptico, só agora começo a acreditar que o dr. Jardim prepara, de facto, a sua sucessão. Porém, se os sinais não me enganam, parece-me ainda prematuro admitir que alguém venha mesmo a receber em breve o testemunho. Creio mesmo, aliás, que o mais certo é que venhamos a ter, provavelmente no final da legislatura, uma sucessão sem sucessor. Porque o dr. Jardim não brinca em serviço. E porque se sabe que, para ele, a democracia e os votos só têm piada se se puder antecipadamente saber quem ganha as eleições.
Concluído o intróito, permitam-me que ponha um pouco de ordem nas ideias.
Como acontece com a generalidade dos cidadãos desta terra, estou muito longe de dar por adquirida a ideia de que o presidente do Governo vai calçar as pantufas, por sua iniciativa, no final do presente mandato. Admito que possa estar farto do que faz e de quem o rodeia. E sou até capaz de dar de barato que a descompressão de uma reforma dourada possa estar a sorrir-lhe de uma forma, digamos, tentadora. Creio, no entanto, que o vício do poder será mais forte do que o manifesto desprezo que a criatura já nem esconde que nutre, tanto por adversários, como por companheiros de partido. O que me leva a pensar que o dr. Jardim há-de continuar por aí, parafraseando o outro de má memória, pelo menos até conseguir o lugar de recuo que o seu elevado auto-conceito considere mais adequado.
Desgraçadamente para ele, Bruxelas não passou de uma idílica miragem. Felizmente para o seu instinto de sobrevivência, a política do rectângulo, para além de lhe não ser actualmente favorável, fascina-o muito menos do que por vezes nos tenta fazer crer. Ora, tudo isto somado (ou melhor, subtraído) dá como resto a necessidade imperativa de ter de ficar por cá. Por muito que isso lhe custe. A despeito de todas as maçadas e enjoos que o futuro lhe possa trazer.
O dr. Jardim sabe que se não tivesse dito e redito, jurado e tornado a jurar, que este seria o seu último mandato, as coisas ser-lhe-iam francamente mais fáceis. Recandidatava-se, e pronto. Fazia um novo mandato, porque sim. E toda a gente engolia a coisa sem discussão que se visse ou problemas de maior.
A chatice é a eterna mania que tem de fazer política como quem anda no arame. Um dia finge que cai. Num outro faz de conta que se equilibra. Num terceiro ameaça que se estatela. Num seguinte volta a fingir que se apruma. E assim sucessivamente até fartar toda a gente com o espectáculo. Até, imagine-se, a que sempre considerou sua.
De maneira que, sem lugar de recuo à medida das exigências do ego, e com toda a gente mais ou menos saturada de ter continuamente mais do mesmo, o dr. Jardim percebeu que é chegado o momento de sacar do reportório uma última cartada. Vai, pois, voltar a fazer de conta. Vai sair, porém, vai ficar. Vai deixar o governo, mas não vai deixar o poder.
Como sei que a ideia assim expressa pode soar a coisa estapafúrdia, avanço desde já a leitura que faço dos últimos sinais visíveis. Na minha modestíssima opinião, todos eles, os sinais, parecem indicar que o dr. Jardim se prepara para, no final do mandato, e sempre como hipótese de recurso, recolher à retaguarda aparente do cargo de presidente da Assembleia Regional. Foi provavelmente por isso que decretou uma alteração ao regimento, por forma a que o presidente volte a ser eleito por legislatura e não por sessão legislativa. E terá sido também em obediência a esse plano que deu carta branca a Coito Pita, nesta espécie de rebelião larvar que parece estar em curso no seio do grupo parlamentar do PSD, contra Jaime Ramos. É que só um presidente forte do parlamento precisa de um Ramos fraco, ou até mesmo, quem sabe, de um Ramos ausente. E só a um presidente autónomo, com força e com poder efectivo, o dr. Jardim daria o direito de libertar-se da sujeição ao voto anual dos deputados eleitos. Ora, digam-me lá quem é que no PSD reúne o cúmulo de todas estas condições?
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Os acólitos da contrição

Não quero passar por desmancha-prazeres. Mas, palavra que está mesmo a apetecer-me atirar uma pedrada à unanimidade pia e congratulatória que reconduziu o parlamento madeirense ao trilho da legalidade. A razão é simples. Considero que os actos de contrição devem ser pessoais. E entendo que os ofendidos deveriam ser capazes de se dar ao respeito. Como nada disso aconteceu, receio bem que a dita normalidade tenha sido conseguida à custa de uma negociata qualquer. Como se a legalidade democrática, insisto numa tecla já tocada em textos anteriores, pudesse algum dia ser objecto da traficância de uma qualquer transacção.
Um bocado confuso, o que precede? Já se verá que não.
O PSD merecia, tinha esse direito, de desfazer sozinho o imbróglio jurídico e político em que leviana e prepotentemente meteu a Assembleia Legislativa Regional. Deveria ser capaz de subir sozinho ao plenário cujos trabalhos havia suspenso. E, num acto de penitente solidão, revogaria, com a exclusividade da sua iniciativa e votos, o que a força bruta da sua maioria havia anti-democraticamente imposto.
Isto é, a oposição não deveria ter-se intrometido no recolhimento alheio. Nem para lhe apoiar as dores. Nem para dar solenidade à indigência da rábula. A situação criada na Assembleia era um problema do PSD. Deveria, em consequência, ser resolvido a solo pelo PSD.
Se bem repararem, verão que não há ponta de radicalismo neste entendimento que expresso. Embora reconheça que os mais apressados tentarão encontrar aqui um laivo qualquer de incitamento à prática nada cristã do ajuste de contas.
Ora, o que defendo é tão simples quanto isto. Por vontade exclusiva da maioria social-democrata, a legalidade democrática na Assembleia ficou dependente e refém da revogação, pura e simples, de uma decisão arbitrária, ilegal e inconstitucional. Acontece que essa deliberação foi dirigida contra um deputado de uma das minorias com assento parlamentar. O que quer dizer que, enquanto se não verificasse tal revogação, nenhum partido da oposição com um apurado sentido de dignidade política e democrática deveria permitir-se participar em qualquer sessão plenária. Por não haver condições políticas para o fazer. Por subsistirem as razões jurídicas que levaram à suspensão da actividade parlamentar. E pela razão mais mundana e prosaica de que se não deve dar confiança à prepotência dos que sistematicamente se marimbam para as regras.
Pois bem, o que vimos foi outra coisa. Toda a oposição, com a digna ressalva do deputado directamente ofendido, aceitou acolitar a tardia contrição da maioria parlamentar. E, o que é mais surpreendente, aceitou emprestar o seu voto, que habitualmente de nada conta, a uma votação só tornada necessária pelo arbítrio da maioria. Perdeu assim uma oportunidade. Mais uma. De se dar ao respeito. E de confrontar o PSD com a indignidade da sua prepotência.
A oposição, e, em particular, o PS, lá saberá com que linhas se há-de coser. Mas depois de todas as omissões que se conhecem, por parte de quem tinha o dever ético e político de pronunciar-se sobre o acontecido, é inquietante perceber que os deputados da maioria tenham conseguido passar incólumes por entre os pingos da chuva que provocaram. No mínimo dos mínimos, deveria ter-lhes sido dado o direito de subirem ao plenário sozinhos, e de, com o imenso quórum que têm, assumirem sozinhos que erraram, no pelourinho da praça pública. Sem acólitos à volta a emprestar dignidade política à coisa. E sem ninguém a segurar as velas de uma contrição que deveria ficar como exemplo. Só espero é que, por detrás deste aparente erro de cálculo de tão cordata e prestável oposição, não tenha ficado uma negociata qualquer. Mas isso há-de ver-se quando um dia destes se reeditar a votação para a escolha do vice-presidente que falta à mesa da Assembleia.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Cavaco, a Autonomia e o ademais

O senhor presidente da República tem coisas mais importantes com que se preocupar. Os atropelos à legalidade democrática verificados no parlamento madeirense não passam de um exacerbamento, de grau escasso da escala cavaquista, da tensão inerente ao confronto político. E, ademais, a República tem na Madeira um senhor que a representa com capacidade para lidar com as excentricidades locais.
Manda o rigor que reconheça que não estou a citar ipsis verbis as declarações proferidas pelo senhor presidente da República. Porém, espremidinho o que disse, a coisa não passa desta indigência de raciocínio.
É evidente que o desemprego e a crise financeira são muito mais importantes do que quaisquer afloramentos totalitários ocorridos, ou em curso, na pérola do Atlântico. Os primeiros dizem respeito a todo o país. Os segundos não passam de mero folclore local.
Do mesmo modo, é claro para todos que os efeitos da intensidade do confronto político da RAM já fazem parte do anedotário nacional. O chefe de Estado tem assim carradas razão. Presidente da República que se preze não deve ceder à sedução da anedota.
Quanto ao ademais, a pátria não ignora que a Madeira alberga, por obra e graça do legislador constituinte, uma vetusta figura com poderes de representação da República. Não o ignora a pátria dos magnos problemas. Nem, muito menos, o exotismo folclórico desta pequena parcela. Às vezes é mais patusca do que vetusta? É sim senhor. Porém, compreenda-se. Entre a relevância dos cargos e o perfil particular de quem os ocupa deve haver sempre uma correspondência apropriada e visível.
De maneira que, meus amigos e caros concidadãos, a Madeira acaba de ser declarada em estado de autonomia total, tal como têm vindo a reclamar os mais fervorosos e radicais autonomistas, a começar, já se vê, por esse heróico espadachim autonómico que dá pelo nome de dr. Jardim. Porque o presidente da República não quer saber de nós, mesmo quando é atropelada a legalidade democrática. E porque, como se tem visto em todo este nada surpreendente processo, o representante regional da dita é mais expedito a comentar comentadores e políticos da oposição regional do que a condenar a prática deliberada de ilegalidades.
Estamos finalmente entregues a nós próprios, é o que é. Que é como quem diz que estamos entregues ao arbítrio de um poder a quem é dada a indecente indulgência dos casos perdidos. Dêmos, pois, graças ao Altíssimo. E, de caminho, agradeçamos a um presidente da República que, no intervalo dos seus inúmeros afazeres, é capaz de reconhecer a existência de ilegalidades, embora prefira deixá-las ao sabor dos caprichos de quem as pratica. E, já agora, tributemos também ao senhor presidente do Governo regional (e, em seu nome, à clique que chefia) o reconhecimento sincero que lhe devemos por fazer o que faz, apesar da rédea solta que tem. Não fosse ele um campeão da democracia e estaríamos todos bem arranjados...
Que mal fizemos nós?!
Bernardino da Purificação

sábado, 8 de novembro de 2008

A democracia negociada

Entendamo-nos. Não me move qualquer perverso desejo de ver a Madeira falada por más razões e envolvida em polémicas lamentáveis. Não obstante, e ao contrário do que possa imaginar o conformismo dos que se preocupam mais com os efeitos do que com as causas, considero que seria de extrema utilidade para a saúde da nossa vida democrática que o presidente da República fosse capaz de colocar no patamar devido o mais recente caso da política madeirense.
Uma democracia responsável não se refugia em subterfúgios. E os titulares responsáveis das suas instituições políticas não se escondem nem fogem dos problemas. No entanto, a sensação que se tem é que praticamente toda a gente aceita passar bovinamente a vida fazendo de conta que a normalidade e a legalidade são negociáveis. Como se as leis não fossem imperativas. Ou como se à Madeira tivesse sido outorgado um estatuto de excepção.
Ora, é óbvio que em democracia a legalidade não pode ser susceptível de transacção. De maneira que o mínimo que se poderia esperar de um presidente da República é que tivesse a decência política de enviar uma mensagem ao parlamento regional. Condenando, sem tibiezas nem ambiguidades, a reiterada indecência que a Assembleia quase diariamente alberga. E dizendo, sem medo das palavras, que as rupturas institucionais chegam sempre que os representados deixam de rever-se nos comportamentos e nas práticas dos seus representantes.
Como os factos falam por si, não vou entrar novamente na descrição da ocorrência. O que me interessa hoje é outra coisa. É explicar por que é que penso que o presidente da República não tem o direito de reduzir o problema criado a coisa que se resolve com umas quantas conversas de bastidores. E é procurar reter o que considero haver de verdadeiramente significativo nestes últimos atropelos cometidos à normalidade da nossa vida democrática.
Então, é assim. Ficou à vista de todos que o PSD convive mal com a crítica e reage mal à diferença de opinião. Encontra-se de tal maneira refastelado na sua obesa maioria que já nem consegue pensar. As suas reacções são, no mais das vezes, primárias e instintivas. E têm, quase sempre, a mimosa particularidade de se marimbar para o freio das regras, de mandar às urtigas os limites da decência e do império da lei, e de privilegiar o primarismo da força bruta.
A ocorrência recente é paradigmática. Em vez de procurar enquadrar democraticamente as invectivas políticas de que foi alvo, o poder que temos reagiu com a cegueira da intolerância: um deputado anda para aí a maçar-nos com fantochadas pseudo-políticas que dão notícias, pois cale-se o deputado, mande-se a política àquela parte e tente-se dar um jeito nas notícias; as críticas ganham uma visibilidade acrescida por serem feitas no parlamento, pois que se feche o parlamento; a democracia é um empecilho para um poder que se julga absoluto, pois que se dane a democracia; as pessoas julgam estar na posse do direito de opinião, pois que se lixem os direitos, mande-se passear as pessoas e vão à fava as opiniões. E um dia, sem darmos por isso, viveremos sem críticas nem opiniões. Sem política nem parlamento. Sem democracia nem regras. Apenas com as notícias que interessam. Apenas com a opinião que conta.
Aos que acham que a caricatura exagera, direi simplesmente que reagimos exactamente como somos. Os tolerantes reagem com tolerância. Os intolerantes nem chegam a perceber onde fica a fronteira da intolerância. Ora, foi nisto que se transformou o poder que nos manda.
O PSD não é todo assim, farão o favor de dizer os que não querem ser metidos em semelhante saco. Têm razão. É claro que não é. Individualmente considerados, os seus militantes não passam, quase todos, de estimáveis pessoas. Mas vão perguntar o que pensam os que são diariamente humilhados, os que são sistematicamente perseguidos, os que são criminosamente marginalizados. Eles lhes dirão que poder é este que é capaz de levar gente decente à prática reiterada e sobranceira do atropelo de regras, de direitos, de pessoas.
Ora, é por tudo isto que o presidente da República não devia ficar novamente calado. Porque se o fizer torna-se objectivamente cúmplice do desmando. E porque ao fazê-lo dá um público sinal de que a esta gente tudo é permitido.
Bernardino da Purificação