O dr. Jardim anda angustiado com o futuro do partido que lidera. Não sei se é da casa onde tem instalado o trono, ou se, pelo contrário, anda por aí uma sibila qualquer sussurrando desgraças aos ouvidos de sua excelência. Mas isso, reconheça-se, também pouco importa. O facto vale por si. De modos que se o senhor presidente se quer consumir em angústias com o futuro, é lá com ele. Não só tem esse direito, como lhe fica bem dar pública nota das suas apreensões. Até porque, como se sabe, ninguém conhece como ele essa magnífica vaga de herdeiros que, com visível impaciência, aguardam a sua hora.
Registem-se, pois, as agonias presidenciais. Quanto mais não seja, como sinal premonitório das fatalidades que lá à frente nos esperam. E, já agora, juntemos-lhes as nossas. Se não como expressão da nossa solidariedade, ao menos como atestado da nossa gratidão - é enternecedor ver como um presidente de partida se preocupa, não com o futuro dele, mas sim com o nosso futuro.
Antes de prosseguir, uma nota de esclarecimento. O presente escrito reporta-se ao artigo doutrinário que o senhor presidente faz o favor de publicar no número que aí vem do órgão oficial do seu partido. É nele que estão contidas as actuais apreensões de Jardim. É ele que nos dá conta da natureza das suas presidenciais agruras de alma.
Se bem li a prosa, o dr. Jardim receia que o PSD venha a abandonar a sua condição de partido-vanguarda para se transformar num partido de interesses. Coisa séria, como se vê. Tão séria que quase nos faz esquecer que é igualmente reveladora e tardia. Reveladora, porque nos permite perceber que valor tem, para o dr. Jardim, a dialéctica partidária democrática - absolutamente nenhum. Tardia, porque basta olhar para o parlamento e para a maioria dos empresários da Madeira Nova para se perceber que o PSD é já, desde há muito, um partido de interesses com aspirações a, ou travestido de, partido-vanguarda.
O dr. Jardim farta-se de gozar com a nossa ignorância. Como sabe que nós sabemos que ele leu umas coisas, é useiro e vezeiro no recurso a um expediente que ele adivinha ter tanto êxito como habitualmente nenhum escrutínio. Impinge-nos grandes teorias e brilhantes raciocínios sabendo que os assenta em premissas falsas. E há-de divertir-se que nem um perdido cada vez que consuma um tal brilharete.
Vejamos. No texto pretensamente doutrinário a que venho aludindo, o dr. Jardim defende que o partido que lidera deve continuar a ser a vanguarda que tem sido. Único porta-voz das aspirações do Povo. Executante único da soberana vontade do Povo.
A palavra, como se calcula, provocou-lhe algum embaraço. Ele sabe, como nós sabemos, que a subida ao poder das auto-proclamadas vanguardas conduziu sempre à emergência de ditaduras. Mas como o dr. Jardim lida bem com os embaraços, sobretudo os de natureza filosófico-política, despachou o problema com a afirmação de que o poder exercido por um partido-vanguarda é perfeitamente compatível com o normal funcionamento de uma democracia liberal. É verdade que não ilustrou tão magnífica tese com a comparação de um único exemplo. Mas isso deve ter sido para poupar no papel, que a palavra de sua excelência vale mais do que qualquer teoria de ciência política. Ainda assim, atrevo-me a esperar que o excelso líder que temos nos possa um dia esclarecer. Quanto mais não seja, para percebermos que modelo de democracia inspira os gloriosos sonhos de sua excelência.
Admito que isto possa soar a bizantinice. Mas palavra que me incomoda saber que ocupa o poder alguém que parece não ter percebido ainda que as vanguardas encerram em si mesmas um fermento de totalitarismo. Pelos vistos, o dr. Jardim não sabe que em democracia os partidos não passam de instrumentos de acção política de projectos, de ideologias, de correntes de opinião. Que podem estar hoje no poder e amanhã na oposição. Que não esgotam o leque possível nem de sensibilidades nem de formas de participação colectiva. E que, por isso mesmo, nunca poderão representar a totalidade do povo soberano.
Ou seja, com o seu perverso desejo de chefiar uma vanguarda, o dr. Jardim revela estar-se nas tintas para o facto (que um simples olhar para a História comprova) de a confusão forçada entre um partido e um povo ser avessa à divergência e refractária à diferença. Do mesmo modo que evidencia não perceber que a democracia só o é, de facto, se for inclusiva e praticar a tolerância. Mas isso, como é evidente, só acontece a quem pode ou julga ter uma vanguarda por conta.
Bernardino da Purificação
