Se calhar porque sou céptico, só agora começo a acreditar que o dr. Jardim prepara, de facto, a sua sucessão. Porém, se os sinais não me enganam, parece-me ainda prematuro admitir que alguém venha mesmo a receber em breve o testemunho. Creio mesmo, aliás, que o mais certo é que venhamos a ter, provavelmente no final da legislatura, uma sucessão sem sucessor. Porque o dr. Jardim não brinca em serviço. E porque se sabe que, para ele, a democracia e os votos só têm piada se se puder antecipadamente saber quem ganha as eleições.
Concluído o intróito, permitam-me que ponha um pouco de ordem nas ideias.
Como acontece com a generalidade dos cidadãos desta terra, estou muito longe de dar por adquirida a ideia de que o presidente do Governo vai calçar as pantufas, por sua iniciativa, no final do presente mandato. Admito que possa estar farto do que faz e de quem o rodeia. E sou até capaz de dar de barato que a descompressão de uma reforma dourada possa estar a sorrir-lhe de uma forma, digamos, tentadora. Creio, no entanto, que o vício do poder será mais forte do que o manifesto desprezo que a criatura já nem esconde que nutre, tanto por adversários, como por companheiros de partido. O que me leva a pensar que o dr. Jardim há-de continuar por aí, parafraseando o outro de má memória, pelo menos até conseguir o lugar de recuo que o seu elevado auto-conceito considere mais adequado.
Desgraçadamente para ele, Bruxelas não passou de uma idílica miragem. Felizmente para o seu instinto de sobrevivência, a política do rectângulo, para além de lhe não ser actualmente favorável, fascina-o muito menos do que por vezes nos tenta fazer crer. Ora, tudo isto somado (ou melhor, subtraído) dá como resto a necessidade imperativa de ter de ficar por cá. Por muito que isso lhe custe. A despeito de todas as maçadas e enjoos que o futuro lhe possa trazer.
O dr. Jardim sabe que se não tivesse dito e redito, jurado e tornado a jurar, que este seria o seu último mandato, as coisas ser-lhe-iam francamente mais fáceis. Recandidatava-se, e pronto. Fazia um novo mandato, porque sim. E toda a gente engolia a coisa sem discussão que se visse ou problemas de maior.
A chatice é a eterna mania que tem de fazer política como quem anda no arame. Um dia finge que cai. Num outro faz de conta que se equilibra. Num terceiro ameaça que se estatela. Num seguinte volta a fingir que se apruma. E assim sucessivamente até fartar toda a gente com o espectáculo. Até, imagine-se, a que sempre considerou sua.
De maneira que, sem lugar de recuo à medida das exigências do ego, e com toda a gente mais ou menos saturada de ter continuamente mais do mesmo, o dr. Jardim percebeu que é chegado o momento de sacar do reportório uma última cartada. Vai, pois, voltar a fazer de conta. Vai sair, porém, vai ficar. Vai deixar o governo, mas não vai deixar o poder.
Como sei que a ideia assim expressa pode soar a coisa estapafúrdia, avanço desde já a leitura que faço dos últimos sinais visíveis. Na minha modestíssima opinião, todos eles, os sinais, parecem indicar que o dr. Jardim se prepara para, no final do mandato, e sempre como hipótese de recurso, recolher à retaguarda aparente do cargo de presidente da Assembleia Regional. Foi provavelmente por isso que decretou uma alteração ao regimento, por forma a que o presidente volte a ser eleito por legislatura e não por sessão legislativa. E terá sido também em obediência a esse plano que deu carta branca a Coito Pita, nesta espécie de rebelião larvar que parece estar em curso no seio do grupo parlamentar do PSD, contra Jaime Ramos. É que só um presidente forte do parlamento precisa de um Ramos fraco, ou até mesmo, quem sabe, de um Ramos ausente. E só a um presidente autónomo, com força e com poder efectivo, o dr. Jardim daria o direito de libertar-se da sujeição ao voto anual dos deputados eleitos. Ora, digam-me lá quem é que no PSD reúne o cúmulo de todas estas condições?
Bernardino da Purificação
