O senhor Representante da República considera que está reposta a legalidade democrática na Assembleia Legislativa da Madeira. O parlamento não se reúne por vontade expressa do grupo parlamentar do PSD. Mas isso, para o conselheiro Diniz, traduz um quadro de legalidade. Mais um bocadinho e ainda nos diria que o clima parlamentar é de normalidade. Demos graças ao Senhor!
Já se percebeu que falo da mais recente episódio da nossa vida parlamentar. O deputado do costume fez o número do costume. E o PSD resolveu rasgar as vestes de tola indignação.
Corrijo. A bem dizer, a provocação não foi a do costume. Desta vez, o deputado do PND chamou nazi a Jaime Ramos e assassino a João Jardim. E resolveu alindar a cena com uma suástica de todo o tamanho em forma de bandeira. Isto é, o dito deputado conseguiu ir desta vez mais longe do que lhe é habitual. No espalhafato da cena. Na gravidade das acusações. No contumaz desrespeito pela dignidade da instituição parlamentar.
Do mesmo modo, a indignação do PSD não foi propriamente tola. Foi absolutamente legítima. Tolos foram, isso sim, os mecanismos de retaliação que utilizou: suspendeu ilegalmente o mandato de um deputado legitimamente eleito; impediu-o, com recurso a segurança privada(!), de entrar numa casa que é sua de direito político e legal; e, quando alguém lhe explicou a enormidade anti-democrática do feito, mandou fechar o plenário até que os tribunais entendam dizer de sua justiça.
Temos assim que, por este andar, só lá para as calendas teremos de novo em regular funcionamento a casa dos nossos representantes políticos. Não obstante, isso não parece ser coisa que perturbe o senhor conselheiro Monteiro Diniz. Deu rédea à solta ao formalismo legal que lhe caracteriza o pensamento e explica a acção. E ei-lo a comprazer-se com aquilo a que apelida de legalidade democrática. Haja clemência!
Se calhar, sua excelência nada mais pode fazer. O mais certo é que isso seja assim. Mas, com franqueza, podia ao menos ficar calado ou medir o que diz. Como nada disso fez, fica associado, também por más razões, a um dos episódios mais negros da vida parlamentar da Região.
Uma vez que o fundamentalismo legalista do senhor ex-ministro resolveu botar faladura, é de presumir que o presidente da República vai permanecer calado. Pelo menos, por enquanto. E assim se fica a perceber para que servem os representantes da dita.
Eu confesso que não acho bem. Já vai sendo tempo de a República se dar ao respeito também aqui nesta sua parcela. E já que temos um presidente tão cioso dos seus poderes (como se viu no recente episódio do estatuto açoriano), percebe-se mal que continue a recusar-se a utilizá-los. A menos que a ideia seja a de continuar a alimentar, com finalidades porventura didáctico-políticas, o exotismo político da ilha. Será?
Bernardino da Purificação
