A máquina da propaganda político-futebolística aí está na sua máxima força. Afinal, diz ela, o estádio do Marítimo vai ficar mais barato ao nosso erário. E o povo regozija-se. E o dr. Jardim pisca o olho, em mal disfarçado gozo, ao presidente Pereira dos assuntos futebolísticos do governo da RAM. E o nosso querido e escasso orçamento lá vai fazendo contas à fatia que vai ter de dispensar para a manutenção do lucrativo e dispendioso divertimento de alguns.
Um estádio mais barato! Palavra que gosto da ideia. Em período de crise, nada há mais estimável do que poupar e cortar nos gastos. Sobretudo nos desnecessários. O problema, e é com humildade que o confesso, é que não a percebi. Mais barato do que quê? Do que se não fosse feito? Do que pura e simplesmente se dissesse ao senhor Marítimo que já recebeu do erário mais do que o suficiente para ter feito estádios, obras, campos de treino, academias e outras coisas quejandas? Palavra que estou confuso. Como não é disso que se trata, juro que não percebo que raio de poupança é essa que o DN nos serve num dia e o dr. Jardim nos assegura no outro.
A minha dificuldade em perceber como é que vai ser mais barata uma despesa imoral, e a todos os títulos inútil, assenta ainda num outro tipo de considerações.
Passo a explicar.
Há dias, antes ainda deste mimo propagandístico que nos quer convencer da bondade de uma coisa manifestamente ruim, vi na têvê que temos um cavalheiro do IDRAM declarar o que um zeloso aplicador dos nossos dinheiros nunca poderia aceitar. Disse ele, num debate a propósito deste famigerado estádio do Marítimo, que a análise de solos e o estudo geotécnico, que as leis da engenharia exigem que se faça, serão executados pelo empreiteiro depois da adjudicação da empreitada. E no ar, como se calcula, ficou a simpática ideia de que a RAM assim furtaria os seus exauridos cofres a uma desnecessária despesa (mais uma, já se vê, que, pelos vistos, esta operação do estádio do CSM só tem contas de subtrair).
A maçada da coisa é que tanta poupança deixa a gente a matutar. Ora, acontece que eu também matutei. E, se calhar, mais do que devia. De tal modo que dei por mim confrontado com a seguinte dúvida de leigo: como é que se pode determinar um valor-base de adjudicação de uma obra pública, sem se apurar antecipadamente a dimensão e o custo da totalidade da intervenção?
Como não sou engenheiro, confesso que ainda hoje a coisa me aflige. Será que só vai ser adjudicada a obra acima do solo? Será que há alguma empresa de construção civil disposta a partir para uma obra como quem parte para a compra de um melão (o tal que só depois de aberto se sabe se valeu o que custou)? E os trabalhos abaixo do solo? Quem vai fazê-los e pagá-los? Serão um presente envenenado, salvo seja, dado ao empreiteiro? Tenho a certeza de que a singeleza complexa destas dúvidas dá bem a nota do tormento reflexivo em que me encontro.
É verdade que, a dada altura, pensei ter chegado à resposta para todas estas dúvidas. Visualizei então a palavra derrapagem. E a coisa pareceu fazer algum sentido. Na verdade, não há obra que não derrape financeiramente neste país e nesta região. Só que, logo a seguir, recordei-me que, não há muito tempo, entrou em vigor um diploma legal que limita a uma percentagem irrisória o valor dos trabalhos não previstos no caderno de encargos. E aqui, para meu desespero, regressaram as dúvidas. Será que alguém pode ajudar-me a desfazê-las? É que, com tantas contas de subtracção, às tantas ainda teremos um estádio real assente em fundações virtuais. Ou será que a virtualidade da coisa vai ficar-se apenas pelas contas da dita?
Bernardino da Purificação
