Um escaravelho! Uma praga de escaravelhos!
A verdade é que, de repente, a Madeira tornou-se um pequeno paraíso para bicharocos de espécies exóticas várias. Primeiro, foram os mosquitos. A contemporaneidade chegou com eles. O destino atlântico que sempre fomos começou a ceder o passo a uma tropicalidade irritante e sem ponta de sentido. Pouco depois, vieram lacraus, centopeias e outros animalescos quejandos. Chegaram embrulhados em areia. E foram-nos apresentados como efeitos secundários dessa coisa notável que é o progresso. Não nos disseram, é claro, que raio de progresso é esse que nos adultera a paisagem e rebenta a ecologia. Não precisaram. Do alto do seu voluntarismo, a um tempo idiota e soberbo, estão convencidos de que o progresso se basta e justifica a si próprio. Um dia, como é evidente, acabarão por descobrir, com o espanto que é próprio dos tolos, que as coisas não são bem assim. E agora, como se não bastassem os mosquitos e os lacraus, eis-nos confrontados com mais um sinal do exotismo sem freio que vem acompanhando as praias amarelas de recarga periódica, e as promenades apalmeiradas que nos homogeneizam e normalizam a frente-mar. Uma praga de escaravelhos às cavalitas da pressa de plantar palmeiras em tudo quanto é sítio! Era mesmo só o que nos faltava...
Não pretendo brincar com coisas sérias. Mas juro que não me lembro de ver coisas destas na Madeira Velha. E posso até garantir que nem a Madeira Nova produziu coisa semelhante. É verdade que esta última brincou um bocado com a solidez dos nossos solos, divertiu-se bastante a comprimir leitos de ribeiras, e rebolou-se de gozo a desviar cursos de água, à conta de dezenas de quilómetros de túneis. Mas foi preciso esperar por essa era notável de prosperidade e progresso, que é a Madeira Contemporânea, para se perceber em toda a sua plenitude o delírio de quem nos governa. Transformámo-nos num paraíso para os entomólogos. Não passamos agora de um insalubre pasto para hordas de insectos importados.
Exagero, gritarão os devotos dessa nova religião local que tem como sumo sacerdote o dr. Cunha das sociedades de desenvolvimento. Não há progresso sem efeitos perversos, dirão com fé. E só os reaccionários aceitam sacrificar as bênçãos tangíveis do dito cujo só para lhe fugir aos efeitos colaterais indesejados, hão-de certamente também argumentar. Di-lo-ão, é claro, no intervalo da comichão ou da pulverização do repelente. Ou então, para dar um toque feérico à coisa, dispará-lo-ão à braseira da incineração das palmeiras infestadas. O problema é que os agnósticos como eu são pouco permeáveis a semelhante argumentário. Porque entendemos que o desenvolvimento deve construir e não destruir. E porque temos a mania de pensar que quando há planeamento, estudo e cautela, não há efeitos bons nem efeitos maus. Há apenas efeitos. Que podem ser previstos. Que podem, portanto, ser controlados.
Uma porcaria de um escaravelho não merece a maçada deste escrito? Uma praga de mosquitos ou a singeleza de um lacrau também não? Depende do que estivermos a falar. Ora, o que nos diz esta execrável bicharada é que andam por aí uma forma errada e inculta de fazer política, e um modo imbecil e arrogante de construir o futuro. Se ao menos o repelente resolvesse isso também...
Bernardino da Purificação
