sábado, 25 de outubro de 2008

A metáfora da Madeira Contemporânea

Um escaravelho! Uma praga de escaravelhos!
A verdade é que, de repente, a Madeira tornou-se um pequeno paraíso para bicharocos de espécies exóticas várias. Primeiro, foram os mosquitos. A contemporaneidade chegou com eles. O destino atlântico que sempre fomos começou a ceder o passo a uma tropicalidade irritante e sem ponta de sentido. Pouco depois, vieram lacraus, centopeias e outros animalescos quejandos. Chegaram embrulhados em areia. E foram-nos apresentados como efeitos secundários dessa coisa notável que é o progresso. Não nos disseram, é claro, que raio de progresso é esse que nos adultera a paisagem e rebenta a ecologia. Não precisaram. Do alto do seu voluntarismo, a um tempo idiota e soberbo, estão convencidos de que o progresso se basta e justifica a si próprio. Um dia, como é evidente, acabarão por descobrir, com o espanto que é próprio dos tolos, que as coisas não são bem assim. E agora, como se não bastassem os mosquitos e os lacraus, eis-nos confrontados com mais um sinal do exotismo sem freio que vem acompanhando as praias amarelas de recarga periódica, e as promenades apalmeiradas que nos homogeneizam e normalizam a frente-mar. Uma praga de escaravelhos às cavalitas da pressa de plantar palmeiras em tudo quanto é sítio! Era mesmo só o que nos faltava...
Não pretendo brincar com coisas sérias. Mas juro que não me lembro de ver coisas destas na Madeira Velha. E posso até garantir que nem a Madeira Nova produziu coisa semelhante. É verdade que esta última brincou um bocado com a solidez dos nossos solos, divertiu-se bastante a comprimir leitos de ribeiras, e rebolou-se de gozo a desviar cursos de água, à conta de dezenas de quilómetros de túneis. Mas foi preciso esperar por essa era notável de prosperidade e progresso, que é a Madeira Contemporânea, para se perceber em toda a sua plenitude o delírio de quem nos governa. Transformámo-nos num paraíso para os entomólogos. Não passamos agora de um insalubre pasto para hordas de insectos importados.
Exagero, gritarão os devotos dessa nova religião local que tem como sumo sacerdote o dr. Cunha das sociedades de desenvolvimento. Não há progresso sem efeitos perversos, dirão com fé. E só os reaccionários aceitam sacrificar as bênçãos tangíveis do dito cujo só para lhe fugir aos efeitos colaterais indesejados, hão-de certamente também argumentar. Di-lo-ão, é claro, no intervalo da comichão ou da pulverização do repelente. Ou então, para dar um toque feérico à coisa, dispará-lo-ão à braseira da incineração das palmeiras infestadas. O problema é que os agnósticos como eu são pouco permeáveis a semelhante argumentário. Porque entendemos que o desenvolvimento deve construir e não destruir. E porque temos a mania de pensar que quando há planeamento, estudo e cautela, não há efeitos bons nem efeitos maus. Há apenas efeitos. Que podem ser previstos. Que podem, portanto, ser controlados.
Uma porcaria de um escaravelho não merece a maçada deste escrito? Uma praga de mosquitos ou a singeleza de um lacrau também não? Depende do que estivermos a falar. Ora, o que nos diz esta execrável bicharada é que andam por aí uma forma errada e inculta de fazer política, e um modo imbecil e arrogante de construir o futuro. Se ao menos o repelente resolvesse isso também...
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O medo da paixão clubística

O representante político de duzentos e cinquenta mil accionistas resolveu dizer de sua justiça. A empresa de que somos todos sócios não acerta nas opções. O core business que era suposto que tivesse ocupa um lugar secundário nas preocupações da administração. E, em resultado disso, os desaires começam a ser mais do que muitos.
No caso, o dito representante é o dr. Jardim. Os accionistas somos nós, os contribuintes da Madeira. A empresa é o Marítimo. E a administração da coisa é aquela simpática malta que, por vontade expressa do mandatário do sócio pagante, alimenta a vaidade e os bolsos à custa dos impostos de todos e da paixão clubística de alguns.
Ora, pelos vistos, o dr. Jardim acaba de descobrir que a sua relação com o futebol profissional não é coisa que se recomende por muito mais tempo. Façamos um esforço e entendamos o facto. Essa relação só lhe serve se lhe puder render qualquer coisa. Mas como o futuro se afigura mais ou menos negro, a rendibilidade do investimento que faz com o dinheirito do zé pagode ameaça parecer nula.
Chamo a atenção para o verbo que utilizei. O dr. Jardim não ignora que o retorno da despesa que obriga o nosso erário a fazer com o futebol profissional é totalmente inexistente, absolutamente nulo. O seu problema é que agora, para além de ser, passou também a parecer. O que quer dizer que para além de nulo está agora a chegar ao ponto de lhe ser politicamente inconveniente.
Sabem. O dr. Jardim pertence à escola cínica da política. Se às aparências puder acrescentar resultados, óptimo, que assim todos lucram. Mas se os resultados se revelarem incompatíveis com as aparências, pois então que se lixem os ditos, que a sobrevivência política depende muito mais da subjectividade de quem vê do que da objectividade do que está à vista.
Façamos um pequeníssimo exercício. Todos os anos são descarregados na Madeira umas boas mãos cheias de jogadores de bola. Ninguém, em bom rigor, conhece os critérios de recrutamento. Do mesmo modo que ninguém conhece o saldo resultante das constantes idas e vindas desses aspirantes a profissionais de futebol. Diz quem sabe que esse movimento gera comissões mais ou menos avantajadas. Mas não há quem seja capaz de garantir que o Marítimo esteja a ganhar o que quer que seja com a prática continuada desse tipo de operações. Nem financeira, nem desportivamente. Ao ponto de se poder dizer, sem exagero, que as carradas de jogadores, que por cá arribam todos os anos, outra coisa não fazem que não seja a transferência de recursos financeiros que são nossos sabe-se lá para que destino.
Não obstante tudo isto, o dr. Jardim veio agora a público demarcar-se apenas da política desportiva posta em prática pelos gestores públicos que legalmente são os administradores do Marítimo. Pelos vistos, não se preocupa com a gestão financeira. Como se alguma empresa futebolística pudesse desenvolver uma política desportiva sólida assente numa base financeira pouco clara, gelatinosa, e eternamente dependente de recursos que não lhe pertencem, como são, no caso em apreço, os nossos queridos e suados impostos.
Eu não quero cometer a injustiça de pensar que o dr. Jardim não percebe que a aventura político-futebolística em que nos meteu tresanda a coisa pouco sã. O problema é que ao evitar essa injustiça arrisco-me a cair numa outra porventura ainda maior. Como é, por exemplo, a pouco simpática ideia de que a participação da Região na Marítimo SAD pode ter objectivos que pouco ou nada têm que ver com o desporto ou com o fomento da prática desportiva.
Dito isto, não posso deixar de acrescentar uma nota final. No fundo, para constatar a ausência de uma posição clara dos partidos da oposição sobre a matéria. É curto e vago arremeter de vez em quando contra o financiamento público do futebol profissional. Gostava de ver aplicada nesta questão a acutilância que todos revelam relativamente ao desvario despesista das sociedades ditas de desenvolvimento. Não é isso que ocorre, porém. Como se a paixão clubística lhes metesse medo. Ou como se o esbanjamento em obras inúteis não fosse tão condenável como outro esbanjamento qualquer.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O tempo novo cada vez mais velho

Há uma espécie de regra não escrita da prática política que impõe aos governos a necessidade de renovarem periodicamente a legitimidade de que são portadores.
Não me refiro, como é evidente, à legitimidade formal que o estado de direito exige que tenham. Não há democracia sem eleições. Logo, não há governos democráticos sem a unção do voto popular. Mas como a democracia não termina nem se esgota no mero cumprimento dos seus próprios formalismos, não há chefe de governo democrático que não precise de mais qualquer coisa para se sentir permanentemente legitimado. A menos que se esteja nas tintas para os cidadãos que o elegeram.
Como já se percebeu, este qualquer coisa de que falo é o cuidado que têm os governantes de verdade de auscultarem em permanência os sinais dos tempos que passam. É verdade que, no nosso caso, se governa para quatro anos. Mas é igualmente verdade que os ciclo políticos nem sempre correspondem ao tempo de duração de uma legislatura. É por isso que qualquer sistema democrático salvaguarda a possibilidade de se poder interromper esses ciclos. E é por isso também que que os mecanismos informais de escrutínio da actividade governativa têm ganho, nos últimos anos, um lugar cada vez mais importante nas sociedades hipermediatizadas em que vivemos.
Em suma, para além da legitimidade formal que qualquer sistema reclama que tenham, os governantes necessitam do conforto e do amparo de uma outra. Há quem a designe por legitimidade de exercício. E, em termos práticos, não é mais do que a percepção clara de que, em todos os momentos da legislatura, as medidas de quem governa têm o aval e vão ao encontro das expectativas e necessidades dos governados.
Não há governo democrático que se permita dispensar esse aval. E isto é de tal modo verdade que por todo o lado vemos multiplicar os barómetros e os estudos de opinião. Do mesmo modo que é cada vez mais frequente a antecipação de eleições, tanto por iniciativa de quem governa, como em resultado de uma decisão nesse sentido por parte de quem tem o poder supremo de interromper os ciclos eleitorais. A demissão de Santana Lopes e a convocatória antecipada de eleições regionais na Madeira são exemplos recentes do que se acaba de dizer.
Porque já vai longo o intróito, passo já aos finalmentes. O que pretendo colocar sobre a mesa é uma questão muito concreta. A seguinte. Não havendo dúvidas de que o governo do dr. Jardim tem toda a legitimidade formal para se manter em funções, até que ponto tem actualmente o amparo da outra de que acima falei?
Como não estou na cabeça do dr. Jardim, desconheço por inteiro o que é que, sobre a matéria, sua excelência acha ou deixa de achar. Mas por analogia com o que se passou há um ano e pouco, atrevo-me a presumir o que é que ele deveria achar.
Explico. Por meras razões de interesse político pessoal, o dr. Jardim decidiu interromper a meio a última legislatura. Mas como era feio confessar o egoísmo da sua decisão, o presidente do governo resolveu oferecer como razão o entendimento de que a Madeira estava a ser estrangulada pelo Terreiro do Paço. De maneira que ele (pobre dele!), colocado entre a espada e a parede, não teve outro remédio se não optar galhardamente pela espada.
Os resultados da manobra são conhecidos. A mensagem foi convincente. E a Madeira em peso entronizou o seu excelso presidente, seguramente à espera de um novo tempo, de uma nova governação, de um novo modo de driblar as dificuldades. Debalde, como todos os dias se percebe. Porque o tempo continua exactamente o mesmo. Porque a governação mantém exactamente os mesmos traços e as mesmas caras. E porque as únicas coisas que todos vemos virtuosamente dribladas são as expectativas dos madeirenses.
Estarei a defender com isto uma nova ida às urnas antecipada? Podem crer que não, sem embargo de constatar que as presidenciais razões de há mais de um ano atrás continuam a ser, tanto no tom como na substância, invocadas até à náusea. Mas julgo que não exagero se me sentir no direito de exigir a quem me governa que tenha ao menos a decência de um gesto de refrescamento da sua legitimidade de exercício.
Eu sei que o dr. Jardim se diz avesso a remodelações. Isso não passa de fita, como se sabe, porque todos temos ainda presente o chuto no traseiro que um dia levaram os drs. Lélis e Gaudêncio (essa história, aliás, ainda está por contar em todos os seus deliciosos detalhes). Mas se a economia se afunda, se o desemprego sobe, se o desperdício está patente, se a desconfiança alastra, se a falta de um rumo é uma clara evidência, de que espera o presidente do Governo para emitir um sinal, por muito ténue que seja, de que, tal como há ano e pouco atrás, se preocupa com o futuro da Madeira e dos madeirenses? Ou será que não se preocupa? Ou será que para ele é indiferente que a política posta em prática pela equipa que o acompanha desde 2000 se tenha traduzido no imenso fracasso que já ninguém consegue esconder?
Como se imagina, as respostas cabem-lhe a ele. E mesmo que o não queira, elas serão dadas todos os dias. Se não em palavras, seguramente nas acções e omissões com que a sua cada vez mais notada falta de pachorra nos vier a brindar.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Uma questão de estado

É extraordinário como nem as crises são capazes de gerar novidades que se vejam na política madeirense. Uma pessoa sai por uns dias desta santa terrinha. Regressa quatro ou cinco dias mais tarde. E constata com aliviado desalento que, mais coisa menos coisa, está tudo mais ou menos na mesma. Jardim vocifera nos intervalos das suas cada vez mais frequentes deslocações a Bruxelas. Cunha e Silva lacrimeja e protesta por tocarem nas suas queridíssimas SD's. Ventura Garcês, participante acidental deste filme, promete nem ele sabe bem o quê. O director das nossas regionalizadas Finanças selecciona os seus alvos segundo critérios que só ele e os senhores que serve conhecem. A oposição esgadanha-se toda nessa estimável competição que consiste em ver quem consegue dar o tiro mais certeiro num porta-aviões que já parece um queijo suíço, tal a quantidade de rombos que tem. A têvê que temos mantém-se imperturbável na sua mui meritória função de nos entreter com programas assumidamente ridículos e cómicos, embora pretensamente informativos. O "nosso" Marítimo, por obra e graça do dr. Jardim, e o meu Nacional, por afecto imperativo de vários anos, não desistem desse magnífico propósito de se aniquilarem um ao outro. E, no meio disto tudo, a malta que observa vai tocando a vida para a frente. Como pode. Como deixam. Como consegue. Entretanto, lá de fora chegam continuamente notícias de uma crise que passa notoriamente ao lado dos nossos governantes. De todos os lados chovem apreensões várias que nos apertam os bolsos perante a bonomia impávida dos que, em proveito próprio, ostentam o mandato de representação que colectivamente lhes outorgámos. E, cá em baixo, a malta continua à espera das boas notícias que nunca chegam, bem como das medidas que já nem os crédulos acreditam que algum dia possam chegar.
O CDS tem razão: apesar da legitimidade reforçada nas últimas legislativas, este governo não foi, não é, nem nunca há-de ser capaz de anunciar uma medida de ataque aos efeitos da crise.
Carlos Pereira tem razão: com alguma capacidade técnica, com interesse pela coisa pública, com vontade de produzir ideias e governar de facto, é possível engendrar uma boa meia dúzia de medidas práticas susceptíveis de darem alguma respiração à nossa economia.
O PS tem razão: Cunha e Jardim só têm de queixar-se de si próprios por terem conduzido a Madeira por atalhos pouco recomendáveis.
Todos, afinal, temos razão: esta coisa já se tornou demasiado cansativa para ser minimamente suportável.
No entretanto, porém, o dr. Jardim vai despachando as maçadas em que nos meteu com a notável afirmação que está cada vez mais farto do estado. O dr. Cunha confessa que ocultou dos contribuintes e dos eleitores, durante quatro meses, o relatório demolidor do Tribunal de Contas sobre as meninas dos seus olhos já certamente cansados, as famigeradas Sociedades de Desenvolvimento. E se não é o sol que ainda nos deixa ir à praia, estávamos mesmo bem arranjados: isto não teria mesmo ponta por onde se pegasse.
Já agora, e a propósito: o dr. Jardim ainda continua por cá? Se sim, porque não aproveita para visitar o estado dessa coisa notável que é o legado material do seu já desacreditado vice? Já que tanto gosta de falar do estado, porque não experimenta falar desse?
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A rebendita

Convenhamos. O dr. Jardim merece que lhe coloquem dificuldades atrás de dificuldades. A prepotência que já não consegue esconder está mesmo a pedir que lhe batam sistematicamente o pé. A insolência convencida e tola com que gosta de aviar receitas governativas aos outros, como se pertencesse ao escol dos governantes de verdade, só merece como resposta o prazer da contradita. O maquiavelismo de trazer por casa de que gosta de fazer alarde até parece que reclama resposta equivalente. E o modo arrogante com que trata os súbditos já há muito que pedincha o tormento da humilhação pública.
O pensamento é pouco cristão. Não me custa admitir que sim. Porém, compreenda-se: não se dá a outra face a quem passa a vida a agredir. E não se deve tratar com indulgência quem parece já ter perdido por completo a noção dos limites.
Mutatis mutandis, até porque um é histriónico enquanto o outro é sonso ou contido, coisa semelhante pode dizer-se do dr. Cunha. Ao esbanjamento politicamente delituoso que não se cansa de dar mostras (partindo do princípio de que só existe esse) sou capaz de jurar que apetece contrapor um quadro de penúria. À forma como abusa do poder só para perseguir os seus ódios de estimação é capaz de dar algum gozo apontar a suprema evidência do seu incompetente desgoverno. Ao voluntarismo idiota que pariu marinas destruídas, parques vazios, promenades sem uso e em permanente conserto, e outras coisas quejandas que só serviram para nos gastar a paciência e os recursos, apetece dizer que já basta de megalomania, já chega de desvario. E à forma politicamente cobarde como agora se esconde atrás das Sociedades de Desenvolvimento é imperioso que se diga que a falta de pudor tem limites.
Dito tudo isto, impõe-se uma explicação. A prosa precedente foi motivada pelo chumbo dado pelo PS na Assembleia da República à alteração da Lei de Finanças Regionais.
Ora, acontece que tenho a ideia de que os deputados socialistas fizeram assentar o seu chumbo em argumentos semelhantes aos acima expostos. Que são tudo menos políticos. E tão falhos de racionalidade como cheios de desejo de ajuste de contas. Ora, isso parece-me ser coisa de pouco aviso.
Não é que considere que a lei em vigor asfixia as finanças da Madeira. Não é isso. Entendo, aliás, que aquilo que verdadeiramente asfixia a Madeira é a incompetência governativa, o despesismo sem freio nos dentes, a ausência de critério na selecção das prioridades, a roda livre, em suma, em que andam o nosso presente e futuro ao sabor dos caprichos do dr. Jardim e do dr. Cunha. Considero, porém, que é errado fazer assentar as transferências financeiras do estado central num PIB que se sabe ser irreal e empolado.
É claro que sei que os culpados da graça foram os dois sobreditos senhores. Se não se tivessem apresentado em Bruxelas com um PIB de fantasia, o Terreiro do Paço nunca teria a lata de fazer de conta que somos uma região rica. E se não tivessem sobreposto o despudor da propaganda à iniludível realidade da nossa vida, a esta hora ninguém teria tido o atrevimento de desconsiderar a pobreza relativa que ainda evidenciamos. Nem em Bruxelas, nem em Lisboa.
Não têm, portanto, legitimidade moral para reclamar aqueles que conscientemente nos empurraram para um prejuízo objectivo de várias centenas de milhões de euros. Não posso, todavia, deixar de notar que me parece mal que o partido que mais tem denunciado o empolamento do PIB da Região tenha sido capaz de impedir a revogação de uma lei errada porque assenta em pressupostos também eles errados. Fico com a ideia de que o PS caiu no engano lançado por Jardim. Votou, de rebendita, contra o ditadorzeco que nos governa, sem perceber que quem estava em causa eram (e são sempre) os madeirenses. E assim o dito cujo ganhou fôlego.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A nova terceira via

Bem vindo, dr. Sérgio Marques, ao redil dos delfins vigiados. Se bem percebi o que o JM diz que disse, o PSD acaba de ganhar mais um candidato à sucessão do dr. Jardim. Demos graças ao Altíssimo. Já era tempo de aparecer um aspirante suficientemente distante das tricas domésticas em que andam entretidos o vice-presidente do Governo e o presidente do maior município da Região.
Diga-se, no entanto, que, em boa verdade, Sérgio Marques não chegou propriamente agora aos lugares da frente da linha de partida. Bem longe disso. No final de contas, sem nunca precisar de assumi-lo, o eurodeputado do PSD foi sempre um dos mais fortes candidatos à sucessão de Jardim. O que o distinguia dos restantes era o facto de ter feito da discrição um estilo e um método. Uns, os outros, iam-se esfalfando em pouco sensatas correrias debaixo das luzes da ribalta. Sérgio Marques, ao contrário, optou por correr pelo lado de fora. Fez bem. Evitou um desgaste prematuro. E fez o favor a si próprio de recusar o espectáculo deprimente em que incorrem os candidatos putativos que se acham portadores de um grande pedigree.
Surpreende por isso que tenha decidido abandonar o registo low profile que lhe permitiu marcar pontos sem necessidade de queimar os dedos. Terá soado, sem nós termos percebido, o verdadeiro tiro de partida? Francamente, custa-me admitir que sim. E apesar de achar que faz todo o sentido a tese do dr. Carlos Pereira, segundo a qual poderemos estar perante uma mera manobra de diversão, fico com a ideia de que o voo picado que Sérgio Marques aceitou iniciar tem um alcance político que escapa ainda à nossa compreensão.
Há uma coisa, porém, de que não tenho dúvidas: o presidente do Governo está seguramente por trás deste movimento do eurodeputado. Erra quem pensar o contrário. Porque, sendo cauteloso, o dr. Sérgio Marques nunca diria em voz alta o que toda a gente já admitia, afinal, em voz baixa. E porque se sabe que, sendo maquiavélico, o dr. Jardim já mostrou do que é capaz a todos os que meteram na cabeça que lhes assistia o direito de desenvolverem uma estratégia pessoal e autónoma. Veja-se o caso de Miguel de Sousa. Atente-se no percurso de Virgílio Pereira. E, para citar um exemplo mais recente, tenha-se em conta a vida cada vez mais difícil de Miguel Albuquerque.
Aposto, em suma, que Sérgio Marques articulou com Jardim o timing do seu desnecessário e redundante anúncio. Ou por alguém lhe ter feito pensar que, entre Albuquerque e Cunha, o seu nome pode passar a funcionar como uma espécie de terceira via. Ou, então, por alguém lhe ter feito sentir a necessidade de ser dado um público sinal de que, em matéria de candidatos à sucessão, o PSD deve preparar-se para um tempo novo com novos protagonistas.
Ignoro se Sérgio Marques foi simplesmente incauto ou se se muniu previamente de garantias de protecção. Essa é uma dúvida que só o tempo nos há-de um dia esclarecer. De uma forma ou de outra, fica no ar a convicção de que Jardim tem um novo favorito. Pelo menos, até ao lançamento do próximo.
Bernardino da Purificação

Que o TC nos valha

Daqui a quinze dias, o dr. Cunha e Silva há-de dizer qualquer coisa sobre as denominadas sociedades de desevolvimento. Para não variar, há-de fazê-lo de raspão e em prosa situada algures entre o enfadado e o lacrimejante, já que sua excelência entende ter sido ungido pelo dom da intocabilidade.
Podem apostar. Daqui a duas semanas, tê-lo-emos a dizer umas baboseiras quaisquer no espaçozito que o DN faz o favor de lhe conceder. Falará certamente das obras que impulsionou. Há-de esforçar-se por enganar o óbvio. Terá com certeza o atrevimento de sugerir que os seus palpites são mais fiáveis do que as contas feitas pelo tribunal das ditas. E, antes do ponto final, acabará por despedir-se dos leitores com uma citação qualquer a propósito de coisa nenhuma.
Acontece que, tal como os restantes notáveis deste regime, o dr. Cunha é inimputável. Gasta milhões sem critério perante a complacência geral. Manda fazer obras só para encher os olhos aos incautos (antes dizia-se "para inglês ver") apenas e só porque lhe apetece brincar aos governantes. Numa triste tentativa de emulação do chefe, desatou a polvilhar a nossa santa terra com cartazes que hão-de imortalizar a fúria despesista e irresponsável com que sua excelência nos quis brindar. E, não contente com isso, tem vindo a passar tranquilamente ao lado dos relatórios do Tribunal de Contas, como se o dito nem sequer existisse.
Como sistematicamente sucede, o dr. Cunha engana-se. O TC existe mesmo. Valha-nos isso. Já que temos de aturar os Cunhas deste mundo, ao menos que haja alguém com a suficiente competência técnica e a necessária capacidade legal para lhes pôr a incompetência à mostra.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A nova estratégia socialista

Parece que a política regional vai voltar a animar-se. Boas notícias. É do que a malta andava mesmo a precisar. Não há nada como uma boa cena de pancadaria política para espevitar os espíritos mais sossegados.
Então é assim. O PS acaba de anunciar que está finalmente disponível para fazer oposição ao partido do poder. Abençoada hora. Já era tempo de alguém no PS perceber que, por definição, missão democrática, e eventual proveito da colectividade, quem está na oposição deve fazer oposição. Que seja, pois, muito bem-vindo à função que deve ter, e que nunca deveria ter abandonado, no quadro da nossa vida política. E, já agora, votos de que as maçadas internas que têm vindo a dispersar-lhe as atenções lhe permitam deixá-lo totalmente liberto para uma acção centrada naquilo que verdadeiramente conta.
É claro que uma coisa são palavras e intenções, e que outra bem diferente são as acções. O crivo da prova dos factos há-de estabelecer as verdadeiras distâncias que separam umas das outras. E só ele vai demonstrar se o PS percebeu finalmente que o verdadeiro adversário está lá fora e não intramuros como tem estado até agora. É que, para mal dos pecados do PS, não basta que venha o deputado Vítor Freitas anunciar que o seu partido vai imprimir uma nova dinâmica à sua acção política, que pode passar pela possibilidade de pedir ao Presidente da República a dissolução da Assembleia Legislativa Regional. Como ele próprio certamente compreenderá, é preciso muito mais do que uma declaração sua para podermos ficar com a certeza de que o PS ganhou finalmente juízo e vai passar a fazer o que o seu estatuto lhe reclama que faça.
Ainda assim, vale a pena levar a sério o anúncio feito por Vítor Freitas em recente entrevista ao DN. O PS quer, pelos vistos, tomar a iniciativa e marcar a agenda política. Faz muito bem. E parece querer igualmente exercer alguma pressão sobre o Presidente da República, o que aparenta ser uma ideia inteligente. Mas como não há estratégia inatacável em todos os seus pressupostos lógicos, é bom que o PS-Madeira esteja preparado para responder à suspeita de que pode estar conluiado com o PS nacional numa manobra de ataque ao Presidente da República. No estado a que chegaram as relações entre Cavaco e o governo da República, essa hipótese faz sentido. E ganha uma verosimilhança adicional se considerarmos que o primeiro ponto de fricção entre o palácio de Belém e os socialistas do rectângulo assumiu a forma de uma intensa polémica sobre o estatuto autonómico dos Açores.
Embora não passe de um curioso destas coisas, suponho não errar se disser que quem planeia uma estratégia tem de ser capaz de integrar no seu plano todas as possíveis medidas de retaliação (as chamadas counter measures), sob pena de poder ser surpreendido por escusados e evitáveis imprevistos. E como não tenho a pretensão de ensinar o padre-nosso ao vigário, estou firmemente convencido de que o PS há-de saber o que dizer se um dia lhe atirarem à cara que um eventual aumento de pressão sobre o Presidente da República nada tem que ver com a política regional propriamente dita. Sinto-me por isso bastante curioso relativamente a todos os desenvolvimentos da anunciada manobra socialista. É que a avaliar pelo que disse Vítor Freitas, a política madeirense pode vir a ocupar brevemente um lugar central no debate político nacional. Ora, convenhamos que isso não é nada pouco para um partido que, pelos vistos, quer mostrar que tem um novo modo de fazer oposição.

Bernardino da Purificação

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A peixeirada punida

De repente, uma pequena notícia suspendeu-me o cepticismo. Passo a explicar. Soube há instantes que o dr. Jardim foi condenado a pagar uma indemnização à dirigente socialista Edite Estrela. Vinte mil euros. A decisão foi tomada pelo tribunal Judicial do Funchal, que não achou bem que o presidente do governo tivesse tratado uma sua adversária política ao arrepio das regras de urbanidade a que todos os cidadãos estão obrigados. Vinte mil euros é pouco? É verdade que sim. É quase nada. Mas é, porém, o suficiente para explicar ao dr. Jardim que há limites que não podem ser ultrapassados.
É claro que o cavalheiro em questão não há-de ter aprendido nada com a lição. Não por que seja um malcriado compulsivo. Nem, muito menos, por lhe ter eventualmente faltado em pequeno a dose recomendada de chá. Pensando bem, o problema do dr. Jardim é de natureza diversa. Tem que ver com a percepção que tem dos resultados da dialéctica política que escolheu. E está directamente relacionado com a prudente distância a que preferem situar-se os alvos potenciais da língua de sua excelência.
Permitam-me que explique. O dr. Jardim é como uma criança a quem nunca foram ensinados limites. Sempre que berra, obtém o que quer. E como os seus berros têm sempre recompensa, não encontra razão para mudar de conduta. Trata-se, no fundo, de um problema decorrente da relação existente entre o estímulo e a resposta, nos termos dos mais elementares processos de aprendizagem.
Directamente relacionado com este, há um segundo aspecto. Depois de largos anos a berrar, o dr. Jardim deu-se conta de que a generalidade das pessoas de bem receiam a sua língua. Não pela substância do que possa dizer. Mas sim pela grosseria useira e vezeira de que é portadora. Compreenda-se. Nem toda a gente tem pachorra para descer ao nível das presidenciais peixeiradas com que sua excelência já nem consegue surpreender ninguém. De modos que o cavalheiro em questão acabou por perceber que a sua já crónica e relapsa boçalidade, para além de materialmente compensadora, funcionava com sucesso como estratégia de intimidação. Afastando da política algumas pessoas qualificadas que eventualmente lhe pudessem fazer frente. E inibindo os seus adversários directos de firmemente se lhe oporem com pública veemência.
Ou seja, o dr. Jardim aprendeu em trinta anos de vida política como tornar toda a gente refém do seu destempero. E só há-de um dia mudar se porventura o que aprendeu acabar por tornar-se ineficaz. Espero por isso que esse dia esteja a chegar. E quero acreditar que a sentença de que hoje tive conhecimento pode constituir a demonstração de que há um meio de suster as diatribes do dr. Jardim. Esse meio tem nome. Chama-se Justiça. E, pelo menos na aparência, conseguiu desta vez proteger uma vítima. O problema é se tal desfecho só ocorre quando vítima e agressor se movimentam num patamar de idêntico poder. Mas como isso é coisa que só adiante se verá, tenho o prazer de declarar que me considero a partir de hoje um pouco menos céptico. Em relação à Justiça, claro está.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Maritimismo por decreto

A Quinta Vigia mobilizou-se para o evento. O senhor Pontes veio da reforma dar uma mãozinha aos preparativos. As araras enfunaram as penas à medida da ocasião. O Machadinho andou para cima e para baixo de papelinho na mão como prova da sua indiscutível utilidade. E dos outros não falo porque, em bom rigor, ainda ninguém lhes percebeu a função. Foi-me garantido, no entanto, que nada foi deixado ao acaso. Não admira. A solenidade da acontecência não admitia desleixos.
Sede absoluta de todo o poder que imaginar se possa, a casa cor-de-rosa revolveu-se, pois, para acolher uma reunião magna da família verde-rubra. Do presidente ao roupeiro. Do treinador ao capitão da equipa. Do massagista ao tratador da relva.
Aliás, a bem dizer, aquilo foi mais do que uma reunião. Foi um momento de comunhão. Um verdadeiro momento de excitação maritimista. O dr. Jardim na sua função de sacerdote supremo. O factótum Carlos Pereira no seu papel de primeiro acólito. Um tal Lori Sandri estarrecido com o ritual. E os jogadores de joelhos, à espera da bênção taumatúrgica que lhes há-de trazer a vontade, as vitórias, os golos. Diz quem viu que foi arrepiante.
Cumprida a parte litúrgica, os circunstantes passaram às contas. Que foram de subtrair, no que respeita aos pontos que vão faltando no campeonato. Mas que foram de somar no que diz respeito ao despudor e ao escândalo. É a Marítimo SAD a braços com processos de evasão fiscal. É o dr. Jardim a desvalorizar ostensivamente o facto, como se aldrabar o fisco fosse coisa que um governante responsável pudesse incentivar. E é, pelo meio, a confirmação de que a zona dos Barreiros vai deixar de ser nossa em proveito de projectistas e empreiteiros, bem como das negociatas que é costume detectar à volta dos elefantes brancos.
Falemos a sério. Ao ter apadrinhado ontem as manobras de evasão fiscal do clube de que é presidente de facto, o dr. Jardim desceu ao nível da delinquência. E ao ter deliberadamente arremetido contra a administração fiscal em defesa de um eventual infractor, o cavalheiro que faz de conta que nos governa revelou a verdadeira face do estadista que não é, do conselheiro de Estado que um Estado a sério deveria poder dispensar, do político medíocre que se permite outorgar à tribo que dirige o direito, que mais ninguém tem, de prevaricar e mandar às urtigas os mais elementares deveres de cidadania.
Se o Marítimo fosse um clube igual aos outros, estava-me nas tintas para os seus problemas fiscais. A sua direcção e a administração fiscal tratariam do caso segundo os ditames dos tribunais e da lei e era assunto arrumado. Só que não é. Para mal dos nossos pecados, o Marítimo confunde-se com a Região. Todos nós somos sócios forçados de semelhante agremiação. A todos nós o dr. Jardim nos impõe o dever de sermos contribuintes líquidos de um clube que resolveu, porque assim o quiseram os seus actuais dirigentes, alienar o património de respeitabilidade (desportiva e não só) que ao longo do seu século de vida granjeou. O que significa que a Quinta Vigia se confunde com a sede do Marítimo. O que quer dizer, em suma, que o chairman of the board da dita agremiação é, para todos os efeitos, o dr. Jardim.
Corrijo. Para todos os efeitos não. Ele tem o direito de meter o bedelho nas tácticas e de definir a estratégia. Não abdica da prerrogativa de mandar despedir treinadores quando não engraça com eles. Como é ele que paga o desvario com o nosso dinheiro, não se coíbe de puxar as orelhas em público ao lugar-tenente que escolheu para tomar conta do clube. Porém, em matéria de impostos, ele acha mais prudente que sejam os outros a fazer as falcatruas. Ele fica de fora. Limita-se a subscrevê-las e a, pelos vistos, incentivá-las.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Conversas da treta

O dr. Miguel Albuquerque anda desaparecido. O dr. Jardim andou ontem por aí, mas é como se já não andasse em lado nenhum. O dr. Cunha e Silva aparece quinzenalmente na revista do DN. A gente olha para os jornais, sintoniza a rádio, liga o televisor, e nada. Nem uma palavrinha sequer sobre as negociatas alegadamente feitas por membros ou ex-membros do executivo municipal do Funchal. O mais próximo que andámos disso foi uma curta e escassa declaração de Bruno Pereira. Declarou-se solidário com Rui Marote. E, pela enésima vez, foi ele que deu a cara em substituição de um executivo que só gosta de aparecer nas inaugurações e nas festanças. Não quero tentar interpretar o facto. Limito-me a registá-lo.
É claro que os munícipes merecem muito mais do que isso. Merecem que o presidente que lhes pediu os votos lhes venha agora dizer qualquer coisa. Merecem que o dr. Jardim deixe de se entreter com os seus odiozinhos de estimação de lá, e resolva centrar-se nos pequenos ou grandes escândalos de cá. E precisam de saber se o dr. Cunha e Silva já foi ou vai ser ouvido pelo Ministério Público na qualidade de testemunha privilegiada das tais famigeradas negociatas a que ele próprio aludiu.
Ou seja, os eleitores têm o direito de ser informados. E como aos direitos de uns correspondem deveres de outros, parece claro que alguém há-de ter a obrigação moral e política de abandonar por momentos a pomposa secretária que ocupa. Sob pena de ela se começar a parecer mais com um local de refúgio do que com um espaço de trabalho.
A palavra, pois, para o dr. Albuquerque, para o dr. Silva, para o dr. Jardim. Não necessariamente por esta ordem, entenda-se. Nestes casos ela, a ordem, é meramente arbitrária. O que é preciso é que alguém fale. O dr. Albuquerque porque é o presidente da Câmara. O dr. Silva porque foi o delator público das negociatas. E o dr. Jardim porque é o presidente do governo e do partido que governa, mas também, e esta é uma nota de mera subjectividade analítica, por ser o autor moral do fratricídio em que o presidente da Câmara e o vice do governo desde há muito se consomem.
Não obstante, o silêncio pesa. O dr. Albuquerque consome o tempo e as meninges em prosas estafadas sobre coisa nenhuma que religiosa e quase diariamente publica no JM. Ele escreve sobre os males da pátria, sobre as referências e valores políticos que diz ter, e sobre as maldades ocasionais de que ele e a família se dizem vítimas. É um exercício interessante, sem dúvida. Mas, sendo ele o presidente do executivo de uma cidade que faz quinhentos anos, permito-me pensar que deveria aproveitar a ligação directa com os munícipes para reflectir sobre os problemas do município. Não o faz, porém. Porque não quer. Se calhar, porque nem os conhece. Provavelmente porque tem mais que fazer.
O dr. Silva escreve também. Cita gente que conhece, a par de outra que nada lhe diz. Manda recados cujos destinatários só ele identifica. E quando toda a gente esperava que voltasse ao tema das negociatas de que diz ter conhecimento, sua excelência faz-nos a partida de partilhar connosco a elevada admiração que passou a nutrir pela obesa estatura de Gungunhana.
Para além de escrever, o dr. Jardim também fala. Sobre Sócrates. Sobre o centralismo. Sobre a Europa. Sobre o mundo. Só a Madeira lhe passa ao lado. O que quer dizer que é mais um a desconversar. E a oposição, onde é que ela anda?
Bernardino da Purificação

sábado, 20 de setembro de 2008

O espectáculo vai começar

Se o Ministério Público estiver certo, teremos um dia de felicitar o dr. Cunha e Silva. Falou da existência de negociatas na Câmara Municipal do Funchal e elas aí estão. Ainda por cima, já em forma de acusação judicial.
É claro que somos todos inocentes presumidos até prova em contrário. E é igualmente verdade que as acusações do MP valem pouco em si mesmas. Sem a confirmação de um juiz não passam de uma peça relativamente inócua. E se nem sequer chegam a uma audiência de julgamento não passam muitas vezes de um mau exercício de Direito aplicado. A verdade, porém, é que no exigente terreno da notícia e da política uma acusação formal conta. Mesmo que nunca venha a passar disso mesmo.
Interessam-me pouco os detalhes da notícia. Basto-me com a informação de que o ex-vice-presidente da CMF e ex-responsável pelas Finanças da autarquia anda a contas com a justiça por ter alegadamente beneficiado um familiar em prejuízo do interesse da cidade. É o pior que se pode dizer de um autarca. Tanto a nível pessoal, como da equipa que integrou. Só que no caso há uma gravidade acrescida. Foi o vice-presidente do Governo quem denunciou a existência de negociatas na Câmara do Funchal. E foi um serviço por si tutelado quem conduziu a sindicância que terá estado na origem da acusação agora formulada. De maneira que o Ministério Público não fez mais do que confirmar as denúncias públicas do dr. Cunha e Silva. Apesar de o presidente da Câmara ter posto a cabeça no cepo em abono da equipa que lidera. E a despeito de os seus colaboradores mais chegados (os políticos e os não políticos) terem procurado reduzir as denúncias do dr. Cunha e Silva à guerra particular em que ambos andam envolvidos.
Insisto. O cidadão agora acusado pelo MP não pode ser considerado culpado de nada até que um juiz tal o declare de forma irrevogável. Porém, o político que Rui Marote foi já não se livra do ónus que sobre si acaba de cair. Nem ele, nem o presidente da Câmara, nem os restantes envolvidos no caso.
É claro que o mais certo é que ninguém se sinta obrigado a dar explicações. Na Madeira, ao contrário do que acontece em qualquer democracia civilizada, não há responsabilidade política. Só há responsabilidade penal, ou outra com ela aparentada. Aqui, as suspeitas são sempre tratadas ao nível da má-língua. Mesmo que se apoiem em indícios fortes. Ou mesmo que um órgão de investigação vá ao ponto de transformar esses indícios numa acusação formal. Vale a pena, no entanto, insistir numa verdade insusceptível de ser desmentida. As suspeitas, desta vez, vieram do lado de dentro. São fogo amigo, como se diz em linguagem militar, já que foram lançadas pelo vice-presidente do Governo regional. E não passa pela cabeça de ninguém que o dr. Cunha e Silva não saiba de ciência certa o que é que a casa gasta.
O que nos vale, em nome da verdade, é que a fogueira só agora começou a arder. As explicações que não teremos serão certamente substituídas pela retaliação dos que foram agora acusados. De maneira que o melhor é procurarmos todos uma posição cómoda para o espectáculo que há-de vir a seguir. Ou será que alguém pensa que isto vai ficar por aqui?
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Política pós-moderna

O dr. José Miguel Mendonça fez o favor de anunciar à Região que é partidariamente assexuado. Julgo que não exagero se disser que adorámos todos saber que sua excelência olha para a política com o mesmo distanciamento com que os anjos olharão para o pecado da carne. Já era tempo de um dos nossos políticos mais proeminentes ser capaz de brindar-nos com a surpresa de uma revelação original. Bem haja por isso, dr. Miguel.
Não é que o sexo político do dr. Mendonça fosse coisa que algum dia pudesse interessar a alguém (a não ser talvez a quem ainda acalentasse a esperança de um qualquer devaneio político-partidário com sua excelência). Não é, de facto, isso. Mas a circunstância de tão desassombrada revelação ter partido de alguém que é sobretudo conhecido pela pose e pelo silêncio, muito mais do que pela substância ou frequência do verbo, faz a meu ver toda a diferença. De maneira que ao ler no jornal a impúdica exposição da sexualidade partidária do dr. Mendonça, tive a sensação de que estava perante um daqueles raros momentos que definem o tempo histórico. A partir de agora, pensei, haverá seguramente um tempo antes e um tempo depois da freudiana confissão do presidente do nosso parlamento. E tudo porque, de repente, fiquei (ficámos) a saber que os partidos têm sexo, que as ideologias provavelmente também, e que os campos políticos deixaram de dividir-se em direita e esquerda, como vinha sendo uso desde o 14 de Julho dos franceses e de quase todo o mundo. Se calhar sem o saber, o dr. Mendonça inaugurou um novo tempo político. Um tempo político pós-moderno. Em que há partidos machos e partidos fêmeas. E em que há políticos eunucos destituídos de pulsão político-sexual. Como serão, presumo, todos os partidariamente assexuados.
Palavra que me agrada e diverte a grelha analítica que resulta da tese. Por exemplo, o dr. Mendonça, que já foi do PS e agora é do PSD, já terá sido macho e fêmea. Como saltitou de um lado para o outro, ou foi travesti ou foi um transsexual partidário. Pode até acontecer, no limite do raciocínio, que tenha sido gay antes de se decidir pela masculinidade de um partido ou pela feminilidade do outro. Mas isso agora também pouco importa dada a sua presente, anunciada e assumida condição de politicamente assexuado.
Veja-se bem a importância das coisas que integram o discurso político da terra! Não se discute o sexo dos anjos. Discute-se o sexo partidário dos políticos. Ora, com gente desta a mandar só nos resta ter esperança. De quê não sei bem. Mas juro a pés juntos que a minha esperança se renova de cada vez que ouço alguém dizer pérolas similares às que proferiu o dr. Miguel Mendonça. E quando conjugo tudo isso com a certeza de que a política madeirense se prepara para mais uma guerra dos sexos centrada na transcendente questão de saber se Bernardo Martins vai ou não ser eleito vice-presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, nessa altura não só tenho esperança como passo a confiar ainda mais no futuro. Ou não fosse verdade que a candente querela entre o PS e o PSD (já agora, qual deles será o macho e qual dos dois será fêmea?) é tão importante para o futuro da política madeirense que até arregimenta essa formidável agremiação política que dá pela sigla MPT, e esse notável político do oeste insular que responde pelo nome de João Izidoro. Ora digam lá se isto não tresanda mesmo a coisa pós-moderna...
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A política e o mausoléu

Depois de uma patética disputa sobre direitos de autor com Luís Filipe Menezes, o dr. Jardim desapareceu. Se calhar, estamos perante uma inflexão táctica. A presença continuada no espaço mediático cedeu o lugar ao toca e foge da guerrilha. Mas algo me diz que o mais certo é o homem andar enfadado com a vida. Desde logo porque deve estar fartinho até dizer chega das criaturas que por seu intermédio chegaram ao governo ou são deputados. Depois porque não ignora que o fim do seu prazo de validade está aí não tarda nada. E o ambicionado lugar de recuo não há maneira de aparecer.
O dr. Jardim parece viver um drama existencial. E sendo ele a figura central da nossa política doméstica, as agruras desse drama acabam por fundir-se com ela. Condicionando-a. Impondo-lhe os ritmos. Marcando-lhe a agenda.
A verdade é que quem olha para o dr. Jardim não pode deixar de pensar na melancólica cantiga do falecido e igualmente exótico António Variações. Ele está aqui mas apetece-lhe estar acolá. Faz isto mas gostava mais de fazer aquilo. Tem uma vidinha assim, mas adoraria ter uma vida assado. De maneira que a política madeirense anda ao sabor dos estados de alma do senhor presidente. Quando cá está todos se esforçam por fingir que as coisas funcionam. Mas, como as ausências são cada vez mais frequentes, a paralisia vai tomando conta da governação.
Já se percebeu que nos dava jeito que alguém pusesse isto a mexer. Com vontade de fazer coisas apontadas ao bem comum. E com a intenção genuína de atalhar e resolver problemas. Mas isso, já se viu, não parece ser coisa que possamos ver ao virar da esquina. De modo que o resultado é assim um cocktail onde se cruzam, em mistura explosiva, o estatismo puro e duro, uma curiosa, serôdia e indizível espécie de leninismo laranja, e um liberalismo à moda da casa que dá rédea solta a uns e aperta os calos a quase todos.
Se me permitem a confissão, quase tenho saudades do tempo em que o jardinismo chegou a ser projecto, foi acção determinada, e deu um safanão no modo de vida da ilha. Sejamos, no entanto, realistas. Essa coisa já não existe. Há por aí um cadáver político que se esforça por aparentar semelhanças, mas que, desgraçadamente para ele e para nós, não consegue ir além disso. Nada, é claro, que a vida não venha um dia a resolver. O pior é que até lá vamos tendo a nossa política transformada em mausoléu.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A insularidade e a inércia

O que se segue pode soar a coisa pueril. Admito que sim. Mas como entendo que a autonomia deve ser muito mais do que um mero instrumento de consumo interno ao serviço de meia dúzia de notáveis do regime, aceito fazer figura de simplório. As coisas a que a gente tem de sujeitar-se em nome do inconformismo!
Não percebo grande coisa do assunto, mas julgo ter informação suficiente para saber que a economia madeirense se encontra engasgada. Para manter níveis de ocupação interessantes, o sector hoteleiro deprecia preços e serviços. Porque não há industria não há exportação. Importamos praticamente tudo o que consumimos. Os preços estão pela hora da morte. Os salários encurtam a cada dia que passa. O consumo interno encolhe. Os orçamentos familiares, pobres deles, andam vergados ao peso de compromissos e mais compromissos, de juros e mais juros, de despesas e mais despesas. O quadro, enfim, é aquele que as estatísticas revelam, mas que os governantes se esforçam por iludir. Temos fama de ricos, mas não passamos de uns tesos. Ainda que a propaganda se dedique a criar alegremente a ilusão de que já temos um PIB muito próximo da média europeia.
Adoro conversas sobre PIBs e outras coisas macroeconómicas quejandas. Posso mesmo dizer que tenho uma admiração ilimitada pelos detentores desse sacrossanto saber que adivinha as crises, que percebe os ciclos, que lida com as variáveis como quem usa um talher, que se delicia com estatísticas, e que avia receitas com uma cientificidade só ao alcance dos sábios. A maçada é que a dita admiração não consegue sobrepor-se ao incómodo que me causam as queixas de praticamente toda a gente. Ou, dito de outro modo, o aborrecimento é perceber que entre a dimensão mais ou menos estratosférica das congeminações sobre a macroeconomia e a realidade pura e dura da micro economia vai muitas vezes a distância que separa a abstracção do terreno do concreto. Porque a primeira lida com teorias, fórmulas, grandes números e cérebros notáveis. E porque a segunda, que é a nossa, trata de pessoas concretas, de problemas reais, de empregos que diariamente se perdem, de trabalhadores e empresários sistematicamente à beira de um ataque de nervos, de carência, de dificuldades.
Por mais voltas que alguns pretendam dar, a realidade é esta. E não há parques, túneis, marinas, ou praças financeiras que sejam capazes de ocultá-la, independentemente dos méritos ou deméritos que se lhes conceda a título de crédito ou de débito. Não obstante, a gente olha à volta e nada: não só não há qualquer política económica que vá além do subsidiozito, como não se vislumbra a mais pequena vontade ou capacidade de lutar contra as dificuldades.
É claro que sei que o estado unitário que teimosamente somos não nos concede os instrumentos de que precisaríamos para a definição de políticas susceptíveis de mexer a sério na economia. Porém, sei também que a autonomia de que dispomos dá-nos margem bastante para irmos além da obra pública que já quase se esgota em si própria.
Um exemplo. Um pouco por todo o país é visível o esforço de internacionalização que fazem as empresas que já perceberam que a globalização é também uma oportunidade. Há gabinetes que abrem caminhos. Multiplicam-se as empresas de serviços vocacionadas para o desenho e montagem de projectos de investimento no exterior. Todos os dias se ouve falar de empresários interessados nas economias emergentes com as quais temos relações de proximidade e de afectos. Mas na Madeira anda tudo mais ou menos na mesma, porque a insularidade é um constrangimento que poucos ousam enfrentar, e porque quem governa está-se nas tintas para o papel que deve ter. E assim, apesar do sistema de auto-governo que temos, não se vê qualquer trabalho de prospecção e facilitação de mercados, de identificação de oportunidades, de procura de novos negócios. Como se a ilha aceitasse, sem sobressalto visível, o quadro de limitações decorrentes do seu circunstancialismo geográfico.
Há três ou quatro honrosas excepções a este panorama de inércia? Todos sabemos que há. O problema é a infeliz regra que as faz sobressair.
Bernardino da Purificação

domingo, 7 de setembro de 2008

A constituição e a gazeta

Conheço, como todos os leitores de jornais conhecem, alguns dos aspectos da proposta de revisão constitucional que o dr. Jardim elaborou no Porto Santo nos intervalos vespertinos das animadas sessões etílico-políticas do bar do Henrique. Ou seja, sei apenas o que foi divulgado. Não sei se haverá mais qualquer coisa de natureza substantiva que tenha escapado ao crivo jornalístico. Do mesmo modo que ignoro se o dr. Jardim mantém ainda em aberto o documento que tão laboriosamente elaborou. Ainda assim, permitam-me o atrevimento de escrever qualquer coisa sobre o assunto. Mesmo que um dia venha a revelar-se insuficiente a informação de que disponho.
Primeira nota. Insisto no que não há muito tempo escrevi no Terreiro da Luta. Pretender transformar umas eleições legislativas num plebiscito constitucional é coisa com sabor a passado. A um passado com mais de trinta anos de vida democrática em cima, mas cujos tiques e truques não foram, pelos vistos, ainda esquecidos. A memória é assim. No fundo, somos aquilo de que nos recordamos. E o dr. Jardim não é mais do que aquilo que aprendeu. Ora, como ninguém o ensinou a fazer uma coisa tão simples e útil como um programa de governo, o cavalheiro limita-se a replicar em democracia o que viu fazer nos seus verdes anos. Sejamos indulgentes. Façamos um esforço por compreender o fenómeno. Ainda que a Região, atentas as dificuldades por que passa, precise muito mais de um bom governo dos nossos cinzentos dias do que do folclore de uma discussão sobre constituições, estatutos e outras estimáveis e importantes coisas afins.
Segunda nota. Quem se tenha dado à maçada de frequentar este blogue perceberá que só posso estar de acordo com a generalidade das propostas políticas apresentadas pelo dr. Jardim. Concordo com a extinção do cargo de representante da República. Agrada-me que possa acabar a proibição constitucional de criação de partidos regionais. E subscrevo o entendimento de que a representação política não pode ficar na disponibilidade exclusiva dos partidos políticos. Só não percebo por que razão o dr. Jardim não quis ir um pouco mais longe. Pelos vistos, esqueceu-se do direito que a Madeira não tem mas deveria ter, enquanto região dotada de capacidade legislativa própria, de eleger directamente os seus representantes ao Parlamento Europeu. Terá sido isto um mero lapso ou estaremos perante uma opção política consciente? Em todo o caso, aqui fica uma brecha que os autonomistas dos outros partidos podem eventualmente explorar.
Terceira nota. Como sempre acontece a pretexto de tudo e de nada, a oposição política madeirense não faz mais do que comentar. Anda sempre a reboque, é o que é. E ainda não percebeu que em política a iniciativa conta. Como não quiseram nem souberam antecipar-se, agora vão ter pela frente um ano inteirinho dominado pela agenda política do dr. Jardim. A despeito, insisto, de precisarmos com urgência de um programa a sério para a governação que nos falta.
Bernardino da Purificação

sábado, 6 de setembro de 2008

Basta que sim!

Hoje não me contive. Ri-me como há muito não acontecia, graças à prosa deliciosa, inimitável e levemente impenetrável desse grande vulto do socialismo da Madeira que reivindica a autoria do Basta que Sim.
Francamente gostei do que li. Apesar, vou já dizendo de passagem, de um número apreciável de incongruências que não pude deixar de assinalar paredes-meias com uns quantos processos de intenção a que o dito recorre sempre que lhe apetece.
O cavalheiro em questão parece andar maçado com a forma como se apresenta o autor deste blogue. Como cada um se maça com o que quer, confesso que nem sei o que lhe diga. Por mim, pode continuar a maçar-se à vontade. Se não quiser fazê-lo, tem bom remédio. Como sei que gosta do que é genuíno da Madeira, recomendo-lhe um chá de alfavaca da serra. Dizem que faz bem. A quê não me pergunte. Mas, se experimentar, vai ver que é capaz de servir para alguma coisa. Faço questão, porém, de declarar desde já. Dispenso os agradecimentos. Só estou aqui para ajudar.
Retomando o fio à meada, temos então que o dr. Fonseca considera que o autor destas linhas tem todo o direito de se apresentar aos frequentadores da blogoesfera como muito bem quer e entende. Porém (ele há sempre um porém nas cabecinhas moralistas e inquisotoriais), o dito cujo considera ter igual direito de me colar uma suposta identidade e de me atribuir uma hipotética intenção.
Quanto à primeira, o dono do Basta que Sim, insinua uma imagem sugestiva. Eu terei andado um dia, no perclaro dizer de sua excelência, de caneta em riste. Pobre de mim! Gosto, é verdade, da sugestão quase épica - já me estou a ver cruzando montes, vales e terreiros da luta, montado em fogoso corcel e arremetendo contra os ímpios de caneta em riste. Enternece-me a deferência do dr. Fonseca. O problema (o meu, é evidente) é que se engana. O mais que até agora tive em riste chama-se outra coisa. E isso, como é bom de ver, não vem agora ao caso. Até porque (suspiro!!!) já foi há tanto tempo (que me seja perdoado o tom intimista e nostálgico da confissão) que quase nem dá para lembrar.
Posto isto, passemos à intenção que me é atribuída. Eu terei, diz o meu ilustre leitor e crítico, um qualquer problema com o sistema. Engana-se mais uma vez. Até porque o único sistema que faço questão de cuidar é o hidráulico, e esse vai andando bem com a graça do Senhor, do Grande Arquitecto, ou do Altíssimo, se vosselência preferir.
Não tenho problemas com nenhum sistema, pode crer. Nunca tive e garanto que nunca hei-de ter. Até porque sei que preocupações dessas são um exclusivo seu. Pode crer que tenho plena consciência de que só você tem autoridade moral, política, cívica e cultural para falar do que quer que seja. Sobretudo do sistema. Sempre foi assim. E assim há-de ser sempre. De maneira que lhe peço e sugiro que nos brinde com as suas brilhantes e doutas análises e deixe de atribuir identidades e intenções a quem não tem o desprazer de conhecer. Não perca tempo. Pelo menos comigo. Pode crer que não mereço. No entretanto, espero que me conceda o direito de andar por aí a escrever despretensiosamente com o parco sentido crítico que infelizmente me foi outorgado. Agradecido.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

As adições subtractivas

Sei que vou com alguns dias de atraso. Mas, que querem? A espessura do Verão retarda-nos por vezes a observação e a disponibilidade. E o pesado capacete que a geografia e o tempo nos põem em cima convida muito mais à inacção do que a qualquer frenesim bloguístico-político. Porém, mesmo retardatário, acho que ainda vou a tempo de alinhavar três ou quatro frases a propósito de um facto da política madeirense muito menos inocente ou inócuo do que à primeira vista se poderia supor.
Quero falar então da presença, certamente querida, ternurenta e simpática, do deputado do PND na Festa da Liberdade do PS. Não para sublinhar o exotismo político da coisa. Mas para enfatizar o significado profundo de uma aliança objectiva que o PS de João Carlos Gouveia já nem é sequer capaz de disfarçar.
Desde o princípio que se sabe que o PS-Madeira vive uma espécie de esquizofrenia política. Para mal dos seus pecados, o partido continua a ser adiado e estrategicamente condicionado pelo chamado grupo do Éden, o qual actua por fora e mais ou menos na clandestinidade. Mas como entretanto é necessário dar pública nota de que existe enquanto partido, faz emergir periodicamente do vazio em que há muito caiu um porta-voz devidamente acolitado cuja degola todos esperam tranquilamente que um dia aconteça.
E isto é assim há anos. Há um PS oficial que faz barulho, oposição e leva pancada. E há um PS elitista, avesso às brigas públicas e dado aos negócios privados, que vive politicamente na repimpa da boa vida, que não se opõe a coisa nenhuma e que só dá a cara nos happenings e nas entrevistas televisivas que por acaso derem jeito.
A coisa é de tal ordem que até a nossa têvê já reparou na dupla face socialista. A uma, à primeira, vai sendo concedido um tratamento consentâneo com a sua existência oficiosa. À outra, e ao contrário, vai-lhe sendo ocasionalmente dada uma presença luzidia nos telejornais sempre que é necessário equilibrar as contas dos tempos de antena.
É claro que o PS oficial exibe volta e meia o seu desconforto. O deputado Carlos Pereira atira-se à têvê que temos. O líder parlamentar socialista esbraceja contra a esperteza saloia da nossa televisão pública. João Carlos Gouveia, esse, vai-se consumindo em arengas que ninguém entende sobre o chamado sistema. Ao mesmo tempo que o PS do Éden se vai rindo da cena na companhia circunstancialmente amiga do companheiro Leonel (o de Freitas, entenda-se).
Onde é que entra nisto o PND? É simples. Percebeu que a direcção de Carlos Gouveia é-lhe politicamente útil, apesar de nem sequer conseguir mandar no seu quintal. Entendeu que o PS oficial só se consegue fazer ouvir quando fala forte e grosso. E tem clarinho como a água que pode vir a receber de herança todos os que virarem as costas ao PS quando João Carlos Gouveia acabar por estatelar-se. O pior é se acabarem todos por descobrir que em política há somas que às vezes subtraem.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Perplexidades de Verão

O insuspeitíssimo JM deu ontem um larguíssimo espaço ao discurso directo do conselheiro Monteiro Diniz. Nada a dizer quanto a este facto. Até os autonomistas mais empedernidos têm o direito de dar voz ao ex-senhor ministro. Sobretudo se o objecto da entrevista for a Autonomia.
Ora, foi isso que aconteceu. O JM estendeu a passadeira vermelha ao senhor representante. E este não se fez rogado. Sentou-se na majestática e habitual condição de catedrático da matéria e vá de debitar doutrina autonómica a torto e a direito. O controlo das leis assim. A Assembleia regional assado. O estado unitário para aqui. Os poderes do representante para acolá. Uma lição, em suma. Tanto para os autonomistas, como para os não-autonomistas. Sobre a Autonomia? Claro que não. Isso já seria pedir de mais. Apenas e só sobre aquilo que a erudição do ex-senhor ministro entende que sabe sobre a matéria. E as coisas que ela sabe...!
É tão vasto e magnífico o conhecimento do senhor conselheiro que ele até concede que no futuro pode perfeitamente desaparecer, sem sobrevir qualquer mal ao mundo, o cargo que ocupa. Mas eu, que estou sempre no contra, dei por mim a apontar-lhe uma lacuna no pensamento. Em toda a entrevista foi incapaz de explicar o que é que a Autonomia ganha com a manutenção presente do elevadíssimo e por certo patriótico cargo que faz o favor de desempenhar. Mas isso, é claro, não há-de passar de um mero pormenor. Aliás, tão pequeno que o solícito e educadíssimo entrevistadeiro nem sequer se deu conta dele. Só isso, presumo, pode explicar a total ausência de perguntas jornalística e politicamente interessantes. Isso, claro, mais a posição de cócoras em que o dito jornaleiro se pôs perante tão magno entrevistado. Ele foi vossa excelência para aqui, sua excelência o senhor Representante para acolá, numa demonstração de subserviência que a palavra chocante nem é capaz de traduzir com suficiência bastante. Uma lástima.
Curiosamente, a mesmíssima edição do autonomista JM inclui um artigo do dr. Jardim. Não foi para contrabalançar, posto que o nosso líder não precisa de contrabalançar o que quer que seja: ele tem literalmente ocupadas as páginas de opinião do jornal, sem remorsos ou meias-tintas. Mas não deixa de ser quase irónico que o artigo doutrinário do dr. Jardim contivesse uma exortação à resistência autonómica! Querem ver que, afinal, ao contrário do que para aí com maldade se diz, não é o dr. Jardim quem define a orientação política do jornal que há-de continuar a pagar até ao dia em que o mandar encerrar! Se calhar, e pelos vistos, andamos todos enganados. Ou então anda tudo às avessas e sem rei nem roque, que há outros aspectos da nossa vida colectiva bastante mais importantes. Como a segunda derrota consecutiva da direcção regional futebolística que dá pelo nome de Marítimo. Ou, quem sabe, como a preparação da acção judicial anunciada e prometida contra o juiz abelhudo Baltazar Garzón. Alguma coisa há-de ter sido. Mas que isto já começa a entender-se mal, lá isso...
Bernardino da Purificação

domingo, 31 de agosto de 2008

Teoria do condicionamento

O juiz Baltasar Garzón anda metido em trabalhos. Meteu-se com a zona franca. O que quer dizer que se meteu com a Madeira. O que significa que se meteu com o dr. Jardim. Nada mais perigoso. Arrisca-se agora a levar com um processo judicial. Está na iminência de ser denunciado perante as instituições internacionais de justiça. Corre, enfim, o risco de provar a ira ofendida de sua excelência o nosso senhor presidente.
Se calhar, o juiz Garzón pensava que podia tratar o dr. Jardim como tratou o decrépito ex-ditador e já falecido marechal Pinochet. Pois enganou-se. O dr. Jardim está longe e bem longe da decrepitude. Ainda é vivo para sua e nossa alegria. E não é nenhum ex-ditador.
Troquemos então a história por miúdos.
Informa a última edição do Sol que o célebre magistrado judicial espanhol persegue actualmente um determinado ramo da máfia russa. Ao que parece, as diligências que já efectuou levaram-no até à zona franca da Madeira. De maneira que pediu às autoridades portuguesas licença para investigar as eventuais operações da dita máfia no off shore do nosso imenso orgulho e quase nenhum proveito. E aqui começaram as chatices. O dr. Jardim não gostou do abuso. Ficou furioso por lá fora não se ter ainda percebido que a Madeira não tem que prestar contas a ninguém. E, assim em jeito de final de conversa, foi advertindo que quem se mete com a zona franca leva.
Presumo que depois disto o juiz Baltazar Garzón há-de ter finalmente percebido que o alcance permitido das suas diligências pára na Ponta de São Lourenço e só é retomado para lá da Ponta do Pargo. Já não era sem tempo. Só foi pena ter sido preciso tirar do sério o nosso atento líder. Ainda por cima em tempo de férias. Francamente. Não havia necessidade...
É claro que a leitura da notícia do Sol não permite concluir que o magistrado espanhol esteja preocupado com a Madeira. Mas isso, claro, é um mero e insignificante pormenor. Porque, pelos vistos, qualquer criminoso que por cá passe goza daquela imunidade transitória que na Idade Média se concedia aos delinquentes em período de feira franca. Não se sabe por alma de quem. Mas goza. Pelo menos, a avaliar pela destemperada e imprudente posição do dr. Jardim.
Eu tenho para mim que a reacção do nosso presidente tem um certo quê de pavloviano. Fala-se da zona franca e ele saliva. Pronuncia-se a palavra Madeira e ele morde. Não passa de um reflexo, em suma. Porém, condicionado. Só gostava era de saber por quê e por quem.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O planeamento e o progresso

Roberto Silva, presidente da Câmara do Porto Santo, tem um sonho. Não sei se cor-de-rosa ou apenas cor-de-laranja. Não sei se voluntarista se simplesmente disparatado.
Ele acha que o desenvolvimento da ilha só pode ser sustentado se houver uma rápida duplicação da população residente. E, em conformidade com tal entendimento, definiu como prioridade da próxima década a importação massiva de mão-de-obra.
O Porto Santo vai, pois, esforçar-se para atrair gente. E, a concretizar-se o plano, a visão mais ou menos nostálgica que todos temos deste pequeno paraíso atlântico estará a um pequeno passo de esfumar-se.
Devo dizer que também eu sou um devoto do desenvolvimento. Não há nada de que goste mais. Sobretudo se todos puderem ganhar alguma coisa com ele. Sucede, porém, que a palavra me incomoda quando não passa de um substantivo dito à toa. Quando isso acontece, o vocábulo assusta. Basta atentar nos pequenos, médios ou grandes disparates que em seu nome todos os dias se cometem. Na Madeira. No Porto Santo. No mundo.
Tenho de Roberto Silva uma impressão globalmente favorável. Não me parece que seja particularmente dado ao disparate. E, tirando um ou outro frete que lhe há-de manchar o currículo para o resto da vida, não o tenho visto incorrer mais vezes do que lhe tem sido exigido no pecado da insensatez. Perturbou-me por isso a leveza com que disse o que disse. Como se fosse a coisa mais natural e incontroversa do mundo. Ou como se não tivesse o dever de explicar tintim por tintim os contornos do seu magnífico plano.
Sendo ele um autarca experiente e sensato, há-de conseguir antecipar muito melhor do que nós os impactos tremendos na vida da ilha de uma eventual multiplicação por dois do número de residentes. Ele saberá com certeza que uma duplicação do número de moradias conduz à multiplicação dos problemas de saneamento básico. E muito melhor do que qualquer outro cidadão, ele há-de seguramente saber que a resolução dos dois citados problemas acarreta consigo uma significativa movimentação de gente, de máquinas, de terras, de materiais, coisa pouca, enfim, mas que poderá transformar a idílica paisagem porto-santense na imagem nada bucólica de um estaleiro de dimensões apreciáveis.
Mais. Porque conhece a burocracia pelo lado dos seus labirínticos e espessos corredores, Roberto Silva não há-de ignorar que os serviços técnicos e administrativos da Câmara a que preside dificilmente terão capacidade para despachar e acompanhar a preceito um tão grande volume de obras. Do mesmo modo, como ninguém como ele está em posição de imaginar a pressão que uma duplicação da população residente exercerá sobre os sistemas de produção e distribuição de energia eléctrica e de água potável, não creio que o assunto lhe possa ter igualmente escapado. Assim como estou seguro de que ele tem presente que dez mil almas colocam problemas aos sistemas de educação e de saúde a que os equipamentos actualmente existentes não serão capazes de responder.
Como certamente terão reparado, nem sequer falei das maçadas adicionais relacionadas com os transportes e com o abastecimento. Passei ao lado dos aborrecimentos decorrentes dessa coisa dispicienda que dá pelo nome de duplicação da produção de lixo. E o mesmo farei relativamente ao problema de segurança pública que há-de ser encaixar dez mil almas de proveniências, credos e culturas distintas na exiguidade de quarenta e tantos metros quadrados de superfície, dos quais só metade ou pouco mais serão úteis. E nada disso fiz pela razão crente, simples e cristalina de que imagino que Roberto Silva terá tido tudo isso na conta devida. E notem. Só falo da população residente. Nem sequer estou a considerar a duplicação sazonal dessas tais dez mil almas.
Insisto. O autarca sensato que Roberto Silva tem fama de ser sabe de tudo isto muito melhor do que eu. Há-de ter, estou certo disso, todas as respostas na ponta da língua para, com uma simples palavra, derreter as dúvidas imbecis que indigentes e simples mortais como este modestíssimo escrevinhador possam eventualmente levantar. Dirá que tudo o que atrás se disse quer dizer desenvolvimento e progresso. Há-de ter certamente a arte de provar, "por-á-mais-bê", que o ambiente (com letra maiúscula) da ilha há-de continuar, como deve, devidamente preservado. E há-de ter prontinhas para debitar todas as contas relacionadas com o aumento de despesa (subsídio de dupla insularidade devidamente multiplicado e ampliado) que os orçamentos da autarquia e da RAM terão naturalmente de suportar.
Porque tenho boa impressão a seu respeito (mesmo descontando os três ou quatro fretes de resultados mais ou menos grosseiros que possa ter feito a quem detém o poder de facto), sei que, se tivesse entendido fazê-lo, já nos teria elucidado a todos. Ainda assim, com a modéstia que gosto de pôr em cada letra que escrevo, permito-me deixar-lhe um conselho. Nunca tenha medo de dar esclarecimentos à malta cá de baixo. É bom anunciar intenções. É melhor ainda prometer desenvolvimento e riqueza. Mas olhe que os entrementes e caminhos do tal dito progresso não são coisa de que a gente aceite ficar alheados. Compreenda: trata-se do nosso futuro.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Ponto de ordem

O dr. Carlos Pereira resolveu distinguir um dia destes o Terreiro da Luta. Estou-lhe duplamente grato. Por ser frequentador deste espaço de análise e comentário político. E por lhe ter dirigido algumas palavras simpáticas. Porém, ao lê-lo, percebi que era meu dever avançar três ou quatro notas de esclarecimento. Em nome do rigor. E em abono da transparência que nem a blogosfera pode dispensar.
Diz o deputado socialista que este é um blogue de autor anónimo. Engana-se. Bernardino da Purificação não é pseudónimo. É nome autêntico. No limite, seria eventualmente capaz de admitir que poderemos estar em presença de algo parecido com um heterónimo. Assim uma espécie de alter ego. Porém, acreditem. No caso vertente, os traços distintivos de cada uma dessas duas hipóteses não passam de minudências pseudo-identitárias que não aquecem nem arrefecem. Recomendo, pois, que nos bastemos todos com os elementos constantes do perfil que o blogue disponibiliza. São genuínos. E correspondem a uma personalidade concreta.
Outra nota. O dr. Carlos Pereira sugere que o suposto anonimato de que fala pode constituir um atestado do clima de medo que afasta a sociedade civil madeirense de uma participação cívica activa. Pensando bem, sou levado a concordar com a tese geral que defende. A Madeira vive de facto um ambiente que asfixia praticamente tudo o que se move do lado de lá das fronteiras da política oficial. Porém, admitido isso, devo recusar com toda a veemência a aplicação dos pressupostos dessa tese ao caso particular deste blogue.
Explico. O Terreiro da Luta não nasceu nem à sombra do medo nem a reboque de qualquer intenção conspirativa. Nasceu, podem crer, de um acto de liberdade. É rigorosamente aquilo que quis ser. Nem mais, nem menos. E nunca pretendeu ser coisa diferente. Não tem a pretensão de mudar o que quer que seja. Nem lhe passa pela cabeça que a política possa ser eficaz do lado de fora do quadro de mecanismos formais e informais que sustentam as democracias. Ainda assim, atreve-se a pensar que as ideias devem valer por si próprias. Independentemente de quem as produz. Não obstante o nome de quem as subscreve. É por isso, aliás, que aqui no Terreiro da Luta se tem como totalmente irrelevante essa coisa dos nomes próprios. É coisa que não nos interessa. Nem sequer para efeitos de reclamação de direitos de autor. Mas essa, como é evidente, é uma opção nossa. Aqui pretende-se que as ideias valham mais do que os sujeitos. Ou melhor, o que aqui se pretende é que as ideias possam ser os verdadeiros sujeitos.
É claro que sabemos que os entes que gostamos de pensar que as ideias acabam por ser não dispensam uma paternidade. Como todas as criaturas, também elas têm autor. Não surgem do nada. E são obviamente fruto das circunstâncias socioculturais de quem as produz. Todavia, reconheça-se: blogues de pai e mãe já há por aí os bastantes. Quase mais que muitos. Como se percebe, aliás, pelas interessantíssimas querelas a que diariamente assistimos, em que se discute quase nada do que se diz e demasiado as supostas ou reais idiossincrasias dos que se atrevem a dizer qualquer coisa. Acreditem. Às vezes, é assim que se matam as discussões. Decapita-se o autor para melhor se aniquilarem as ideias. E o que fica sempre depois disso é a normalização forçada do pensamento e a progressiva supressão do sentido crítico.
É por saber tudo isto que o Terreiro da Luta optou por ser o que é. Não foi forçado a nada. E só se sente constrangido pelo propósito de oferecer à discussão publica aquilo que se escreve e não a identidade ou supostas motivações de quem escreve. Não há medo de ninguém. Não há contas a saldar com ninguém. O que há é apenas o desejo de partilhar com quem quiser ler o resultado das observações que deste lado se fazem da política madeirense. É claro que assim haverá sempre alvos mais vezes colocados no ponto de mira. Mas esse é o preço que não podem deixar de pagar os que aceitam ser protagonistas.
Bernardino da Purificação

domingo, 24 de agosto de 2008

O estado da alma

Confesso que já me molesta comentar as palermices de que o dr. Cunha e Silva se alivia ao ritmo de duas vezes por mês na revista do DN. Não fosse ele quem é e as pérolas com que nos brinda não mereceriam sequer o tempo de uma leitura apressada. Mas como ele é o vice-presidente do governo, vale a pena mergulhar quinzenalmente na profundidade das suas confissões, na densidade inexistente dos seus pensamentos. Mesmo que a coisa enfade. Mesmo que a leitura às vezes exaspere.
Houve um tempo em que o dr. Cunha se limitava a citar as ideias de outrem. Só que, de repente, fosse por ter esgotado o livro de citações, fosse por ter sido tocado pelo pecado do atrevimento, fosse por ter perdido a capacidade de enxergar-se, o cavalheiro desatou a falar de si. Mandando recados mais ou menos herméticos para aqui e para ali. Contando banalidades que só por caridade cristã alguém faz o favor de publicar. Ocupando, enfim, de quinze em quinze dias, uma tribuna que de todo não justifica.
Insisto. Se o dr. Cunha não fosse um vice com pretensões a presidente, as patetices literárias que produz nem um sorriso amarelo haveriam de provocar. Só que para sua desgraça, ele é isso tudo. De maneira que, infelizmente para ele, a gente tem quase a obrigação de lê-lo. E, o que é pior, de comentá-lo.
A última croniqueta que lhe publicaram surpreendeu-me. Por um lado, revelou em todo o seu esplendor a indigência que o dito cujo passa a vida a tentar disfarçar. Mas, por outro, trouxe aos nossos olhos o adolescente atormentado que ainda lhe habita e agita o espírito. O escrito pregou-lhe uma partida, em suma. Traiu-o. Revelou-lhe o íntimo.
Num certo sentido, o arrazoado que hoje nos serviu em forma de papel de jornal constitui, em simultâneo, uma confissão e um exercício de catarse. Através dele, o dr. Cunha revelou que, apesar das responsabilidades que tem, é capaz de falar de coisas sérias com o ar brejeiro e alarve das conversas de taberna. Compreendo o fenómeno. Algum dia teria de acontecer. Afinal, ninguém é capaz de esconder a vida inteira o seu lado mais profundo, mais genuíno. Nem sequer o dr. Cunha e Silva.
Ficámos então a saber que o dr. Cunha gostaria que 1640 nunca tivesse acontecido. Ele não o diz assim, como é evidente. O político frontal que é, limita-se a insinuá-lo. Mas quem o lê percebe que há uma espécie de nostalgia ibérica a iluminar-lhe as meninges. Eu confesso que acho mal que o cavalheiro se dê ao atrevimento de escarnecer da independência alheia. Se não gosta do país a que pertence, tenha coragem e diga-o de uma vez. E, já agora, seja consequente e demita-se de um cargo que pertence ao ordenamento político-institucional do país a que, pelos vistos, não gosta de pertencer.
Devo confessar, aliás, que me merecem muito mais respeito (embora discorde deles) os independentistas assumidos da Madeira. Porque com esses não há nem tibiezas, nem ironias manhosas, nem meias tintas. São frontais. Não precisam de andar permanentemente a dizer o que pensam, mas eles sabem que a gente sabe o que eles pensam. E, o que é mais relevante para o caso, falam da independência da terra deles e não da independência do país que acham que é dos outros. Agora com vosselência é diferente. Anda por aí na sonsice e no bem-bom das mordomias que a constituição portuguesa lhe dá, até que um dia, totalmente a despropósito, desata a gemer súbitos suspiros, pelas esquinas que frequenta, pelos queridos espanhóis.
É claro que já muita gente sabe das lucrativas negociatas energéticas que vossência e alguns dos seus prósperos subordinados mantêm com o lado de lá da península Ibérica. Mas, com franqueza. Fazer disso critério de escolha de uma pátria é reduzir o sentimento de pertença que ninguém dispensa ao pulsar de uma conta bancária. Ora isso não é bonito. Ao ponto, acredite, de até o castelhano dispor de uma palavra pouco digna para traduzir a ideia de mercantilização da pertença e dos afectos.
Mas o que mais me impressionou na prosa que fez o favor de nos servir foi outra coisa. Mais pesada. Porventura, mais reveladora. Vosselência revelou que foi hóspede na casa de seus pais. Não sei se o fez com a leviandade que já lhe vai sendo habitual, ou se se limitou a exprimir a densa amargura que do fundo da sua alma brota. Juro que fiquei chocado. Por ter enfim percebido que a vida lhe tem sido madrasta. E por ter verificado que o meu ilustre amigo (permita-me que o trate assim) se cansou de disfarçar o indisfarçável. Vossência não se sentia em casa na casa de seus pais. Sentia-se um estranho. Um hóspede. Um só. Nem é preciso ser psiquiatra ou psicólogo para perceber que a palavra que usou é todo um diagnóstico da alma. Aceite por isso, dr. Cunha, os protestos da minha solidariedade. Pode crer que agora até já percebo os problemas de carácter que lhe apontam. Podia era canalizá-los e esconjurá-los de outra forma.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Uma oportunidade perdida

Esta é decididamente uma terra de doidos. A propósito de pretensas efemérides que não querem dizer coisa nenhuma, é capaz de se gastar este mundo e o outro. Quando é relevante aquilo que se comemora, não conseguimos ir além da piroseira dos programas pífios. Concordo com o dr. Jardim. Tá tudo louco.
Não há muito tempo, o dr. Cunha e Silva entendeu que podia dar largas à megalomania que todos lhe reconhecemos. Cheio de vento por ter enfim chegado à governação, resolveu engendrar um ano de festarolas. O tempo era de vacas gorduchas. De maneira que, a propósito de coisa nenhuma, uns quantos privilegiados funchalenses puderam aliviar as suas desconhecidas inquietações melómanas com o dinheiro do erário.
Diz quem sabe que a factura foi elevada. Não admira. Um Carreras ou uma Diana Krall são nomes sonantes e, em consequência, luxos caros. Não obstante, cá os tivemos, entre outros, a peso de ouro e a propósito de uma fraude. Disseram-nos que a Europa nos tinha distinguido com um galardão inexistente. Afinal, do que se tratou foi apenas ter-nos cabido a vez de podermos fazer qualquer coisa para mostrarmos o que somos às restantes quinhentas ou seiscentas regiões europeias. Como um dia acontecerá ao Algarve ou a Trás-os-Montes. À Andaluzia ou às Astúrias. À Alsácia ou à Bretanha.
É claro que, no fim de contas, não nos mostrámos a ninguém. Preferimos andar inebriados com uma distinção que não existiu. E optámos pelo esbanjamento numa festança injustificada. O dr. Cunha gastando o nosso dinheiro na sua dispendiosa propaganda. E a cidade alinhando na coisa a reboque do provincianismo que havia acabado de assentar arraiais no poder da Região.
Consta que o Tribunal de Contas (essa tenebrosa força de bloqueio com que o centralismo nos quer controlar os gastos) chegou a escrutinar e a criticar o vice-presidencial arraial. Mas como a vergonha é reconhecidamente um bem escasso, o facto caiu depressa no esquecimento. Pelo menos, até ao próximo embuste.
Longe de mim qualquer intenção de apelar à despesa desbragada. Porém, não consigo deixar de pensar que a soma avultada que o dr. Cunha gastou nos seus classistas delírios musicais nos está agora a fazer falta.
Repare-se. O Funchal faz quinhentos anos. Quem sabe um mínimo de História sabe com certeza que a data não é exclusivamente nossa. Pertence ao país. E é parte integrante do património da Europa. É nossa. Mas é pertença igualmente do espaço cultural em que nos integramos. Não obstante, ninguém parece dar grande importância a isso. É pena. Estamos a perder uma oportunidade. Não de entrarmos em festarolas eufóricas para exclusivo consumo interno. Mas sim de revisitarmos o lugar que tivemos no processo de afirmação da Europa no mundo. E não seria difícil, estou em crer, obter de Bruxelas o envolvimento e os fundos necessários para uma comemoração a preceito. Bastaria talvez um pouco de ousadia mais um módico q.b. do relevo que se deve dar à dimensão cultural da acção política. Tudo isto a par, como é evidente, da ausência das costumeiras tricas pequeninas com que uns quantos nos pretendem fazer mais pequenos do que somos.
Mas, o que é que se há-de fazer?! É a isto que estamos sujeitos...!!!

Bernardino da Purificação

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O primeiro partido regional

Uma vez que a season está mesmo silly, não há outro remédio senão comentar aquela fantástica ideia de formação de um novo partido político com que o dr. Jardim pretendeu captar a atenção da classe política nacional.
Está claro que o dr. Jardim não quis mais do que isso. Pelo menos nesta altura do campeonato. Mas correm o risco de uma inesperada surpresa todos os que tenham precipitadamente decidido dar o assunto por encerrado. Nem tudo o que o dr. Jardim diz deve ser tido como manobra de contra-informação. Até porque é sabido que ele já vai sendo vítima do seu próprio subconsciente.
Leve-se, pois, meio a sério meio a brincar a putativa intenção do dr. Jardim. Na realidade, ele não quer propriamente um novo partido. Mas ninguém tenha dúvidas de que ele está disposto a tudo para, no mínimo dos mínimos, conquistar para o PSD-Madeira que lidera o máximo de autonomia que ainda for possível imaginar.
É verdade que, como já vai acontecendo com demasiada frequência, ninguém lhe ligou patavina. Nem no rectângulo, como gosta de dizer, nem na quinta onde dita as regras. De lá não veio qualquer eco que se ouvisse. E de cá, a única reacção pronta que registei foi a do fidelíssimo Luís Filipe Malheiro que se demarcou prontamente da coisa. Não obstante, acreditem. É prematuro encomendar um epitáfio sumário ao tal partido federalista de que falou o dr. Jardim. E parece-me francamente redutor imaginar que a única intenção de tão excêntrica proposta tenha sido a de sobressaltar o remanso bi-maternal que bucolicamente embala a dra. Ferreira Leite e o seu o primeiro neto.
Não o digo, podem crer, por simpatizar com a ideia de um partido que tenha na sua matriz identitária uma ideia federalista. É verdade que gosto da ideia - já vai sendo tempo de se olhar para a descentralização do país sem complexos nem tabus. Mas não é isso que me faz pensar que se deve dar a atenção q.b. a esta primeira manobra estival do dr. Jardim. É, acreditem, outra coisa. É, por exemplo, ter em conta que o líder regional do PSD anda a braços com um projecto de revisão constitucional visando o alargamento das competências legislativas autonómicas. E é também ter presente o que disse recentemente o conselheiro Diniz em entrevista ao Sol.
Ora, disse o senhor conselheiro que já a ninguém repugna a ideia de que possam existir partidos regionais. Por causa de outras coisas que também disse, ninguém quis olhar para a ex-ministerial sentença com olhos de ver. No entanto, ela está lá. Como prova de que o ex-senhor ministro sabe que, não tarda nada, o tema há-de subir à ribalta política. E como inapagável testemunho de que, no fim de contas, sua excelência é tão cúmplice do dr. Jardim que até se presta a abrir caminho às suas ideias.
É claro que posso estar errado. Isto de tentar encontrar um fio condutor no discurso e nas manobras por vezes erráticas do dr. Jardim não é tarefa fácil. Mas, para já, ninguém me tira da mente que o presidente dos laranjas de cá o que pretende é tão só que a direcção dos laranjas de lá aceite incluir a ideia de um país federal no conjunto dos seus princípios programáticos. Seja pela via directa de uma improvável conversão ao federalismo. Seja pela via negociada de uma ainda mais ampla autonomia do PSD-Madeira. E se porventura tudo isso falhar, restará sempre ao dr. Jardim a possibilidade constitucional de regionalizar de vez o partido de que é presidente. Não será assim, senhor conselheiro?
Bernardino da Purificação

domingo, 17 de agosto de 2008

A oposição e o discurso político

Devo confessar que tenho poucas certezas relativamente ao tema que hoje trago. Como sei que a política não dispensa as emoções, apesar de reclamar permanentemente a intervenção da razão, sou levado a pensar que há determinadas escolhas estratégicas que só serão plenamente compreendidas por quem tem que tomá-las. Mas como também sei que a política é assunto demasiado sério para poder ser deixado à mercê dos políticos, considero ter o direito de sobre ela exprimir as opiniões que, em cada momento, a minha consciência e a compreensão que possa ter dos factos me ditem.
Não passo, em suma, em matéria de política, de um mero espectador interessado e atento. Que procura compreender as dificuldades de quem optou por dar o corpo ao manifesto. Mas que convive mal com a indigência dos que enveredam pela política só porque lhes falta um mais proveitoso ou lucrativo emprego.
O que penso da política, em suma, é que ela é uma exigência e não um privilégio. Para quem está no poder. Mas também para quem escolhe o caminho da oposição.
É verdade que os primeiros têm mais responsabilidades do que os outros. São eles que gerem a coisa pública. Mas isso não isenta a oposição nem do dever de fiscalizar com seriedade a acção de quem governa, nem da obrigação de apontar caminhos alternativos.
É assim que entendo as coisas. Mesmo sabendo que há-de ser incomparavelmente mais cómodo observar e comentar do que andar lá com a mão na massa. E mesmo admitindo que a política possa ter razões que a razão não consiga apreender imediatamente.
Feito o intróito, passo ao que venho. Como se tem visto, a oposição política na Madeira tem vindo a reduzir-se à denúncia. Falta qualquer coisa, mas acho bem. Ninguém deve pactuar nem com a ilegalidade nem com a imoralidade dos negócios pouco claros. Muito menos quem tem a responsabilidade de fazer oposição.
Porém, dito isto, não consigo deixar de pensar que até a denúncia política há-de ter exigências. No mínimo, deve ser credível e ter o apoio dos factos. Confundi-la com a maledicência pura e simples é, para além de intelectualmente desonesto, um mau serviço que se faz à necessidade de dar da nossa vida pública uma imagem de coisa sã.
O que se tem observado, no entanto, é que se acusa a torto e a direito com a ideia de que um dia se há-de acertar. E tem-se levado para o discurso político o falatório e os dichotes que toda a gente sabe que circulam nas mesas do café. Ora, convenhamos que isso é pouco, eventualmente criminoso, potencialmente contraproducente.
Não é aos partidos da oposição que cabe a responsabilidade de dissecar um a um os indícios de coisa suja que todos os dias vemos acumular. Essa responsabilidade cabe à Justiça. E todos nós, políticos ou não, temos o cívico dever de encaminhar as suspeitas que fundadamente possamos ter para as instâncias de investigação. Só que aquilo a que temos vindo a assistir começa a assumir foros de deriva irresponsável onde parece que vale tudo. Porque todos os dias se dizem coisas que depois não têm o encaminhamento devido. E porque quase todos os dias vemos dirigentes da oposição condenados pelos tribunais por não conseguirem provar as acusações que passam a vida a fazer.
Acredito que muitas dessas condenações possam ter muito que se lhes diga. E sou até capaz de admitir que a muitas das acusações só falta mesmo a prova que os políticos não têm por lhes faltarem a vocação e os meios, mas que uma justiça diligente talvez conseguisse facilmente obter. Mas isso não desculpabiliza a irresponsabilidade da acusação a torto e a direito e a pretexto de tudo e de nada, sob pena de um dia se banalizar tanto a denúncia como a prática denunciada.
Volto ao princípio. É fácil falar na confortável condição de simples espectador. Mas, com franqueza. Acho que já vai sendo tempo de a oposição descobrir a arte de poupar-se a si própria ao descrédito das acusações que não consegue provar. Sob pena de se entregar alegremente nas mãos de quem possa ter a arte de agir sem escrúpulo e sem rasto concludente.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A mãe de todas as culpas

E pronto. Quem conhece o dr. Jardim de certeza que percebeu o sinal. O presidente anda furibundo com as notícias desagradáveis sobre o Marítimo. Aquela coisa do genro ter sido constituído arguido está-lhe atravessada. E como quer arranjar um pé para pegar com os administradores da agremiação, resolveu passar ao ataque.
Porque estamos ainda no defeso, não seria de bom tom arremeter já pelo lado das contratações e das tácticas. Assim, à falta de melhor tema, ei-lo a entrar pelo lado da designação que há-de ter o estádio que nos vai consumir alguns nada escassos milhões de euros. Nada, em suma, que não se pudesse prever.
Diz sua excelência que não gosta da palavra arena. Compreendo-o. Eu também não, e disso dei conta na altura devida. Só que, tratando-se do dr. Jardim, tenho muitas dúvidas de que ele não simpatize de facto com as ressonâncias bélicas, quase épicas, da designação anunciada já lá vão umas duas ou três semanas.
Como ele próprio tanto gosta heroicamente de dizer, não há nada que mais agrade ao dr. Jardim do que uma pitada q.b. de cheiro a pólvora. Assim, temos de convir que a palavra arena, descontando, já se vê, a parolice pseudo-guerreira de que é portadora, até parece ter sido pensada à medida do gosto de sua excelência. Aliás, o longo silêncio presidencial que se seguiu ao anúncio do provável nome do estádio, pareceu constituir um sinal inequívoco do seu presidencial assentimento. Só que, como atrás do tempo, tempo vem, o que parecia ser verdade há quinze dias atrás, passou a ser mentira duas semanas depois. De maneira que o presidente-Pereira mais os seus ilustres pares estão agora confrontados com a ingrata tarefa de terem de explicar aos seus prosélitos que nem no nome do estádio são capazes de mandar. É o que dá oferecer um clube com história ao caprichoso oportunismo de quem manda.
Mas continuemos. Temos então que o dr. Jardim acaba de anunciar em primeira página de dois jornais que não gosta do nome aventado pelo sócio-Pereira. Repare-se. Não o disse em privado. Nem sequer, note-se bem, quando pela primeira vez lho indicaram. Nada disso. Preferiu dizê-lo agora porque queria dizer qualquer coisa e não tinha nada ainda que dissesse.
Dirão os crentes que sua excelência gosta de fazer números destes só para animar o Verão e para afirmar a sua autoridade. Mas eu, que sou céptico e politicamente agnóstico, direi coisa diferente. Porque acho que conheço a peça. E porque já aprendi a antecipar-lhe os tiques.
Ora, acontece, e aqui retomo a ideia inicial da prosa de hoje, que o dr. Jardim anda pelos cabelos com os cavalheiros que o expuseram, expondo-lhe a família, a dores de cabeça escusadas com a justiça. Não é nada, é claro, que ele não consiga resolver, como aliás um dia se há-de verificar. Só que não havia necessidade de abrir a porta ao falatório. É este e não a justiça que o incomoda. Melhor ou pior, a justiça controla-se. O falatório não. Sabe-se sempre como começa. Mas nunca se sabe nem como acaba nem que danos provoca pelo caminho. O que quer dizer que o presidente-Pereira é culpado. Não dessas coisas miúdas que dão pelo nome de evasão fiscal e branqueamento de capitais. Mas sim dessa falta sem nome que consiste em ter permitido que o nome do genro do dr. Jardim ande por aí em desagradáveis notícias de jornal. De modos que vai agora ter de pagar por isso.
Preparemo-nos, pois, para um folhetim político-futebolístico estival com sede no porto-santense bar do Henrique. A operação de desgaste da administração da SAD do Marítimo está já em curso. E ainda que o pretexto do fogacho inicial dessa operação seja menos que pífio, vale a pena ficarmos à espera das cenas dos próximos capítulos. Porque a coisa promete, acreditem. Ainda que só valha o que possam valer os seus protagonistas.
Bernardino da Purificação