É extraordinário como nem as crises são capazes de gerar novidades que se vejam na política madeirense. Uma pessoa sai por uns dias desta santa terrinha. Regressa quatro ou cinco dias mais tarde. E constata com aliviado desalento que, mais coisa menos coisa, está tudo mais ou menos na mesma. Jardim vocifera nos intervalos das suas cada vez mais frequentes deslocações a Bruxelas. Cunha e Silva lacrimeja e protesta por tocarem nas suas queridíssimas SD's. Ventura Garcês, participante acidental deste filme, promete nem ele sabe bem o quê. O director das nossas regionalizadas Finanças selecciona os seus alvos segundo critérios que só ele e os senhores que serve conhecem. A oposição esgadanha-se toda nessa estimável competição que consiste em ver quem consegue dar o tiro mais certeiro num porta-aviões que já parece um queijo suíço, tal a quantidade de rombos que tem. A têvê que temos mantém-se imperturbável na sua mui meritória função de nos entreter com programas assumidamente ridículos e cómicos, embora pretensamente informativos. O "nosso" Marítimo, por obra e graça do dr. Jardim, e o meu Nacional, por afecto imperativo de vários anos, não desistem desse magnífico propósito de se aniquilarem um ao outro. E, no meio disto tudo, a malta que observa vai tocando a vida para a frente. Como pode. Como deixam. Como consegue. Entretanto, lá de fora chegam continuamente notícias de uma crise que passa notoriamente ao lado dos nossos governantes. De todos os lados chovem apreensões várias que nos apertam os bolsos perante a bonomia impávida dos que, em proveito próprio, ostentam o mandato de representação que colectivamente lhes outorgámos. E, cá em baixo, a malta continua à espera das boas notícias que nunca chegam, bem como das medidas que já nem os crédulos acreditam que algum dia possam chegar.
O CDS tem razão: apesar da legitimidade reforçada nas últimas legislativas, este governo não foi, não é, nem nunca há-de ser capaz de anunciar uma medida de ataque aos efeitos da crise.
Carlos Pereira tem razão: com alguma capacidade técnica, com interesse pela coisa pública, com vontade de produzir ideias e governar de facto, é possível engendrar uma boa meia dúzia de medidas práticas susceptíveis de darem alguma respiração à nossa economia.
O PS tem razão: Cunha e Jardim só têm de queixar-se de si próprios por terem conduzido a Madeira por atalhos pouco recomendáveis.
Todos, afinal, temos razão: esta coisa já se tornou demasiado cansativa para ser minimamente suportável.
No entretanto, porém, o dr. Jardim vai despachando as maçadas em que nos meteu com a notável afirmação que está cada vez mais farto do estado. O dr. Cunha confessa que ocultou dos contribuintes e dos eleitores, durante quatro meses, o relatório demolidor do Tribunal de Contas sobre as meninas dos seus olhos já certamente cansados, as famigeradas Sociedades de Desenvolvimento. E se não é o sol que ainda nos deixa ir à praia, estávamos mesmo bem arranjados: isto não teria mesmo ponta por onde se pegasse.
Já agora, e a propósito: o dr. Jardim ainda continua por cá? Se sim, porque não aproveita para visitar o estado dessa coisa notável que é o legado material do seu já desacreditado vice? Já que tanto gosta de falar do estado, porque não experimenta falar desse?
Bernardino da Purificação
