Convenhamos. O dr. Jardim merece que lhe coloquem dificuldades atrás de dificuldades. A prepotência que já não consegue esconder está mesmo a pedir que lhe batam sistematicamente o pé. A insolência convencida e tola com que gosta de aviar receitas governativas aos outros, como se pertencesse ao escol dos governantes de verdade, só merece como resposta o prazer da contradita. O maquiavelismo de trazer por casa de que gosta de fazer alarde até parece que reclama resposta equivalente. E o modo arrogante com que trata os súbditos já há muito que pedincha o tormento da humilhação pública.
O pensamento é pouco cristão. Não me custa admitir que sim. Porém, compreenda-se: não se dá a outra face a quem passa a vida a agredir. E não se deve tratar com indulgência quem parece já ter perdido por completo a noção dos limites.
Mutatis mutandis, até porque um é histriónico enquanto o outro é sonso ou contido, coisa semelhante pode dizer-se do dr. Cunha. Ao esbanjamento politicamente delituoso que não se cansa de dar mostras (partindo do princípio de que só existe esse) sou capaz de jurar que apetece contrapor um quadro de penúria. À forma como abusa do poder só para perseguir os seus ódios de estimação é capaz de dar algum gozo apontar a suprema evidência do seu incompetente desgoverno. Ao voluntarismo idiota que pariu marinas destruídas, parques vazios, promenades sem uso e em permanente conserto, e outras coisas quejandas que só serviram para nos gastar a paciência e os recursos, apetece dizer que já basta de megalomania, já chega de desvario. E à forma politicamente cobarde como agora se esconde atrás das Sociedades de Desenvolvimento é imperioso que se diga que a falta de pudor tem limites.
Dito tudo isto, impõe-se uma explicação. A prosa precedente foi motivada pelo chumbo dado pelo PS na Assembleia da República à alteração da Lei de Finanças Regionais.
Ora, acontece que tenho a ideia de que os deputados socialistas fizeram assentar o seu chumbo em argumentos semelhantes aos acima expostos. Que são tudo menos políticos. E tão falhos de racionalidade como cheios de desejo de ajuste de contas. Ora, isso parece-me ser coisa de pouco aviso.
Não é que considere que a lei em vigor asfixia as finanças da Madeira. Não é isso. Entendo, aliás, que aquilo que verdadeiramente asfixia a Madeira é a incompetência governativa, o despesismo sem freio nos dentes, a ausência de critério na selecção das prioridades, a roda livre, em suma, em que andam o nosso presente e futuro ao sabor dos caprichos do dr. Jardim e do dr. Cunha. Considero, porém, que é errado fazer assentar as transferências financeiras do estado central num PIB que se sabe ser irreal e empolado.
É claro que sei que os culpados da graça foram os dois sobreditos senhores. Se não se tivessem apresentado em Bruxelas com um PIB de fantasia, o Terreiro do Paço nunca teria a lata de fazer de conta que somos uma região rica. E se não tivessem sobreposto o despudor da propaganda à iniludível realidade da nossa vida, a esta hora ninguém teria tido o atrevimento de desconsiderar a pobreza relativa que ainda evidenciamos. Nem em Bruxelas, nem em Lisboa.
Não têm, portanto, legitimidade moral para reclamar aqueles que conscientemente nos empurraram para um prejuízo objectivo de várias centenas de milhões de euros. Não posso, todavia, deixar de notar que me parece mal que o partido que mais tem denunciado o empolamento do PIB da Região tenha sido capaz de impedir a revogação de uma lei errada porque assenta em pressupostos também eles errados. Fico com a ideia de que o PS caiu no engano lançado por Jardim. Votou, de rebendita, contra o ditadorzeco que nos governa, sem perceber que quem estava em causa eram (e são sempre) os madeirenses. E assim o dito cujo ganhou fôlego.
Bernardino da Purificação
