Bem vindo, dr. Sérgio Marques, ao redil dos delfins vigiados. Se bem percebi o que o JM diz que disse, o PSD acaba de ganhar mais um candidato à sucessão do dr. Jardim. Demos graças ao Altíssimo. Já era tempo de aparecer um aspirante suficientemente distante das tricas domésticas em que andam entretidos o vice-presidente do Governo e o presidente do maior município da Região.
Diga-se, no entanto, que, em boa verdade, Sérgio Marques não chegou propriamente agora aos lugares da frente da linha de partida. Bem longe disso. No final de contas, sem nunca precisar de assumi-lo, o eurodeputado do PSD foi sempre um dos mais fortes candidatos à sucessão de Jardim. O que o distinguia dos restantes era o facto de ter feito da discrição um estilo e um método. Uns, os outros, iam-se esfalfando em pouco sensatas correrias debaixo das luzes da ribalta. Sérgio Marques, ao contrário, optou por correr pelo lado de fora. Fez bem. Evitou um desgaste prematuro. E fez o favor a si próprio de recusar o espectáculo deprimente em que incorrem os candidatos putativos que se acham portadores de um grande pedigree.
Surpreende por isso que tenha decidido abandonar o registo low profile que lhe permitiu marcar pontos sem necessidade de queimar os dedos. Terá soado, sem nós termos percebido, o verdadeiro tiro de partida? Francamente, custa-me admitir que sim. E apesar de achar que faz todo o sentido a tese do dr. Carlos Pereira, segundo a qual poderemos estar perante uma mera manobra de diversão, fico com a ideia de que o voo picado que Sérgio Marques aceitou iniciar tem um alcance político que escapa ainda à nossa compreensão.
Há uma coisa, porém, de que não tenho dúvidas: o presidente do Governo está seguramente por trás deste movimento do eurodeputado. Erra quem pensar o contrário. Porque, sendo cauteloso, o dr. Sérgio Marques nunca diria em voz alta o que toda a gente já admitia, afinal, em voz baixa. E porque se sabe que, sendo maquiavélico, o dr. Jardim já mostrou do que é capaz a todos os que meteram na cabeça que lhes assistia o direito de desenvolverem uma estratégia pessoal e autónoma. Veja-se o caso de Miguel de Sousa. Atente-se no percurso de Virgílio Pereira. E, para citar um exemplo mais recente, tenha-se em conta a vida cada vez mais difícil de Miguel Albuquerque.
Aposto, em suma, que Sérgio Marques articulou com Jardim o timing do seu desnecessário e redundante anúncio. Ou por alguém lhe ter feito pensar que, entre Albuquerque e Cunha, o seu nome pode passar a funcionar como uma espécie de terceira via. Ou, então, por alguém lhe ter feito sentir a necessidade de ser dado um público sinal de que, em matéria de candidatos à sucessão, o PSD deve preparar-se para um tempo novo com novos protagonistas.
Ignoro se Sérgio Marques foi simplesmente incauto ou se se muniu previamente de garantias de protecção. Essa é uma dúvida que só o tempo nos há-de um dia esclarecer. De uma forma ou de outra, fica no ar a convicção de que Jardim tem um novo favorito. Pelo menos, até ao lançamento do próximo.
Bernardino da Purificação
