Parece que a política regional vai voltar a animar-se. Boas notícias. É do que a malta andava mesmo a precisar. Não há nada como uma boa cena de pancadaria política para espevitar os espíritos mais sossegados.
Então é assim. O PS acaba de anunciar que está finalmente disponível para fazer oposição ao partido do poder. Abençoada hora. Já era tempo de alguém no PS perceber que, por definição, missão democrática, e eventual proveito da colectividade, quem está na oposição deve fazer oposição. Que seja, pois, muito bem-vindo à função que deve ter, e que nunca deveria ter abandonado, no quadro da nossa vida política. E, já agora, votos de que as maçadas internas que têm vindo a dispersar-lhe as atenções lhe permitam deixá-lo totalmente liberto para uma acção centrada naquilo que verdadeiramente conta.
É claro que uma coisa são palavras e intenções, e que outra bem diferente são as acções. O crivo da prova dos factos há-de estabelecer as verdadeiras distâncias que separam umas das outras. E só ele vai demonstrar se o PS percebeu finalmente que o verdadeiro adversário está lá fora e não intramuros como tem estado até agora. É que, para mal dos pecados do PS, não basta que venha o deputado Vítor Freitas anunciar que o seu partido vai imprimir uma nova dinâmica à sua acção política, que pode passar pela possibilidade de pedir ao Presidente da República a dissolução da Assembleia Legislativa Regional. Como ele próprio certamente compreenderá, é preciso muito mais do que uma declaração sua para podermos ficar com a certeza de que o PS ganhou finalmente juízo e vai passar a fazer o que o seu estatuto lhe reclama que faça.
Ainda assim, vale a pena levar a sério o anúncio feito por Vítor Freitas em recente entrevista ao DN. O PS quer, pelos vistos, tomar a iniciativa e marcar a agenda política. Faz muito bem. E parece querer igualmente exercer alguma pressão sobre o Presidente da República, o que aparenta ser uma ideia inteligente. Mas como não há estratégia inatacável em todos os seus pressupostos lógicos, é bom que o PS-Madeira esteja preparado para responder à suspeita de que pode estar conluiado com o PS nacional numa manobra de ataque ao Presidente da República. No estado a que chegaram as relações entre Cavaco e o governo da República, essa hipótese faz sentido. E ganha uma verosimilhança adicional se considerarmos que o primeiro ponto de fricção entre o palácio de Belém e os socialistas do rectângulo assumiu a forma de uma intensa polémica sobre o estatuto autonómico dos Açores.
Embora não passe de um curioso destas coisas, suponho não errar se disser que quem planeia uma estratégia tem de ser capaz de integrar no seu plano todas as possíveis medidas de retaliação (as chamadas counter measures), sob pena de poder ser surpreendido por escusados e evitáveis imprevistos. E como não tenho a pretensão de ensinar o padre-nosso ao vigário, estou firmemente convencido de que o PS há-de saber o que dizer se um dia lhe atirarem à cara que um eventual aumento de pressão sobre o Presidente da República nada tem que ver com a política regional propriamente dita. Sinto-me por isso bastante curioso relativamente a todos os desenvolvimentos da anunciada manobra socialista. É que a avaliar pelo que disse Vítor Freitas, a política madeirense pode vir a ocupar brevemente um lugar central no debate político nacional. Ora, convenhamos que isso não é nada pouco para um partido que, pelos vistos, quer mostrar que tem um novo modo de fazer oposição.
Bernardino da Purificação
