A Quinta Vigia mobilizou-se para o evento. O senhor Pontes veio da reforma dar uma mãozinha aos preparativos. As araras enfunaram as penas à medida da ocasião. O Machadinho andou para cima e para baixo de papelinho na mão como prova da sua indiscutível utilidade. E dos outros não falo porque, em bom rigor, ainda ninguém lhes percebeu a função. Foi-me garantido, no entanto, que nada foi deixado ao acaso. Não admira. A solenidade da acontecência não admitia desleixos.
Sede absoluta de todo o poder que imaginar se possa, a casa cor-de-rosa revolveu-se, pois, para acolher uma reunião magna da família verde-rubra. Do presidente ao roupeiro. Do treinador ao capitão da equipa. Do massagista ao tratador da relva.
Aliás, a bem dizer, aquilo foi mais do que uma reunião. Foi um momento de comunhão. Um verdadeiro momento de excitação maritimista. O dr. Jardim na sua função de sacerdote supremo. O factótum Carlos Pereira no seu papel de primeiro acólito. Um tal Lori Sandri estarrecido com o ritual. E os jogadores de joelhos, à espera da bênção taumatúrgica que lhes há-de trazer a vontade, as vitórias, os golos. Diz quem viu que foi arrepiante.
Cumprida a parte litúrgica, os circunstantes passaram às contas. Que foram de subtrair, no que respeita aos pontos que vão faltando no campeonato. Mas que foram de somar no que diz respeito ao despudor e ao escândalo. É a Marítimo SAD a braços com processos de evasão fiscal. É o dr. Jardim a desvalorizar ostensivamente o facto, como se aldrabar o fisco fosse coisa que um governante responsável pudesse incentivar. E é, pelo meio, a confirmação de que a zona dos Barreiros vai deixar de ser nossa em proveito de projectistas e empreiteiros, bem como das negociatas que é costume detectar à volta dos elefantes brancos.
Falemos a sério. Ao ter apadrinhado ontem as manobras de evasão fiscal do clube de que é presidente de facto, o dr. Jardim desceu ao nível da delinquência. E ao ter deliberadamente arremetido contra a administração fiscal em defesa de um eventual infractor, o cavalheiro que faz de conta que nos governa revelou a verdadeira face do estadista que não é, do conselheiro de Estado que um Estado a sério deveria poder dispensar, do político medíocre que se permite outorgar à tribo que dirige o direito, que mais ninguém tem, de prevaricar e mandar às urtigas os mais elementares deveres de cidadania.
Se o Marítimo fosse um clube igual aos outros, estava-me nas tintas para os seus problemas fiscais. A sua direcção e a administração fiscal tratariam do caso segundo os ditames dos tribunais e da lei e era assunto arrumado. Só que não é. Para mal dos nossos pecados, o Marítimo confunde-se com a Região. Todos nós somos sócios forçados de semelhante agremiação. A todos nós o dr. Jardim nos impõe o dever de sermos contribuintes líquidos de um clube que resolveu, porque assim o quiseram os seus actuais dirigentes, alienar o património de respeitabilidade (desportiva e não só) que ao longo do seu século de vida granjeou. O que significa que a Quinta Vigia se confunde com a sede do Marítimo. O que quer dizer, em suma, que o chairman of the board da dita agremiação é, para todos os efeitos, o dr. Jardim.
Corrijo. Para todos os efeitos não. Ele tem o direito de meter o bedelho nas tácticas e de definir a estratégia. Não abdica da prerrogativa de mandar despedir treinadores quando não engraça com eles. Como é ele que paga o desvario com o nosso dinheiro, não se coíbe de puxar as orelhas em público ao lugar-tenente que escolheu para tomar conta do clube. Porém, em matéria de impostos, ele acha mais prudente que sejam os outros a fazer as falcatruas. Ele fica de fora. Limita-se a subscrevê-las e a, pelos vistos, incentivá-las.
Bernardino da Purificação
