O que se segue pode soar a coisa pueril. Admito que sim. Mas como entendo que a autonomia deve ser muito mais do que um mero instrumento de consumo interno ao serviço de meia dúzia de notáveis do regime, aceito fazer figura de simplório. As coisas a que a gente tem de sujeitar-se em nome do inconformismo!
Não percebo grande coisa do assunto, mas julgo ter informação suficiente para saber que a economia madeirense se encontra engasgada. Para manter níveis de ocupação interessantes, o sector hoteleiro deprecia preços e serviços. Porque não há industria não há exportação. Importamos praticamente tudo o que consumimos. Os preços estão pela hora da morte. Os salários encurtam a cada dia que passa. O consumo interno encolhe. Os orçamentos familiares, pobres deles, andam vergados ao peso de compromissos e mais compromissos, de juros e mais juros, de despesas e mais despesas. O quadro, enfim, é aquele que as estatísticas revelam, mas que os governantes se esforçam por iludir. Temos fama de ricos, mas não passamos de uns tesos. Ainda que a propaganda se dedique a criar alegremente a ilusão de que já temos um PIB muito próximo da média europeia.
Adoro conversas sobre PIBs e outras coisas macroeconómicas quejandas. Posso mesmo dizer que tenho uma admiração ilimitada pelos detentores desse sacrossanto saber que adivinha as crises, que percebe os ciclos, que lida com as variáveis como quem usa um talher, que se delicia com estatísticas, e que avia receitas com uma cientificidade só ao alcance dos sábios. A maçada é que a dita admiração não consegue sobrepor-se ao incómodo que me causam as queixas de praticamente toda a gente. Ou, dito de outro modo, o aborrecimento é perceber que entre a dimensão mais ou menos estratosférica das congeminações sobre a macroeconomia e a realidade pura e dura da micro economia vai muitas vezes a distância que separa a abstracção do terreno do concreto. Porque a primeira lida com teorias, fórmulas, grandes números e cérebros notáveis. E porque a segunda, que é a nossa, trata de pessoas concretas, de problemas reais, de empregos que diariamente se perdem, de trabalhadores e empresários sistematicamente à beira de um ataque de nervos, de carência, de dificuldades.
Por mais voltas que alguns pretendam dar, a realidade é esta. E não há parques, túneis, marinas, ou praças financeiras que sejam capazes de ocultá-la, independentemente dos méritos ou deméritos que se lhes conceda a título de crédito ou de débito. Não obstante, a gente olha à volta e nada: não só não há qualquer política económica que vá além do subsidiozito, como não se vislumbra a mais pequena vontade ou capacidade de lutar contra as dificuldades.
É claro que sei que o estado unitário que teimosamente somos não nos concede os instrumentos de que precisaríamos para a definição de políticas susceptíveis de mexer a sério na economia. Porém, sei também que a autonomia de que dispomos dá-nos margem bastante para irmos além da obra pública que já quase se esgota em si própria.
Um exemplo. Um pouco por todo o país é visível o esforço de internacionalização que fazem as empresas que já perceberam que a globalização é também uma oportunidade. Há gabinetes que abrem caminhos. Multiplicam-se as empresas de serviços vocacionadas para o desenho e montagem de projectos de investimento no exterior. Todos os dias se ouve falar de empresários interessados nas economias emergentes com as quais temos relações de proximidade e de afectos. Mas na Madeira anda tudo mais ou menos na mesma, porque a insularidade é um constrangimento que poucos ousam enfrentar, e porque quem governa está-se nas tintas para o papel que deve ter. E assim, apesar do sistema de auto-governo que temos, não se vê qualquer trabalho de prospecção e facilitação de mercados, de identificação de oportunidades, de procura de novos negócios. Como se a ilha aceitasse, sem sobressalto visível, o quadro de limitações decorrentes do seu circunstancialismo geográfico.
Há três ou quatro honrosas excepções a este panorama de inércia? Todos sabemos que há. O problema é a infeliz regra que as faz sobressair.
Bernardino da Purificação
