Como dizer mal também cansa, sentei-me ao computador com o nobre propósito de dizer bem. Procurei assuntos. Fui lendo jornais. Pensei em pessoas, de preferência governantes. Mas devo confessar que a tarefa, a partir de certa altura, começou a ficar difícil. Por mais que procurasse, não conseguia descortinar um facto positivo sobre o qual valesse a pena escrever qualquer coisa. E a depressão, acreditem, esteve por um fio. Até que me lembrei do dr. Cunha. Corrijo. Não foi bem assim. A bem dizer, não fui eu que me lembrei dele. Habitualmente, tenho mais que fazer. Ele é que se lembrou mais uma vez de nós. Como o demonstra a publicação na revista do DN de mais uma das suas imperdíveis prédicas. Uma vez que me sentia imbuído (adoro mergulhar na ressonância líquida da palavra) do espírito atrás descrito, não consegui reprimir um suave sentimento de gratidão. O dr. Cunha acabara, sem o saber, de me salvar o dia. Seria ele o ponto de mira dos meus mais nobres propósitos. De maneira que me atirei à tarefa com denodo.
Manda a justiça que diga que o dr. Cunha faz pouco para ajudar quem queira genuinamente dizer bem das decisões políticas que toma. Mas até por isso achei o exercício interessante. Sempre queria ver como é que havia de passar no teste um político que tem atrás de si um lastro de parques empresariais às moscas (às cabras), um Lugar de Baixo cada vez mais revolvido em polémica, um Penedo do Sono em saldo e de rendas confessadamente sazonais, uma irreprimível tendência para o anúncio emproado e imediato de coisas que ninguém sabe se verão a luz do dia (assim uma espécie de síndrome socrático), e que tem a mania de proclamar que as obras públicas que manda fazer, sejam as mais ou menos úteis, sejam as de utilidade duvidosa, sejam as de uma já comprovada e indiscutível ausência de qualquer utilidade, não têm nada a ver com os impostos que pagamos.
É claro que, permitam-me a humilde confissão, tive medo de falhar nos intentos. Porém, ciente de que o mérito de um feito é directamente proporcional à dificuldade do dito, lá mergulhei de cabeça, qual Diógenes, de lanterna em punho, à procura de algo com que pudesse incensar o dr. Cunha, ao menos uma vez.
Depois de muito procurar, acabei por conseguir. Encontrei no DN o que precisava. Sua excelência fez o favor de brindar-nos com umas pérolas relacionadas com o futuro da política energética da RAM. E ao lê-las compreendi como deve sentir-se injustiçado o dr. Cunha cada vez que lê uma crítica, cada vez que percebe que o ignoram. Porque, acredite-se ou não, o homem tem um sonho, uma visão. Particularmente no que diz respeito aos caminhos que a Madeira deve trilhar para driblar a extrema dependência energética de que padece.
Cito ipsis verbis as suas palavras, até para ajuste de contas futuro. "Apostaremos de forma decidida na hídrica, na eólica (com bom senso), no biocombustível marinho e no gás natural. E, daqui as uns anos, talvez possamos olhar para as peripécias por que passa o mundo com menos preocupação e maior independência." Devo confessar que fiquei fascinado. Em meia dúzia de linhas de coluna de jornal, o dr. Cunha foi capaz de sintetizar todo um programa de governo. Ainda por cima, de bom governo.
É justo que se diga que se o dr. Cunha mai-lo ponta de lança que tem na EEM, dr. Rebelo de sua graça, conseguirem levar à prática tão arrojado como visionário programa de acção, terão todo o direito de exigir a gratidão, a admiração e o respeito de todos os madeirenses. E eu, se ainda por cá andar, procurarei ser dos primeiros a tributar-lhes a homenagem que por certo merecerão. A justiça que reivindico para mim é exactamente a mesma que me esforço por creditar aos outros. De maneira que, por ora, o dr. Cunha leva o seguinte cumprimento: a política energética que preconiza é não só correcta, como necessária. Seja por razões económicas, seja por razões ambientais, seja, enfim, por razões estratégicas. Custa dinheiro, como é evidente. Mas isso, claro, não é coisa que atormente as mãos largas que mostra ter.
Porém, há-de compreender. Quem quer ser pródigo no elogio não pode ser omisso no reparo. Sobretudo se for justo. Ora, acontece que a Lógica formal ensina-nos que só por manifesto acaso se chega a conclusões certas partindo-se de premissas erradas. E a prudência na Política recomenda que só se fale a sério daquilo que se estuda e domina. Pois bem, dr. Cunha, saiba vosselência que bem pode ter acertado na cura futura dos nossos males energéticos. Porém, estatelou-se ao comprido no diagnóstico da maleita. Porque essa de dizer que o louco aumento dos preços do petróleo, somado à inflação dos bens alimentares, se fica a dever à utilização dos recursos agrícolas com fins energéticos só pode ser tida à conta do erro clássico que comete quem, por falta de tempo, de pachorra, ou de queda para a coisa, não foi capaz de compreender ou estudar a complexidade da lição (se precisar que lha explique, não hesite por favor). E a mim aflige-me pensar que a ligeireza com que diz disparates destes há-de ser a mesma com que toma as suas decisões políticas. Mas isto, claro, não passa de um pensamento lateral, que o importante mesmo é o elogio que lhe faço.
Bernardino da Purificação