domingo, 13 de julho de 2008

A resposta certa do aluno cábula

Como dizer mal também cansa, sentei-me ao computador com o nobre propósito de dizer bem. Procurei assuntos. Fui lendo jornais. Pensei em pessoas, de preferência governantes. Mas devo confessar que a tarefa, a partir de certa altura, começou a ficar difícil. Por mais que procurasse, não conseguia descortinar um facto positivo sobre o qual valesse a pena escrever qualquer coisa. E a depressão, acreditem, esteve por um fio. Até que me lembrei do dr. Cunha. Corrijo. Não foi bem assim. A bem dizer, não fui eu que me lembrei dele. Habitualmente, tenho mais que fazer. Ele é que se lembrou mais uma vez de nós. Como o demonstra a publicação na revista do DN de mais uma das suas imperdíveis prédicas. Uma vez que me sentia imbuído (adoro mergulhar na ressonância líquida da palavra) do espírito atrás descrito, não consegui reprimir um suave sentimento de gratidão. O dr. Cunha acabara, sem o saber, de me salvar o dia. Seria ele o ponto de mira dos meus mais nobres propósitos. De maneira que me atirei à tarefa com denodo.
Manda a justiça que diga que o dr. Cunha faz pouco para ajudar quem queira genuinamente dizer bem das decisões políticas que toma. Mas até por isso achei o exercício interessante. Sempre queria ver como é que havia de passar no teste um político que tem atrás de si um lastro de parques empresariais às moscas (às cabras), um Lugar de Baixo cada vez mais revolvido em polémica, um Penedo do Sono em saldo e de rendas confessadamente sazonais, uma irreprimível tendência para o anúncio emproado e imediato de coisas que ninguém sabe se verão a luz do dia (assim uma espécie de síndrome socrático), e que tem a mania de proclamar que as obras públicas que manda fazer, sejam as mais ou menos úteis, sejam as de utilidade duvidosa, sejam as de uma já comprovada e indiscutível ausência de qualquer utilidade, não têm nada a ver com os impostos que pagamos.
É claro que, permitam-me a humilde confissão, tive medo de falhar nos intentos. Porém, ciente de que o mérito de um feito é directamente proporcional à dificuldade do dito, lá mergulhei de cabeça, qual Diógenes, de lanterna em punho, à procura de algo com que pudesse incensar o dr. Cunha, ao menos uma vez.
Depois de muito procurar, acabei por conseguir. Encontrei no DN o que precisava. Sua excelência fez o favor de brindar-nos com umas pérolas relacionadas com o futuro da política energética da RAM. E ao lê-las compreendi como deve sentir-se injustiçado o dr. Cunha cada vez que lê uma crítica, cada vez que percebe que o ignoram. Porque, acredite-se ou não, o homem tem um sonho, uma visão. Particularmente no que diz respeito aos caminhos que a Madeira deve trilhar para driblar a extrema dependência energética de que padece.
Cito ipsis verbis as suas palavras, até para ajuste de contas futuro. "Apostaremos de forma decidida na hídrica, na eólica (com bom senso), no biocombustível marinho e no gás natural. E, daqui as uns anos, talvez possamos olhar para as peripécias por que passa o mundo com menos preocupação e maior independência." Devo confessar que fiquei fascinado. Em meia dúzia de linhas de coluna de jornal, o dr. Cunha foi capaz de sintetizar todo um programa de governo. Ainda por cima, de bom governo.
É justo que se diga que se o dr. Cunha mai-lo ponta de lança que tem na EEM, dr. Rebelo de sua graça, conseguirem levar à prática tão arrojado como visionário programa de acção, terão todo o direito de exigir a gratidão, a admiração e o respeito de todos os madeirenses. E eu, se ainda por cá andar, procurarei ser dos primeiros a tributar-lhes a homenagem que por certo merecerão. A justiça que reivindico para mim é exactamente a mesma que me esforço por creditar aos outros. De maneira que, por ora, o dr. Cunha leva o seguinte cumprimento: a política energética que preconiza é não só correcta, como necessária. Seja por razões económicas, seja por razões ambientais, seja, enfim, por razões estratégicas. Custa dinheiro, como é evidente. Mas isso, claro, não é coisa que atormente as mãos largas que mostra ter.
Porém, há-de compreender. Quem quer ser pródigo no elogio não pode ser omisso no reparo. Sobretudo se for justo. Ora, acontece que a Lógica formal ensina-nos que só por manifesto acaso se chega a conclusões certas partindo-se de premissas erradas. E a prudência na Política recomenda que só se fale a sério daquilo que se estuda e domina. Pois bem, dr. Cunha, saiba vosselência que bem pode ter acertado na cura futura dos nossos males energéticos. Porém, estatelou-se ao comprido no diagnóstico da maleita. Porque essa de dizer que o louco aumento dos preços do petróleo, somado à inflação dos bens alimentares, se fica a dever à utilização dos recursos agrícolas com fins energéticos só pode ser tida à conta do erro clássico que comete quem, por falta de tempo, de pachorra, ou de queda para a coisa, não foi capaz de compreender ou estudar a complexidade da lição (se precisar que lha explique, não hesite por favor). E a mim aflige-me pensar que a ligeireza com que diz disparates destes há-de ser a mesma com que toma as suas decisões políticas. Mas isto, claro, não passa de um pensamento lateral, que o importante mesmo é o elogio que lhe faço.
Bernardino da Purificação

sábado, 12 de julho de 2008

As pioras antes das melhoras

O prazo de validade de João Carlos Gouveia como líder do PS chegou ao fim. A partir de agora vamos com certeza assistir ao regresso das velhas práticas socialistas. Aquelas que se traduzem no facto de cada figura de proa reivindicar para si o estatuto de sensibilidade autónoma. Bem como as que se exprimem no alegre e público fratricídio a que volta e meia se entregam, essas mesmas figuras, como queridos inimigos. E assim há-de ser para descanso dos adversários. Pelo menos, até à emergência de um líder capaz de federar a maioria num periclitante compromisso qualquer.
Estou em crer que o próprio Carlos Gouveia estará preparado para a degola (salvo seja) que se lhe prepara. O mais certo, aliás, é que nunca tenha tido grandes ilusões quanto ao futuro que com ele tem encontro marcado. Ele sabe, como toda a gente sabe, que o PS não tem emenda. E não ignora a tendência mais ou menos suicidária que o partido foi adquirindo ao longo de anos de oposição sem rumo, sem estratégia, sem norte. O PS é de facto assim: enquanto houver um fundo ainda mais fundo do que aquele em que possa ter caído, há-de fazer todos os possíveis para piorar até poder um dia começar a melhorar. É um bocado trágico, reconheça-se. Mas é assim.
De maneira que, dizia, estou convencido de que João Carlos Gouveia sabe bem o que o espera. Foi por isso que admitiu um dia que poderia ser outro, que não ele, o candidato socialista a presidente do governo. E é por isso que se dá ao atrevimento de episodicamente bater o pé ao Largo do Rato. Pensará porventura que o despojamento com que está na liderança do partido, e que o leva a liderar sem cálculo pessoal, há-de ser creditado à conta de uma qualidade que os seus e os outros acabarão por reconhecer. Engana-se. Os outros hão-de continuar a votar-lhe um cada vez mais impaciente desprezo. E os seus a única coisa que verão é que já nem sequer podem contar com ele para a manutenção do lugarzito que têm. Daí até passar à condição de descartável vai um pequeníssimo passo. E alguém, um destes dias, há-de acabar por dá-lo.
Estou pessoalmente convencido de que o primeiro sinal público de que é chegado o momento de agir foi dado hoje por Maximiano Martins, no artigo que fez publicar no DN. Completamente ao arrepio da actual agenda político-mediática, o deputado socialista resolveu recuperar os resultados das intercalares de Gaula. Fê-lo com o propósito confesso de sublinhar que a derrota do PS foi a derrota de Gouveia. E assim está dado o sinal de que é preciso começar a fazer qualquer coisa para evitar que Gaula possa ser o prenúncio do que há-de vir por aí.
É claro que toda a gente sabe que entre Maximiano e Gouveia há contas antigas (as do braço de ferro da votação do orçamento de estado) ainda não resolvidas. O problema é que nessa contas entram também a direcção nacional do partido e a sempiterna facção simpaticamente cognominada de "grupo do éden". Ora, perante litigantes destes haverá quase nada a fazer. A não ser fechar a porta e entregar voluntariamente a chave. A curiosidade reside em saber o que fará André Escórcio e o que dirá Carlos Pereira (a ordem, como se imagina, é meramente alfabética). Para já não falar do camarada Vítor, que esse há-de fazer tudo para que todos percebam que só pode haver vantagens em conferir-se um mínimo de estabilidade e constância a esse magnífico e indispensável lugar de eminência parda que quase todos os partidos têm.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Dívidas públicas para negócios privados

O dr. Cunha e Silva parece afinal ser um político com sorte. Os milhões que continua a afundar no Lugar de Baixo parece que vão acabar por ter algum préstimo, graças à caridade do Grupo Pestana.
Digo de outro modo. Com sorte, a sandice política a que o nosso vice se entregou com assinalável zelo pode não acabar tão mal como seria de esperar. Aquele amontoado de betão que à revelia dos estudos, do senso e de todas as regras de boa utilização dos dinheiros públicos mandou construir de raiz acaba de ser arrematada em hasta privada por um preço ainda ignorado. Num negócio de contornos pouco claros. Mas que, pelo menos até ver, parece ter o mérito de salvar o pescoço do alegre esbanjador do dinheiro alheio que o dr. Jardim escolheu para seu vice.
Manda a decência que advirta que a meia dúzia de ideias que se seguem não serão mais do que o registo impressionista que retenho acerca de um processo que, pelos vistos, terminou agora com a realização de uma espécie de leilão unipessoal e privado de base de licitação desconhecida. Não o faço com o intuito de me desonerar da objectividade que, apesar de tudo, me esforço por ter. Faço-o, podem crer, por me incomodar a sensação de que sei tanto de obras marítimas e de dinâmica costeira como o decisor supremo da marina do Lugar de Baixo. Ou seja, sei rigorosamente nada. Mas se isso não impediu o dr. Cunha de perpetrar o disparate que cometeu, já a mim, a ignorância tem a tendência de me recomendar a contenção. Serei, pois, contido. Porém, não ao ponto de passar ao lado da questão sem a incomodidade de algumas perguntas.
Não sei, por exemplo, quanto vai pagar na realidade o Grupo Pestana pela posição que vai tomar numa infraestrutura paga com dívida pública. Do mesmo modo, ignoro se os montantes que virão a estar envolvidos na operação vão pagar ou não a totalidade do avultadíssimo investimento (estudos e obras de reparação incluídos) realizado no Lugar de Baixo. Mas há mais. Desconheço se o Grupo Pestana foi o único interessado no negócio. Não sei se outros empresários foram consultados. E tenho muitas dúvidas de que o interesse público tenha sido rigorosamente salvaguardado. E nada disto sei por uma razão simples e cristalina: quem devia dar explicações aos madeirenses anda fechado em copas (ou será que o naipe é de ouros?), com a estranha complacência da oposição e dos media, como se ceder a um qualquer privado uma apetecível fatia do domínio público marítimo fosse coisa de pouca monta, ou como se transaccionar ou alienar a propriedade de uma obra pública fosse coisa que pudesse dispensar, ao menos, o formalismo da transparência.
Há coisas, porém, que sei ou julgo saber. Investir assim há-de ser facílimo. Desde logo porque não se pagaram estudos. Depois porque o financiamento e respectivos juros correram por conta do ainda dono da obra (isto é, todos os madeirenses). Finalmente, porque há todo um governo empenhado e mobilizado para viabilizar um investimento cuja titularidade vai passando de mansinho para as mãos de um privado.
É claro que sei também que as sociedades de desenvolvimento estão abertas aos capitais e aos parceiros privados. Mas não seria tudo mais transparente se os interessados se tivessem chegado à frente no momento das responsabilidades financeiras iniciais? Parece-me evidente que sim.
Bernardino da Purificação

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A incrível desculpa da guerrilha e da vingança

Ainda bem que o esclarecimento chegou. A bem dizer, o dr. Jardim nunca pretendeu ser recebido pelo presidente Chávez. Fez constar que sim, é verdade. Mas isso, como agora se percebe, teve tudo a ver com aquele módico de sonsice que é próprio da linguagem política de nível superior. Fiquei duplamente tranquilizado. Por um lado, fiquei a saber que, afinal, não há razão para se recear que o nosso mais alto representante político tenha sido ostensivamente desconsiderado. Por outro, reconfortou-me perceber que o nosso líder não é pessoa para se misturar com um dos alegados financiadores da comuna guerrilha colombiana.
Perguntarão: mas afinal onde é que este foi buscar estas até agora escondidas verdades? Homens e mulheres de pouca fé! Em primeiro lugar, à natureza imperativa e inequívoca das coisas: a história há-de ser sempre aquilo que o dr. Jardim quiser que seja. Em segundo lugar, aos documentos que conseguem o milagre de dar dos factos a aparência que mais conveniente for ao nosso chefe. Percebido?
Como o primeiro destes factores pertence ao domínio peremptório e indiscutível dos axiomas, passo de imediato ao segundo. Ora acontece que só hoje é que percebi a referência que o dr. Jardim fez às FARC no dia em que chegou. A minha não sei se atávica se congénita compreensão lenta despertou para a verdade cristalina dos factos quando se deparou com dois textos publicados no JM: um, de opinião, da responsabilidade de Luís Filipe Malheiro; e outro, escrito em forma de comunicado, com origem na Quinta Vigia.
Não pretendo, como é evidente, incorrer na injustiça de pensar que as duas peças possam ter sido articuladas. O livre pensador que todos sabemos que Filipe Malheiro é nunca aceitaria, julgo, combinações dessas. Mas o facto de em ambas se aludir à questão das FARC acabou por iluminar-me o espírito: o dr. Jardim nunca na vida quereria nada com gente assim. Nem directamente. Nem pela via indirecta de um contacto qualquer com um presidente de práticas democráticas nem sempre recomendáveis.
Temos assim, em suma, que o dr. Jardim fez de conta que queria encontrar-se com Chávez, mas no fundo o que queria era distância dele. Para desespero do PCP, amigo do peito das FARC e, logo, também do neo-bolivariano presidente da Venezuela. E, conforme assegura o comunicado da Quinta Vigia, para satisfação do Diário de Notícias, que tem assim mais um pretexto para, por vingança, dizer mal de Jardim.
Palavra que, com esforço, até sou capaz de compreender a substância de tão arrevesado argumentário político. Confesso, porém, que me escapa aquela da putativa vingança do DN. Como já é a segunda vez no curto espaço de oito dias que o dr. Jardim denuncia os vingativos propósitos do ex-diário da Rua da Alfândega, parece-me que já é tempo de uma explicação pública. Quer por parte da vítima presuntiva. Quer por parte do pressuposto autor. Até porque os sinais que nos chegam são contraditórios no que diz respeito às relações entre o DN e o dr. Jardim.
É claro que a malta sabe que com o DN e com o dr. Jardim acaba por ser tudo mais ou menos contraditório. A verdade de hoje há-de ser a mentira de amanhã. E a mentira do momento transforma-se depressa na verdade que interessa anunciar. Mas esta do DN pretender vingar-se do dr. Jardim, francamente, não lembra ao diabo. Até porque, não tarda nada, ainda acabaremos por vê-los de mãos dadas no projecto editorial que há-de um dia suceder ao já quase finado JM. Mas isto, claro, não hão-de passar de devaneios. Porém, podem crer que serão seguramente mais verosímeis do que todas as desculpas esfarrapadas com que o dr. Jardim e os seus prosélitos pretendem disfarçar a rotunda inutilidade política da sua deslocação à Venezuela.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 8 de julho de 2008

A inconsequência da extravagância

Continuo a achar que os representantes políticos das regiões autónomas deveriam integrar as viagens de estado dos titulares dos órgãos de soberania. Pela imagem de coesão nacional que assim se transmitiria. Pela possibilidade de, em cada uma delas, se dar nota da unidade politicamente diferenciada do país que somos. E pelos canais de diálogo que dessa forma se poderiam abrir no sentido do desenvolvimento e exploração de oportunidades de intercâmbio económico entre a Madeira e os países com os quais Portugal mantém relações privilegiadas.
Acho que o país no seu conjunto beneficiaria com a institucionalização dessa prática. E a nossa condição de território insular e ultraperiférico encontraria nela um meio e um factor adicional aos que já existem de superação dos contrangimentos geográficos que nos penalizam. Ou seja, todos sairíamos a ganhar. Com uma única excepção, como é evidente: a que diz respeito aos políticos que teimam em confundir a saudável e democrática conflitualidade política e partidária com uma nada saudável acrimónia pessoal que conduz a uma quase ausência de relações institucionais com um mínimo de normalidade.
Como já se percebeu, o que motiva este escrito é a recente deslocação do dr. Jardim à Venezuela. Não com o intuito de sublinhar mais uma vez o rotundo fracasso em que se saldou. Mas para apontar a total inutilidade de que se revestiu.
Ninguém sabe, com efeito, que magnas questões levaram o dr. Jardim à Venezuela. O presidente do Governo ainda não as explicou, como julgo que devia. E, em boa verdade, a oposição ainda não foi capaz de agendar um único debate no parlamento para tratar da questão.
É claro que se sabe que o dr. Jardim foi à Venezuela contactar a comunidade madeirense. Mas para quê, com que finalidades, com que resultados concretos? Dirão os crédulos e pios portadores de uma ideia mais ou menos ingénua da política que é importante que a Madeira saiba reforçar os laços com os madeirenses da diáspora. E entendem que com esse profundo asserto arrumam de vez a questão. Enganam-se, claro está. O estreitamento dos laços entre todos os madeirenses já não pode ser feito unicamente pela simbólica via dos afectos delegados na figura do senhor presidente do governo. É preciso muito mais do que isso. É preciso, por exemplo, que esses afectos possam ser o fio condutor de uma ligação cultural, política e empresarial com vantagens recíprocas e duradouras no tempo. Quem tem das relações externas uma visão mais ou menos romântica, um tudo-nada beata, ainda que disfarçadamente hedonista, que se traduz no entendimento de que elas se resumem a umas quantas viagens de lazer disfarçadas de romagens de saudade anda enganado. Ou então, o que é pior, anda a ver se nos engana. A nós que vivemos cá deste lado. E aos nossos conterrâneos do exterior, que têm muito mais que fazer do que ouvir as balelas destituídas de substância de políticos em animadas excursões de quase férias.
Sejamos sérios. O primeiro-ministro de Portugal foi a Caracas há cerca de dois meses atrás. Foi encontrar-se com os portugueses. E foi fazer diplomacia política, cultural e económica. Numa democracia adulta, os representantes políticos da RAM deveriam ter estado lá nessa altura. E o mesmo se diga das nossas representações culturais e empresariais. Mas não. A Madeira política que o dr. Jardim considera que simboliza como expoente único e máximo quis ir lá dois meses depois. E o resultado está à vista: uns bailaricos para ali, uns discursozecos para acolá, e um sabor final a coisa nenhuma. E assim há-de continuar a acontecer. Pelo menos enquanto não aparecer por aí uma ideia séria sobre a inserção da Autonomia que prezamos e queremos aprofundar no seio do país a que pertencemos. No entretanto, continuemos a dar vivas ao folclore político e ao circo mediático que diverte muito e resolve cada vez menos.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Jogos de poder

Jaime Ramos quer luta na sucessão de Jardim. Acha que a liderança do PSD deve ser conquistada e não outorgada. E não teve qualquer problema em dizê-lo, em entrevista ao DN, para que se saiba que não está disponível para nomes impostos ou soluções de consenso.
Como é bom de ver, o secretário-geral da Rua dos Netos falou para o interior do seu partido. Mas dada a substância do que disse, parece-me bem que as suas palavras tiveram com certeza um destinatário particular: nada mais, nada menos do que o próprio Jardim.
Vamos lá a ver. Ramos não ignora que o presidente do PSD há-de fazer tudo para que a sucessão (quando e se um dia chegar) se faça sem drama. Têm sido vários os seus apelos para que os eventuais candidatos se entendam entre si. O que, por outras palavras, significa que Jardim está apostado em esvaziar qualquer aparência de disputa interna.
Não ignorando isso, Ramos sabe com certeza que uma sucessão sem drama há-de ser aquela que Jardim seja capaz de controlar. Ou, dizendo de outro modo, uma sucessão sem drama há-de ser, para Jardim, aquela que ele seja capaz de condicionar. Ora, como se calcula, isso não é coisa que interesse a Jaime Ramos.
Se olharmos com alguma atenção para a vida interna do PSD, resulta claro que Ramos teve sempre o cuidado de se colocar estrategicamente em oposição ao favorito de Jardim. Foi assim com Miguel de Sousa, quando Jardim o indicou como uma espécie de sucessor oficial. É assim agora quando Cunha e Silva aparece publicamente como o eleito do líder. E o mesmo há-de voltar a acontecer quando Jardim puxar um dia o tapete ao Cunha e, em sua substituição, resolver lançar para a ribalta um outro nome qualquer.
Jaime Ramos não brinca em serviço. Ele sabe que detém uma fatia importante do poder interno do partido. Não ignora que um partido sem Jardim há-de ser diferente de um partido com Jardim. Será outro tempo, e serão outras pessoas. E, infelizmente para ele, sabe também que não tem condições, nem objectivas nem subjectivas, para pensar que pode um dia ser líder. De maneira que só tem uma forma de preservar o poder que tem: é colocar-se sistematicamente em oposição ao candidato oficial do momento, acenando ao mesmo tempo o seu interessado apoio a um eventual challenger que ele próprio ajude a criar. Foi isso que fez no passado quando incentivou Virgílio Pereira a aceitar ser uma alternativa a Miguel de Sousa. E é isso também que faz agora quando apoia Albuquerque contra uma eventual candidatura de Cunha.
A esperteza estratégica de Jaime Ramos vai, no entanto, mais longe. Com a intuição e o calo que tem, Ramos não descura a possibilidade de jogar em todos os tabuleiros. É isso que faz, aliás, quem quer andar continuamente na crista da onda. De maneira que precisa de ir dizendo, e cada vez com maior insistência, que não está para aturar qualquer sucessão tutelada pelo chefe. Não para simplesmente bater o pé a Jardim. Mas sim para obrigá-lo, já que não quer disputas nem dramas, a vir cá abaixo negociar com ele os termos da sucessão e o nome do sucessor. Esse é o mínimo dos mínimos que está disposto a aceitar. E assim serão todos felizes para sempre. Menos, é claro, quem vier a ser excluído do testamento ou da partilha.
Bernardino da Purificação
Post scriptum
Fiz hoje pela primeira vez o que pensei nunca ter necessidade de fazer: excluí três comentários ao último texto que escrevi. Acontece que não estou disposto a dar abrigo à ofensa gratuita e ao ataque pessoal. Este blogue pretende discutir ideias e analisar situações e comportamentos políticos. Tudo o que saia deste âmbito não poderá contar nunca com a minha boleia.

domingo, 6 de julho de 2008

Um paradoxo em forma de assim

O presidente do governo regional regressa hoje à Madeira. Calculo que venha atrapalhado. Quis ser recebido pelo presidente do país que visitou, mas o mais perto que esteve da concretização desse desejo foi a mercê da reunião que lhe concedeu um vice-ministro qualquer. Será porventura exagero falar de humilhação. Porém, ninguém há-de ter duvidas de que estamos perante um revés político de monta.
Já aqui escrevi que não tenho a mais pequena dúvida de que o tratamento dispensado a Jardim há-de ter muito a ver com o estado das relações que este mantém com o primeiro-ministro Sócrates. O facto, aliás, percebe-se desde logo pela forma como foram evoluindo, ao longo da visita à Venezuela, as referências do presidente do governo ao governo central. Enquanto ainda acalentava a esperança de poder encontrar-se com Chávez, Jardim optou pelo seu lado contido e prudente: limitou-se a dizer que não é seu hábito levar para o estrangeiro as suas querelas políticas domésticas. Mas mal se esfumaram as esperanças de um encontro com o presidente(precisamente ontem), lá tivemos de volta o Jardim do costume: um político obcecado com as suas eternas querelas domésticas, mesmo estando no estrangeiro; e pronto como sempre a dar conta do agudo entendimento que tem de que o governo central não passa de uma cambada de ladrões apostados em roubar a Madeira e os madeirenses. É assim a política à moda de Jardim: se lhe fazem a vontade, ele faz por se portar bem; se lhe recusam os caprichos a que julga ter direito, aguentem-se que vai disto. O zequinha das anedotas não agiria certamente de forma diferente.
É claro que considero o episódio preocupante. Não gosto de saber que na Venezuela se deu a um conselheiro de Estado português um estatuto protocolar abaixo de ministro, ainda que tenha presente que o conselheiro de Estado em questão tem pouco apreço institucional e nenhum apreço político por essa função. Da mesma forma, incomoda-me o eventual significado simbólico do desdém com que o dr. Jardim foi tratado.
Sem pretender ser tremendista, observo que a Madeira vai estando cada vez mais isolada e estigmatizada a nível nacional, mercê da conduta pessoal e política do dr. Jardim. E registo com preocupação o facto de essa conduta poder conduzir a relações de indesejável frieza com as autoridades políticas dos países de adopção de centenas de milhar de madeirenses.
Não quer isto dizer que se deva exigir ao dr. Jardim que simpatize com o conceito de "autonomia tranquila" que certas cliques políticas nacionais pretendem impor à Madeira. Nada disso. Eu próprio, aliás, subscrevo o entendimento de que a autonomia há-de fazer-se sempre na tensão permanente com o poder central. Só que uma coisa é a dialéctica política mais ou menos acalorada decorrente dessa tensão. Outra bem diferente é a boçalidade travestida de discurso político. Enquanto isto não se entender, receio bem que a Madeira possa caminhar no sentido de um isolamento que há-de ser proporcional à desconsideração com que os seus representantes políticos são tratados. E, por este andar, não me admirava nada que o homem providencial, que o dr. Jardim julga ser para a Madeira e para os madeirenses, venha de Caracas com a percepção de que já não é solução de coisa nenhuma, mas sim um problema que nem ele próprio sabe como resolver. As eternas fugas para a frente esbarram por vezes em dramas pessoais e parodoxos assim.
Bernardino da Purificação

sábado, 5 de julho de 2008

Rendas de uma noite de Verão

Indiferente à tormentosa polémica em que mais uma vez o meteram, o JM lá vai tentando cumprir a nobre missão de informar. É assim mesmo. Mulher séria não tem ouvidos, se me é permitido, sem ofensa, recuperar um dito de outros tempos.
Hoje fui surpreendido pela relevantíssima notícia de que o Penedo do Sono vai baixar as rendas. E, como calculam, foi-me impossível conter o ó de espanto que soltei em face do verdadeiro interesse público e do inegável alcance social da medida tão estrepitosamente anunciada. Numa altura em que tudo sobe, as rendas do Penedo vão baixar! Que bom. Quanta ousadia. Que visão. Que notícia refrescante. Que alegria para as dezenas de milhar de madeirenses que, como eu, têm andado em tormentos por causa das rendas inflacionadas do porto-santense e nada sonolento Penedo. E ainda há, vejam bem, gente capaz de recusar a gratidão que decisores deste calibre nunca poderiam deixar de merecer.
Mas há mais. Para além de diminuírem para menos de metade, as rendas vão passar a ser, também elas, sazonais. Acho bem. É com medidas assim que se combate a sazonalidade do Porto Santo. Bem hajam, pois.
Ofuscado pelo brilho tonitruante do título, confesso que mal li a notícia. Porém, pus-lhe os olhos em cima o tempo suficiente para perceber que a entidade benemérita, tanto da nova como da medida, era a Sociedade de Desenvolvimento do Porto Santo. Só podia ser. Penedo do Sono é igual a SDPS. Mas como a SDPS é igual a Carlos Cunha e Silva, ainda fui ver se havia qualquer alusão ao verdadeiro capo de todas as sociedades e de todos os seus capi. Não havia. A modéstia do boss falou certamente mais alto. E, quase sem perceber como, vi-me mergulhado em momentos apaziguadores de reflexão sobre as virtualidades do despojamento e da humildade. É nestas alturas que se vê a força da notícia!
Como o mundo é ingrato, já estou a ver os maldizentes da praxe a inventar argumentos capazes de diminuir o alcance de uma medida solenemente posta em título pelo JM. Dirão de certeza que esta é mais uma demonstração da megalomania voluntarista do dito Penedo. Acrescentarão por certo que, em virtude da redução das rendas para metade, lá teremos de pagar tão indispensável infraestrutura pelo dobro dos anos previstos, ou com o dobro do esforço do orçamento da RAM. E os mais azedos não hão-de deixar de observar que é nisto que dá construir espaços que alteram a martelo a geografia da farra nocturna, sem o cuidado de envolver previamente os empresários locais com tradição feita e historial sedimentado de impostos pagos. E tudo há-de ser dito, como é evidente, em nome da má língua, esse meritório exercício que se espera nunca deixe de zurzir a loucura evidente ou disfarçada de certas iluminárias.
O mais comovente da notícia é, no entanto, a explicação. As rendas vão baixar, diz a notícia, por causa da crise nacional que há-de afectar também todos os empresários presentes ou futuros da noite do Penedo. Não resisti à explicação. Pasmei mesmo. Nunca tinha pensado que a crise nacional fosse capaz de se repercutir desta forma nas noites cada vez mais desertas do Penedo do Sono. Eu pensava que as pessoas não iam para o Penedo por andarmos todos mais ou menos tesos. E, nessa ordem de ideias, julgava que a isso se chamava crise regional. Mas não. É nacional, meus senhores. Quem o garante é o JM, depois do patrão da SDPS lho ter garantido a ele. De maneira que lá dei por mim num outro momento de profunda e profícua reflexão. Alguém disse um dia, pensei, que o bater de asas de uma borboleta na Ásia pode provocar um ciclone no resto do mundo. Pois bem, fiquei agora a saber que um simples espirro algures no rectângulo é capaz de levar uma pneumonia ao Penedo do Sono (que uns cavalheiros fizeram questão de rebaptizar como Penedo do Soco, por razões nada dignificantes). É como se fosse assim uma espécie de teoria dos fractários à moda da RAM. O que certamente há-de abonar em favor da evidente bondade da explicação.
Que me seja permitida, a finalizar, uma nota de cariz pessoal. Quando eu era pequeno, gostava de ouvir as considerações impacientes da minha avó acerca das propriedades profiláticas e/ou terapêuticas da aplicação de um pano encharcado na tromba (peço desculpa pela deselegância da linguagem) da chico-espertice e das demais qualidades congéneres. Ora, não acham que anda por aí muita gente mesmo a jeito de experimentar a bondade da receita da minha severa avó?
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Aquela coisa castanha

Com o devido respeito, o JM faz lembrar aquela coisa castanha que quanto mais se mexe pior cheira. A crueza da comparação não pretende ofender quem quer que seja. Respeito as pessoas. Faço por respeitar as instituições. E procuro não confundir considerações de natureza pessoal com observações de natureza política. Não obstante, a verdade é que o dossier Jornal da Madeira vem assumindo contornos a todos os títulos lamentáveis. Agora ficou a saber-se que esta nova mudança de planos, traduzida na elevação dos preços da publicidade e na devolução do JM ao reino dos jornais pagos, resultou de uma negociação com o DN local. É de bradar aos céus! E ainda por cima anuncia-se a coisa como se de uma coisa séria se tratasse. Haja misericórdia!
Vamos lá a ver. A prática de dumping não só é condenável à luz dos mais elementares princípios reguladores da actividade económica como entra no domínio da batota pura e simples. O que quer dizer que um eventual abandono dessa prática em resultado de uma negociação qualquer com uma empresa concorrente não lhe altera por um segundo sequer a ilegalidade de que está ou esteve ferida. Ora, é preciso acentuar que foi por ordem de um governo, e não por força de uma outra entidade qualquer, que o JM enveredou pelo caminho ínvio da batota. E importa também enfatizar que todas as decisões governamentais não devem, em circunstância alguma, perder de vista o denominado princípio da legalidade que imperativamente as obriga. De maneira que de nada lhe deveria servir esta espécie de estatuto de arrependido que o executivo regional acaba de tentar negociar com o DN. Pelo menos, ao nível da veemente censura política que não pode deixar de ser feita.
O DN opta agora por deixar cair o assunto depois de um arranjo qualquer que a opinião pública conhece mal? É lá com ele. Mas, pelo menos até ver, não é o Diário quem determina a legalidade ou ilegalidade das acções do governo, ainda que travestidas de disparatadas ou mal pensadas deliberações das empresas cuja titularidade detém. Pelo que se espera que alguém faça o favor de brindar-nos com a informação completa sobre todos os contornos da negociata anteontem anunciada em Caracas. Quem é que nos deve as explicações? Claro como a água. Elas devem partir de quem age como se tivesse o direito de intervir no mercado no mais completo descaso das regras mais elementares e ao arrepio de todas as leis. Querem mesmo que vos diga quem? Ok, aí vai. É o governo regional, posto que os nóbregas e os almeidas que andam lá pelo jornal não riscam coisíssima nenhuma, exceptuando, já se vê, as dedadas mais ou menos pegajentas que ocasionalmente colocam nas edições diárias.
Este facto, aliás, tem também muito que se lhe diga. Repare-se. Nos termos da lei, o JM tem um estatuto de empresa pública. Os seus administradores são considerados gestores públicos. E basta consultarmos as leis que regulam a actividade deste tipo de empresas para percebermos que elas têm o dever de realizar o interesse público. Seja no domínio das finalidades decorrentes da natureza do seu objecto social. Seja no domínio da exigência de transparência e rigor que se coloca à sua gestão. Ora, o que acontece no que diz respeito a estes dois aspectos é que toda a gente, a começar pelo governo, se está positivamente borrifando para as múltiplas obrigações legais do JM. Basta ver que quem gere de facto é o governo. Quem define a estratégia é a tutela política. Quem define as regras do jogo é o patrão ausente que se move por caprichos de momento ou por interesses que nada têm que ver nem com a saúde do jornal nem com as finalidades públicas que a lei lhe determina que persiga.
Temos assim, no meu entendimento de céptico, que a negociata agora estabelecida com o DN pensou em tudo menos no que deveria ter pensado. Salvaguardou os interesses do Diário. Teve seguramente em conta os interesses políticos do governo regional. Só não se preocupou um instante sequer com os interesses da empresa pública Jornal da Madeira, que os contribuintes pagam, e cujo passivo de quase trinta milhões de euros todos nós suportamos.
Quem achar que exagero vá perguntar ao dono e director do Tribuna da Madeira quantas vezes, e por que preço editorial, o poder político tentou aliciá-lo com a impressão do JM na gráfica de que é proprietário. E por esta analogia me fico, que as histórias que um dia destes me contaram sobre a utilidade real do JM tresandam a coisa nada sã. O que não belisca, como é evidente, nenhum dos profissionais que têm no jornal o seu ganha-pão.
Mas insisto. Alguém está a dever-nos explicações sobre um negócio de contornos pouco claros. Pelo que a pergunta só pode ser esta: há por aí alguma alma caridosa capaz de pedi-las? E de dá-las?
Bernardino da Purificação

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Irresponsabilidade e incompetência

O JM vai voltar a ser pago. Corrijo. O Jornal da Madeira vai voltar a ter preço de capa. Como acontecia há menos de meia dúzia de meses atrás. E como, aliás, nunca deveria ter deixado de acontecer.
Poderia, como é evidente, aproveitar a deixa para sublinhar que, a bem dizer, o JM nunca deixou de ser pago. A generosidade do orçamento regional converteu-o desde há vários anos porventura no jornal mais caro do mundo. Que os leitores têm de pagar duas vezes. E que todos os contribuintes, mesmo os que o não lêem, pagam pelo menos uma vez.
Não vou, no entanto, entrar por aí. Mesmo que venha a propósito e pudesse ser apetecível. E mesmo não ignorando que a manutenção dessa forma de financiamento não é mais do que o perverso instrumento de que se serve o governo da RAM para ilegitimamente controlar a sua orientação editorial. Limito-me, assim, a sublinhar que o episódio resume, no fim de contas, a total ausência de uma estratégia minimamente pensada no sentido da viabilização de um título que deveria merecer um pouco mais de respeito. Sem prejuízo, claro está, de um dia destes poder voltar ao tema com algumas histórias escaldantes que recentemente me contaram.
Que dizer então do anúncio de que o JM vai voltar a ser pago?
Em primeiro lugar, convém sublinhar o óbvio. Como foi o governo, e não a gerência da empresa, a entidade anunciante, isso só pode significar que os comandos efectivos do JM residem algures num eixo que nasce na Quinta Vigia e desagua actualmente na Quinta Vila Passos. A administração da empresa não conta. Existe apenas para ocupar e remunerar dois ou três fiéis servidores. E nada de relevante faz do ponto de vista da gestão criteriosa e cuidada que uma empresa com a dimensão e especificidades do JM seguramente exige.
Em boa verdade, ninguém por um momento terá duvidado que as coisas se passavam assim. Porém, convenhamos: há-de haver um qualquer limite para a ausência de decoro. Não que os gestores públicos que nada gerem possam ou devam sentir-se credores de um respeito que em bom rigor não merecem. Não é isso. Mas como há um limiar a partir do qual a ausência de respeito se transforma em desconsideração e insulto, receio bem que o episódio contribua para afundar ainda mais a já de si depauperada imagem que o JM, malgré lui, nos vem dia a dia reflectindo.
Mas, há mais. Toda a gente sabe que a política do governo relativamente ao JM (exceptuando talvez o período em que o jornal foi tutelado por Pereira de Gouveia) tem sido errática, carente de sentido ou de rumo, ausente de um fio condutor com um mínimo de coerência ou de lógica. E poucos serão os que ignoram que o jornal foi sendo gerido a partir do exterior como se não houvesse amanhã, ou como se não fosse importante, ou sequer possível, autonomizar-lhe a vontade e as contas. Foi assim desde 2000 com João Cunha e Silva. Tinha sido mais ou menos assim antes disso. E voltou a ser assim, desde 2004, com Brazão de Castro. Não obstante, tem-se andado a prometer mundos e fundos. Nuns dias agitando-se a ideia de que há um plano de viabilização em marcha. Noutros dias garantindo-se a existência de um projecto qualquer capaz de resolver os problemas da empresa. Semana sim, semana não, o anuncio de uma ideia nova. Mês sim, mês não, a promessa de um novo e engenhoso plano qualquer. E, como a Madeira é o reino por excelência da irresponsabilidade política, ninguém pede nem presta contas.
Lembro-me há uns anos de ouvir o vice-presidente do governo assegurar perante o parlamento que o JM teria as suas contas saneadas em 2004. Pois bem, o resultado do vice-presidencial plano foi um passivo acumulado de mais de cinco milhões de contos(!!!), e a posterior entrega do presente envenenado em forma de jornal ao secretário Brazão de Castro. E ninguém quis saber - repito, ninguém quis saber - por que raio uma empresa à beira da recuperação e da viabilização, no dizer convicto de João Cunha e Silva, foi capaz de cair no pântano comatoso em que se encontra.
O que veio depois, toda a gente viu. Para chatear alguém, o senhor governo decretou que o jornal passasse a gratuito. E ele passou. Durante um mês, e certamente para acenar alguma coisa aos vizinhos da frente, suspendeu-se a publicidade. E agora, seis meses passados, o jornal volta a ser pago, em obediência a um impulso e não em resultado de qualquer estratégia articulada.
O que parece, em suma, é que ninguém sabe o que é que se há-de fazer com a coisa. De modos que o gratuito que volta agora a ser pago lá vai, pobre dele, definhando nas mãos da corja de irresponsáveis incompetentes que se dão ao luxo de andar a brincar com os milhões de todos.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 1 de julho de 2008

O significado de uma omissão

Se calhar é excesso meu. Se for, peço compreensão. Quem observa a política pode levar a perspicácia e a sedução analítica ao ponto do exagero. Mesmo que o não queira, como é, manifestamente o meu caso.
Ora acontece que me anda a fazer espécie que as várias notícias já publicadas sobre a visita de Jardim à Venezuela não façam qualquer menção à possibilidade, ou à ausência dela, de o chefe do nosso Governo ser recebido pelo presidente Chávez.
Uma vez que sobre o assunto nada se diz, é de presumir que o presidente da República Bolivariana da Venezuela não vai receber o líder madeirense. E como ninguém acredita que o dr. Jardim não se tenha esforçado por conseguir, ao menos, um aperto de mão para a posteridade e para as capas dos jornais, a omissão referida não pode deixar de ter algum significado.
Acredito que o dr. Jardim esteja ainda a desenvolver esforços diplomáticos, ou outros, no sentido de regressar de Caracas sem o embaraço de não ter conseguido qualquer encontro político ao mais alto nível. E até pode ser que um milagre qualquer ainda lhe permita a sorte de conseguir dar-se ares mais uma vez de grande estadista.
Não por ele, mas pelo que pudesse significar para a comunidade madeirense radicada na Venezuela, gostava sinceramente que se pudessem reunir as condições políticas e diplomáticas para que o dr. Jardim pudesse cair nos braços do presidente Chávez. Porém, insisto: o silêncio sobre o assunto, que só pode ser intencional, não augura nada de positivo para as bandas do líder madeirense. Pelo que o mais certo é que, na viagem de regresso, tenha que pensar um pouco para arranjar uma boa desculpa para o fracasso. Nada que seja particularmente grave, como é evidente. Até porque todos sabemos que imaginação e lata são coisas que o nosso líder tem em doses muitas vezes superiores ao quanto baste.
Com a prudência de quem não sabe o que a este respeito se tenha passado, atrevo-me a avançar algumas conjecturas. No fundo, para exprimir a convicção de que o clima de azedume que envolve as relações pessoais e políticas entre o Funchal e Lisboa pode estar na origem da mais que provável indisponibilidade de Chávez em receber Jardim. Acredito mesmo que só pode residir aí a explicação para um facto que, a confirmar-se, é de todo atípico e absolutamente contrastante com a agenda de outras deslocações efectuadas por Jardim a países de acolhimento de comunidades de madeirenses.
Repare-se. É conhecida a cordialidade pessoal e política existente entre José Sócrates e Hugo Chávez. Para além disso, ainda recentemente, o primeiro-ministro esteve em Caracas com uma apreciável comitiva política e uma vasta delegação empresarial. A comitiva de Sócrates não incluiu nenhum representante político madeirense, o que deixou absolutamente furibundas as hostes parlamentares laranjas. E, nesta sequência, Jardim está agora em Caracas arriscando-se a vir de lá de mãos a abanar no que diz respeito a encontros ao mais alto nível. Por falta de interesse do próprio Jardim? Não acredito. Por falta de disponibilidade de agenda de Chávez ou de outra qualquer figura de peso do estado venezuelano? Sinceramente, não me parece.
O que verdadeiramente creio é que se Jardim não tivesse azedado as suas relações com Sócrates, os madeirenses que vivem na Venezuela poderiam, muito provavelmente, estar agora a viver o conforto de saber que o presidente do país que os acolhe estava na disposição de distinguir o presidente da Região de onde um dia partiram. E quem não acredita em tal coisa fique à espera das explicações. Elas estarão aí não tarda nada.
Termino como comecei. Se calhar estou a levar longe de mais a procura de alguma originalidade analítica. Pedirei desculpa se os factos me desmentirem. Até lá manterei a opinião. Mesmo sabendo que o dr. Jardim tem junto dele um ponta-de-lança de peso (de seu nome Horácio Roque) que pode a todo o momento consertar o que o líder madeirense tanto faz por estragar. É que, acreditem, o comendador move-se com uma habilidade digna de nota em vários tabuleiros. Até no da diplomacia.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A ditadura do gosto e a democracia do senso

Gosto da ordem. Prefiro-a, de longe, à bagunça premeditada ou à desordem organizada. E, como certamente acontece com praticamente toda a gente, faço questão de sublinhar que me agrada particularmente saber que as instituições democráticas funcionam, e que, mais do que isso, se dão ao respeito e são respeitadas.
Abomino, porém, que a ordem se pratique à martelada ou se imponha pela via da força. E detesto saber que uma instituição qualquer possa dar-se ao desplante de pensar que consegue o respeito dos cidadãos que serve sem curar de se dar previamente ao respeito.
Falo do parlamento madeirense, pois então. Porque, sem surpresa, fiquei a saber hoje que, por obra e graça do PSD e do PP, a polícia poderá passar a entrar na Assembleia para pôr na ordem os senhores deputados que se portam mal. Sendo que o critério de aferição das boas maneiras parlamentares repousa no arbítrio de sua excelência o senhor presidente da Assembleia Legislativa, o tal que é eleito anualmente por ordem expressa, e às vezes explícita, do excelentíssimo senhor presidente do governo regional.
Ou seja, o regime acaba de dar mostras de que entende que a censura política já não é suficiente para se condenar a indigência atávica ou premeditada de alguns deputados mais radicais. Não. Agora é necessária também a intervenção das forças da ordem. E amanhã, quem sabe, há-de ser preciso levar a tribunal aqueles que ousarem transgredir as regras que em cada momento possam dar jeito à maioria que nos manda.
Quer dizer: a corporação dos senhores deputados foi capaz de engendrar para si própria um sistema de imunidades absolutamente imoral. Mas quando lhe aparece pela frente alguém com falta de jeito e ausência de pachorra para actuar de acordo com os pactos corporativos que os nossos representantes entre si estabelecem, aí soam de imediato os alarmes. E o resultado é o que atrás se descreveu: a ordem à paulada, seja pela via da intervenção da polícia, seja pela tentativa de criminalização da conduta política pura de gosto duvidoso.
Todos sabemos que este entendimento proto-fascista decorre do tal incidente do relógio de cozinha protagonizado pelo senhor deputado do PND. O problema é que nenhum de nós sabe, nem nós nem os cavalheiros que dizem que nos representam, que tipo de condutas em concreto poderão merecer no futuro a mimosa intervenção da polícia de segurança pública. E isso é preocupante. Porque na falta de um rol de condutas proscritas ou a proscrever (cuja extensão só poderia ser equivalente ao delírio de quem queira dar-se ao favor de imaginá-lo), o que acabará por prevalecer há-de ser sempre a soberana vontade de quem estiver a dirigir os trabalhos parlamentares. E isso, reconheça-se, não deixa de ser politicamente inquietante e, em consequência, democraticamente intolerável.
Mas, enfim. A oposição está a partir de agora refém dos humores de uma maioria agora ampliada por via da solícita adesivagem do PP. E eu estou à vontade para dizê-lo, até porque não me coibi de aqui criticar certas condutas políticas. Como? Dizem-me que ninguém é refém dos humores, mas sim, e só, do bom senso? Mas como é que pode ter bom senso quem não é capaz de revelar primeiro um simples módico do dito (democrático, entenda-se)?
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Tempo novo com políticos velhos

Regressado há dias de mais uma viagem a Bruxelas, o dr. Jardim disse desta vez ao que foi. Fez bem. E como há dias registei criticamente a costumeira ausência de informações sobre a natureza e propósitos das suas constantes idas e vindas da capital política da UE, manda a justiça que registe agora o contrário.
Volto a sublinhar que me importa pouco o que possa fazer o cidadão Jardim nas suas quinzenais excursões europeias. Mas interessa-me vivamente aquilo que possa mover em cada uma delas o político Jardim, que, não por acaso, é presidente do governo regional da Madeira. Porque a democracia faculta aos cidadãos o direito de escrutinarem os actos dos seus representantes políticos. E, correlativamente, porque impõe também aos ditos representantes o dever de se darem ao escrutínio dos seus representados. Tal direito e tal dever foram desta vez exercitados. Congratulemo-nos com isso.
Explicou o dr. Jardim que foi a Bruxelas defender a criação de um fórum de participação, no quadro da União Europeia, para as regiões dotadas de autonomia política. Concordo em absoluto. Considero que não faz o mínimo sentido, e já aqui o escrevi, que regiões dotadas de capacidade legislativa partilhem com os municípios o mesmo espaço de representação institucional. Enquanto essa entorse ao sistema de representação não for resolvida no quadro institucional europeu nunca se poderá falar de uma efectiva Europa de cidadãos. E isso, no limite, põe em causa a democraticidade dos processos de decisão da União.
O dr. Jardim defendeu também desta vez que as verbas dos programas específicos de apoio às regiões insulares devem ser canalizados directamente para os cofres dos governos regionais, sem qualquer prévia passagem pelo Tesouro dos estados centrais. Estou novamente de acordo. Porém, antes disso, o que gostava de ver discutida era a possibilidade de as regiões participarem de uma forma activa e institucionalmente vinculativa (e não apenas consultiva, como até agora acontece, ainda por cima no local errado) na definição e desenho das políticas regionais da União Europeia. Seja no contexto nacional. Seja no europeu. Só que ao dr. Jardim interessa mais, pelos vistos, a expressão pecuniária e material dessas políticas. Como estou certo, aliás, que é assim que vêem também a questão os restantes partidos políticos portugueses do arco europeu e constitucional.
Lamento que assim seja. Porque enquanto se colocar a contabilidade ou a cupidez das ajudas à frente dos direitos de cidadania nunca se há-de conseguir mobilizar verdadeiramente os cidadãos para as inegáveis virtualidades do projecto europeu. Mas isso, claro, só vai acontecendo porque vivemos num tempo novo que se vai fazendo, porém, com políticos velhos.
Bernardino da Purificação

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Cinismo de "velha meretriz"

Nada que não tivesse já sido previsto. O dr. Jardim, naquele seu jeito mais ou menos hiperbólico, acaba de comparar o eng. Sócrates ao ditador empedernido e impenitente que responde pelo nome de Robert Mugabe. Desta vez, o motivo foi a lei que ameaça de fecho o JM. Numa próxima, há-de ser outro, que para o dr. Jardim todos os motivos são bons para chamar qualquer coisa ao primeiro-ministro.
Como sei que os iguais se reconhecem, recuso-me terminantemente a defender o eng. Sócrates. Não obstante, soa-me a exagero o que dele disse o líder madeirense. Se Sócrates fosse o senhor todo-poderoso de uma autarquia de latitude africana ainda acredito que pudesse ser aceitável a comparação. Mas como à sua volta existem, graças a Deus e à prudência dos homens, uma boa mão cheia de mecanismos de contra-poder e de fiscalização do poder, mesmo que o quisesse, o eng. Sócrates nunca poderia sequer assemelhar-se a uma amostra, ainda que pálida, do ditador do Zimbabwe.
Para desgraça do bom senso e dos mais de cem trabalhadores do JM, a discussão do seu futuro há-de ser feita no azedume deste registo. É o pior que lhes poderia acontecer. Como tive ocasião de expressar há algumas semanas atrás, a via negocial é a única forma construtiva de resolver o problema do JM. Reitero tudo o que então escrevi. Contaminar a discussão do futuro do JM com o vírus da acrimónia pessoal e da grosseria do insulto não levará seguramente a qualquer solução politicamente equilibrada e socialmente justa. E o dr. Jardim não o ignora. De maneira que nunca se livrará da suspeita de que para ele este episódio do JM não passa de um mero pretexto para manter viva a guerra pessoal e política em que não abdica de ver transformadas as suas relações (e as da Madeira) com o poder central.
É pena que, em nome do racionalismo político e da frieza analítica que lhe têm assegurado a longevidade, o dr. Jardim não tenha pejo em servir-se de tudo o que lhe possa alimentar uma estratégia que, em bom rigor, só ele conhece. As instituições que a democracia lhe coloca nas mãos não passam de instrumentos que utiliza a seu bel-prazer. E, o que é manifestamente pior, as pessoas cujo destino tem o poder de influenciar não são mais do que meros peões das batalhas políticas que, para seu exclusivo proveito, passa a vida a congeminar. O cinismo político da "velha meretriz" que se orgulha de ser está a esgotar-lhe a humanidade que em tempos era capaz de exibir. E um dia destes vão ficar a percebê-lo os mais de cem trabalhadores do JM. Do mesmo modo que um dia a Madeira inteira é bem capaz de vir a entendê-lo. A menos, claro, que ainda seja capaz de arrepiar caminho. Até porque de outra forma lhe faltará sempre a legitimidade para chamar ditador a quem quer que seja.
Bernardino da Purificação

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O que diz Gaula

De repente, Gaula ocupou o centro da política madeirense. O PSD ganhou e assegura que esta é só mais uma de muitas vitórias. O PS assobia para o lado, vitimiza-se, e finge que não percebe que os tempos não correm a seu favor. Os partidos que se demitiram da luta política e a ela se apresentaram pela interposta candidatura dos independentes fazem de conta que não é nada com eles. E estes últimos continuam a apontar o dedo ao PS quando, afinal, a verdadeira derrotada neste acto eleitoral foi a traição política que perpetraram.
Acho, com franqueza, que as eleições de Gaula não merecem que sobre elas se diga muito mais. A não ser talvez que as suas incidências constituem a síntese perfeita da política madeirense. Enquanto todos brigam e se travam de razões na praça pública, o PSD vai somando. E enquanto o PSD vai somando, vão continuando todos a brigar e a travar-se de razões na praça pública. Um verdadeiro círculo vicioso, em suma. Que ao PSD interessa que se mantenha por muitos e bons anos. E que ninguém da oposição revela ter talento suficiente para romper. E o resto não passa de folclore.
Dito isto, importa acentuar que o PS faz mal em tentar relativizar a extensão da sua copiosa derrota eleitoral. Em boa verdade, ele era o único partido que não podia perder. Ora, mesmo sendo verdade que teve contra si uma coligação formada por toda a gente, há aspectos da gestão da sua política autárquica que não podem deixar de merecer uma séria reflexão. Mas há mais. Queira ou não queira a direcção regional socialista, a ideia que a partir de hoje há-de circular será mais ou menos a seguinte: o eleitorado local (se Gaula representa alguma coisa) não quer saber deste PS para coisa nenhuma; as últimas regionais demonstram que os eleitores da Região estão longe de levar a sério a actual direcção socialista; e, como é público e notório, nem a direcção nacional do partido credita um mínimo de importância a Gouveia e seus pares. Só não há-de enxergar isto quem, por conveniência ou simples cegueira, continua a apostar tudo numa estratégia (dando de barato que há efectivamente alguma) que mais não serve do que assegurar aos do costume o lugarzito que têm.
Bernardino da Purificação

domingo, 22 de junho de 2008

A alcateia desavinda

Não custa nem será exagero reconhecer que o ultraperiferias constitui um caso no contexto da blogosfera madeirense. É imensa a quantidade de informação relevante que nos faculta. E, por outro lado, constitui às vezes um verdadeiro barómetro da meteorologia interna do universo laranja.
Não quero cometer a injúria de olhar para ele como quem olha para uma central de propaganda partidária. Não ignoro, é certo, as ligações e responsabilidades políticas do seu autor. Porém, pelo que me tem sido dado ler, não tenho quaisquer dúvidas em creditar-lhe uma saudável autonomia de pensamento e propósitos.
Dito isto, não creio que LFM deva sentir-se incomodado com eventuais leituras políticas que os seus escritos possam suscitar. As coisas são o que são. E um dirigente partidário há-de ser sempre um dirigente partidário. Sobretudo para quem com ele priva na via exclusiva da leitura dos seus escritos.
O cuidado deste intróito radica no facto de gostar pouco de equívocos. Ora, como volta e meia surpreendo umas nem sempre divertidas trocas de mimos entre LFM e outros respeitáveis autores de blogues (só explicáveis à luz da conflitualidade partidária que entre eles se sabe existir), prefiro evitar ver-me envolvido em querelas que ultrapassam a saudável discussão de ideias. Até porque, nesta fase da vida, as ideologias fascinam-me bastante mais do que as organizações partidárias que temos.
Tudo isto, em suma, para constatar que o dirigente partidário LFM não se cansa de, através do seu blogue, nos dar conta da turbulência que se vai instalando no interior do PSD. Há dias vimo-lo lamentar a total falta de coordenação observável ao nível da acção do governo. Agora observamos-lhe as farpas a propósito das divisões internas cada vez mais visíveis nas hostes sociais-democratas madeirenses, que o congresso nacional laranja mais não faz do que amplificar.
Como pessoa educada que parece ser, LFM tem recorrido ao eufemismo. Assim, a mencionada falta de coordenação política da actividade governativa foi por si descrita como não passando de um mero problema de comunicação a que é preciso pôr cobro. E quanto às dissensões internas descortináveis no seu partido, LFM prefere tê-las à conta de uma qualquer sede de protagonismo que terá começado, de repente, a atormentar certas figuras do jet set laranja.
Não cometo a deselegância de pensar que LFM não vê o que está à vista de todos. Ele vê, com certeza. Porventura, muito melhor do que nós, dado o conhecimento privilegiado que tem. De maneira que compreendo que o dirigente partidário, que o incansável autor do ultraperiferias não deixa de ser, reduza a uns quantos eufemismos e a algumas farpas as suas observações a propósito do PSD e do governo. Em boa verdade, não pode fazer outra coisa. A militância e a solidariedade partidária a isso certamente o obrigam. O problema é que o observador autónomo que gosta de ser convive mal com uma realidade a que não estava manifestamente habituado. Que se traduz numa total ausência de coordenação política. Que evidencia uma notória falta de comparência de quem devia liderar o governo e o partido. E que se exprime na forma como cada um vai começando a organizar a vidinha sem pensar, como outrora, em prestar contas ao chefe.
Digo de outro modo. O que LFM seguramente vê mas não pode dizer é que iniciámos já o pós-jardinismo, mesmo que Jardim continue a andar por aí. Compreendo o incómodo: não há nada mais ingrato do que ver um bando de ex-seguidores a fazer-se já ao futuro com o presente ainda vivo. E, se calhar, LFM acredita que os seus eufemismos e farpas podem fazê-los e fazer-nos pensar que o dr. Jardim ainda é capaz de, a qualquer momento, puxar novamente as rédeas à situação e assim acabar com o desnorte (ou será antes com o bem norteado "salve-se quem puder"?) que parece ter vindo para ficar. Cada um, é claro, acredita no que quer. Eu, por mim, não lhe recomendaria tanto optimismo. Até porque os lobos alimentados por e à custa de Jardim cresceram já o suficiente para se considerarem desobrigados da continuada sujeição à sua tutela.
Bernardino da Purificação

sábado, 21 de junho de 2008

Orgulhosamente só

Anda para aí uma lamúria porque a nova líder do PSD não teve uma única palavra para com as autonomias insulares. A dita corre ainda de forma razoavelmente surda. Mas, tendo em conta os becos por onde anda, é já suficientemente audível para se perceber que está assim encontrado um ponto de fricção entre a Rua dos Netos e a São Caetano.
Ou seja, o que passa a partir de agora a dividir os companheiros laranjas de aquém e de além mar já é muito mais do que a circunstância de a dra. Manuela Ferreira Leite não passar de uma representante do establishment, no cáustico dizer do ex-candidato a candidato a líder, Alberto João Jardim. A esse evidente facto, que é obviamente grave, juntou-se agora uma outra razão de queixa. A dra. Manuela é com toda a probabilidade contra as autonomias. Ou, no mínimo dos mínimos, está-se nesta altura mais ou menos borrifando para esse candente problema nacional que consiste em saber se os parlamentos das ilhas estão em condições de assegurar aos seus representados uma vida democrática decente. E isso, é claro, não pode ter perdão. O que, por outras palavras, há-de significar que, pelo menos este ano, os social-democratas madeirenses ficarão privados de confraternizar com a dra. Ferreira Leite na liturgia do Chão da Lagoa. É muito bem feito. Se quiser cá vir para a próxima experimentar a gincana etílico-radical que a maioria dos seus antecessores teve a oportunidade de conhecer, então que aprenda a tratar com mais respeito a autonomia insular.
É verdade que a dra. Manuela centrou o seu discurso nos magnos problemas da pátria. Do desemprego à inflação. Do escassíssimo crescimento económico ao dramático aumento do número de pobres. Mas não lhe haveria com certeza de ficar mal se tivesse acenado um mimo qualquer ao dr. Jardim. Era o mínimo que se lhe exigia. Sobretudo se tivermos em conta que praticamente todos os seus antecessores sedimentaram a prática quase ritual de uma palavrinha dirigida aos social-democratas das ilhas. Mas não. Fosse lá pelo que fosse, por uma questão de economia verbal, ou por não querer esquecer as traulitadas que lhe deu o líder madeirense, a Dra. Ferreira Leite ignorou o dr. Jardim. E isso não se faz.
Eu receio bem que o episódio possa ser interpretado como prova do crescente isolamento político de Alberto João Jardim. Um disparate, já se vê. Quanto mais não seja porque, tendo muitas, poucas ou nenhumas queixas, os líderes nacionais vão passando, ao passo que o dr. Jardim fica. Sozinho, mas fica.
Como? Isso não constitui prova nenhuma da putativa bondade política desta espécie de orgulhosa solidão à moda da ilha? De facto, não. Mas, deixem lá. O que possa perder-se em solidariedade ou companhia há-de ganhar-se seguramente em exotismo. E isso há-de ser com certeza alguma coisa.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A Autonomia e a sociedade civil

Suponho que não erro se disser que um dia destes vai recomeçar a discussão política sobre essa estranhíssima entidade que dá pelo nome de representante da República. É claro que hão-de passar o Chão da Lagoa e o Verão. Mas, logo depois, é certo e sabido que as forças políticas regionais vão tratar de começar a medir o pulso uns aos outros na perspectiva da próxima revisão constitucional.
O dr. Jardim já fez saber que o PSD tenciona dramatizar politicamente a questão do poder legislativo do parlamento madeirense. Basta isso para se perceber que essa discussão terá que ter no seu centro o Palácio de São Lourenço. A menos, claro está, que todos resolvam fazer de conta que não percebem que uma tal discussão não pode passar ao lado nem do problema da fiscalização preventiva dos diplomas legislativos ou regulamentares regionais nem da controversa questão do estatuto do representante da República.
Porque gosto de deixar as coisas claras, e a título de declaração de interesses, declaro desde já que entendo que a autonomia constitucional portuguesa deve evoluir no sentido da consagração do mecanismo da fiscalização sucessiva como único instrumento de controlo da legalidade e conformidade constitucional das leis regionais. A fiscalização preventiva constitui, no meu modestíssimo entendimento de leigo, uma intromissão preconceituosa e indesejável na nossa capacidade de legislar sobre as questões que nos dizem respeito. Deveria por isso deixar de ser possível. Em conformidade, entendo que deve ser pura e simplesmente extinto qualquer cargo que tenha sido criado para esse efeito.
Esclarecido este ponto, quero apontar o dedo a todos os que, no próximo processo de revisão constitucional, nos vierem vender de novo a ideia de que temos vindo a evoluir em matéria de autonomia política por via da criação mais ou menos paliativa de sucedâneos do entretanto extinto, embora não inteiramente finado, ministro da República. Receio bem que isso possa voltar a acontecer. Pelo menos, a avaliar pelas indicações do passado recente.
Repare-se. Até os mais encarniçados autonomistas do PSD foram capazes de nos vender a ideia de que a extinção do cargo de ministro da República, e a sua substituição pelo cargo actual de representante da República, constituiu um passo adiante em matéria de autonomia. E nós, claro, acreditámos. Porque quem o dizia era gente insuspeita em matéria de fervor autonómico. E porque se fez criar a ideia de que o único problema da existência de um tal cargo decorria do facto de ele parecer estar ligado a uma concepção mais ou menos soberanista e reservada das autonomias insulares.
Como não há estudos nem opinião no espaço exterior aos partidos, poucos terão reparado que a emenda feita é potencialmente pior do que o soneto emendado. E praticamente ninguém notou que a designação representante da República é muito mais pesada politicamente do que a entidade que veio substituir.
Repare-se. Quem representa a República representa necessariamente todos os portugueses, madeirenses naturalmente incluídos. E representa por isso a Autonomia que temos, a legalidade democrática em que vivemos, bem como todo o quadro de direitos e valores inerentes à dignidade de que somos portadores enquanto cidadãos e pessoas.
Isto quer dizer que, em matéria de representação, os madeirenses e açorianos são representados não apenas pelos órgãos políticos que directamente elegem (nacionais e regionais), mas também por um órgão investido de uma função política fiscalizadora. Assim uma espécie de provedor autonómico mais ou menos envergonhado.
Dir-se-á que essa fiscalização tem limites definidos pela lei. Mas será que os tem mesmo? E se um dia o representante da República (logo, também dos madeirenses) decide que pode ter uma interpretação lata, extensiva e transversal dos limites da Autonomia e dos interesses dos cidadãos portugueses da Madeira? Se tal acontecesse, não poderíamos chegar a um ponto de atrito ou de impasse institucional que o país e a coesão nacional seguramente dispensariam? Receio sinceramente que sim, sem prejuízo de aqui dever reiterar (o que faço com toda a humildade) a minha evidente condição de leigo numa matéria que, infelizmente, continua na disponibilidade exclusiva dos partidos.
O problema destas coisas, de facto, é que na Madeira não há um único fórum, uma única sede (fora do quadro dos partidos, insisto) que aprofunde ou investigue estas matérias. O que quer dizer que a sociedade civil madeirense vai andando continuamente ao jeito de todos os embustes que até os autonomistas empedernidos periodicamente lhe servem. Como vai com certeza verificar-se mais uma vez quando, lá para depois do Verão, se começar a discutir de novo a evolução e limites constitucionais da Autonomia.
Bernardino da Purificação

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Nas asas da sorte

Uma queda de enormes pedras na Ponta do Sol voltou a revelar-nos que só a sorte nos continua a separar da tragédia. Agradeçamos-lhe, pois. Pelo menos, enquanto ela durar. E, já agora, façamos figas e votos para que continue a valer-nos, pelo menos enquanto continuarmos a arriscar para além do razoável.
Tenho pouca pachorra e nenhum feitio para discursos lamechas de pendor mais ou menos moralista. E sou, por temperamento, visceralmente contra os que não resistem à tentação de cair sobre os desastres com a sofreguidão dos necrófagos. Não obstante, ao ver as imagens que as televisões nos mostraram, foi-me impossível reprimir a incómoda sensação de que a incúria de quem manda já vai longe de mais. Desta vez foram só dois carros destruídos e um susto, no mínimo, do tamanho assustador dos bocados de encosta de várias toneladas que desabaram escarpa abaixo. E da próxima, como será?
Quase mais impressionante do que as imagens televisivas foi a gaguejada mas reveladora sinceridade do presidente da Câmara da Ponta do Sol. Compreensivelmente, o homem parecia mais assustado do que consternado. Não era caso para menos. Mas, ou teve o azar de escolher mal as palavras, ou não fez mais do que deixar libertar a tensão que a esta hora deve ainda estar a sentir.
Disse em jeito de explicação o ainda trémulo autarca que a Câmara não esperava que a encosta desabasse tão cedo. Este tão cedo acordou-me. E fez-me perceber quão felizardos temos sido por termos do nosso lado um bem tão escasso como é a sorte. Então a Câmara da Ponta do Sol sabia que a falésia um dia havia de despencar lá do alto e não disse nada a ninguém? Pior do que isso. Então os responsáveis governamentais e camarários permitiram que centenas de pessoas sob ela passassem todos os dias, brincando sem o saberem com a possibilidade brutal de uma morte horrenda, só porque suas excelências acreditavam que a derrocada que sabiam certa poderia acontecer mais tarde e a horas mais convenientes? Mas desde quando é que estas coisas podem ficar à guarda das crenças desta gente? Um indivíduo fica até sem palavras. E que tal se fossem brincar à política para onde nunca pudessem fazer mal a ninguém? Mas isso, se calhar, já seria sorte de mais.
Bernardino da Purificação

O bloco central ataca de novo

Todos os sinais indicam que no próximo ano assistiremos no país à emergência recauchutada de um novo bloco central. Ninguém conseguirá provavelmente uma maioria absoluta. De maneira que, às dificuldades decorrentes da conjuntura económica, somar-se-ão com certeza problemas de governabilidade e estabilidade política. Mesmo admitindo que o PS ganha as eleições, não é crível que possa fazer uma coligação com o BE. A relação crispada entre ambos e a natureza que o Bloco tem de partido de protesto inviabilizam à partida uma tal possibilidade. À esquerda fica então a sobrar o PCP. Mas como o socrático PS não há-de querer assustar o eleitorado do centro, uma coligação com os comunistas estará, também ela, descartada à partida. Mesmo considerando que um eventual entendimento político com o partido de Jerónimo poderia trazer como bónus o fim das acções de rua que ameaçam exaurir o moral das tropas socialistas. Restam assim os partidos situados à direita. Ora, destes, só o PSD estará em condições de oferecer garantias de estabilidade, tanto por razões de aritmética política, como por razões de contiguidade ideológica e programática com o PS actual. Alguns factos folclóricos recentes, tais como os artigos assassinos de Mário Soares ou o contravapor da súbita exaltação poético-esquerdista do camarada Manuel Alegre, são a prova provada dos incómodos que uma tal proximidade já começa a provocar.
Não sendo adepto de blocos centrais ou de coisas quejandas, confesso que o cenário está longe de me agradar. Até porque não ignoro que, no simplismo redutor, porém operativo, de uma grelha de análise marxista, ele não seria mais do que a projecção na superestrutura política do que, em bom rigor, há muito se passa ao nível da infraestrutura económica que efectivamente conta. A promiscuidade entre a política e o mundo dos negócios não é de todo uma coisa que me atraia. E a ameaça de que essa promiscuidade pode um dia ganhar uma expressão institucionalmente legitimada só pode causar-me urticária. Não obstante, é esse o cenário político que se prefigura. Salvo, é claro, qualquer incidência mais ou menos imprevisível que neste momento, e por falta de informação, não seja possível ponderar.
O que é que a política da Madeira tem que ver com isso? Tudo, como é evidente. Não apenas porque, como dizem os teóricos, toda a política é política local. Mas sobretudo pelo gozo que nos haveriam de dar os embaraços que um bloco central em Lisboa certamente traria às direcções regionais do PSD e do PS, e pelo fôlego autonomista que as restantes forças políticas poderiam colher desse quadro, se porventura o quisessem aproveitar.
Tudo isto dito, devo confessar que compreendo mal que o dr. Jardim pareça inclinado a nem sequer pôr os pés no congresso nacional do PSD. Seria ali, e não no recato de outro sítio qualquer, que ele encontraria o palanque adequado para dizer ao partido e ao país o que pensa de soluções políticas do tipo bloco central. Sabe-se, é claro, que ele se diz contra. Só que pensar ou dizer é facílimo. Coisa diferente é aceitar as consequências de uma vinculação pública a tudo o que se diga ou pense. Ora, Jardim sabe que não há nada mais politicamente relevante e vinculativo do que uma posição assumida na solenidade de um congresso. Sobretudo se essa posição for contrária à corrente dominante, como seria certamente o caso.
O dr. Jardim está entalado, em suma. É contra a constituição de um bloco central. Sabe que o assunto vai estar em cima da mesa no próximo congresso, até por causa da próxima revisão constitucional (o PSD está num ponto em que nem tem força sequer para assumir-se como minoria de bloqueio). Porém, não lhe dá jeito ir lá dizer o que inequivocamente pensa, porque não ignora que isso ficaria devidamente registado para memória futura. E o futuro, toda a gente o sabe, é algo que assusta os políticos. Sobretudo os que, como Jardim, só sabem e ousam gerir o presente.
Bernardino da Purificação

terça-feira, 17 de junho de 2008

As fardas, as togas e as leis

O dr. Jardim, que não é separatista, lamenta hoje em artigo de jornal que, na Madeira, o Estado português só existe com as suas proibições, com as forças militares, as polícias, os tribunais e uma fiscalização apertada da produção legislativa regional.
O dr. Jardim, se fosse separatista, não lamentaria seguramente coisa diferente. Ficaria maçado com os limites legais ao seu quase poder absoluto. Sentir-se-ia desconfortável com a presença no território de um exército de ocupação. Desesperaria por não poder dar ordens directas às forças que nos asseguram a ordem pública. Guincharia de irritação por não ter nas mãos o poder de nomear e condicionar juízes e procuradores. E, em nome do seu povo, haveria de fazer da cruzada contra a compressão constitucional do poder legislativo da assembleia regional a luta da sua vida.
Fico satisfeito pelo facto de o dr. Jardim não ser separatista. Por ele, desde logo. Não há nada que me faça mais infeliz na vida do que ver políticos em perpétuos estados de alma. Mas também por mim, permitam-me que confesse. Porque, sinceramente, sinto um arrepio só de imaginar que teria de zarpar da minha terra se um dr. Jardim qualquer (este ou outro que por aí venha num futuro mais ou menos longínquo) pudesse mandar um dia nas polícias e na tropa, nos acusadores públicos e nos juízes, e pudesse ter nas suas soberanas mãos o poder de legislar a gosto de um qualquer freguês de circunstância.
Leve-se, portanto, à guisa de acto falhado ou de mero desabafo o lamento do dr. Jardim. O que ele, no fundo, pretende dizer é que as fardas e as togas exercem sobre ele um fascínio que vem de outros tempos. Ou, dito de outro modo, o texto que hoje li no JM não é propriamente da autoria do político que dizem que nos governa. É do militar angustiado que serviu heroicamente a pátria na secretária dos bravos. Mas é também do advogado ou do magistrado frustrado que um dia, por razões de urbaníssima sobrevivência, se desviou da vocação sonhada porque um tio rico lhe cometeu a maldade (se calhar, em virtude dos méritos observados) de ofertar uma vaquinha mimosa para que, de uma assentada, se pudesse fazer sócio e presidente da cooperativa agrícola do Funchal.
O mistério da vida tem destas coisas. A gente sabe que um dia nasce. Mas nunca ninguém há-de saber por que raio e por que artes um simples bovino ofertado, sobretudo se leiteiro, é assim tão capaz de nos conduzir o destino à revelia dos sonhos que temos. Ora, como é do domínio público, foi exactamente isso que aconteceu ao dr. Jardim, o jovem. De maneira que agora não espanta que o dr. Jardim, o velho, se não contente, em matéria de fardas, em só passar revista às paradas luzidias das nossas corporações de bombeiros, se não alegre, em matéria de togas, em só ter de passivamente acatar as decisões dos tribunais, e se não conforme, em matéria de leis regionais, com o controlo a meias que exerce sobre a Assembleia Legislativa com essa exótica figura que representa legalmente a República e não apenas o Estado.
Veja-se bem o que pode uma simples e pachorrenta vaquinha. E ainda há quem duvide da teoria e da força do acaso.
Bernardino da Purificação

domingo, 15 de junho de 2008

Os camionistas e os Sousas

Ou é impressão minha ou temos um debate urgente a fazer na Madeira. Não acho que esteja a descobrir a pólvora. Longe disso. Reconheço, aliás, que praticamente não temos discutido outra coisa nos últimos anos. Mas como os últimos dias nos trouxeram factos novos, à pertinência do tema veio juntar-se agora o aviso da necessidade de um outro tipo de ponderação.
Como se calcula, estou a referir-me ao problema da extrema dependência da região em relação ao exterior. O assunto, não o ignoro, é recorrente. Porque se relaciona com a nossa condição insular. E porque, nessa medida, é parte integrante do núcleo de fundamentos da autonomia política que temos. E ainda que os temas permanentemente em cima da mesa incorram no risco da banalização, julgo que ninguém conseguiu evitar um sobressalto pela recente exibição pública do nosso isolamento.
Atalhemos directamente a questão. Para recordarmos que o país esteve durante dois ou três dias literalmente nas mãos de duas ou três dezenas de camionistas. E para concluirmos que, pela mesmíssima ordem de razões, a Madeira se encontra literalmente à mercê dos humores de um determinado grupo económico.
O que se passa, de facto, é que os Sousas e os sindicalistas seus associados estão para a RAM como os camionistas estão para o país. Uns e outros têm nas mãos os nossos abastecimentos. E, nessa medida, tanto uns como outros acabam por ser detentores de um poder que ultrapassa os limites do razoável.
O Estado tem instrumentos capazes de conter ou de acomodar esse poder às suas necessidades vitais? Consta que sim. A maçada é que em situações extremas, como as que se viveram há dias no continente, o Estado hesita, embrulha-se, engasga-se. E o resultado foi o que se viu: bombas de gasolina secas; o país à beira do racionamento de certos produtos essenciais; a agro-pecuária lusa à beira de um ataque de nervos; a população em geral insegura e sob a ameaça da carência; e a classe política de repente rendida à necessidade de nos dotarmos de reservas estratégicas.
Como não sou entendido nestes assuntos, ignoro se é exequível ou até mesmo prático equacionar também para a Madeira a possibilidade de constituição desse tipo de reservas. O senso comum e os meus interesses de consumidor que vive numa terra que nada produz dizem-me que sim, que essas reservas não só são úteis como se afiguram mesmo indispensáveis. Porque é sabido que temos pela frente a ameaça de uma crise energética e alimentar à escala global. E porque, como os factos demonstram, basta um simples estremeção para que essa crise larvar e estrutural em que vivemos já assuma picos de carência e dramatismo local.
Suponho, portanto, que alguma coisa tem de ser feita neste domínio por parte de quem tem a responsabilidade pelo planeamento da nossa vida colectiva. Pelo menos, ao nível da informação que é devida ao povo que vota. E ainda que a nossa extrema e total dependência em relação ao exterior, aliada à nossa pequena dimensão territorial, possa traduzir-se na impossibilidade prática de constituição de stocks de dimensão suficientemente tranquilizadora, julgo não ser demais exigir a quem nos governa que vá começando a acertar com o governo central todo o tipo de medidas susceptíveis de colocar as nossas necessidades de abastecimento a coberto de indesejáveis rupturas. Até porque, como diz o povo na sua inquestionável sabedoria, quem vai para o mar avia-se em terra. E eu nem quero pensar no que pode acontecer se um dia dá a louca aos Sousas e aos amigalhaços dos sindicatos da estiva.
Bernardino da Purificação

sábado, 14 de junho de 2008

Casamento com o acaso

Li ontem no pravda (o ilhéu, não o local) um pequeno texto que pretende fazer uma espécie de apelo à memória com uma finalidade de certa forma justiceira.
O dito cujo relaciona os acontecimentos que culminaram com o trágico desaparecimento de um antigo presidente do conselho de administração da EEM com um esquisito processo em que, segundo diz, se terão cruzado o jornalismo e o ajuste de contas.
O pravda saberá certamente do que fala. Quanto mais não seja, para fazer jus ao nome que ostenta. Não obstante, não resisto à tentação de dizer que me parece um bocado simplista a tese que deu à estampa. Vai daí, lembrei-me de uma história que em tempos prometi divulgar. Não com o propósito de corrigir as putativas verdades do pravda. Mas apenas e só porque vem a talhe de foice.
Então é assim. Por um milagre do destino, de um bruxedo qualquer, ou por obra e graça de um qualquer capricho do acaso, o dr. Cunha e Silva foi investido em 2000 nas funções de vice-presidente do governo. Diz quem sabe que o processo que antecedeu a posse foi atribulado. Jardim ponderou a possibilidade de ter duas vice-presidências. Mas a ideia acabaria por ser imediatamente descartada para que nada pudesse ensombrar a unção do dr. Cunha. Este último propósito, aliás, levou o dr. Jardim a ceder aos desinteressados conselhos do seu futuro vice. E de tal maneira cedeu que chegou mesmo a convidar o actual presidente da EEM, Rui Rebelo, para o cargo de secretário regional de Finanças.
Pasmados com a novidade? Acredito que sim. O dr. Rui Rebelo nada tinha no currículo que especialmente o recomendasse para o lugar, a não ser, como já se percebeu, a posse desse magnífico atributo que consiste em ser amigo fiel do dr. João Cunha e Silva. O problema de ambos é que as canelas do indivíduo tremelicaram mal Jardim formalizou o convite. E assim, o dr. Cunha viu-se de repente a braços com a maçada de ter de procurar outro nome para as Finanças, ao mesmo tempo que o dr. Rebelo lá teve de voltar lugubremente para o seu lugarzito subordinado de director financeiro da EEM.
Como gente secretariável é o que mais abunda nesta terra, o convidado seguinte foi o dr. Garcês. Embora não pertencesse ao restrito mas selecto clube de amigos do dr. Cunha, o dr. Garcês tinha a seu favor o facto de valer politicamente zero, e de possuir uma personalidade, digamos, acomodatícia, se é que me faço entender sem necessidade de ofender o homem. De maneira que o dr. Garcês lá se alcandorou ao lugar de secretário de Finanças, no que passou a constituir a mais evidente prova provada (a seguir, é claro, da ascensão do dr. Cunha à vice-presidência do governo) de que tudo é possível nesta vida e, em particular, nesta terra.
Só que um processo assim acaba sempre por deixar problemas mal resolvidos. Um exemplo: tendo o dr. Rebelo estado à escassa distância de um sim de ser membro do governo da RAM, não se afigurava razoável que pudesse permanecer na subalternidade de uma direcção financeira. Ainda por cima, de uma empresa directamente tutelada pelo amicíssimo Cunha. O problema é que a sua nova condição de personalidade secretariável esbarrava num impedimento de monta: o lugar que ambicionava de presidente da EEM estava ocupado. Nada, é claro, que o dr. Cunha e o destino não pudessem resolver, como os factos posteriores vieram revelar. Até porque o então presidente da EEM não pertencia nem à clique do dr. Cunha nem ao selecto clube dos seus apaniguados.
É sabido que só há duas maneiras de desalojar alguém de um cargo. Seja na política, seja na vida empresarial. Uma é a bem. A outra é a mal. Ora, desgraçadamente para o malogrado ex-presidente da EEM, entretanto substituído pelo ex-secretariável dr. Rebelo, a elegância desta gente ordinária que vemos instalada nos vários níveis do poder social e político desta terra escolheu a segunda (a pior) das duas hipóteses. E o resto da história é de todos conhecida.
Estarei com isto a insinuar responsabilidades diversas das que o pravda se permite apontar? Podem crer que não. Até porque sei que entre nós, e no mais das vezes, a responsabilidade ou morre solteira ou faz-se noiva do acaso.
Bernardino da Purificação

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Conversa da treta

Ora aí está uma medida governativa de verdadeiro alcance social: a cerveja vai passar a escorrer com maior fluidez, por via de uma diminuição da taxa de IVA que sobre ela incide. Acho bem. Por um lado, o calor aperta. Por outro, as agruras da vida são tantas que o melhor é afogá-las a baixo custo.
É verdade que a democraticidade da coisa deixa um bocado a desejar. O tintol, por exemplo, está em choque perante tamanha discriminação. E, dos fundos do coma alcoólico em que o querem manter submerso, vai observando que já passaram há muito os tempos em que os molhos constituíam a sua mais rendosa serventia. O gin tónico nem quer acreditar no que lhe está a acontecer. Como se já não lhe bastassem, em matéria de estigmas, todas as ressacas e figadeiras que ocasionalmente provoca. E nem o velho scotch, esse cúmplice e fiel companheiro de tantas noitadas, consegue passar ao lado de tão discriminatória medida.
Compreendendo as razões de tais etílicos fluidos, não posso, porém, deixar de observar que governar é ter a ousadia de fazer escolhas. Quem nos governa gosta mais de cerveja? Pois fiquem sabendo que a democracia tem para isso bom remédio. Para a próxima vote-se em quem tenha a coragem de se comprometer com o tintol (sem qualquer desprimor para o branco, como é evidente), ou até mesmo com o gin ou com o scotch.
Dirão que estas duas últimas opções são francamente minoritárias quando comparadas com a cerveja ou com o tinto. Têm razão. Ainda assim, meus senhores, atrevo-me a deixar três ou quatro ingénuas e bem intencionadas perguntas. Afinal, o que é feito da tolerância? E o espaço e a voz das minorias, onde anda? Escolher o humanismo das democracias não significa assumir um compromisso de defesa dos mais fracos?
Estou seguro que todos responderemos que sim a estas singelas questões. Em todo o caso, até por ser pouco dado a coligações alcoólicas, insisto: governar é escolher. E o nosso senhor governo fez bem em optar. Ao menos por esta vez. Dava mais jeito que o líquido escolhido fosse outro? É verdade que sim. Mas, por favor, não se confunda gasolina com cerveja, como desataram já a fazer os maldizentes do costume. Mesmo que tudo isto não passe de mera conversa da treta dos petroleiros que nos mandam.
Bernardino da Purificação

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A caminho da eternidade

Desanimem os Cunhas e os Albuquerques, os Coitos e os Manuéis. Desespere a oposição. O dr. Jardim está aí, como a ganga, para lavar e durar. Ele não o diz em público, como é evidente. Limita-se a insinuá-lo. Como se pode depreender do anúncio que fez no final da última reunião da comissão política do PSD.
Remetendo-vos para o texto imediatamente anterior, recordo que o presidente Jardim anunciou a intenção de fazer das próximas eleições nacionais mais um dos seus plebiscitos. Descontando o facto de o homem andar há mais de trinta anos de plebiscito em plebiscito, importa que se diga que o anúncio tem uma importância política que em muito o transcende.
Repare-se. O dr. Jardim fez questão de comparar o novo plebiscito que aí vem com o que o que foi feito nas últimas eleições regionais. Nesse, o que esteve em causa foi a lei de Finanças regionais. No próximo, o dr. Jardim quer que o eleitorado se pronuncie sobre o alargamento dos poderes legislativos da Assembleia Regional. Mas, já que foi ele a fazer a comparação, vale a pena levá-la um pouco mais longe. Para recordar, em primeiro lugar, que a transcendência do leit motiv das regionais do ano passado constituiu um dos argumentos com o qual o dr. Jardim justificou a necessidade de uma sua nova candidatura. Dada a importância do combate político que com ele se iniciava, o nosso presidente, qual comandante em dia de tormenta, não podia abandonar o barco. Fazê-lo, para além de prematuro, seria atraiçoar a confiança dos que fielmente o seguiram nessa fantástica cruzada contra os ditames financeiros do Terreiro do Paço. É verdade que ficou tudo rigorosamente na mesma. Mas isso não passa de um mero pormenor esgrimido pelos cínicos. Até porque, como há dias muito bem explicou o dr. Jardim, o que importa é que os madeirenses ficaram a contar, a partir dessa altura, com o argumento (para esgrimir provavelmente na ONU), devidamente traduzido em votos, de que estão contra o tratamento que Lisboa lhes inflinge. E o mesmo há-de por certo acontecer no próximo ano. Com a vantagem de então passarem a ser dois os argumentos (correspondentes a outras tantas rejeições à sujeição ao jugo lisboeta) que ficarão na disponibilidade do povo da Madeira. O que o dr. Jardim não disse, e devia ter dito, é que será ele, e não um seu eventual sucessor, quem empunhará o facho do protesto. Porque o líder é ele. E porque não está certo que um aspirante a chefe inicie o seu mandato com uma tão grande responsabilidade aos ombros.
Por conseguinte, Jardim lá vai ter de continuar a saltar de plebiscito em plebiscito. Até por uma outra razão de natureza político-formal. Nenhum líder futuro pode sentir-se vinculado às decisões presentes de uma comissão política que não escolheu. As orientações estratégicas (com repercussão a médio e longo prazo) discutem-se e deliberam-se em congressos. Nunca em comissões políticas. Se alguém o faz é porque não tenciona sair tão cedo de cena. De maneira que bem podem desesperar todos os que aguardam ansiosamente pela partida do comandante. Ele só diz que vai embora para pôr toda a gente à bulha. E não é que lá vai conseguindo os seus intentos?
Bernardino da Purificação

Post scriptum
Depois de toda a gente ter constatado e comentado o óbvio, e umas quantas semanas depois de ter estalado uma das mais importantes polémicas relacionadas com a nossa insularidade, o dr. Jardim resolveu quebrar o silêncio em que vinha remoendo a existência: falou finalmente sobre a liberalização do espaço aéreo entre o continente e a Madeira. Eu pensava que ele ainda tinha algum pudor. Enganei-me. Esta de dizer que o Governo Regional foi enganado por Lisboa remete para o domínio da desvergonha. Não havia necessidade. Era mais digno admitir que o seu governo cometeu um erro de avaliação. Mas isso exige uma qualidade moral e intelectual que infelizmente não se vê.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Entre o caçoar e o caçuar

O dr. Jardim diverte-se à grande. O salário do seu povo já esticou para alem do possível, e ele ri-se. O desemprego vai paulatinamente subindo, e ele gargalha. Os preços disparam, por causa do custo das operações portuárias e dos fretes, e ele agita-se de gozo. Os combustíveis andam pelas horas da morte, porque sua excelência não abdica da receita fiscal que lhe vai dando para mais um lugar de baixo destruído ou mais um parque empresarial convertido em campo de pasto, e ele rebola-se de diversão na permanente paródia em que vive. Um verdadeiro peste, é o que ele é. A malta com dificuldades, a pobreza a subir e a desigualdade a aumentar, e ele continuamente perdido nas suas congeminacões humorísticas. Porque para ele a vida é uma festa. E a política não passa de um mero espaço cénico (tal como diz a epígrafe deste blogue) para as suas excêntricas representações.
Perguntarão: afinal, o que e que o homem fez desta vez, já que, a bem dizer, mal o ouvimos e mal lhe pomos a vista em cima, tão entretido que anda, semana sim, semana não, nas suas agradáveis excursões europeias de carácter lúdico-politico? Ok. Porque a pergunta é boa (como são, aliás, todas as perguntas, mesmo as que possam ter uma resposta óbvia), passo então a explicar.
Depois da ultima reunião da comissão política do seu partido, o dr. Jardim fez um anuncio solene aos madeirenses. As próximas eleições legislativas nacionais, disse sua excelência, serão um plebiscito centrado na pertinentíssima questão da ampliação do poder legislativo da Assembleia Regional. Um pouco à semelhança, explicou, do que aconteceu com as últimas eleições regionais (as tais antecipadas que só produziram atrasos e mais atrasos, e adiamentos e mais adiamentos) em que, conforme lembrou, o povo da madeira plebiscitou a lei de finanças regionais.
Onde é que está o gozo nisto? Pensem comigo. Há trinta e tal anos que se sabe que qualquer eleição é um plebiscito para o dr. Jardim. É essa a sua forma de fazer política. É essa, aliás, a escola onde aprendeu as primeiras letras do abecedário político. Salazar e Caetano (para falar só dos portugueses que inspiraram o dr. Jardim) tinham das eleições exactamente o mesmo entendimento instrumental. De maneira que o dr. Jardim não precisava sequer de dar mais explicações. As próximas eleições serão um plebiscito, porque sim, ponto. Como foram as últimas e todas as outras que as antecederam. E como serão as próximas e as que virão a seguir às próximas. Sem mais justificações ou explicações. Porque é assim que o dr. Jardim quer. Porque o verdadeiro objecto do plebiscito é sempre ele e só ele. E porque, como já todos percebemos, o dr. Jardim não se arrisca a plebiscitar coisas tão práticas como um verdadeiro programa de governo.
Esgota-se nisto o gozo de sua excelência? Não, claro que não. Ele diverte-se, é verdade, a fazer de conta de que é assim uma espécie de De Gaulle de trazer por casa. Mas a sua paródia vai muito para além disso. Vai até ao ponto, imagine-se, de embaraçar os peões que lhe aparam o jogo. Ora imagine-se o desgraçado do dr. Guilherme a andar de porta em porta, de tasca em tasca, de igreja em igreja, na cidade e no campo, a explicar aos eleitores que é muito importante para a vida deles dar mais poderes legislativos ao bando de loucos que habita politicamente a Assembleia Legislativa. Dá vontade rir, não dá? É quase maldade de menino traquinas, não é? Mas procurem levar a imaginação um pouco mais longe. E imaginem o dr. Brazão, o dr. Jardim Ramos, o empresário-deputado Jaime Ramos, o dr. Cunha dos parques e dos lugares de baixo em ruína, bem como toda aquela oleada e polida frente armada que o dr. Jardim costuma lançar para a linha da frente das batalhas eleitorais, a fazer o mesmo, isto é, a explicar à malta que o desemprego aumenta porque a assembleia precisa de mais poderes, que a pobreza galopa porque o Terreiro do Paço estrangula o parlamento regional, e que a economia fenece porque na Avenida do Mar há gente que não tem os suficientes instrumentos de trabalho.
Estão a ver a cena? Então admitam: não é mesmo de ir às lágrimas de tanto gozo? Um peste, em suma. E só não digo que o dr. Jardim adora caçoar connosco porque nunca consegui descobrir se a grafia da palavra é essa, ou se, ao contrário, ela se escreve com "u" e não com "o" (às tantas, as duas grafias estão certas). Mas que apetecia, lá isso apetecia. Porque, afinal, nenhuma outra exprime tão bem aquilo que o dr. Jardim passa a vida a fazer connosco.
Bernardino da Purificação