O prazo de validade de João Carlos Gouveia como líder do PS chegou ao fim. A partir de agora vamos com certeza assistir ao regresso das velhas práticas socialistas. Aquelas que se traduzem no facto de cada figura de proa reivindicar para si o estatuto de sensibilidade autónoma. Bem como as que se exprimem no alegre e público fratricídio a que volta e meia se entregam, essas mesmas figuras, como queridos inimigos. E assim há-de ser para descanso dos adversários. Pelo menos, até à emergência de um líder capaz de federar a maioria num periclitante compromisso qualquer.
Estou em crer que o próprio Carlos Gouveia estará preparado para a degola (salvo seja) que se lhe prepara. O mais certo, aliás, é que nunca tenha tido grandes ilusões quanto ao futuro que com ele tem encontro marcado. Ele sabe, como toda a gente sabe, que o PS não tem emenda. E não ignora a tendência mais ou menos suicidária que o partido foi adquirindo ao longo de anos de oposição sem rumo, sem estratégia, sem norte. O PS é de facto assim: enquanto houver um fundo ainda mais fundo do que aquele em que possa ter caído, há-de fazer todos os possíveis para piorar até poder um dia começar a melhorar. É um bocado trágico, reconheça-se. Mas é assim.
De maneira que, dizia, estou convencido de que João Carlos Gouveia sabe bem o que o espera. Foi por isso que admitiu um dia que poderia ser outro, que não ele, o candidato socialista a presidente do governo. E é por isso que se dá ao atrevimento de episodicamente bater o pé ao Largo do Rato. Pensará porventura que o despojamento com que está na liderança do partido, e que o leva a liderar sem cálculo pessoal, há-de ser creditado à conta de uma qualidade que os seus e os outros acabarão por reconhecer. Engana-se. Os outros hão-de continuar a votar-lhe um cada vez mais impaciente desprezo. E os seus a única coisa que verão é que já nem sequer podem contar com ele para a manutenção do lugarzito que têm. Daí até passar à condição de descartável vai um pequeníssimo passo. E alguém, um destes dias, há-de acabar por dá-lo.
Estou pessoalmente convencido de que o primeiro sinal público de que é chegado o momento de agir foi dado hoje por Maximiano Martins, no artigo que fez publicar no DN. Completamente ao arrepio da actual agenda político-mediática, o deputado socialista resolveu recuperar os resultados das intercalares de Gaula. Fê-lo com o propósito confesso de sublinhar que a derrota do PS foi a derrota de Gouveia. E assim está dado o sinal de que é preciso começar a fazer qualquer coisa para evitar que Gaula possa ser o prenúncio do que há-de vir por aí.
É claro que toda a gente sabe que entre Maximiano e Gouveia há contas antigas (as do braço de ferro da votação do orçamento de estado) ainda não resolvidas. O problema é que nessa contas entram também a direcção nacional do partido e a sempiterna facção simpaticamente cognominada de "grupo do éden". Ora, perante litigantes destes haverá quase nada a fazer. A não ser fechar a porta e entregar voluntariamente a chave. A curiosidade reside em saber o que fará André Escórcio e o que dirá Carlos Pereira (a ordem, como se imagina, é meramente alfabética). Para já não falar do camarada Vítor, que esse há-de fazer tudo para que todos percebam que só pode haver vantagens em conferir-se um mínimo de estabilidade e constância a esse magnífico e indispensável lugar de eminência parda que quase todos os partidos têm.
Bernardino da Purificação
